terça-feira, março 02, 2004
O silêncio
O que me incomoda ao olhar estas salas de estar a caminho do almoço? As janelas baixas, abertas para o sol vagaroso. A intimidade de uma casa exposta a quem passa na rua. Ao fundo um armário com peças de porcelana e meia dúzia de livros (um atlas, um dicionário, três ou quatro volumes de uma enciclopédia?). Um relógio de pêndulo. Uma camilha. Uma televisão. E um sofá onde não tardará alguém a sentar-se.
O almoço
Sentamo-nos, como de costume, na mesa do canto. As nossas conversas repetem os temas dos noticiários radiofónicos da manhã ou dos telejornais da noite anterior. Falamos mal do país, chamamos-lhe esta choldra. Olhamos a televisão pelo canto do olho, lemos os títulos que passam em rodapé. Ferreira Torres, Valentim Loureiro, a Brigada de Trânsito, as lixeiras, a disciplina de voto, o desemprego, Sousa Franco, Felgueiras, Figueiredo, o aborto, o PP, a Casa Pia, a Europa. Não avançamos com uma ideia, não nos propomos agir, não esboçamos um projecto. Não passamos já de um desabafo ou de um ou outro comentário irónico. Ácido. Como se estivéssemos num plano diferente. Como se não estivéssemos nós mesmos enterrados até ao pescoço nesta choldra que já nem propriamente nos afecta, e que apenas comentamos com distanciamento durante o almoço, de passagem, ausentes, rendidos.
Segirei
Comecei a ler Miguel Delibes muito cedo. E comecei, claro, por Mis amigas las truchas. Eu pescava desde criança, e essa doença ia crescendo com o tempo. Mas só então, quando o meu amigo Miguel Cunha me emprestou o livro (ele que estava fascinado também com o Diario de un cazador e La caza de la perdiz roja), compreendi, corrompido pelo poder transfigurador da literatura, que ao acto de pescar à pluma estava inerente uma ética e uma estética de que não poderia libertar-me. Continuo (eu ia a dizer religiosamente) esse ritual de me procurar. À procura das águas límpidas de um rio de montanha, a confrontar-me com as manhãs muito frias de Março, a confirmar que não desapareceram ainda as árvores que comecei a conhecer muito cedo pelos seus nomes e a distinguir pela forma de inserção dos ramos ou pela rugosidade do tronco. Na próxima quinta feira, três dias depois do primeiro dia do ano (que é o primeiro de Março), estarei nas margens de um rio a fazer um lançamento como quem decide uma vida.
segunda-feira, março 01, 2004
Porphyrio porphirio
A galinha sultana (ou caimão, ou camão...) estava praticamente extinta no nosso país em meados dos anos oitenta. O Ludo, no Parque Natural da Ria Formosa, era o único local de reprodução confirmado. Hoje nidifica já em vários locais do país, nomeadamente na sequência de programas de reintrodução da espécie. Mas na origem de tudo isto está o excelente trabalho que tem sido levado a cabo pelos espanhóis, em Doñana, nomeadamente através dos projectos de recuperação em cativeiro. Pois: falar em conservação da natureza, em alguns países, não é ainda motivo para que alguém puxe de imediato da pistola... Por cá, e cada vez mais, conservação das espécies associa-se de imediato a complicações na aprovação de loteamentos. E como a gente precisa é de loteamentos...
Seja como for, anuncie-se que o limite oriental de nidificação da galinha sultana, no Algarve, deixou de ser a Quinta de Marim: está confirmada a sua reprodução até junto do Guadiana, nos sapais de Castro Marim e Vila Real de Santo António.
Estas notícias poderiam deixar-nos orgulhosos. Se as merecêssemos. Assim, desculpe-se o parêntesis e continuemos a discutir a grande questão dos candidatos a candidatos às eleições presidenciais.
Seja como for, anuncie-se que o limite oriental de nidificação da galinha sultana, no Algarve, deixou de ser a Quinta de Marim: está confirmada a sua reprodução até junto do Guadiana, nos sapais de Castro Marim e Vila Real de Santo António.
