sexta-feira, abril 29, 2005

Sorte

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Que importa?... Se fugiste ou fugi eu
da lembrança de um amor feliz
onde a saudade e a côr
se cruzam num abraço
forte como uma pancada brusca
num destino alheio às estações do ano
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Que valem agora?... tuas e minhas
trémulas e desafinadas palavras
como sons de um violoncelo
de arco quebrado
perdidas na voz de um canto nocturno
despedaçado pela lua
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O melhor agora? - perguntas
não ouvir nem ver
passar esta ponte sem ver o abismo,
sem sentir a queda na torrente fria
para que nada doa
nem os ecos de tristeza
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a sorte de quem ama
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A (in)cultura

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Faro Capital da Cultura começa amanhã. Esta manhã atravessei perpendicularmente a cidade por duas vezes e não vislumbrei o mais pequeno indício desse facto, à excepção do velho palco de sempre junto à doca. Condescendo que seja má vontade da minha parte, mas cheira-me a princípio de fiasco. Já agora, alguém sabe qual é o site internet do evento, qual a sede da organização e onde se pode obter a informação da programação?
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quinta-feira, abril 28, 2005

Vago

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Vago segredo o de um olhar transparente, fixo
sem resposta
O silêncio de uma distância insuportável
de uma vida sem luz
sem tempo e sem espaço
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Vejo, em ti, a luz que derruba a crista das ondas
E os remoinhos que se atravessam
no fluxo da vida
Como se somente a própria mão de Deus
Fosse o teu Verbo
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Nos versos procuro o teu poema mais belo
Aquele que exprime o que não existe em palavras
E que o mundo desconhece
em pureza
e esplendor
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Mesmo quando dentro de mim
batem negras asas
e não há segredo algum entre os sentimentos conhecidos
É o mortal desejo
que me obceca
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E deflagra o vazio da minha existência
Mendigo de olhos fechados
o instante de uma vida
ainda que para novamente naufragar
e dar à praia num monte de escombros
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Flutuando na vazante
celebrando o amor
que sobreviveu às cinzas do fogo na floresta sombria
e se perpetua
na memória dos homens do mar
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Apesar do Levante contínuo que sopra.

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terça-feira, abril 26, 2005

Profecia

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Sinto hoje na minha escrita
uma dor de ruas vazias
e muros garatujados a graffitti
cujas palavras vazias nada dizem
e apenas empobrecem
a alma de quem as lê de passagem
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Palavras sujas, gastas e sem viço
pedem-me a misericórdia de um fim
que lhes poupe o desassossego
de uma escrita moribunda
reflexo de uma alma por sarar
incapaz de agarrar o mais ténue sinal
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Eis o tardio fim próximo da escrita
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quinta-feira, abril 21, 2005

Vida

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Não consintas
que apague o teu divino alento
nem o brilho no teu olhar
com o meu insuportável padecer.
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terça-feira, abril 19, 2005

Post-it de Abril

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Nas traseiras da casa ouvir o regato
o abanar da rama da oliveira
junto à velha eira
e o riso desencontrado dos gaiatos

sentir a chegada do Verão
dobrar o casaco debaixo do braço
libertar-te num abraço
segurar-te ternamente na mão
.
trocar um beijo sem jeito
encostar a cabeça ao teu peito
fazer-te feliz por benção e direito
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Flutuar

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Passares sobre a mágoa
e uma existência dolorosa
como se nada tivesse sucedido
e lentamente se apagarem
os traços do negrume
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assim te deites
sem te perderes.
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Seca

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Entre os teus lábios e a minha voz
algo haverá de matar a sede delirante
que evapora a água
e nos seca as palavras
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Prece

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Oferece-me um lírio
prometo-te que as próximas Palavras
derrubarão a Angústia petrificada
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segunda-feira, abril 18, 2005

Tempestade II

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as crianças
os risos
a razão
as lágrimas
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os meus relâmpagos sem fim
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sms

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cerrar os lábios
para evitar proferir o amor
em palavras densas como sangue
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Instantes

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Parar
seria matar o coração
e forçar-me a ressuscitar
para viver os instantes
em suspensão.
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El Rocío

Volta-se por prazer. Com saudade e vontade de ver o que mudou. Com encanto, como na primeira vez, vemos que tudo está igual. O lugar da romaria, as comunidades, a religiosidade do sítio, a fé, os preparativos ano após ano. As ruas de terra, porque o asfalto e os passeios simplesmente não existem, não há casas com mais do que o primeiro andar e a ermida é o edifício mais alto. Apetece ficar um pouco, apesar do calor e do pó sufocantes, sobretudo no Verão, ou em dias de festa. Passear à beira do braço de Guadalquivir que ali chega, onde os cavalos se banham para a procissão, os peregrinos purificam a alma e livram o corpo do pó do caminho. Pentecostes. Neste ano calha a 16 de Maio a grande romaria a El Rocío del Condado, localidade encerrada no meio do Parque Natural Doñana, Património da Unesco, no coração da Andaluzia, perdida no tempo e na fé dos homens. Imperdível, pelo menos uma vez na vida, como a fiesta em Pamplona, imortalizada por Hemingway antes de se refugiar em Havana. Perceber Espanha, odiar os ventos e os casamentos, mas aceitar que tão perto, as coisas possam ser tão diferentes. E gostar-se, mesmo assim, desse Sul. Muito.

