terça-feira, agosto 31, 2004

Os sentidos

Tão cego andei
apesar da vista,
Tão surdo me senti
apesar do que ouvia
...
Quis crer que era amor
O que me dizias
ao ouvido
e em teus olhos lia.
...
Cega-me,
ensurdece-me,
Vai-te.
De uma vez
...
Por todas...

As olímpiadas do Padre Pedro II

Ainda relativamente aos sete posts do Padre Pedro sobre as modalidades olimpícas, confesso que me aguça o apetite a espera pela descrição daquela modalidade em que dois homens adultos imaculadamente vestidos de branco se esgatanham em trejeitos floreados de pés e mãos no arremesso de uma pena alternadamente e à vez para um e outro lado de uma rede ostentando nas mãos uma frágil raquete.

[Um dia talvez]

Um dia hei-de temer o abandono,
a sede, a noite, a sombra, o esquecimento.
Mas nessa altura eu quero que o outono
me escreva em tons de sépia o testamento.

Que amor existe apenas no arame,
no lume, no trapézio, em estar presente.
Sem choros nem desculpas, sem reclame.
(Doer-me o ires embora é estar doente.)

Por isso não te peço a eternidade,
contratos, cumprimento de promessas.
Eu quero é que me ames de verdade
e que, não sendo assim, desapareças.

Um dia talvez tema o abandono.
Agora penso nisso e dá-me sono.

A saudade

Não é tanto a tua ausência, mas o seu silêncio...

segunda-feira, agosto 30, 2004

Só eu sei...

E para terminar a ronda desportiva do fim de semana, há-que salientar o novo perfil do Sporting na era Peseiro. Evidenciando ainda grandes lacunas sobretudo ao nível defensivo, já mostra uma compostura mental e uma sede de vitórias muito diversos, para melhor, daquilo a que nos habituou sob a batuta de Fernando Santos. Bem sei que é muito cedo, mas arriscaria aventar que se não se levar muito a sério a carreira nas competições europeias, o título pode ser ponderado como hipótese séria. Enfim, havemos de voltar a este assunto se Ele quiser.

Schumi über alles!

Michael Shumacher é heptacampeão mundial de Fórmula 1 e, pelo quinto ano consecutivo, pela Ferrari. Goste-se ou não do homem e do piloto - e há muito quem - é o maior feito (continuado) de sempre nesta disciplina. A excelência do melhor piloto do mundo e do mais bem-sucedido de sempre na história da F1 só pode ser apreciada e aplaudida mesmo pelos seus detractores. De ora em diante faltam apenas cair nas suas mãos dois recordes, a saber: o número de pole positions (ainda pertença do saudoso Ayrton Senna) e o maior número de vitórias numa só temporada (na posse de Nigel Mansell). Tudo o resto já foi, a bem-dizer, pulverizado e tem o seu nome inscrito.

As Olimpíadas do Padre Pedro

Imperdíveis, os sete posts humorísticos sobre as olimpíadas, de José Carlos, no seu Presa do Padre Pedro. Recomenda-se, não só mas também, pelo humor fino que sublima no alternar com o vernáculo. Parabéns!

sexta-feira, agosto 27, 2004

Vermelho

Rosa, cravo
sangue, raça,
raiva, dor,
coração,
bravo.

Raio de cor!

Anos volvidos

Quando o Verão partia ficava sempre triste. Porque era o fim do nosso reencontro, mesmo que não me ligasses nenhuma, não partilhasses o teu gelado e te sentasses ao lado de todos menos de mim na matiné do velho cinema. Rias-te das piadas dos outros, do que te diziam e gostavas que os rapazes mais velhos te admirassem, o que me magoava porque achava que eles abusavam de ti e tu deixavas. Foi assim durante anos, demasiados anos, tantos quantos os que demorei a crescer e a abandonar a infância e o início da adolescência.
De repente, num Verão, bateste-me à porta, convidaste-me para um passeio no empedrado da marginal, aquela que calcorreei anos a fio, de noite, à tua procura nas noites de Verão e depois da tua recordação no Inverno, desesperando por não te encontrar. Mas nesse Verão, sem aviso, subitamente, ambos crescemos, e já não te consegui achar a mesma piada. Lembro-me de desejar que esse Verão não tivesse existido e corri a refugiar-me no meu quarto. Até mudei de praia. Na semana seguinte enamorei-me por outra rapariga, mas durou pouco e nunca mais a vi quando o Verão terminou, nem a ti, depois me cruzar contigo enquanto segurava na mão dela. Excepto hoje. Anos volvidos, na velha marginal caminhavas com um menino, certamente teu neto, pela mão; eu estava sentado no banco em frente ao que resta do velho cinema Mariani e tinha a minha neta sentada ao colo. Não me reconheceste, ou pelo menos fingiste-o, mas as pedras da calçada revelaram-me que o riso de menina que ouvi era o teu.

