terça-feira, outubro 21, 2003

Alguém anda distraído

Luís Figo diz que há selecções melhores que a nossa: a Alemanha, a França e a Espanha, por exemplo. E que, obviamente, é pouco provável que vençamos o Europeu. Scolari, por sua vez, explica que nos falta «determinação». Não tenho ouvido ultimamente o senhor ministro Arnaud, mas parece-me que isto não era ainda para se dizer...

segunda-feira, outubro 20, 2003

O direito de passagem

Só elas sabem que os filhos regressam uma
única vez, e às vezes é tarde. Por isso se
vestiram de negro antes ainda dos meses frios
e guardaram os retratos na cómoda
como quem defende a propriedade
ou o direito de passagem.

domingo, outubro 19, 2003

O poder do mercado

Em Cacela só há catequese três vezes por mês. As sessões de catequese resistem aos domingos de vento, aos domingos de sol, aos domingos em que a névoa se derrama sobre a laguna e a península. Só não resistem aos domingos de mercado. E está certo: no mercado de Cacela há roupa de marca ao preço da chuva, e não se pode dizer que seja pecado sequer venial não resistir a comprar pólos da Sacoor ou da Quebra-Mar a seis euros a peça nos dias em que o mercado coincide com a catequese...

Os fumadores morrem prematuramente

O Futebol Clube do Porto está a perder com o Belenenses. Saio da sala da televisão para comprar cigarros, subo o degrau que leva à outra sala, não tenho dinheiro trocado, destroco uma nota de cinco euros, falo por instantes com o empregado de balcão, acabo por beber uma imperial, meto as moedas na máquina, desço à sala, sento-me na mesa, acendo um cigarro e olho de novo a televisão: o Porto ganha por 4-1. Se isto não é prova suficiente dos malefícios do tabaco, vou ali e já venho...

sábado, outubro 18, 2003

A época baixa

Vê-se uma salamandra de pintas amarelas, ou saramaganta, e é impossível não especular sobre as notáveis semelhanças, ao nível da biologia da espécie, entre o anfíbio e estes simpáticos turistas idosos que passeiam a pé pelos caminhos secundários ou junto à praia, e que nos visitam durante a chamada época baixa: é que também a actividade anual da saramaganta se concentra entre finais de Setembro e meados de Maio; também ela apresenta uma locomoção lenta; e também no seu caso a actividade sexual se limita a dois curtos períodos durante o ano, uma vez no Outono e, recuperadas as forças, outra vez na Primavera...

A água dos açudes

Os meteorologistas andam com má fama no Algarve. O «Barlavento» chama-lhes mentirologistas. Primeiro anunciaram uma tempestade e vieram dias de praia; depois a tempestade chegou quando se anunciava bom tempo.
Há gente assim. Há gente que dava tudo por saber com rigorosa antecedência quando chove ou faz sol. Por nunca ser surpreendida. Por nunca se sobressaltar. Por nunca o amor ou a paixão visitá-la sem aviso.

sexta-feira, outubro 17, 2003

As moradas inúteis

O céu poisado nas casas, no
barro do ar, nos lenços
de água das crianças.
O deserto avança pelo interior
do verde claro do país.
A ignomínia da vigília, eis
o que resta, o levantamento
da ironia e seus refúgios
difíceis. O inverno recorta
na cartolina dos eucaliptos
a paisagem desolada
e frágil. Como pesa nos ombros
esta chuva dum postal enviado
de longe a moradas inúteis.

Crime e Castigo

No comentário inocente a um post de Prazer_Inculto deu-me para falar dos malefícios do chouriço e da importância de prever avisos longitudinais na tripa do invólucro alertando os incautos para o problema do colesterol. Possidónio Cachapa leu, tresleu e pespegou-me o rótulo de «defensor do direito a fumar onde apetecer e os outros que se mudem»... Veja-se o exagero militante, o verniz a estalar... Eu, imagine-se, que já só desejaria o «direito a fumar» onde não incomodasse ninguém, e que já só desejaria, pegando num maço de cigarros com avisos de 16.40 centímetros quadrados a publicitar o meu estatuto de burgesso, que não me olhassem como a Raskólnikov, na secretaria da polícia, quando começaram a crescer as suspeitas de que teria assassinado Aliona Ivánovna e a sua irmã Lisaveta... Será pedir muito?

quinta-feira, outubro 16, 2003

É cedo ainda

É cedo para esboçar cenários sobre as eleições presidenciais. Portugal não foi ainda humilhado no Europeu. Scolari não foi ainda demitido. Madaíl não pediu ainda a demissão. O Futebol Clube do Porto não venceu ainda a Liga dos Campeões. Vítor Baía não defendeu ainda a grande penalidade decisiva na final da competição nem recebeu ainda o troféu de melhor jogador do torneio. Mourinho e o seu guarda-redes galáctico não chegaram ainda a acordo com o Real Madrid. Cavaco Silva, Freitas do Amaral e António Guterres não comunicaram ainda o abandono da vida política activa. Santana Lopes não confessou ainda, em entrevista exclusiva à Blogspot.PT, gerida por Paulo Portas, que em boa verdade a presidência da República nunca esteve nos seus horizontes. Pinto da Costa, vindo de Roma, não foi ainda recebido em apoteose no Terreiro do Paço.

Uma nova luz

Conhecendo-se já pormenorizadamente a posição dos estudantes sobre o pagamento das propinas, seria talvez tempo de saber o que pensa sobre o assunto quem realmente desembolsa. De resto, a opinião pública seria muito mais sensível ao caderno reivindicativo das academias caso o slogan «Não Pagamos» fosse removido de vez das manifestações e substituído por palavras de ordem que não remetessem para conceitos abstractos: «Os Nossos Pais Não Pagam», por exemplo, traria uma nova luz ao debate, e exigiria discussão séria.

quarta-feira, outubro 15, 2003

A vexata quaestio

O leitor desculpar-me-á porventura a inoportunidade da pergunta mas, não lhe parece que depois da recente troca de recados entre Portas e Freitas do Amaral, caminhamos mesmo para uma candidatura de Cavaco Silva à presidência da República, apoiada pelo PP? A ser assim, confirma-se que a flexibilidade intelectual de Paulo Portas, mais do que alarmante, começa a ser francamente perigosa. E o pior é que, sinceramente, tirando o próprio Cavaco ou Pacheco Pereira - por ora entricheirado na Europa e no seu Abrupto - não vejo quem, dentro do PSD, lhe possa fazer frente; isto, naturalmente, se o PSD sobreviver a Portas...

Bragança 0 - Time 2

O Governo decidiu suspender toda a publicidade relativa ao campeonato da Europa de futebol Euro 2004 na revista "Time", segundo declarações avançadas pelo gabinete do ministro adjunto do primeiro-ministro, José Luís Arnaut. Afinal, quando se pensava que os efeitos da avalanche provocada pelas mães de Bragança tinham terminado, eis que se descobre, afinal, estes não cessam. Pessoalmente, acho um erro crasso, pelas razões que passo a explicar: o Euro 2004 era um magnífico pretexto para alguns homens dessa Europa virem a Portugal, com o beneplácito das suas famílias. Bragança, como se sabe, dotada de magníficas infra-estruturas rodoviárias herdadas do cavaquismo, fica a meia dúzia de quilómetros do Porto (2 estádios) e de Braga/Guimarães (2 estádios) pelo que, muito naturalmente, Bragança - capa da revista Time - só teria a beneficiar com a publicidade. Imagino que, mercê da natural e acolhedora recepção das mães de Bragança, os homens dessa Europa fora acabassem por querer voltar mesmo muito depois do Europeu, porventura para iniciarem os seus filhos em mui nobres artes. Francamente, não entendo o que há de incompatível entre futebol e meninas, que justifique esta medida, sobretudo se pensarmos que, por sinal, o palco da final do último europeu de futebol até foi Amsterdão...

Tradução fiche'r

Passando Vale da Telha (uff!) e seguindo para poente, topa-se com uma placa informativa das escavações arqueológicas que têm lugar junto à arriba. As informações são escassas, como de costume nestas coisas: há pouco mais que um título («Rîbat da Arrifana, sítio mítico do Garb-Al-Andaluz») e um pequeno texto em duas línguas. Em português («Fortificação islâmica do século XII») e em inglês («Seasonal ficher settlement»)... Quem precisar de informações talvez não seja mau ir esclarecido...

terça-feira, outubro 14, 2003

O PS e Ana Gomes

O PS costumava ser um partido de oposiçao a quem de um momento para o outro sucedeu a contingência de ter de governar o país sem que tivesse especial aptidão para isso. Quando perdeu o poder, o PS reagiu mal e, esquecendo-se que não é preciso defender teorias cabalísticas para desacreditar quem está na oposição, mas antes quem está no poder, anda entretido, em auto-combustão, a defender-se de ataques quixotescos provenientes de fértil e duvidosa imaginação.
Ana Gomes tornou-se assim, paulatinamente, na principal figura do PS sem que tenha dito ou feito algo de especial para o merecer. Em termos políticos, bem entendido, limitou-se a não comentar, até esta manhã, o caso Casa Pia. Todavia, tomada de um infeliz achaque partidário, nivelou o seu discurso pela normalidade dos seus pares e expôs de forma lamentável o que pensa sobre a conspiração contra a justiça.
Em bom rigor, torna-se urgente encontrar uma solução para o PS, a bem da democracia.

Time 2 Time

Bragança acordou na capa da Time.O movimento das mães deve estar orgulhoso desta conquista. Os donos das casas de Alterne devem lamentar o excesso de clientela e os lucros que a notícia inevitavelmente lhes trará. Tudo está bem, quando acaba bem.