Estas notícias poderiam deixar-nos orgulhosos. Se as merecêssemos. Assim, desculpe-se o parêntesis e continuemos a discutir a grande questão dos candidatos a candidatos às eleições presidenciais.
Para descer ainda mais o nível, já agora
Alho. Se a estatueta da Academia tivesse apelido, talvez este não fosse despropositado.
domingo, fevereiro 29, 2004
Os amigos
Os amigos é no Inverno que regressam. Para partilhar o lume e ajudar a cortar a lenha e a arrumá-la no telheiro. Para afastar o vento e a tempestade. Para garantir que a noite não desce sobre os pátios mais que a sua própria sombra.
sexta-feira, fevereiro 27, 2004
Nada de novo
Hoje de manhã, na Assembleia da República, repetiram-se os argumentos que, adivinha-se, continuarão a ser repisados até à exaustão: o PS responsabiliza o Governo pela recessão económica do país; o Governo responsabiliza o PS pelo estado calamitoso em que deixou as finanças públicas.
Apresentam argumentos tão convincentes que há quem comece a acreditar que ambos têm razão.
Apresentam argumentos tão convincentes que há quem comece a acreditar que ambos têm razão.
quinta-feira, fevereiro 26, 2004
Um congresso no Barroso
[a visita de campo]
O congressista de Santo Tirso não resiste a
insurgir-se contra a ignorância e a falta de cultura
de um povo que substitui o castanho por caixilhos
de alumínio e o colmo por telha marselhesa.
Fala em voz alta erguendo as golas do sobretudo e
quase tropeçando na calçada irregular: um destes
dias não há especificidade que nos valha, tradição
que permaneça. O vigário João Dias de Moura terá
pisado estas mesmas pedras com motivações
diversas a caminho da casa paroquial nos primeiros
dias de Março de 1758. Satisfazendo a ordem
da Corte do munto Reverendo Senhor Doutor Bento
de Carvalho e Faria, Vigário Geral no espiritual e
temporal, juiz dos residuos e casamentos,
recolhe-se à tábua do escano a responder
ao inquérito. Como é possível que alguém possa
querer saber deste fim do mundo, e incomodá-lo
com despropositadas indagações sobre o
orago e as irmandades, e se tem conventos e
hospital, e se a feira é franca ou cativa, e se tem ou
teve cousas ou pessoas dignas de memória?
Contendo-se, apurando a caligrafia, sempre dirá
que a freguesia se localiza em setio munto alto e de
todas as mais partes cercada de montes ásperos
em os quais assiste neve munta parte do anno.
Que a terra hé pobre e que vivem os avitadores
della bastantemente vexados por causa do pouco
rendimento e rigorosos frios. E que da cidade de
Lisboa («ouço dizer, mas nunca aí passei e nem sei
de certo») dista sessenta e seis legoas.
Isto conta o dr. Magalhães aos que resistem
ao frio que começa a cortar como facas no
descampado do largo do meio da aldeia.
Mas o congressista de Santo Tirso, fechado
no autocarro e esfregando desesperadamente
as mãos, já não ouve a prédica e está cheio de
pressa de arrancar dali e beber um chá de cidreira
no bar da estalagem de Carvalhelhos.
O congressista de Santo Tirso não resiste a
insurgir-se contra a ignorância e a falta de cultura
de um povo que substitui o castanho por caixilhos
de alumínio e o colmo por telha marselhesa.
Fala em voz alta erguendo as golas do sobretudo e
quase tropeçando na calçada irregular: um destes
dias não há especificidade que nos valha, tradição
que permaneça. O vigário João Dias de Moura terá
pisado estas mesmas pedras com motivações
diversas a caminho da casa paroquial nos primeiros
dias de Março de 1758. Satisfazendo a ordem
da Corte do munto Reverendo Senhor Doutor Bento
de Carvalho e Faria, Vigário Geral no espiritual e
temporal, juiz dos residuos e casamentos,
recolhe-se à tábua do escano a responder
ao inquérito. Como é possível que alguém possa
querer saber deste fim do mundo, e incomodá-lo
com despropositadas indagações sobre o
orago e as irmandades, e se tem conventos e
hospital, e se a feira é franca ou cativa, e se tem ou
teve cousas ou pessoas dignas de memória?