Telegrama

Olá STOP Regressa depressa STOP Bom fim semana

Sal

Regresso ao tempo
de ontem de hoje, de sempre,
para exorcizar sentimentos
antigos que me inquietam.

Surges por magia
do nada, do Sul de lugar algum.
Voas por sobre as vagas
do mar, da saudade

Banham-me as tuas lágrimas
a face, o corpo e o cabelo,
enchem-se-me de sal
os sulcos do coração.
...
Ardo na tua ausência...

[Eu quero tudo]

Eu sei que todos falham. Que a ninguém
é dado em permanência estar atento
às feridas, ao cansaço, ao desalento,
à mágoa que por vezes sobrevém.

Mas eu exijo tudo: ouro e prata;
que estejas a meu lado na doença,
na cama, na cozinha, em Florença,
no Sena, no inverno, na Culatra;

que digas que me amas; que me ames;
que dês sentido à vida que vivemos;
que nunca me abandones; que me chames

ao teu mais ignorado esconderijo,
às páginas do livro que não lemos.
Eu sei que não é fácil. Mas exijo.

[É pouco o que te der]

É pouco o que te der. É sempre pouco.
Há sempre uma palavra, há sempre um gesto,
há sempre um nome em falta. Há sempre o resto.
Por isso o que te der é sempre pouco.

Às vezes imagino que o teu nome
é feito dos silêncios da floresta.
Às vezes adormeço: é o que me resta
nos dias em que o mar traz o teu nome.

Assim pudesse dar-te o que é do mundo:
navios, uma estrela, nebulosas
planetárias. Ou transformar em rosas
a luz das supernovas que há no mundo.

Assim pudesse dar-te a vida toda
e mais ainda. O resto que se foda.

quinta-feira, agosto 26, 2004

[O Grito]

Não confunda, meu caro, arte com de
coração. Você pintou este quadro, imaginou
a moldura, vestiu o pijama
e adormeceu a sonhar com os lírios do campo.
Ora quando Edvard Munch pintou O Grito
não conseguiu dormir doze noites a fio,
como se tivesse uma navalha no cérebro
ou um prego enferrujado espetado no fígado.

Azul

A luz diminuta filtrada através da fina rede do confessionário não permitira a Benedito ver mais que a tonalidade daqueles olhos. Azuis. De um azul intenso, brilhante, que lhe ficou gravado na memória para o resto da vida, como se outra cor não pudesse existir nem fosse possível uma criação diferente. Ficou fascinado, como nunca mais ficara desde o dia em que fora ordenado padre pelo bispo que igualmente apadrinhara os seus doze anos de seminário por recomendação do pároco lá da terra. O rigor dos Invernos no seminário , as frieiras das mãos forçadas a permanecer à noite fora dos cobertores, os castigos, as privações e as provações nada significavam quando comparados com a beleza singular daqueles olhos azuis, que só a Deus por certo se deviam.
O azul daqueles olhos perseguiram-no para sempre ao longo de todos os dias do resto da sua vida. Tão depressa amaldiçoara como abençoara Deus por lhos ter revelado depois de lhe ter reclamado e colhido a vocação. Benedito nascera numa aldeia pobre, encaixada nas montanhas a Norte do país, encostada à raia, e o seminário, como para tantos outros da sua geração, fora a única saída possível para alcançar uns estudos decentes. Fê-lo por respeito e apego ao pároco da aldeia e mesmo antes de se ordenar sacerdote jurou-lhe que seria padre para toda a vida. Achara justa a cobrança e honrou o compromisso com o preço que aceitara pagar.
Agora, realizara, essa jura maldita cerceara-lhe grandemente a felicidade e a própria vida, embora a tivesse sempre levado com ligeireza, minorando a raiva que por vezes lhe consumia a alma e o coração. Todavia, apenas agora, agonizando no leito de morte e sentindo a chamada do Criador pela última vez, Benedito permitiu-se enfim duvidar da Sua existência. Mas mesmo assim fechou os olhos e deixou-se arrastar pela torrente de lágrimas criadas pela recordação dos olhos azuis que contemplara anos antes e que nunca, nem agora, conseguira esquecer.

quarta-feira, agosto 25, 2004

Outra vez o Verão

A sombra do espinheiro-da-virgínia da infância me bastava agora para aguentar o Verão. Se o não tivessem cortado pela raiz num ano em que a Primavera corria vagarosa, fresca, de céu encoberto. Por esse tempo ninguém podia adivinhar que os incêndios, com as suas labaredas vivas, vermelhas, amarelas, azuis, cor de laranja, iam começar pouco depois. E que nunca mais haveriam de parar, subindo as encostas, lavrando nos cumes.