Talvez faças, já não sei sequer

Uma imagem
difusa
num verso
subliminar revela

A minha completa
perda, no labirinto,
de um passado
que não existiu e

do qual tu
talvez apenas faças,
já não sei sequer,
parte.

Mesmo nos versos

Há partidas
mas não há regressos

Os caminhos que nos levam
e os caminhos que nos trazem
são diferentes

Despertares

Hoje, deitaste-te cedo. Faltou um beijo teu. Nunca tinha notado que a falta dos teus lábios queimasse mais que o seu toque. Esta noite, se não te importas, fico ao teu lado, vigilante, não suportaria perder o teu despertar.

Um tiro no porta-aviões

Desculpar-me-á o leitor a questão, e bem assim a insistência no tema, mas será que alguém se importa de me explicar porque razão o PS insiste em colar-se ao desfecho do caso Casa Pia e, em particular, ao que daí advenha para Paulo Pedroso? Sinceramente, até percebo a solidariedade e as declarações inflamadas dos membros do partido, mas tornar o maior partido da oposição - como vejo o líder do PS fazer - refém de uma sentença, parece-me um erro indesculpável. Para já, parece-me que o PS não precisava disso na medida em que a tese da cabala não cola, nem pode colar em democracia e muito menos num Estado de Direito. A ser aceitável defendê-la, é essencial arguir um simples facto que nos aponte nessa direcção, coisa que o PS não fez, nem provavelmente fará. Por outro lado, a manter-se o actual estado de coisas, e perante o cenário de uma eventual condenação de Paulo Pedroso, todos, sem excepção, os órgãos do partido terão forçosamente de se demitir, sem redenção possível. Já perante o cenário contrário, no caso da eventual absolvição de Paulo Pedroso, não vejo o que tem o PS a ganhar com a sua atitude actual e, nessa justa medida, parece-me disparatada a insistência nesta postura - porque nem de estratégia se pode, em bom rigor, falar.
Para já, e por outro lado, sendo Paulo Pedroso arguido num processo do foro criminal, parece-me assaz criticável que tenha tomado o seu lugar de deputado na Assembleia da República. É que, se antes de qualquer investigação, o PS exigiu a queda de dois ministros com base em argumentos do campo moral, não consigo perceber como consegue conceber a manutenção de um deputado seu em exercício de funções, com o particular relevo que sobre este impende uma investigação pela eventual prática de uma conduta que se situa, mais do para além do campo da imoralidade, no próprio campo da criminalidade. Bem sei que Paulo Pedroso não está condenado, mas o certo é que no desempenho da função que lhe foi confiada, a suspeita, o indício e a conduta imoral ou amoral, não são aceitáveis. Receio, pois, que ao PS e a Paulo Pedroso, apesar da apoteose com que este foi recebido na AR pelos seus, mais não reste que a continuação da suspensão do seu mandato, até trânsito em julgado da decisão do caso, altura em que, consoante o resultado, terá de optar por renunciar ao mandato, ou retomá-lo. A não ser assim, sinceramente, não vejo como o PS possa sobreviver a uma batalha que não era a sua e que, pela quantidade de água que mete, é verdadeira batalha naval na qual muito facilmente irá ao fundo, salvo se, como é hábito, a opinião pública se preocupar mais com o teor das declarações de Marco Paulo no programa do Herman (por sinal, arguido no mesmo processo e sujeito à mesma medida de coacção de Paulo Pedroso) que com o (des)governo da nação.

segunda-feira, outubro 13, 2003

Dez minutos ao acaso

Um senhor Vítor qualquer coisa, durante o jogo de futebol que o Olhanense foi vencer a Faro, resolveu despir-se, saltar a rede e entrar assim no relvado, de pirilau oscilando, a animar uma partida que não teve outros particulares motivos de interesse. Não foi detido para averiguações nem viu restringida a sua liberdade de movimentos. Pelo contrário, acaba de ver-se reconhecido com o estatuto de vedeta nacional. Há uns minutos atrás, no Herman Sic, teve direito à sua primeira actuação televisiva enquanto profissional do espectáculo. O ex-humorista, apresentando-o ao público que não tinha ido a Faro no domingo passado, garantiu, com um brilhozinho nos olhos, que «mais uma vez ia acontecer televisão». E aconteceu, embora em boa verdade não tenha acontecido grande coisa. A novel vedeta despiu-se, fez um manguito e foi aplaudido em apoteose. Depois foi anunciada a presença de Marco Paulo, e Marco Paulo entrou de microfone em riste, confirmando a ameaça, e agradeceu a Herman José o seu contributo para o sucesso do álbum que acaba de ser «disco de ouro». Abraçaram-se pela segunda vez. Acto contínuo, uma senhora de Famalicão subiu ao palco a oferecer a ambos uns ramos de flores em nome de uma senhora de que esta senhora não recordava o nome mas que era «a mãe de Vítor Paneira» e que estavam todas «muito felizes». Marco Paulo, comovido, cantou e encantou, e agradeceu a presença na plateia de «cinquenta amigos» que tinham vindo de diferentes partes do país «propositadamente» para o aplaudir e acarinhar. E que também ele estava muito feliz. E pronto. Nós também...

domingo, outubro 12, 2003

A ideia de ordem

Num bar andaluz, às quatro da manhã, dois jovens esfregam-se, desesperados, com «comovedora ilicitude». Ninguém parece muito preocupado com isso. Mas é impossível, não obstante o adiantado da hora e os pamperos, deixarmos de recordar os posts do Pedro e as suas ideias sobre o estado a que chegou a civilização ocidental...

sábado, outubro 11, 2003

É obra

Ainda não li Coetzee. Vou ler. A maior parte dos críticos não apenas tem vindo a realçar que se trata de um excelente escritor: sobretudo, enfatiza esse facto aparentemente fabuloso de, este ano, o Prémio Nobel da Literatura ter sido atribuído a um excelente escritor... Bolas, isto comove...

Com amigos destes...

De entre tantos mistérios que gostaríamos de ver esclarecidos, não deixaria de ser gratificante começar por este: quem, no PS, tem actualmente responsabilidades de coordenação estratégica da agenda política?

A humidade do ar

A lua cheia, a humidade do ar, a linha ondulante da duna, o estorno, os cordeirinhos da praia, e só depois a praia, um silêncio nem quebrado pelo quase imperceptível movimento das marés. Por instantes é possível acreditar que as moradias geminadas e as palmeiras de papel de cenário não fazem parte deste filme.

sexta-feira, outubro 10, 2003

Ainda o Outono

folha tão leve
que só no inverno tivesse
onde poisar

Tudo nos pertence

[para A.B.O.]

O mar da península
com suas imagens
quebrado nas dunas
antes dos naufrágios
o vento do árctico
nos dedos mais ágeis
os jardins suspensos
imensos e frágeis

tudo nos pertence
quando somos jovens

Um dia o deserto
levanta as amarras
das águas de junho
de todas as margens
o rumor do inverno
o calor dos trópicos
o lume imprevisto
por entre a folhagem

Perdida a memória
de medos e perigos
tudo nos pertence
quando somos jovens
e por um instante
nos sabemos vivos

quinta-feira, outubro 09, 2003

Sequestro em era má

Miguel Graça Moura foi hoje sequestrado pelos funcionários e alunos da Orquestra Metropolitana de Lisboa. Com a matéria noticiosa que os telejornais mantêm em lista de espera (a decisão do Tribunal da Relação, os ecos dessa decisão, os ecos desses ecos, a fogueira e o fogo de artifício, os dois milhões de portugueses cuja opinião jurídica sobre o assunto não foi ainda transmitida em horário nobre, a enunciação dos princípios de actuação política da senhora Ministra dos Negócios Estrangeiros, a nomeação do senhor Secretário de Estado das Florestas, a Portucel, os comentários do presidente da Associação Académica de Coimbra sobre a lista de convocados de Scolari, os comentários do presidente da Associação Académica de Coimbra sobre as especificidades da investigação na área das fibras ópticas, a inauguração do Estádio do Dragão e os novos episódios da novela «Pinto Atira-te ao Rio», etc...), deseja-se muito sinceramente que a libertação do maestro não esteja dependente da visibilidade do caso junto da opinião pública...