Contendo-se, apurando a caligrafia, sempre dirá
que a freguesia se localiza em setio munto alto e de
todas as mais partes cercada de montes ásperos
em os quais assiste neve munta parte do anno.
Que a terra hé pobre e que vivem os avitadores
della bastantemente vexados por causa do pouco
rendimento e rigorosos frios. E que da cidade de
Lisboa («ouço dizer, mas nunca aí passei e nem sei
de certo») dista sessenta e seis legoas.
Isto conta o dr. Magalhães aos que resistem
ao frio que começa a cortar como facas no
descampado do largo do meio da aldeia.
Mas o congressista de Santo Tirso, fechado
no autocarro e esfregando desesperadamente
as mãos, já não ouve a prédica e está cheio de
pressa de arrancar dali e beber um chá de cidreira
no bar da estalagem de Carvalhelhos.
quarta-feira, fevereiro 25, 2004
As águas
As águas, o seu rumor durante a noite. As águas do Verão e as águas do Inverno. A água da nascente da mina, a água dos canais dos campos das Trindades, a água das levadas, a água das presas, a água das tornas, as águas de lima, as águas sesserigas, a água de herdeiros, a água do povo.
segunda-feira, fevereiro 23, 2004
Os milagres
No fim da manhã, quando a névoa sobe a encosta e começa a erguer-se nas cumeadas, antes do cinzento do inverno se espalhar de novo de um a outro lado do vale, há um instante breve em que o céu se descobre e o azul e o verde quase se confundem.
A noite
Como numa corrida de estafetas, a manhã começa com os testemunhos que a noite lhe transmite: com as suas águas e as suas sombras, com as suas luzes e os seus rumores.
domingo, fevereiro 22, 2004
O frio e as palavras que o definem
umpoucomaisdesul partiu em direcção ao Norte. Oitocentos quilómetros mais tarde parou em Terras do Barroso. Depois do jantar, o pára-brisas do carro tinha dois centímetros de gelo. De manhã não havia água: a água, durante a noite, congelou nos canos. Agora começou a nevar e as mãos permanecem engaranhadas. E ter as mãos engaranhadas é uma justificação tão boa como qualquer outra para não actualizar o blogue.
sexta-feira, fevereiro 20, 2004
Antes de partir
Sem lua, a copa das árvores mal se recorta contra o céu. É preciso habituar o olhar, não ter pressa, ficar durante muito tempo a olhá-las até a sombra ser quase diáfana. E então, aos poucos, identificar uma árvore de entre o conjunto do pomar, e depois um tronco, e depois um ramo, e depois uma folha, e depois uma flor. Do outro lado, subindo à varanda, adivinha-se o mar. Nenhuma luz, nenhum espelho nos devolve essas águas, esse sobressalto sem nome do levante. Mas o rumor do sudeste nasce do fundo da terra e propaga-se em ondas que é possível recolher deixando as mãos assim por instantes, abertas em concha, à espera das coisas que a noite reconhece como suas.
Quando em Circe
Quando em Circe de súbito encontraste
Essa baía meiga onde aportar
Tu, ulisses, urdidor de ventos e caminhos,
Que ilha por ilha em vão buscaste
Ítaca, a misteriosa, sobre o mar,
Festejaste com mel, canções e vinhos
Essas luas altas que beijaram o teu navio;
E a brisa difluindo veio ver
A flor estranha dos deuses em cuja haste
Cresceste para o sol, por esse rio
Que navegaste ao doce anoitecer
Quando Circe de súbito encontraste.
[Fernando Cabrita: O Sul - poemas algarvios]
Essa baía meiga onde aportar
Tu, ulisses, urdidor de ventos e caminhos,
Que ilha por ilha em vão buscaste
Ítaca, a misteriosa, sobre o mar,
Festejaste com mel, canções e vinhos
Essas luas altas que beijaram o teu navio;
E a brisa difluindo veio ver
A flor estranha dos deuses em cuja haste
Cresceste para o sol, por esse rio
Que navegaste ao doce anoitecer
Quando Circe de súbito encontraste.