[nas despedidas]

o que mais custa
não é o silêncio
mas os

seus

ecos

Sinais

O facho de luz de um farol, o marco geodésico no topo de uma montanha, um espelho de sinais, o depósito de água no cimo de uma colina, uma grande fogueira acesa na praça maior da aldeia, a luz forte do campanário, um fogo de artifício em dia de festa. Engano meu, ou faltam ou teus sinais?

terça-feira, agosto 24, 2004

Sina de dois

Subir à montanha mais alta,
descer ao salar mais fundo,
na secreta esperança
de te encontrar
no ermo deste mundo,
onde tanto me sabe a tão pouco.

Eis a tua e a minha sinas.

segunda-feira, agosto 23, 2004

[Quase tudo]

Tu podes fazer tudo o que me fazes:
chegar a casa tarde, enlamear
o hall sempre que chove ou tropeçar,
já bêbado, nos vasos dos lilases.

E podes-te esquecer que faço anos,
adormecer ligado à internet,
deixar a tampa erguida da retrete,
fechares-me na floresta dos enganos.

E podes humilhar-me na presença
dos teus colegas parvos, boçais, fúteis,
que acham que os poemas são inúteis
num mundo onde o que interessa é uma avença.

(Mas chora. Fica triste. Expõe a dor.
E diz-me que lamentas, meu amor.)

sábado, agosto 21, 2004

[Cicatriz]

Conheço o argumento: vem nos livros.
Morreste, ias morrer - que espalhafato...
E afinal ainda estamos vivos:
o amor matou-nos em sentido lato.

É claro que a sinto: a cicatriz
não passa, queima, é funda, oblitera.
Mas penso que é possível ser feliz
sem estar a vida toda à tua espera.

Por isso é que te peço: vê se chove
na rua, no telheiro, no jardim.
Bem sabes que essa dor não me comove.
O que te dói já não me dói a mim.

(Mas lá no fundo eu quero é que tu cresças
e que o adeus te custe e que não esqueças.)

sexta-feira, agosto 20, 2004

[As feridas do amor]

Não quero do amor os grandes lances,
as cenas de teatro, a poesia
(detesto as personagens dos romances
que morrem de desgosto ou anorexia).

Nem quero que me chames Julieta
armado - tão ridículo... - em Romeu
(detesto o argumento, acho-o careta:
demais a mais nenhum sobreviveu).

Gostava é que estivesses a meu lado
nas horas mais difíceis: numa gripe
ou numa depressão, num resfriado.

Mas tu, amor, só pensas no teu jipe,
na bolsa, nas acções, nas frases feitas.
Enfim: fazes a cama em que te deitas...

quinta-feira, agosto 19, 2004

Ontem

Lembras-te, meu amor?
da noite mais longa e escura
do dia sombrio e sem cor,
do suspiro, da saudade
da vontade férrea e pura
de desistirmos, pela dor,
a amargura e a nossa idade?
Lembras-te, meu amor
hoje, que tudo passou,
do pesar e do desamor?
Lembra-te meu amor,
devo-te tudo e quem sou.

[Os teus poemas]

Tu dizes que é já tarde - e anoitece.
Tu falas em marés - e o mar pressente.
E o sol é nos teus braços que se aquece
em busca de outro núcleo iridiscente.

Mas é no dia a dia, meu amor,
no pão, numa panela, num cabide,
na cama por fazer, no esquentador,
que tudo se confronta e se decide.

Por isso escrevo em prosa os teus poemas
e mais que a lua, a orbe, a imprecisa
Andrómeda, uma estrela, os grandes temas,
eu escolho o chão que pisas por divisa.

E temo, por incrível que pareça,
que a poesia mate ou enlouqueça.

quarta-feira, agosto 18, 2004

[Ser feliz]

Eu sei o quanto custa ser feliz.
Eu sei como é difícil estar atento
às coisas do amor: escrever a giz
no mármore, no calcário, no cimento

armado do romance. Eu sei que sim:
que às vezes apetece estar ausente
em parte incerta: em Roma ou em Berlim,
em Marte, em Salvador, no rio Mente.