O Estado de Direito

Paulo Pedroso foi libertado, afinal o Estado de Direito prevaleceu. Não nutro particular simpatia por Paulo Pedroso, nem antipatia, não o conheço, nunca lhe vi obra. Paulo Pedroso é um cidadão como outro qualquer, contra o qual pende investigação pela potencial prática de um dos piores crimes. A libertação de Paulo Pedroso tem apenas o significado de demonstrar que as instituições funcionam, mesmo que demorem a decidir. Paulo Pedroso está, até prova em contrário, inocente, mas seguramente tem todo o direito de se defender. No uso desse direito, recorreu. Um Tribunal (constitucional) reconheceu que tinha sido coarctado no exercício do seu direito ao recurso. Outro Tribunal (Relação de Lisboa) reconheceu que a prisão preventiva era uma medida excessiva para os indícios da prática do crime pelo qual está indiciado e substituiu a aplicação da medida de coacção mais gravosa que existe no nosso sistema (prisão preventiva) pela menos gravosa (termo de identidade e residência). É desnecessário o comentário do Procurador-Geral da República quando chama a atenção para o facto do acórdão do Tribunal da Relação ter sido decidido por maioria porque um dos juízes desembargadores votou vencido, propondo a substituição da prisão preventiva por prisão domiciliária. Em justiça a decisão é una, independentemente desse factor. Um inocente cujo acórdão tenha um voto de vencido não é menos inocente que outro cujo acórdão seja votado por unanimidade, nem um condenado, nas mesmas circunstâncias, é mais culpado. Paulo Pedroso até pode vir a ser condenado, mas para já, prova-se que se deve ter confiança nas decisões dos tribunais portugueses.
Uma palavra ainda para o papel dos advogados. Neste caso, como no da Universidade Moderna, ou em outro qualquer, goste-se ou não da figura do advogado, não há outra figura que se interponha entre o poder judicial e o cidadão, entre o poder de acusar e cada homem. Na separação de poderes necessária no Estado de Direito, o poder judicial é fundamental. Mas como qualquer poder, tem de ser fiscalizado e o seu exercício deve ser rigorosamente acompanhado. Os advogados, mesmo quando envoltos em polémicas, são o bastião do controle desse poder e o garante último dos direitos de cada um. Obviamente, não se pense que são a peça-chave, o sistema perfeito e equilibrado não a tem, evidentemente, a bem desse próprio sistema.

quarta-feira, outubro 08, 2003

A machadada final II

O Zé Carlos escreveu ontem um artigo relativo a um dos temas quentes do momento (não, não tem nada que ver com helicópteros e os incêndios há muito lá vão), precisamente o das propriedades detidas por sociedades ou indivíduos com sede ou domicílio em Estado ou território com tratamento fiscal mais favorável - os chamados paraísos fiscais. De facto, o artigo do Expresso do último Sábado aborda o tema de uma forma que, eufemisticamente, optarei por chamar de "levezinha". Evidentemente, não estamos perante um artigo, nem sequer por uma reportagem que se possam considerar sérios. Não há trabalhode campo nem qualquer rigor na abordagem do problema ou das questões de que ali se tratam. Erradamente ainda, fica a pairar no ar a ideia de que uma sociedade off shore tem que ver com qualquer coisa de obscuro, de ilegal, com lavagem de dinheiro, fuga ao fisco e por aí diante. Nada de mais errado, pelas razões que passo a explicar.
Deter uma propriedade por uma sociedade off shore representa, para o Estado Português, rigorosamente a mesma coisa que se a propriedade em causa for detida por uma sociedade ou um indivíduo portugueses. Até 2002 pagavam exactamente os mesmo impostos, fossem eles quais fossem e estavam sujeitos ao mesmo regime e legislação, com uma excepção, que consistia no facto de tais sociedades não poderem obter quaisquer benefício fiscais. Desde então, tudo se agravou para tais dsociedades (ou indivíduos com domicílio nesses territórios).
Evidentemente, há uma pequena nuance que escandaliza meio mundo, que reside no facto de tais sociedades terem uma estrutura que lhes permite que sejam transaccionadas sem que aos olhos do Estado Português se detecte a mais pequena alteração na sua estrutura accionista, pelo que não lhes é aplicável - a não ser no momento em que compram, pela primeira vez uma propriedade - a Sisa no momento da transacção. Contudo, existem sociedades na ordem portuguesa que igualmente beneficiam deste regime, como sejam as sociedades anónimas, com acções ao portador, entre outras. Quanto aos demais contribuintes, como se sabe, toda a gente declara na íntegra o valor pago pelas propriedades que compra, porque a sisa - na qualidade de imposto mais estúpido do mundo - merece ser paga e toda a gente faz questão disso... Adiante, que há muita gente com vontade de atirar a primeira pedra...
Como é evidente, este não é o espaço próprio para abordar todas as questões que o problema levanta, até porque elas são demasiado extensa e arrisco-me a "pregar" uma enorme seca ao leitor. Para já importa contudo reter a ideia que a reforma proposta pelo Estado Português é mal pensada, cretina e, porque não dizê-lo, absurda. A verdade é que o problema de fundo não é (nem perto nem de longe ) o sistema do off shore, mas chama-se antes sisa, contribuição autárquica, valor patrimonial e Código de Avaliações. É esta a reforma que tem de ser feita, a bem da moral do sistema e do país. Não faz sentido que um prédio na Av da Liberdade com cinco andares, ou um palácio no Restelo tenha 500 Euros de valor patrimonial e o meu humilde T2 tenha 60 ou 70 mil euros. A Contribuição devida anualmente varia entre 0,8% e 1,3% daquele valor, por isso agradeço que me expliquem se atacar o sistema do off shore faz algum tipo de sentido. Até porque, como é evidente, por meia dúzia de tostões qualquer pessoa redomicilia uma sociedade off shore passando a sua sede para um território não abrangido por tais disposições penalizantes. Outro aspecto do problema e do mau planeamento está em discriminar as situações em que o dono da propriedade é uma pessoa singular, que não tem forma de mudar a sua vida para outro lado e por sinal deseja investir num imóvel em Portugal. Pergunto-me, qual é a relevância deste aspecto, que tutela merece esta discriminação?
É que, parecendo que não, o sistema inventando, sem qualquer dúvida, é patético e mal desenhado. Tem lacunas, abre brechas à nascença e limita-se a ser mais um mal-amanhado remendo no iníquo sistema tributário português. Ainda hoje, por falta de uma vírgula (decididamente, este é um problema nacional), acabo de descobrir mais uma enorme brecha. Desculpem os leitores, mas não o posso partilhar convosco. E no entanto, era tão mais fácil fazer bem... Desculpa portanto Zé Carlos, mas não posso, desta vez, concordar contigo.

PS: Agradeço ao Carlos Vaz Marques a referência feita em 24 de Setembro, ao texto sobre os engraxadores aqui publicado.

Nos anos sessenta

Vejam-se os jornais da época: em meados dos anos sessenta são frequentes as curas milagrosas em Lourdes e o reconhecimento oficial da igreja de que se trata de intervenções sobrenaturais; no nosso país, sem a mediação divina, o Prémio Camilo Castelo Branco é atribuído a um terrorista condenado criminalmente a catorze anos de prisão maior e o senhor Ministro da Educação Nacional vê-se obrigado a extinguir a Sociedade Portuguesa de Escritores; Augusto de Castro desanca na Unesco, ridiculariza o «pitoresco» Senghor e as propostas aprovadas com o apoio de países «meio selvagens, alguns em estado latente de selva», onde se «coça a carapinha», e alerta para os perigos do racismo «antibranco»; o vice-reitor da Universidade de Coimbra exalta a gesta lusa e garante que «se a Índia não pôde salvar-se com a espada da justiça, não poderá salvar-se Portugal em África sem a justiça da espada»; o senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros, algum tempo depois, explica, pedagógico: «Estamos em África porque é esse o nosso direito, o nosso dever e o nosso interesse; mas estamos igualmente em África porque é esse o interesse geral do mundo livre»...

Entretanto, nos primeiros dias de 1966, na obscura Secção de Finanças de Loulé, era emitida, com o número 30, uma «Licença Anual Para Uso de Acendedores e Isqueiros»; de facto, nos termos do decreto-lei nº 28219, de 24 de Novembro de 1937, conjugado com o DL 32834, de 7 de Junho de 1943, era proibido o uso ou simples detenção destes artefactos na ausência da respectiva licença fiscal; para os infractores estava prevista uma multa de 250$00, elevada ao dobro caso o delinquente fosse funcionário do Estado ou dos corpos administrativos; a denúncia era premiada, e os bufos tinham direito a metade do valor da coima que a lei destinava ao autuante...

Tenho esta licença nas mãos, olho a chancela do Chefe da Secção de Finanças de Loulé, leio as indicações do verso, e por instantes, assim à distância, é como se tivesse nas mãos um objecto inverosímil, irreal. Até que regresso aos jornais da época em que foi emitido o título que concede o direito de usar um isqueiro, e tudo, de súbito, volta a fazer sentido...

terça-feira, outubro 07, 2003

Ao cuidado da Academia Sueca

Há muito que se conheciam os aceleradores de partículas, os aceleradores electrostáticos, os aceleradores de Van de Graaff e, mesmo, os aceleradores que produzem impulsos de alta tensão ao carregar condensadores em paralelo e efectuar a sua descarga em série. Pois em Portugal acaba de ser inventado o «acelerador de impulsos de taxímetro». O invento parece que já está a ser comercializado em círculos restritos da capital, sobretudo na zona do Aeroporto, e permite aumentar o preço de uma corrida de táxi, accionando dissimuladamente um pequeno interruptor escondido junto à alavanca de velocidades ou por baixo do volante do veículo. Os resultados da política iniciada pelo sr. prof. Mariano Gago nos domínios da ciência e da tecnologia, nem sempre bem compreendida, afinal começam a produzir efeitos muito mais cedo do que se esperava...

segunda-feira, outubro 06, 2003

Os fins de tarde

Estamos no Outono. Os dias são agora mais breves que as noites, as nuvens ocultarão as estrelas com maior frequência, a humidade do ar trará com mais nitidez o rumor dos comboios, as aves passarão vagarosas sobre a península nas suas formações em delta, os fins de tarde deixarão no céu uma estranha mistura de tons, o mar afastar-se-á na vazante com a sensação estranha de que, de súbito, pode deixar-nos para sempre. Talvez seja também chegado o tempo de, uma ou outra noite, vagarosamente, regressarmos a Constantino Paustovski: «Mas o melhor momento do dia era o crepúsculo, quando, por cima das húmidas matas de bétulas, subia uma lua enevoada. Sob o céu vesperal, os ramos dos chorões perfilavam-se como sombras chinesas, aéreas. Nuvens imóveis, nas alturas, de uma cor cinzenta e violácea, difundiam uma leve incandescência. Depois, por cima da imensa terra apaziguada, instalava-se o reino de uma noite cumulada de ar fresco e de cheiro de água.»