[Fernando Cabrita: O Sul - poemas algarvios]
quarta-feira, fevereiro 18, 2004
A lentidão
Vai assim o Inverno: sem vento, sem chuva, sem frio, como se fosse uma espécie de Primavera precária e envergonhada. Mas o pior é esta luz sem contrastes. Uma luz que obscurece ligeiramente a cal e não chega a marcar no chão a sombra dos muros. Que quase não separa o céu e a linha do horizonte. Que poisa indiferentemente sobre as coisas e as dilui numa espécie de névoa onde a nenhuma delas é permitido um nome ou uma identidade. Que deixa as pessoas ausentes de si mesmas, como se estivessem doentes sem o saberem, ou como se estivessem adormecidas mesmo quando correm na rua atrás do autocarro.
terça-feira, fevereiro 17, 2004
Riscos
Há quem falte aos treinos. E há quem corra tanto nos treinos que se arrisca a cair desamparado junto à linha de partida antes mesmo de verdadeiramente a corrida começar.
É a vida
O julgamento de Aveiro terminou com a absolvição dos arguidos no processo de aborto clandestino. O líder parlamentar do PSD, partido que votará contra os projectos da oposição que visam a alteração da lei que criminaliza o aborto, disse ter recebido a decisão judicial «com satisfação», acrescentando que «ninguém é insensível ao risco de aplicar uma pena de privação de liberdade por uma situação que é em si mesma penalizadora».
Notícias
O Pedro Lomba deixa a blogosfera. O Pedro Mexia passará a actualizar o blogue de 15 em 15 dias.
Não são boas notícias.
Não são boas notícias.
segunda-feira, fevereiro 16, 2004
O índice ETM
António Cartaxo, presidente do Sindicato dos Profissionais de Polícia, manifesta-se a favor de alguma tolerância para com situações de infracção de trânsito, que de resto «é comum em muitas localidades».
Ora eu pensava que aos agentes da autoridade não competia ser tolerante nem intolerante, mas muito simplesmente fazer cumprir a lei. Por isso nunca discuti com um polícia nas quatro ou cinco vezes em que fui autuado.
Pois fico agora a saber que a polícia tem poder discricionário, e que ser multado pode ter mais a ver com o Estado de Tolerância Momentâneo do agente do que propriamente com as normas legais.
Talvez não fosse mau rever os manuais do código da estrada. Sobre estacionamento, por exemplo, proponho a seguinte redacção: «estacionar em cima do passeio é proibido, desde que a autoridade não esteja disponível para manifestar alguma tolerância».
Ora eu pensava que aos agentes da autoridade não competia ser tolerante nem intolerante, mas muito simplesmente fazer cumprir a lei. Por isso nunca discuti com um polícia nas quatro ou cinco vezes em que fui autuado.
Pois fico agora a saber que a polícia tem poder discricionário, e que ser multado pode ter mais a ver com o Estado de Tolerância Momentâneo do agente do que propriamente com as normas legais.
Talvez não fosse mau rever os manuais do código da estrada. Sobre estacionamento, por exemplo, proponho a seguinte redacção: «estacionar em cima do passeio é proibido, desde que a autoridade não esteja disponível para manifestar alguma tolerância».
domingo, fevereiro 15, 2004
É assim que se começa
A Luís Delgado (cf. DN, 6ª feira) não basta que uma lei proíba os condutores de conduzir sob o efeito do álcool. Não basta, sequer, que a venda de bebidas alcoólicas nas auto-estradas seja proibida. É preciso que exista «uma punição acrescida para quem tenha bebidas alcoólicas nas viaturas». Porquê? «Para se evitar a esperteza nacional dos que se abastecem antes de entrar numa auto-estrada»...
Ora Luís Delgado não está a ver bem a coisa. É que, seguindo o raciocínio, é necessário proibir igualmente a venda de bebidas alcoólicas nos restaurantes das estradas nacionais: exactamente para se evitar «a esperteza nacional» dos que saem da auto-estrada nas imediações da Mealhada, pedem uma dose de leitão e dois litros de vinho, e regressam meia hora depois.