Mas sei, amor, também que só assim,
fazendo com que tudo seja teu
(o que é do mar, do mundo, o que é de mim),
eu posso ser feliz. Digo-to eu:

não há felicidade sem entrega,
amor sem sobressalto. É essa a regra.

terça-feira, agosto 17, 2004

O Pianista

Um epitáfio breve - "Aqui jaz um Pianista" - foi o único adorno colocado na campa rasa do pianista. Anos mais tarde, esta viria a ser coberta por uma laje de granito que se destacava entre as demais de mármore branco que a rodeavam. Raramente tinha flores,e quando as havia eram lá postas por uma alma caridosa que se comovia com a dedicatória que alguém se lembrara de gravar. E contudo, tudo naquele homem era diferente: a paixão pela música, o talento, a certeza da vocação, um amor de que fugira anos antes, e por fim a alma de uma violinista que não conhecera mas que apenas ouvira numa época da sua vida, na varanda da casa deitada sobre o pátio. A prisão no auge da sua juventude, por delito de opinião, marcara-o igualmente para a vida e tudo isto o distanciava dos outro homens sem histórias de vida. Mas quem o olhasse diria tratar-se de um homem comum, banal, até de carne e osso como os demais. Só tarde, muito tarde, quando alguém se lembrou de escrever a sua biografia lhe reconheceram o valor, o mérito, a dignidade. Somente quando alguém cavou a sua vida e lhe arrancou a alma e a sua memória à terra se aperceberam do que aquele homem vivera e quem fora. Na homenagem, na vernissage do dia do lançamento da sua biografia, uma violinista falou demoradamente de quem nunca conheceu, arrancou aplausos e apaziguou consciências. A violinista chorou de admiração e saudade e nesse dia calou para sempre o seu violino. Pelo pianista.

Manhãs

Uma sandes de fiambre e um copo de leite frio. Porque há dias que têm de começar só assim?

segunda-feira, agosto 16, 2004

A intensidade

Completamente. Irremediavelmente. Perdidamente. Podia jurá-lo.

Interminável

Quantas vezes, num segundo
voam anos
e não são os mesmos
os braços que apertamos

São outros lábios
frios, de mármore
inerte e sem cor,
evocações de outro amar

Já desaparece teu corpo
no mar cinzento,
agitado, de lágrimas salgadas
e interminável pranto.

Dobram os sinos.

[Soneto do adeus]

Não venhas cá com merdas. Não inventes.
Não olhes nos meus olhos. Sai apenas.
E poupa-me aos discursos eloquentes
e às farsas do adeus. Não faças cenas.

Não digas que lamentas ou que a vida
às vezes é assim; que tudo esquece;
que o mundo e o tempo curam qualquer ferida.
Repito, meu amor: desaparece.

E leva o que quiseres de tudo quanto
um dia suspeitámos partilhar:
os livros e os poemas, o acanto,
os discos, os retratos, o bilhar.

Não deixes endereços. Por favor:
eu quero é que te fodas, meu amor.

A outra existência

- Em que pensas?
- Em nada...

quinta-feira, agosto 12, 2004

Enlouquecer

Não sei bem explicar,
porque me agrada enlouquecer
na sofreguidão que mina
os instantes da minha existência...

e que quero esquecer...