A machadada final

Isto é um escândalo... O governo português decidiu que os estrangeiros que compraram casa no Algarve vão deixar de poder fugir ao pagamento de impostos no nosso país... Não se faz... Os ingleses, por exemplo, sempre compraram as propriedades em regime de offshore através de empresas sedeadas em paraísos fiscais, e evitavam assim os encargos com a sisa e as taxas notariais. E assim é que estava certo... Não é justo que estes privilégios acabem de repente. O futebolista Alan Shearer e o piloto brasileiro Rubens Barrichello, por exemplo, com que dificuldades e apertos não se vão confrontar ao exigir-se-lhes o desembolso anual de meia dúzia de tostões suplementares? O Algarve está à beira de um ataque de nervos... De acordo com a reportagem do Expresso (que, como é de costume nestas matérias, revela uma imparcialidade de referência...), «os algarvios estão com receio de que a aplicação da nova lei de impostos sobre o património converta o Algarve num deserto.» Há já muito tempo que não se via uma questão tão séria formulada com tanta propriedade...

sábado, outubro 04, 2003

Labirintos

No ano passado, em Cacela, num pátio árabe, à sombra de uma parede de cal, perguntei a René Bértholo que objecto era esse a que João Miguel Fernandes Jorge se referia num poema de Actus Tragicus: «Three aspects of the sky, 1968». Curiosamente, René não sabia da existência do poema, e estranhou a tradução para inglês do título de um objecto com movimento aleatório, produzido nos anos sessenta, a que dera o nome de «Três aspectos do céu». O pintor, que não conhecia JMFJ, contactou-o e esclareceu o mistério: o objecto tinha sido mostrado ao autor de Actus Tragicus por Paul Dukas, um músico francês entretanto falecido; por sua vez, René fizera alguns desenhos sobre os objectos da série «modelos reduzidos», incluindo o objecto em causa, que foram publicados na revista «Paris Review», e cujos títulos, naturalmente, haviam sido traduzidos para inglês; e era com essa designação, em inglês, que Dukas se referira à obra... Tudo esclarecido, JMFJ acedeu ao convite de René para escrever o texto de abertura do catálogo da sua mais recente exposição, que pode ser visitada na Galeria Fernando Santos, no Porto, até 11 de Novembro.

E é assim que, separados por quase 25 anos, um poema e um texto crítico («O dono das torres e outras pinturas a óleo de René Bértholo») nos aproximam, num estranho jogo de coincidências, de uma das mais fascinantes aventuras estéticas do nosso tempo.

Three aspects of the sky, 1968

É um dos aspectos do céu de Bertholo.
Foi paul dukas quem o mostrou.
Prisma movendo nove motores (quinze R.P.M.).
O objecto consiste nos nove cilindros de
alumínio
triangulares prismas os lados estão pintados
transformando o dia o pôr do sol a própria
noite.
A cor de cada lado vai do vermelho ao
laranja
do amarelo ao verde que lá não está
ao próprio azul.
Graduação de cores e sentimento.
O céu recebe estas três setas movendo
transformando
algumas manivelas um fole o objector da
consciência do céu roda o prisma os prismas
numa sequência de tempo.
Trinta segundos bastam.
Podemos ver o céu mudar.

(João Miguel Fernandes Jorge, Actus Tragicus. Ed. Presença, 1979)

O país diminutivo

É curioso: as viagens de helicóptero, de súbito, passaram a designar-se por «viagenzinhas»...

sexta-feira, outubro 03, 2003

Clepsydra

Entre o Carvoeiro e Armação de Pêra, neste litoral de arribas altas, recortado, sucedem-se pequenas praias nas breves reentrâncias que funcionam como armadilhas para a areia em trânsito no sentido poente-nascente. No Outono é já possível, com alguma paz, visitar a capela de origem visigótica da Senhora da Rocha e olhar o mar do alto da falésia, ou mesmo descer à Cova Redonda, à praia Nova, à praia da Marinha, ao Barranquinho, à Albandeira. Deve então deixar-se o carro num dos acessos em terra batida e seguir em passeio junto às linhas de água que desaguam nestas enseadas. Como na praia do Barranco, por exemplo, onde é recomendável, na vazante, ganhar algum tempo a procurar «conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos».

E agora?

O senhor ministro da Educação demitiu-se. É de supor que o futuro ministro, durante os próximos meses, estude minuciosa e demoradamente os dossiês e acabe por diferir no tempo o exercício decisório. No entretanto, sem um rosto objectivo contra quem dirigir a energia reivindicativa, os estudantes do ensino superior em cruzada contra o pagamento da propina vão mostrar o rabo a quem?

quinta-feira, outubro 02, 2003

A outra face

José Pacheco Pereira tocou há dias num ponto essencial, que entra pelas nossas vidas, mas de cuja importância poucos se aperceberam: o Papa está a morrer. Há muito que agoniza e cada dia se torna para si num novo calvário. Nunca se assistiu em directo, durante tanto tempo, a semelhante Paixão. Quer dizer, tornou-se corrente o sofrimento inflingido a terceiro, mas nunca, com esta perseverança e fé, o sofrimento que uma pessoa se inflinge a si próprio. Numa altura em que o mundo católico clama pela sua resignação, num último assomo de dignidade João Paulo II chama a si as forças que lhe permitem demonstrar, a si mesmo e ao próximo, que não há limites para a fé, nem para o sacrifício. O exemplo de dignidade na dor e no sofrimento, o firme propósito de demonstrar que mesmo nos instantes finais da vida, na solidão e na velhice, não tem de haver resignação são porventura a mensagem que mais profundamente deixará após o seu desaparecimento. A imagem do mártir há muito que não lhe cola. Despojado de tudo, agora é o ancião, homem, que transparece. O seu sofrimento voluntário e a exibição deste ao mundo de forma digna e eficaz, fazem de João Paulo II uma figura emblemática na história de toda a humanidade e o mais digno dos sucessores de Pedro. Ao pé da Via Sacra que há muito se propôs traçar e cujo fim se não adivinha, o seu contributo decisivo para a queda do muro de Berlim e o mea culpa pelos excessos da Igreja Católica nos últimos séculos parecem contributos menores para a ordem internacional na medida em que a sua nova e derradeira mensagem é, como nenhuma outra o foi, de facto, urbi et orbi.

quarta-feira, outubro 01, 2003

As primeiras chuvas

Ontem, com as primeiras chuvas do Outono, começou a época oficiosa das cheias. Não tarda, terá início a época oficiosa do choradinho em directo nos telejornais. Escolha a opção certa: a) ele não há meio de aprendermos; b) a culpa é do clima; c) a gente já viu este filme em qualquer lado.

Diáspora

Estranho vê-lo assim ao fim da tarde a rodar entre as mãos uma garrafa de água do Luso em vez da habitual garrafa de cerveja. Diz-me que não pode beber, que anda com problemas de «ácido telúrico»... Não admira: veio de longe para trabalhar na construção civil; tem saudades da terra; que outra doença haveria de ter?

terça-feira, setembro 30, 2003

Investimentos públicos

Temos um objectivo oficialmente declarado de promoção da equidade territorial. Isto significa corrigir desequilíbrios, atenuar assimetrias, contrariar tendências de progressiva desertificação e marginalização de vastas zonas do interior do país. Simultaneamente, os investimentos públicos (em infraestruturas e equipamentos, por exemplo) são prioritariamente direccionados para as parcelas do território mais densamente povoadas e com mais elevadas dinâmicas do ponto de vista económico e social. Há boas razões para que assim seja. Mas haveria também razões para que fôssemos menos politicamente correctos na enunciação dos objectivos de desenvolvimento regional; que fôssemos mais consequentes no discurso. É que, neste modelo, mais investimento público significa, na prática, mais assimetrias e menos equidade territorial; e quanto mais investimento, mais assimetrias e desequilíbrios. No limite, um máximo de investimento público significaria a efectiva desertificação do interior...

segunda-feira, setembro 29, 2003

De engraxadores e burros de cobrição

Confesso, abismado, que li atentamente o post do José Carlos de há uns dias e, foi entre a admiração e a completa surpresa que descobri que há um trabalho ainda mais repugnante que o de "Apontador Real", cargo remunerado que constou das folhas de pagamento de ordenados da função pública até 1916, a despeito da implantação da República seis anos antes. Tal funcionário – Apontador - tinha mais ou menos as mesmas competências do popular Lançarote, mas com uma enorme diferença, já que apenas tinha de exercer tais funções com o cavalo real, em dia de arraial (para o cavalo, bem entendido). Perante tal cenário, importa reflectir na natureza essencial das profissões pois, obviamente, uma coisa será uma pessoa dedicar-se ao exercício de tal tarefa auxiliar com um cavalo, real, animal que ainda por cima será de linhagem, contudo apenas e só um único animal (ignoro todavia quão promíscuo será um equídeo, ou quais as suas reais necessidades), por quem o funcionário público até pode criar alguma, digamos, afeição ou, porque não chamar os cavalos pelos nomes, intimidade. Outra coisa, muito diferente, será apontar (ou lançar) um burro, animal de fraca linhagem e nobreza que padece, ao que parece, de fraca pontaria, a despeito do alvo ser uma fêmea de porte superior. Não sendo este o objectivo deste post, naturalmente que não me debruçarei sobre as (fracas) qualidades de um macho que tem dificuldade em concretizar, para utilizar uma linguagem futebolística, um tento com uma fêmea de porte competitivo. Todavia, convirá esgaçar um pouco mais a ideia de que, relativamente ao Apontador ou ao Lançarote, se poderá falar de altruísmo no exercício das suas respectivas profissões. Na verdade, ambos, quais cançonetistas da desfolhada, ficavam após a consumação do acto e sofridos os riscos inerentes, portadores de segredos de alcova dos estábulos e porventura dos demais aposentos reais ou do país campesino, consoante os casos. Imagino mesmo que ambos estariam submetidos a apertada ética no exercício das suas profissões e não poderiam desvendar os segredos que lhes fossem revelados. Imagine-se a desgraça que seria se se soubesse que o cavalo do rei não conseguia cobrir a égua da rainha. Quem conta um ponto aumenta um ponto, e facilmente se chegaria à conclusão que o País estaria governada por um Rei fanchão com fraca inclinação para a arte de bem cavalgar em toda a sela. Provavelmente, tais profissões velariam igualmente pela inexistência do incesto entre filhos e pais da mesma manada e recusariam o préstimo do seu essencial auxílio copulativo entre burros de certa idade e éguas imberbes. Nada de poneifilia, portanto, debaixo dos seus narizes.
Olhando para o Portugal de hoje, dou por mim a pensar na desgraça que representou para o país a queda em desuso do Apontador ou do Lançarote. Salvam-se, afinal, os engraxadores, que nunca precisaram, que se saiba, de Apontadores ou de Lançarores.