E, já agora, é necessária também «uma punição acrescida» para quem tenha bebidas em casa: exactamente para se evitar «a esperteza nacional» dos que bebem em casa antes de se meterem à auto-estrada.
Isto, claro, anda tudo ligado: o sr. primeiro-ministro já anunciou a possibilidade de legislar no sentido de responsabilizar quem adoece. O discurso sobre os toxicodependentes que não seguiram os bons conselhos da família e dos amigos, e que portanto deverão perder direitos no acesso aos cuidados públicos de saúde, inscreve-se no mesmo ímpeto de retrocesso civilizacional que devia deixar-nos preocupados.
Ora Luís Delgado não está a ver bem a coisa. É que, seguindo o raciocínio, é necessário proibir igualmente a venda de bebidas alcoólicas nos restaurantes das estradas nacionais: exactamente para se evitar «a esperteza nacional» dos que saem da auto-estrada nas imediações da Mealhada, pedem uma dose de leitão e dois litros de vinho, e regressam meia hora depois.
E, já agora, é necessária também «uma punição acrescida» para quem tenha bebidas em casa: exactamente para se evitar «a esperteza nacional» dos que bebem em casa antes de se meterem à auto-estrada.
Isto, claro, anda tudo ligado: o sr. primeiro-ministro já anunciou a possibilidade de legislar no sentido de responsabilizar quem adoece. O discurso sobre os toxicodependentes que não seguiram os bons conselhos da família e dos amigos, e que portanto deverão perder direitos no acesso aos cuidados públicos de saúde, inscreve-se no mesmo ímpeto de retrocesso civilizacional que devia deixar-nos preocupados.
Mosaicos a um lado, rodapés a outro
Eu devo ser proibido de fumar num espaço fechado em que incomode o sr. Luís Delgado ou qualquer outro não-fumador. Eu devo ser proibido de conduzir alcoolizado, colocando em risco a vida de terceiros. O sr. Luís Delgado, no entanto, não deve poder proibir-me de fumar. O sr. Luís Delgado, no entanto, não deve poder proibir-me de levar uma garrafa de medronho de Monchique dentro do carro, no próximo fim de semana, quando entrar na auto-estrada do Sul a caminho de Trás-os-Montes.
Os albricoques
Não deixa de ser curioso que venha exactamente da esquerda este incómodo pelos que resistem a um programa de proibições que vai acabar, não tarda, na impossibilidade de se comer um albricoque colhido directamente da árvore sem a supervisão da Comunidade Europeia ou sem o carimbo de visto prévio de um qualquer organismo presidido pelo sr. Luís Delgado...
sábado, fevereiro 14, 2004
A partida
[Granja, 1970]
São poucas as palavras
no mapa da europa não cabem os
lugares da infância
não tarda que a luz amanheça e se
aproxime do pátio
As mulheres da casa acendem o
lume sem o peso das lágrimas
enchem os cântaros com
água de nascente
misturam nos púcaros o
sobressaltado aroma da urze
Um homem afasta-se
nunca os caminhos do largo
foram tão difíceis
uma fronteira é o lugar que separa a
fidelidade da
sua própria sombra
não tarda que a luz amanheça
mais pobre
São poucas as palavras
no mapa da europa não cabem os
lugares da infância
não tarda que a luz amanheça e se
aproxime do pátio
As mulheres da casa acendem o
lume sem o peso das lágrimas
enchem os cântaros com
água de nascente
misturam nos púcaros o
sobressaltado aroma da urze
Um homem afasta-se
nunca os caminhos do largo
foram tão difíceis
uma fronteira é o lugar que separa a
fidelidade da
sua própria sombra
não tarda que a luz amanheça
mais pobre
sexta-feira, fevereiro 13, 2004
Última estação
De que lado vem a tempestade
quando as folhas do negrilho
uma a uma
se desprendem dos seus ramos velhos
e o escorpião do medo se
acolhe em segredo ao
que ficar da luz de setembro
para prolongar
a sede
quando as folhas do negrilho
uma a uma
se desprendem dos seus ramos velhos
e o escorpião do medo se
acolhe em segredo ao
que ficar da luz de setembro
para prolongar
a sede
quinta-feira, fevereiro 12, 2004
As plantas de interior
Regressou tarde e compreendeu que nada já podia
pertencer-lhe: a abóbada do vale, a linha
sinuosa do talvegue, os campos alagados
de novembro, os amieiros a estender pelo fim da
tarde a sua inúmera sombra nas encostas
da umbria. Por isso mesmo, para que o fio do
horizonte ou um negrilho não pudessem
conceder-lhe, chegando-se ao alpendre ou à
pedra da escaleira, inadvertidamente,
nenhuma das imagens desse tempo, fechou um dia
a cancela do pátio e mandou subir os seus muros.