Os Comediantes

Livros. Os nossos, os dos outros, os que não interessam, os que não lemos, os que lemos e relemos, os bons, os maus, os menos bons, os perecíveis, os eternos, os de uma vida, os que escrevemos, os que gostavamos de ter escrito e aqueles a que regressamos por acaso, ou por uma circunstância determinada da vida que nem sempre sabemos ou queremos explicar. Alguns, quando se tornam imortais, têm o dom de enriquecer com o passar dos anos e adquirem o dom de se tornarem sábios conselheiros, por vezes companheiros silenciosos para junto de quem regressamos furtivamente nas noites em que a velocidade das ideias e a falta de sono nos pregam partidas; no fundo, esta é a história do conforto que sentirmos por saber que alguém já passou pelo mesmo.
Enfim, vinha isto a propósito de um livro a que involuntariamente regresso cíclica e episodicamente, mas que não voltei a abrir desde o dia em que terminei a sua leitura. Vejo-o na estante, exactamente no mesmo sítio em que o deixei há uns anos, a lombada um pouco amarelecida e gasta pelo tempo, mas intacto. “Os Comediantes”, de Graham Greene, é um misto de ficção e realidade que nos transporta ao Haiti dos primeiros tempos da ditadura de Duvalier (Papa Doc) no momento em que este chegou ao poder a coberto da polícia secreta dos Tonton Macoute. "Os Comediantes" retrata os reflexos que da ditadura advieram para os diversos estratos da população haitiana e estrangeira num universo de terror, miséria, sadismo, práticas vodu e episódios burlescos. A narrativa centra a sua acção num pequeno grupo heterogéneo de estrangeiros que viaja a bordo de um navio holandês e é (literalmente) desembarcado e votado ao abandono nesse Haiti sufocante que nos é dado a conhecer. Os membros do grupo concentram-se numa estalagem perto da capital de onde entram e saem centrando-se a história em torno da atitude com que todos enfrentam o mundo hostil que os rodeia, assumindo cada personagem uma marcada indiferença perante tudo, todos e o seu próprio destino, transformados que são em “comediantes” na terra de Papa Doc.
Qui plus est, “Os comediantes” retrata os medos escondidos, as misérias e os podres de uma sociedade que pode muito bem ser reduzida à nossa escala de tragédia moral, mas em que sobretudo releva a aparente indiferença em que nela cada um vive. ”Os Comediantes” é uma obra a que, mais por gesto irreflectido que por gosto ou necessidade pessoais, regresso episodicamente para relativizar a gravidade do quotidiano com uma indiferença que se quer quase redentora.

quarta-feira, agosto 11, 2004

[no arame]

que nenhum relâmpago separe
o amor
e os seus perigos

O Silêncio

Sinto o teu silêncio. Cheiras a silêncio...

Efemeridade

Separaram-se ambos à beira do caminho dos Loendros, sob um céu de chumbo, por terem constatado que o tempo de que dispunham até ao fim das suas vidas era demasiado efémero para consumirem todo o amor que sentiam um pelo outro.

terça-feira, agosto 10, 2004

[romance]

se pudesse esquecer tudo
até o teu nome
o modo como dizias o meu nome ou
passavas as páginas dos livros
se pudesse apagar as imagens do passado
as primeiras provas do romance
a sombra recortada das amendoeiras jovens
o rumor do levante

se já nem sequer nos conhecêssemos
e um dia me visses
descendo a escaleira da açoteia
e perguntasses apenas

«dás-
-me lume?»

segunda-feira, agosto 09, 2004

Fora de brincadeiras

Não sei se o leitor se terá disso apercebido, certamente que sim, mas a personalidade das mais variadas pessoas denota-se nos mais pequenos pormenores. Não vem isto a propósito de nada em especial, nem sinto neste instante qualquer necessidade de desabafar sobre a matéria, mas não quero deixar passar despercebido o seguinte: quando foi nomeado Primeiro-Ministro, Pedro Santana Lopes discursou ao país. Discursou de forma insegura e pouco profunda, facto que até seria normal no caso de PSL, se a sua ascensão tivesse sido inesperada e não previsível e se de repente o poder lhe tivesse caído nas mãos. Mas não foi. Sabia-se e era esperado, PSL sabia que isso podia acontecer. Ou pelo menos, durante muito tempo admitiu-se que tal seria uma possibilidade real, pelo que nãos e percebe o carácter vago do discurso. Mas nem é o discurso o problema. É a insegurança inicial e a que se lhe vem seguindo, essa sim marcante, que é o cerne da questão. Um governante inseguro é um governante medroso, desconfiado, receoso. É um governante que tem receio da opinião e dos que a emitem, é uma pessoa permanente acossada pelo pavor de ser alvo dos tiros certeiros dos comentadores. O passado mostrou-nos que muitas vezes o caminho seguido pelos líderes receosos foi o da eliminação da opinião e dos opinion makers, quantas vezes criando para tal os estratagemas necessários para justificar tais actos. Digo isto porque, recentemente, dois episódios merecem destaque na actuação de Santana Lopes. O primeiro, a necessidade que sentiu de se rodear do maior corpo de guarda-costas e seguranças de que há memória na história governativa recente de Portugal. O segundo, a avocação de certas pastas ao seu domínio, pastas essas que são de importãncia secundária. Está nesta situação o recente acontecimento das cassetes roubadas com declarações de pessoas ligadas ao processo Casa Pia. Pedro Santana Lopes terá certamente coisas mais importantes com que se preocupar, mas a necessidade de se colocar sob o feixe dos media impôs-lhe um comportamento anómalo nesta matéria. Pode não ser nada e pode ao mesmo tempo ser tudo. Mas sinceramente, duas coisas se podem apresentar neste cenário como possíveis: ou PSL tenderá a governar para os media desinteressando-se das questões verdadeiramente fulcrais para o país, ou tenderá a isolar-se de tudo e de todos por uma questão de insegurança, chamando a si a maior parte das competências por forma a que nada lhe escape ao controlo. Evidentemente, a primeira premissa terá os seus custos e o país pagará a factura. Mas é o segundo aspecto que, francamente, me preocupa. Na verdade, podemos ser conduzidos por um caminho perigoso, antecâmara de algo em que a democracia é uma mera fase de transição. As próximas semanas nos dirão de que fibra é feito PSL, mas oxalá tudo isto seja infundado.