O resto das nossas vidas

Parece que o Vitorino Salomé agora canta com o Roberto Leal. É claro que estas coisas já não nos deviam surpreender. Ainda assim, custa sermos diariamente confrontados com aquilo que sabíamos há muito: que talvez não devêssemos ter saltado tanto, e tão entusiasmadamente, em certas alturas da nossa vida.

domingo, setembro 28, 2003

Isto é uma chatice

Ontem, na praia da Lota, não se notava assim muito que tivesse chegado o Outono. Até que um amigo do Norte me telefona a meio da manhã a dizer que chovia. Isto é uma chatice: quando mergulhei de novo nas águas tépidas ia cheio de problemas de consciência...

Sempre têm a Fórmula 1

Stéphanie do Mónaco confessou ter casado «por amor». Os nossos corações derretem-se de ternura. Mas depois há quem se admire de a monarquia estar como está.

Uma casa com o mar ali ao pé

De acordo com a senhora secretária de Estado da segurança social, orgulhosa de pertencer desde sempre ao CDS-PP, «não se muda de partido como se muda de casa». É bem verdade que os congressos partidários são os locais por excelência para a enunciação dos grandes princípios de doutrina política...

Monchique II

As cinzas
queimam agora
onde não
lavrou o fogo

sexta-feira, setembro 26, 2003

As imagens

Como num quadro de Georges, o
de la Tour, era do interior
das coisas que saía a luz
mais leve, a que poisava e
ficava nos dedos das crianças,
a que trocava de lugar com
a noite e o esquecimento.
Por isso, provavelmente, tão
cedo se perderam as vozes
sem máscara, sem o peso
estrangeiro da usura, sem
o logro disfarçado das imagens.
E agora é tarde. Ninguém
regressa a um lugar ausente.

Última hora

Afinal parece que não havia helicóptero nenhum em passeatas turísticas sobre o casario de Lamego ou as encostas do Douro. Afinal o helicóptero parece que sempre esteve no combate aos incêndios. A SIC é que confundiu o helicóptero com uma borboleta, uma borboleta ubíqua, que já foi identificada por anteriores comissões de inquérito, e que andará ainda por aí, levantando e borboleteando, a espalhar a confusão num país onde estas coisas, em boa verdade, não acontecem. Como sucessivas comissões de inquérito hão-de, a seu tempo, esclarecer.

Pontapés

O ainda presidente do Sport Lisboa e Benfica confessou-se «descoraçado» com os resultados desportivos da equipa, acrescentando que os jogadores têm revelado um «excesso de ansiosidade» inaceitável. É certo que há muito por onde começar no processo de renovação do futebol português: mas talvez não fosse de todo mau que, «paulatinadamente», como aqui há uns tempos dizia um outro figurão, se começasse pela gramática.

Convocatória

Ontem à noite, na televisão, fui convocado publicamente pelo senhor Scolari para a selecção nacional de futebol. Confesso-me orgulhoso. Mas sempre gostaria de deixar aqui o aviso de que não me sinto nas melhores condições físicas e psicológicas para aguentar a pressão do Europeu. Sendo certo, claro, que estou à disposição do treinador e do senhor Madaíl para o que der e vier.

Os bons exemplos

Os dias, na estância turística de Manucatorama, começam cedo de manhã com um raid nas dunas em moto-4. Mas a condução das moto-4, por razões de conservação da natureza, obriga à prévia frequência de um curso de vinte minutos, com intervalo para café e variedades, onde os participantes aprendem a reconhecer dois endemismos florísticos e a ultrapassá-los em aceleração e cavalinho. Só então podem destruir a duna.

Depois tem lugar o atelier de observação de aves: acautelando os incómodos da observação in situ (mosquitos, plantas espinhosas, bolhas nos pés...), os interessados dirigem-se à sala Flamingo, sentam-se nos maples estofados e assistem a um vídeo exemplificativo da avifauna da região, enquanto um rancho folclórico evolui em fundo para desanuviar. Ainda antes do almoço, e após um aperitivo servido por meninas vestidas em trajes autóctones, os turistas sobrevoam gratuitamente as lagoas no helicóptero dos incêndios pago pelo Estado, mas com a obrigação estrita de avisarem o piloto caso identifiquem vestígios de fogo ou de fumo nas florestas circundantes.

A meio da tarde, finalmente, decorre o circuito subaquático. Este circuito tem uma especificidade muito realçada: faz-se quase todo debaixo de água e dá direito a um diploma...

quinta-feira, setembro 25, 2003

O lançarote

O Eurico, num texto aqui editado ontem, fala dos seus problemas de relacionamento com os engraxadores de sapatos, essencialmente porque o perturba olhar de cima para uma pessoa que está ajoelhada a seus pés. Pois imagine-se os problemas que não teria ao contratar o homem que, no Sul, se ajustava antigamente para «tratar do burro de lançamento e conduzi-lo à cobrição das éguas» (cf. Silva Picão, Através dos Campos). O lançarote (assim era designada o infeliz) exercia a profissão mais aviltante e repudiada, e nem os criados da lavoura lhe permitiam sentar-se a seu lado durante as refeições ou, mesmo, sentar-se numa cadeira de que eles pudessem mais tarde fazer uso. É que o engraxador, enfim, senta-se a nossos pés e engraxa-nos os sapatos enquanto o olhamos de cima. Mas o lançarote, esse, era pago para facilitar em tudo o que necessário fosse à consumação da cópula do burro, sendo muitas vezes obrigado a usar as suas próprias mãos quando o bronco não acertava no sítio da égua. E isto é muito frequente nos burros, como se sabe: não acertarem onde devem, e ser preciso alguém (neste caso metendo a mão na massa) que os ajude à função.

quarta-feira, setembro 24, 2003

Uma arte da Ria

Múltiplos, acrescentará de memória, os
lugares do desencontro. E fala
primeiro da casa abandonada, de
taipa, à erosão de meses e
interesses. Um barco, depois. A lua
nova irrepetível nas calmas da
baixa, a agilidade na fisga iludindo
o cansaço de remos vorazes. O azeite de
ver o fundo quase transparente do
verde das águas, a pressentida aluvião
tão lenta demorada a um olhar eternizado
em sombra. Como esse, e esse sim
permanece, perfume das dunas mais
próximas. Tudo isto sem lágrimas.

O Engraxador

Lembro-me de há uns tempos andar a circular na net um texto cuja autoria era erradamente atribuída a Gabriel García Marquez. Supostamente, seria um texto de despedida do escritor que, padecendo de doença incurável, teria decidido despedir-se do mundo com uma carta que teria sido tornada pública antes da sua morte, contra a vontade de Gabo. Felizmente, nem a notícia era verdadeira, nem o texto era da lavra do prémio Nobel. Pessoalmente, como admirador da prosa de García Marquez, duvidei que alguma vez pudesse ter escrito uma coisa com aquele teor. Não que a carta fosse má ou estivesse mal escrita. Nada disso - a despeito de possuir alguma lamechice desbocada - mas sobretudo porque a lamechice não faz parte, de todo, do estilo do escritor. Seguramente, quem escreveu "O Amor nos Tempos da Cólera" não precisa de se despedir do mundo, porque nunca dele partirá.
Mas voltando à suposta carta, há no seu texto uma frase que me marcou por abarcar toda a ideia de dignidade e igualdade do ser humano que partilho; "não olharás de cima para nenhum homem se não for para o ajudar a erguer-se". É uma frase forte, fortíssima, perturbadora até.
Vem isto a propósito de não ter conseguido recorrer aos serviços de um engraxador de sapatos em mais de duas ou três ocasiões na vida. Nunca sei se devo fugir de um de cada vez que o vejo, ou se devo recorrer aos seus serviços. Dito de outra forma, apesar de saber que é um ofício tradicional em vias de desaparecer, sinto sempre imensa dificuldade em relacionar-me com o personagem, normalmente pessoa simpática e de trato agradável. E isso, por um lado, porque me perturba olhar de cima para uma pessoa que está ajoelhada a meus pés enquanto me limpa os sapatos, por outro, porque me parece que o preço que pago pelo serviço não lhe permitirá erguer-se e, no limite, nunca lhe permitirá recuperar a sua dignidade perdida momentaneamente, enquanto esteve ajoelhado.
Pode ser apenas problema meu, mas no que me toca, penso que já decidi que o ofício de engraxador de sapatos não sobreviverá com a minha ajuda.