Que às águas do universo não seja dado
agora moverem-se para além dos pequenos
vasos e dos indecisos caules
das plantas amestradas: as arálias, a flor
de inverno das azáleas, o veneno dissimulado
do loendro, as araucárias de Norfolk sem a
memória do vento ou da estação das chuvas.
pertencer-lhe: a abóbada do vale, a linha
sinuosa do talvegue, os campos alagados
de novembro, os amieiros a estender pelo fim da
tarde a sua inúmera sombra nas encostas
da umbria. Por isso mesmo, para que o fio do
horizonte ou um negrilho não pudessem
conceder-lhe, chegando-se ao alpendre ou à
pedra da escaleira, inadvertidamente,
nenhuma das imagens desse tempo, fechou um dia
a cancela do pátio e mandou subir os seus muros.
Que às águas do universo não seja dado
agora moverem-se para além dos pequenos
vasos e dos indecisos caules
das plantas amestradas: as arálias, a flor
de inverno das azáleas, o veneno dissimulado
do loendro, as araucárias de Norfolk sem a
memória do vento ou da estação das chuvas.
Anti-americanismo quê?
Ó Francisco, por amor de Deus: se, suponhamos, a Ruth Marlene mostrasse a mamoca no intervalo da final da Taça, achas que alguém ia pedir à Assembleia da República para abrir um inquérito?
quarta-feira, fevereiro 11, 2004
Pois não parece
João Soares considera que «a questão da liderança do PS deve colocar-se no final deste ano, após o PS sair vitorioso das eleições europeias e regionais». Divulgada no mesmo dia, quase encadeada, há qualquer coisa de estranho na notícia de que «os portugueses são os mais pessimistas da União Europeia»...
Também não exageremos
Na convenção do Compromisso Portugal, António Borges explicou que «o problema número um da produtividade em Portugal reside no nível de gestão», enquanto que Jorge Armindo, presidente da Portucel, sublinhou a necessidade de empresários e gestores assumirem as suas responsabilidades, até porque «a ineficiência do Estado serve muitas vezes para justificar a ineficiência dos gestores». Tudo muito bem. Mas neste contexto parece claramente excessiva a posição do presidente do BPI ao defender a liberalização total do despedimento colectivo e individual. Que diabo: a possibilidade de despedimento de gestores e empresários está dependente de alterações assim tão radicais das leis laborais?...
terça-feira, fevereiro 10, 2004
Tinham saído todos
Não perguntas nem respondes. Tinham saído
todos, levavam para sempre os livros
e os discos como quem partilha o espólio
dum naufrágio, garrafas vazias, cartas
de jogar. Um deles olhou ainda por instantes
o que ficava no espelho de sombra
da parede. É tão difícil a renúncia, o logro,
o exílio. Lá fora a noite convidava
ao delírio, não custa inventar
motivos que justifiquem a traição.
todos, levavam para sempre os livros
e os discos como quem partilha o espólio
dum naufrágio, garrafas vazias, cartas
de jogar. Um deles olhou ainda por instantes
o que ficava no espelho de sombra
da parede. É tão difícil a renúncia, o logro,
o exílio. Lá fora a noite convidava
ao delírio, não custa inventar
motivos que justifiquem a traição.
O desenho da paisagem
De muito longe vem este desenho, esta caligrafia de pequenos nomes quase adormecidos no pátio: da agra fora das argilas, do moinho da margem, dos lugares do negrilho e do choupo, dos muros, dos canais de rega, do regadio conforme a aluvião. Como em casa os lugares da mesa, da cama, do cântaro com água.