domingo, agosto 08, 2004

Melancolia

Uma vaquinha foi a novidade desta noite. Tens uma vaquinha nova, malhada a preto e branco, com uma cauda que pica no nariz, como um junco. A rir, relatas-me que nadaste numa piscina de água salgada, com braçadeiras verdes transparentes. Sinto que a distância me faz mais mal a mim que a ti e por isso interrogo-me sobre quem será aqui o dependente. Até porque, e isto é um segredo que fica entre nós, durmo há várias noites agarrado à fralda branca que, disfarçadamente, meti no meio dos teus lençóis na última vez que te adormeci, para que ganhasse o teu cheiro.
Recordo o teu rosto adormecido e não me posso impedir de pensar como é simples o teu mundo que nós, os adultos, teimamos em complicar.

sábado, agosto 07, 2004

Um princípio

Paga-me um café e eu conto-te a minha vida.
(Pe. José Tolentino Mendonça)

sexta-feira, agosto 06, 2004

[repercussão]

quem não ama
o que sabe
do ódio

[da série: profissões que não lembram, 4]

ao vendedor de memórias
não se lhe fale
em elefantes

Um post muito atrasado

A Ana roubou-nos um post. Claire Lunar, a in sensata, caucionou o delito na caixa de comentários. Sorte têm elas de esta aragem de fim de tarde, em Agosto, no Algarve, nos deixar assim lassos, lentos, dolentes, adiáforos, frívolos, lânguidos, leves, calaços, calmosos, senão haviam de ver...

Roma

Diz-me que fizeste do olhar
que perdi no teu
quando, pela primeira vez,
nos cruzámos
naquela estreita viela,
plena de lírios brancos,
na Cidade Eterna.

quarta-feira, agosto 04, 2004

Paro...

Paro para pensar
o porquê...
de sentir
o coração,
sem parar…

segunda-feira, agosto 02, 2004

[da série: profissões que não lembram, 3]

o vendedor de cones
no antigo egipto
abriu falência em
quinze dias

[da série: profissões que não lembram, 2]

sem reforma agrária
o agrimensor
no alentejo diz que
nunca mais

domingo, agosto 01, 2004

[o paraíso]

sim
o paraíso
tudo muito certo e
depois fazíamos
o quê?

[é preciso levantar a lebre (ou as verdades têm que se dizer)]

a tartaruga
quando não está em competição
é lenta
como o caralho

[da série: profissões que nem lembram, 1]

no deserto
o vedor
vê-se fodido

Penedo da saudade

O homem chora. Ainda. A fotografia do filho numa mão, o lenço da primeira comunhão na outra. Derrama lágrimas de anos, de pesadelo, que o acompanharam uma vida. O remorso, a saudade, a tristeza do maldito momento que de si arrebatou a vida do filho. Foi há demasiado tempo, mas chora ainda hoje como chorou no dia seguinte ao funeral, em Agosto daquele ano. Um momento de distracção, uma miserável distracção enquanto ajeitava a toalha para a família merendar junto à presa de água, perto do Poço da Moagem. - Pedro? chamou uma vez. Novamente. - Pedro? Mas Pedro nunca respondeu. Recorda o corpo do menino, sem vida, a boiar na água cristalina e fria. Uma corrida, um mergulho em desespero, as pálpebras lívidas, os lábios roxos e frios em contacto com os seus. E em seguida, o olhar incrédulo da mulher que fora ao carro buscar a cesta da merenda, o grito lancinante que ecoa nos penedos vizinhos. A depressão. Um mundo que desaba e atira ambos para a raia do desespero. Cada sombra, cada rocha, cada elevação do lugar ficaram-lhe gravados na memória desse dia, o último da sua vida.
À data da separação estava imune ao sofrimento...