Marginal

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regresso ao cabo de um ano
e seis meses ou mais
para o mundo das coisas reais
algumas de que nunca falei
e que a vida encerra
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depois, pouco depois
do retorno dos pássaros migradores
após o último erguer digno de cabeça
do velho engraxador da marginal
em véspera de finados
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amei a mulher,
a sua sombra, a água e o sal
do mar encurralado dentro de si
e na busca disso me perco
rente ao fundo do meu último dia
[de vida]
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perdi o seu olhar,
no meio de uma névoa aspergida
por sobre águas de devoção
onde deambulo vagarosa e cegamente
ao sabor dos ventos do momento.
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se vivo? marginalmente
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quinta-feira, abril 14, 2005

Mal-se-quer

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É este, o tempo antes do gelo
belo, como uma caravela
sem cor, sem escuridão,
apenas branco como uma estátua
de mármore num sepulcro antigo
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É este, o tempo da lua, da distância
da minha doce solidão
de ouvir as vozes do vento
e a aragem vibrante,
do calor terno do Sol distante
.
É este, o tempo em que sou neve
espaço etéreo, ser ausente
sem relevo, como um camponês
ou Caronte sem vara, a caminho
do Purgatório
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É este o fio da água
que lentamente se esvai
e humildemente me leva a vida
e eu, seu cúmplice, assisto imóvel
ao meu lento suicídio
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como uma flor sem pétalas
a quem somente mal-se-quer.
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terça-feira, abril 12, 2005

Alma oceânica

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Eis a noite escura
das sombras trémulas
a hora nostálgica
da ronda da alma oceânica sem guaridas
da luz desbocada de todas as coisas
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Eis a hora em que me silencio
num lugar povoado de ecos
onde te dou a mão e sigo o caminho
de dentes cerrados
sem escutar as almas que o assombram
.
Contra as (in)certezas do quotidiano.
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segunda-feira, abril 11, 2005

[?]

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Não aconteceu nada
foram apenas estilhaços
da tempestade de ontem
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Horizonte

as fotos
os textos
os desatres
a penumbra de um quarto
a exaustão
os risos
a pele queimada nas dunas
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desejos que dão à costa
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Migração

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Suspenso,
ilumino-me
derreto-me
enquanto contemplo a ave saltitante
a comer as migalhas
que lhe atiras
no fim da migração
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Luto

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Manchas amarelecidas no papel
tinta nas veias
branca desolação
gota-a-gota
.
onde estás?
esquece,
não navego
apenas escrevo as palavras mais cruéis
a que dão asas a alucinação e a ilusão
de te amar
enquanto luto por perder a memória
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Corvos

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É o princípio do sono
os sinais que chegam lentamente
enquanto dou por mim a enumerar
até à exaustão
a fragilidade dos meus dias
que atravesso sem queixumes
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Anoiteça ou amanheça
derreta ao calor ou me enregele o frio
tanto me faz
desde que adormeça sob este torpor
frágil
e os gritos catastróficos dos corvos.
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Intemporal

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Diz-me - não me mintas -
que não sou de tempo algum
e deambulo pela infância
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Risos

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Vejo, no teu riso,
toda a inocência
da infância
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Totobosta

Em Sanfins, concelho de Paços de Ferreira, o clube local andava carenciado de fundos. Vai daí, a necessidade aguçou, como tantas vezes o faz, o engenho e promoveu rija festa popular, com quermesse, cantares e lotaria popular com três prémios. 250 Euros e um borrego para o terceiro prémio, 500 Euros e um porco para o segundo e 1.000 Euros e um touro para o primeiro. Tudo muito certo, excepto a escolha original do croupier, que recaiu sobre uma... vaca! O leitor, espantado, perguntará como é isto possível?! Enfim, em Sanfins existe um largo central cujo piso é um empedrado quadriculado, tendo a cada quadrículas sido atribuído um número. A cada número correspondeu, evidentemente, uma rifa. O sorteio foi depois feito com a largada de uma vaca no terreiro, sendo os três felizes contemplados os titulares dos números correspondentes às quadrículas em que o bovino depositasse os restos do repasto do dia anterior. Nada mais simples portanto. Confesso que começo a ter fé no futuro deste país.
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sexta-feira, abril 08, 2005

"Marinero del Rocío"

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Quantos corações
no teu recanto
Quantos ciprestes
no teu pranto
Quantos dilemas
no teu canto
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Ingênua inocência
raparigas em flor
no bairro madrugador
mora a confluência
teu amor
.
triste marinheiro
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quarta-feira, abril 06, 2005

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Durmo no imenso mar
E atravesso os dias

(Adeus Comandante)
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terça-feira, abril 05, 2005

À noite

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Trazes do teu fundo
a raiz significativa das coisas
o teu próprio movimento pendular
o firmamento
a energia sem fôlego da infância
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Trazes o pavor
a alucinação da felicidade
que recuso a duas mãos
dentro do meu espaço pulmonar
ocupado por uma pedra
.
Ferve-me nas veias o sangue
intoxicado pelos sentidos
e a selvática voragem
que me consome a existência
rebelde
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Pela manhã tudo se atenua
sob o brilho elementar do Sol
nos jardins onde apenas Deus dança
ao som das nossas truculentas
metáforas calcinadas
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Respiro
um delírio tangencial
equilibrado na frágil estrutura
de um lírio branco
assexuado e sem raiz significativa
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segunda-feira, abril 04, 2005

sexta-feira, abril 01, 2005

Basta, por hoje...

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Uma chuva abrupta de sentimentos
[metamórficos]
fissura o tempo
e as palavras gastas
de um poema liso
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como pedras de calçada
alternadamente polidas
por uma vida fodida
e ruas vazias
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