O João foi cancelado... RIP

Era um ilustre desconhecido, um pobre analista de sistemas, que nunca foi levado a sério. Da sua lavra saíram algumas das mais tristes tiradas da blogosfera. Enfim, era apenas mais um pobre de espírito a quem apenas lhe faltava a patética idea de ter um blog. E conseguiu-o, mas vá-se lá saber, afinal a coisa foi cancelada. Adeus João, não voltes, prometes?
Eu
PS: Apenas de memória o rapaz tinha um pérola que passo a citar: A constituição da equipa perfeita
Falo-vos desta feita sobre como formar a equipa de Operações perfeita. Na minha larga experiência da àrea de Sistemas, já fiz parte de equipas, umas boas, outras nem tanto, já fui chefiado por chefes mais ou menos bons, e como Director, já tive colaboradores bons e menos bons e até mediocres que tive de me livrar deles rapidamente.
Um bom colaborador nota-se logo pela aparência. Por exemplo, se é preto, usa cabelo comprido, brinco na orelha, barba por fazer, veste-se de gangas ou cheira mal, então posso desde já afirmar que não serve.
Não perca tempo com este individuo e passe ao próximo. Refiro-me as entrevistas iniciais
. Estamos conversados. Adeus João, não foi nenhum prazer, concordarás.

terça-feira, setembro 23, 2003

Kar-wai e o Outono

Chegou o Outono. Chegaram, pelos vistos, as depressões do Outono. Eu, que passara o fim de semana nos canais da Ria Formosa, de kayak, não me tinha apercebido da chegada do Outono nem das depressões outonais. Até resolver deixar o fim de noite de segunda feira para ver um filme: In the Mood for Love, de Wong Kar-wai. Confesso: o nome do realizador era-me estranho, o título do filme (Disponível para Amar, na versão portuguesa) era-me desconhecido. Pois seria melhor ficar a ver os Ídolos ou o Big Brother: a beleza terrível do filme irrompeu com violência e deixou-me sem saber se a depressão súbita devia mais ao equinócio ou ao DVD emprestado...

Seja como for, é uma depressão estranha: em rigor, é mais uma espécie de fixação, um almareio, que me pôs hoje, a caminho do almoço, a olhar as mulheres à procura de um vestido semelhante aos de, salvo erro, Maggie Cheung, e que não me deixa ouvir nenhum som que não seja o da música de Shigeru Umebayasi colada à câmara lenta das imagens subtis, e simultaneamente poderosas, de Kar-wai.

Delft, 1675

A luz havia de quebrar na cómoda do
quarto e só depois iluminar metade
da parede, o jarro com água, os panos verdes
do armário. Não gostaria que lembrasse

nada ao percorrer com vagar e definir
os objectos mais próximos. A cor, talvez
molhada nos primeiros planos, teria
depois um nome e um modo único de tocar

a roupa de quem entrasse por uma porta
adivinhada ao fundo. Não daria expressão
alguma a esse rosto de mulher, às suas mãos,
ao movimento de sentar-se. Um mapa e

uma carta ficariam esquecidos na mesa do
lado da janela. E só o rumor da manhã quase
no fim daria ao quadro, entre tanto, um
pequeno relevo d água leve de coral.

Futebolices...

No início desta época de futebol, como em todas as outras, aspirava-se por um novo ambiente para o campeonato nacional de futebol. Muitas promessas, mas sobretudo, novos cenários permitidos por sucessivas prometidas inaugurações de novos estádios. Claro, à quarta jornada, o cenário é o mesmo de sempre. Chovem as suspeições, os árbitros voltam a estar sob fogo cerrado e o campeonato caminha para o seu fim ainda antes do Natal.
Mas - pergunto-me - seria possível que pudesse ser de outra forma? Que terá mudado entretanto? Mantêm-se os dirigentes, os "Madaís", os "Loureiros", os árbitros e os titulares das instituições. Mantém-se o estilo, o esquema, o jeito e os jeitosos, a pequena organização, o dedo em riste que limpa pouco mais que o nariz e a mentalidade poucochinha tão característica do Portugal dos Pequeninos. Enfim, que diabo, começou-se a construir o edifício (?) pelo tecto, como se os alicerces fossem coisa secundária.
Sim, temos novos estádios, mas temos mentalidade para eles? Parece evidente que não. E não será verdade que mudar de mentalidade, a despeito de ser mais difícil, custa um bocadinho menos que construir novos estádios? Claro, não interessa tanto ao lobby do betão, mas que raio, não seria ao menos possível conciliar um bocadinho de tudo. Ao menos tentar, sei lá...

segunda-feira, setembro 22, 2003

Não se pode ter tudo

Sempre me fascinaram estas imagens do continente austral em que os cangurus e os eucaliptos aparecem a par. Em Portugal faltam-nos os cangurus.

Embora seja tudo em euros

De acordo com um estudo recente, os portugueses são os mais gastadores da Europa. Mas talvez o resultado fosse diferente se, por exemplo, metêssemos o gasoil nas estações de serviço espanholas (ainda que da Galp) e comprássemos os iogurtes nas mercearias espanholas (ainda que da Mimosa).

sábado, setembro 20, 2003

sexta-feira, setembro 19, 2003

Florbela, 1918

Em mil novecentos e dezoito, nesta mesma
casa de Quelfes, Florbela corrige devagar
alguma da excessiva emoção dos sonetos
autógrafos do Livro de Mágoas. Por
um instante recorda o calor que em Évora, um
ano antes, se desprendia das pedras cor
de laranja do liceu, e como por
vezes o futuro se desenhava plausível
nos intervalos da dolorosa descrença
no mundo. Desce depois até ao pátio da
casa algarvia. Mas é como se já não houvesse
regressos, a respiração difícil ainda de tanta
luz à pequena sombra duma amendoeira jovem.

Como ontem ao fim da tarde

Com a conclusão da auto-estrada e da Via do Infante, já é possível fazer em pouco mais de duas horas o trajecto Faro/Lisboa, ou chegar a Ayamonte, partindo de Lisboa, em menos de três horas. Agora a chatice é demorarmos 40 minutos na 125 a percorrer os 9 Km que separam o centro de Faro da rotunda leste de Olhão...

Os marraxos

O termo «marraxo», em rigor, designava o vendedor ambulante de peixe de armação. Mas em algumas zonas do Algarve o termo generalizou-se e passou a designar indiferentemente o conjunto de pessoas que vivia na orla costeira. Entretanto caiu em desuso. Mas que estranhas contiguidades e relações de ordem etimológica e fonética terão, em seu lugar, levado à vulgarização do termo «mamarracho», usado no mesmo contexto geográfico?

quarta-feira, setembro 17, 2003

A propósito de Levante

"A ameaça invisível que o Levante trouxe no seu todo pairava sobre as coisas e as pessoas. (...) Uma paz quente, como tapume de tempestade próxima, envolvia a manhã como um manto de expectativa... os que sofriam mais directamente com o Levante andavam como que desorientados... (...) como se o todo de juízo não mais pudesse obedecer à dose do equilíbrio e da razão."

A. Vicente Campinas
in Recantos Farenses
Outubro 1955

terça-feira, setembro 16, 2003

Lá se vai o cânone

Vejo uma jovem técnica de manutenção e restauro a esfregar o pincel no pescoço do David, de Miguel Ângelo, e temo logo o pior, imaginando o tempo que estas coisas levam e o cuidado, a sensibilidade e a entrega exigíveis em certas fases do processo e em certas partes anatómicas, mais específicas, da peça...

Logo se vê

Terras do Nunca, confirmando que CVM já vai no terceiro blog, lamenta que não seja possível o três-em-um: o Carlos a entrevistar o Mark Twain no Pessoal e Transmissível.

Talvez não seja uma impossibilidade: eu propunha que o Carlos se socorresse dos serviços de assessoria literária da C.M. Lisboa, recentemente tão atentos ao lançamento de um livro do coevo Machado de Assis, e logo se vê no que dá...

segunda-feira, setembro 15, 2003

A casa do muro

O mundo é tão pequeno
tão sujeito à vaga do inverno
aos limites da dádiva
à ignomínia
à chuva a demorar no pátio a
memória breve
dos milagres

A perda II

"E além do mais" - dizia-me ela, cabisbaixa - "somos de mundos diferentes. Nunca dará certo, percebes isso?". E partiu, deixando a sua mão escorregar pela minha, pousada em cima da mesa com tampo de mármore do café. Para sempre. Hoje apenas guardo a sua imagem, de costas, deslizando entre as mesas, afastando-se. Percebi-a, não que aceitasse o que acabara de me dizer, mas entendi o seu ponto de vista. Hoje, evocar a sua imagem já não é doloroso, mas obriga-me a velar pelas feridas que na altura se abriram. Cicatrizes? Nem sei. Mas também isto, sem querer despoletar nenhum sentimentalismo bacoco ou desbocado, é crescer.

A perda

Hoje, o dia nasceu cinzento apesar do Sol, escuro apesar da luz, triste apesar dos sorrisos que comigo se cruzaram. Hoje, desapareceu Vítor Damas, e com ele, Sábados, Domingos e Quarta-feiras importantíssimas, de ouvido encostado à telefonia. A isto também se chama envelhecer. Até sempre, Vítor.

domingo, setembro 14, 2003

Morreu Vítor Damas

E é como se de repente as balizas todas da minha infância deixassem de ter quem as defendesse.

A tramontana

Gabriel García Márquez, em Doze Contos Peregrinos, fala da tramontana, esse «vento de terra inclemente e tenaz». E conta a história do jovem contratado para cantar canções das Antilhas em Cadaqués, na Costa Brava, de onde fugira no Verão anterior depois de a tramontana o ter vencido: sabia que, se regressasse, a morte estaria inevitavelmente à sua espera. Era uma noite de copos no Boccacio, em Barcelona. Uma pandilha de turistas suecos pretendia acabar a noite de farra em Cadaqués, e exigia que o jovem músico os acompanhasse. Ele explicava as razões que lhe impossibilitavam o regresso. Mas os nórdicos, animados pelo vinho catalão e por um elevado desdém perante as superstições «africanas», forçaram-no a entrar na carrinha e seguiram viagem. Já perto de Cadaqués, aproveitando uma distracção dos companheiros suecos, o jovem caribenho abriu a porta da carrinha em andamento e lançou-se no abismo. Tentava fugir assim a uma «morte inelutável», como a do velho marinheiro catalão alguns anos antes, encontrado morto no seu quarto, pendurado pelo pescoço na viga do meio, «balouçado ainda pelo último sopro da tramontana».

O levante

O levante não espalha as sementes da loucura com a mesma violência da tramontana. O seu rumor, ou a sua presença apenas adivinhada, o que deixa no ar, vindo do nascente (e não do norte), é um leve enjoo, uma tontura, uma pequena febre que um único nome pode caracterizar: almareio. Podemos ficar almariados antes ainda desse vento do mediterrâneo, esse vento do leste, fazer estremecer as folhas minúsculas da amendoeira: mas não é bom pressentir o levante com muita antecedência. Nesse caso, o almareio pode levar à doença. E a doença pode levar à loucura.

quinta-feira, setembro 11, 2003

Última estação

De que lado vem a tempestade
quando as folhas do negrilho
uma a uma
se desprendem dos seus ramos velhos
e o escorpião do medo se
acolhe em segredo ao
que ficar da luz de setembro
para prolongar
a sede

Desculpem lá mas eu não resisto

Eu tenho de vos perguntar: algum de vós viu "O triunfo da vontade"? Não não, agora a sério, do que é que se lembram? Do que é que se lembram daqueles épicos 140 minutos de gente a marchar? Sim, porque, dê lá por onde der, é isso que é "O triunfo da vontade". Ele é tudo a marchar para a direita, agora tudo a marchar para a esquerda, agora tudo a marchar para direita outra vez... pelo amor da santinha...
Vejam, OK... revejam o filme, é tudo o que vos peço. Vão sentir uma desilusão, essa sim, monstruosa. É que ver uns bocadinhos, seleccionados, num qualquer programa de TV é uma coisa, ver o filme, os 140 minutos inteirinhos de, enfim... de gente e marchar de um lado para o outro, é outra coisa completamente diferente. É uma seca completamente diferente. "O triunfo da vontade" é (mesmo) um mau filme. Já repararam?
Verdadeiras obras-primas da manipulação, e excelentes trabalhos cinematográficos, são Olympia, Fest der Völker e Olympia, Fest der Schönheit, conhecidos entre nós como "Olympia" e "Os Deuses do estádio", mas acho que ninguém quer falar nisso, afinal de contas, o tema de "O Triunfo..." torna tudo tão fácil, não é?

quarta-feira, setembro 10, 2003

Triumph des Willens

A morte de Leni Riefenstahl vai certamente fazer correr muita tinta. Neste caso, em vez da habitual discussão sobre a distinção entre obra e artista, uma das grandes questões será outra: a estética e a ética são dissociáveis? Ou a estética implica sempre a ética (e vice-versa)?

Bullfight

em Albufeira. Que é para os turistas que nos visitam poderem partilhar connosco as mais profundas raízes e tradições da Região.

Heróis do Mar

Não obstante saber-se que a mezinha do alho nem sempre resulta, no ano passado não admitíamos menos que ser campeões mundiais de futebol. Não obstante os acidentes de percurso, bem como nada de substancial se ter entretanto alterado aos níveis dirigente, organizativo e das mentalidades (dando-se de barato a eventualidade de terem sido adquiridos pós de salamandra no congresso de Vilar de Perdizes para ministrar aos atletas em vez da xaropada do alho que deu a alhada que se viu, o que sempre seria um avanço), no próximo ano não admitimos menos que ser campeões da Europa. E é nestas alturas que sentimos um orgulho filho da puta em ser portugueses...

Um sussurro...

De acordo, já não é novidade nenhuma, já toda a gente ouviu, mas vale sempre a pena salientar o que é bom. E numa quarta-feira de meados de Setembro, 125 atulhada de radares e caçadores de multas, qualquer coisa que nos deixe bem dispostos merece um segundo de atenção, ou melhor, um minuto que não seja o último. Liga-se o leitor e ouve-se como um sussurro, um desejo segredado ao ouvido, pleno de cumplicidade, como aquele pelo qual qualquer comum mortal gostaria de ser acordado todos os dias do resto da sua vida. Hesita-se ao princípio entre qualificá-la como cantora ou modelo, mas o certo é que cinco minutos depois, a certeza da cantora instala-se em cada um. E para além do mais, por trás da voz, das palavras e da música há um rosto bonito. Muito bonito, por sinal. Não há, seguramente, duas opiniões sobre o assunto. Quelqu’un m’a dit. Carla Bruni. Venha o próximo.

segunda-feira, setembro 08, 2003

Geometria descritiva

É preciso ir agora à praia, com Setembro já entradote, para compreender aquela expressão da menina do Big Brother: «isto em tão pouco tempo deu uma volta de cento e cinquenta graus».

Mataram ele

As cacetadas à má fila do Fernando Couto aos jogadores espanhóis, bem como a defesa dessa violência por parte do senhor treinador nacional (só Jesus é que dava a outra face. Mas Jesus só houve um e mataram ele), iluminam de um modo muito vivo esse conceito de «jogo amigável».

domingo, setembro 07, 2003

Esquerda, direita

Estrelinhas vermelhas nas unhas do pé esquerdo. E eu, parvo, a perguntar-lhe se as convicções ideológicas vinham dela ou da pedicure.

Abanar o capacete

Já tinha ouvido falar em toques polifónicos. Mas faltava-me assistir à cena de dois adolescentes sentados na escada exterior de um prédio de apartamentos, em Faro, a abanar o capacete e os joelhos ao som de um telemóvel.

Relendo Júdice

«é o desejo, / mais que a fortuna, que faz com que sejamos/ amanhã o que hoje não esperamos ser».

Foi com raros versos como estes que Nuno Júdice acedeu ao pedido de colaboração na revista SUL. Estávamos em 2001. Este ano, por obra e graça das Publicações Dom Quixote, chega-nos O Estado dos Campos. Do livro, e só para aguçar o apetite, não resistimos a deixar aqui um dos três poemas então publicados pela SUL em primeira mão. É um soneto, e chama-se RELENDO CAMÕES:

Vejo ainda coisas por dizer; em cada mudança
não somos já quem costumávamos; e quando mudamos,
é quem fomos que fica ainda por mudar. Um ser pode
ser tudo o que quisermos, se o tempo o deixar;
mas não será outro se entre ontem e hoje
se não souber transformar: pois é o desejo,
mais do que a fortuna, que faz com que sejamos
amanhã o que hoje não esperamos ser; a não ser
que o amor nos prenda à sua sorte constante. Então,
de dentro da alma, o sereno rosto procura novas
inquietações; e o teu riso o desperta de entre dias
e estações, convidando-o para a vida que é assim:
feita de mudança, quando tudo vai ficar;
e insistindo em ser o que tinha de mudar.

Num casamento

A terceira leitura era do Evangelho de S. Mateus, e falava do «homem insensato que edificou a sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, vieram as torrentes e sopraram os ventos contra aquela casa; ela desmoronou-se e foi grande a sua ruína».

Isto, dito assim na igreja de S. Pedro do Mar, em Quarteira, junto a um litoral em erosão e casas tem-te-não-caias edificadas na crista de arribas argilo-arenosas, se não é a palavra de Deus não saberei dizer o que é.

Lula é que está a dar

«Hoje no cais a lula estava dando ao monte.»

quinta-feira, setembro 04, 2003

Alguns desses dias

Podar as amendoeiras. Planear os enxertos. Guardar as azeitonas na tarefa. Secar os figos nas esteiras de cana, enrolando-as durante a noite. Caiar o tanque. Arranjar a eira. Recuperar os alcatruzes da nora. Ouvir, pelo fim da tarde, o som da água nas levadas.

São estas merdas que me deixam fulo 2.

"Guterres é um excelente candidato da área política e sociológica (?) que o PS lidera."
João Pina Moura ao D.Notícias, 3 de Setembro 2003.

Ahahahha ahaha ahaha ahaha.
Ahahahha ahaha ahaha ahaha ahahahha ahaha ahaha ahaha ahahahha ahaha ahaha ahaha ahahahha ahaha ahaha ahaha ahahahha ahaha ahaha ahaha ahahahha ahaha ahaha ahaha ahaha ahaha ahaha ahahahha ahaha ahaha ahaha ahahahha ahaha ahaha ahaha ahahahha ahaha ahaha ahaha ahahahha ahaha ahaha ahaha ahaha ahaha ahaha ahahahha ahaha ahaha.

São estas merdas que me deixam fulo.

"Pela sua moderação, tolerância e sentido de estado é o candidato natural da esquerda."
José Lello ao D.Notícias, 3 de Setembro 2003.

Isto é mesmo o pior espectáculo que a política tem para oferecer. Este PS é, de facto, uma coisa de bradar aos céus. Como é que alguém no seu perfeito juizo pode afirmar que semelhante criatura é o candidato natural da esquerda? Qual esquerda (foda-se)? Que merda de esquerda é a nossa que se identifica num indivíduo que, não é moderado pôrra nenhuma, não não, é um frouxo, é um mole. Tão simples como isso.
E ele não é tolerante, não se deixem enganar (outra vez) pelo seu sorriso beato e superior, mas no que é que vocês estão a pensar(?), ele é um deixa-andar, um caga-nisso... que diabo, querem que vos faça um desenho?
Já quanto ao seu fantástico sentido de Estado é preciso relembrar a sua cobarde atitude perante o desastre eleitoral do PS nas autárquicas de 2000?

Conclusão: se esse ser rastejante, essa massa amorfa de gordura animal desprovida de espinha dorsal, essa grande cloaca em formato de padreco, esse tal António Guterres, se ele é o candidato natural da esquerda então, meus amigos, então já estou como o outro que diz "se o Guterres é de esquerda eu quero ser nazi."
Juro.

Jamón Serrano

O meu caro leitor desculpar-me-á a confissão, mas o tema para esta crónica foi por várias vezes alterado. Primeiro, resolvi comentar as mais recentes evoluções do caso Casa Pia e daí partir para uma análise ao sistema judicial penal português, que diariamente abre brechas graves, para defender que é a reboque dos casos que lhes expõem as falhas que se revêm os sistemas e não quando eles, funcionando bem, se cristalizaram. É assim em tudo, não se percebe porque é que num sistema judicial as coisas têm de ser de modo diferente. Mas depois, na segunda-feira, uma hecatombe nacional fez-me repensar tudo e, amargurado com a vida, resolvi tentar explicar o inexplicável, justificando a derrota do Sporting. Tarefa árdua, difícil, rapidamente abandonei a ideia, porque com o passar do tempo é preciso começar-se a pensar no próximo adversário e esquecer o assunto (mas viram aquele golo do Roschemback, hã?).
Foi então que, num destes dias, ao meter gasolina, algures entre o verde-código-verde e a passagem de olhos pelo escaparate das revistas e jornais, uma notícia me chamou a atenção. Pela gravidade e seriedade do assunto, tinha de ser tema de crónica, porquanto o país por certo está suspenso do acontecimento - pensei. Mas não, dois dias volvidos, não há vivalma que comente o assunto, nenhum telejornal abordou sequer a questão e esta passou despercebida como se fosse uma coisa banal ou até natural. E o certo é que não é, por isso me vejo obrigado a vir a terreiro. Passo pois a explicar. Fernanda Serrano tem um romance com Pedro Miguel Ramos. Isso mesmo, Fernanda Serrano tem um romance com Pedro Miguel Ramos, aquele que apresentou o Big Brother com Teresa Guilherme e que casou com Bárbara Guimarães nas Caraíbas. Esse mesmo. Ora, uma pessoa que apresenta o Big Brother não pode ser recomendável e, como é óbvio, Fernanda Serrano corre o sério risco de ficar afectada por este deslize na sua carreira, o que é uma pena. A rapariga é boa actriz, é bonita, inteligente e, por sinal, lavadinha, por isso fica-lhe mal ponderar sequer passear-se com Pedro Miguel Ramos na Feira Popular, quanto mais ter um caso com ele. Bem sei que ainda é Verão, que ainda estamos na silly season, e que ainda não ocorreu o momento da viragem marcado pelo comício do Pontal, mas quando se deveria estar a pensar na seriedade de retomar a vida normal de todos os dias, somos confrontados com uma notícias destas, ainda por cima de forma brutal, na capa da Caras? O leitor perceberá a gravidade da questão. A Fernanda Serrano ter um namoro com Pedro Miguel Ramos representa a chegada do Outono, o murchar das nossas expectativas, o fim dos sonhos matutinos com a pequena. E depois do Pedro Miguel Ramos, o que se seguirá? Sinceramente, o caminho só poderá ser a descer. Que o país não se tenha apercebido da revisão do défice em alta pela Ministra das Finanças, ainda percebo, agora isto só pode ser adormecimento. E isso preocupa-me. Só há uma explicação e ela reside no facto de há algum tempo, na internet, ter andado a circular um pequeno excerto de um filme pornográfico no qual se dizia que a actriz principal, com quase tantos atributos como a Fernanda Serrano, era a própria. Será? Não será? Rapidamente se chegou à conclusão que era uma actriz húngara muito parecida com Fernanda Serrano. Não foi fácil descobrir isso, contudo, porque os diálogos no filme não permitiam descortinar a língua da actriz. Ou melhor, apenas não permitiam descortinar o idioma porquanto os “uhms” e “ahs” que representavam o diálogo tinham um sotaque magiar muito bem disfarçado, na medida em que ao que parece tais filmes se destinavam a ser exportados, e portanto tinham de poder ser vistos sem legendas que, como se sabe, são redutoras em qualquer filme de categoria. Com efeito, não lembra ao diabo ter um cê de cedilha na frente da virilha da actriz quando esta se apresta para cavalgar o actor contracenante.
Mas o certo é que tudo isto deve ter abalado a Fernanda e, de um momento para o outro, ela recolhe abrigo nos braços de Pedro Miguel Ramos. Tenho de confessar que o rapaz até tem jeito, mas que é uma tristeza, lá isso é. Basta ver o estado em que ficou Bárbara Guimarães, que depois de Pedro Miguel Ramos só encontrou refúgio em Manuel Maria Carrilho, para se perceber a gravidade do problema. Nunca mais chega o Outono?

Que os Planos Repousem em Paz

Os Resíduos Industriais Perigosos têm uma sigla curiosa. E diz a bota com a perdigota, sobretudo se aplicada aos respectivos planos de eliminação. É como aquela que vem do latim e se mete nas lápides: RIP. Ou seja: que repousem na paz do Senhor. À minha porta é que não. No meu mandato é que não. Se for preciso fecha-se uma estrada. Ou encomenda-se mais um estudo às universidades.

Lessem as Directivas...

Não, não começou a caça aos patos. Na Ria Formosa só morreram às centenas por causa de uma bactéria, que por sua vez deu origem a uma coisa designada por botulismo hídrico. Na foz do rio Alcabrichel, junto à praia do Porto Novo, só morreram cem devido à ingestão de um produto altamente tóxico cuja composição o Laboratório Nacional de Investigação Veterinária não conseguiu ainda determinar. Não, não é grave. Quem lhes manda, aos patos, ingerir tóxicos ou exporem-se ao botulismo? Se calhar vai-se a ver e ainda foi suicídio.

Ressaca leonina

Logo tinha que passar a ressaca em Lisboa... Ontem à tarde, no metro, fui vítima dos problemas de circulação na linha verde. Presumo que tivessem origem algures entre Roma e Alvalade. E que a fluidez e a normalidade do tráfego fossem um exclusivo da linha azul, ali entre a Baixa e a Pontinha. Acontece-nos tudo...

terça-feira, setembro 02, 2003

Assim vamos longe

O meu Sporting perdeu com o Futebol Clube do Porto. Mourinho tem razões para estar preocupado com o Estrela da Amadora.

Ainda falam mal da tropa

É como se fosse uma farda: calções francamente abaixo do joelho; sapatos vela; camisa de marca com as fraldas de fora. Só então a noite, a música ao ar livre, Marte afastando-se vagarosamente na distância.

segunda-feira, setembro 01, 2003

Love is in the air

José Júdice escreve uma crónica de meia página sobre os esgotos da Manta Rota e da Altura sem saber muito bem o que se passa com os esgotos da Manta Rota e da Altura. «Sem conhecer os pormenores», como ele mesmo confessa. Mas isso, claro, não interessa. O que conta é o estilo. O parágrafo. A frase. O efeito. A blague.

É assim

Vivi durante dois ou três anos a cento e cinquenta metros da estação de tratamento de águas residuais da Manta Rota. Que não funciona, nem então funcionava. Mas nessa altura havia umas poucas de casas isoladas a drenar para a estação, que por sua vez drenava directamente para uma pequena lagoa, que por sua vez drenava para a praia. Não era propriamente grave. Desde esse tempo (meia dúzia de anos) construiram-se centenas de apartamentos e moradias em banda. A ETAR funciona ainda do mesmo modo (quer dizer, não funciona). O caudal efluente centuplicou. Os telejornais e a imprensa escrita, em chegando o Verão, falam do «mau cheiro». Ninguém é culpado de nada. Os loteamentos sucedem-se a bom ritmo. A festa não pode parar.

A mosca monótona do estio

A irreverência e a inteligência do Pedro Mexia fazem-nos falta. Por isso nos custa tanto o seu silêncio no Dicionário do Diabo, fechado para obras desde o dia de Nossa Senhora da Assunção. Vai-se a ver, e topamos com o Pedro no Independente. Garantindo que «a fé é vida privada», e insurgindo-se contra a «captação de imagens em actos religiosos». Porque «a fé, e a maneira como cada qual a pratica individualmente ou na sua comunidade de crentes, é vida privada». Pois. Claro. É assim mesmo. Isto é uma chatice...

Seja como for, Pedro, apreciamos-te infinitamente mais quando não és tão cuidadoso nem tão politicamente correcto nem tão previsível. Quando és como costumas ser. Quando escreves como no Dicionário. Quando não te pica a mosca monótona do estio. Regressa depressa, por favor, e deixa-te de fosquinhas. Fazes-nos falta.