A memória dos amigos que morreram
É então que o inverno se afasta da própria sombra. Como se a fidelidade fosse o contrário da tristeza e o inverno se afastasse vagarosamente, antes da neve, da própria sombra.
Tudo o que se perde
Os amigos dividiam com a noite esse excesso de peso que o coração, de outro modo, abandonaria ao sobressalto da idade, ao medo de morrer afogado nos pátios interiores. Como se a luz sobreviesse aos meses mais frios.
A morte
Descer a pique até ao torpor e à ignomínia. Nos dias tocados de silêncio. Onde a morte e o que se move em gestos e música tropeça, por igual, num rosto de criança imprevisível.
Província
O enxofre dos pinheiros, os negrilhos em abril a recortar as suas folhas minúsculas para os cadernos de campo dos botânicos, as cartas do estrangeiro a traduzir a luz em caligrafias difíceis. Anoitece. Os automóveis repetem no asfalto o óleo das fábricas longínquas.
O futuro
Deixavam cedo as últimas casas e metiam-se
aos atalhos, às veredas do campo antes
do sol. Quase em segredo, quem os via da janela
corria à varanda, dava-lhes cigarros
e água, lenços bordados. Era já tarde que
paravam e finalmente se olhavam
nos olhos frios. Apertavam as mãos. Dividiam
saudações autógrafas como se o futuro
pudesse ruir a qualquer
instante, definitivo e sem aviso.
aos atalhos, às veredas do campo antes
do sol. Quase em segredo, quem os via da janela
corria à varanda, dava-lhes cigarros
e água, lenços bordados. Era já tarde que
paravam e finalmente se olhavam
nos olhos frios. Apertavam as mãos. Dividiam
saudações autógrafas como se o futuro
pudesse ruir a qualquer
instante, definitivo e sem aviso.
segunda-feira, fevereiro 09, 2004
Pelo sonho é que vamos
Não é ilegítimo sonhar: não é ilegítimo pensar que poderemos vir a ter Santana Lopes a presidir à República, Alberto João Jardim à Assembleia da República, Jorge Coelho ao Governo, Manuel Maria Carrilho à Câmara Municipal de Lisboa, Valentim Loureiro à Liga de Clubes (cargo vitalício) e Gilberto Madaíl à Federação Portuguesa de Futebol (idem). Mais afastada parece a hipótese de Avelino Ferreira Torres presidir à Associação Nacional de Municípios Portugueses. Mas nunca se sabe. Não é ilegítimo sonhar.
domingo, fevereiro 08, 2004
sexta-feira, fevereiro 06, 2004
Histórias da vida moderna (2)
O mundo rural: O finalista de antropologia, fascinado com as imagens de uma ruralidade intacta, saiu do autocarro e aproximou-se logo da senhora que fazia malha num banco de pedra junto ao tanque do meio da aldeia. Puxou do caderno de campo e perguntou se aquilo era um ponto antigo; e se estava a começar um xaile ou algum traje tradicional. A velha olhou-o devagar, como se não compreendesse bem, e respondeu que nem uma coisa nem outra. Que o neto tinha comprado um computador e que lhe estava apenas a fazer «uma capinha para o rato».
quinta-feira, fevereiro 05, 2004
É pra que saibam
O senhor Presidente da República portuguesa discursou na Universidade de Alesund no encerramento de um seminário empresarial. E explicou aos noruegueses, roídos de inveja e muito lestos a tirar notas do ensinamento, que «uma economia competitiva não é a que se baseia em baixos salários mas sim a que dispõe de um sistema produtivo moderno, inovador e tecnologicamente avançado, capaz de produzir bens e serviços de qualidade e valorizados nos mercados internacionais».
Histórias da vida moderna
1. O médico olhou o monitor com desalento e telefonou para o departamento de informática, já levemente irritado, a perguntar quando é que lhe vinham resolver os problemas do vírus.
2. A senhora desistiu a meio da primeira lição do curso de introdução aos computadores realizado no âmbito do processo de modernização da administração pública. De nada valeram os apelos e as palavras de incentivo do responsável técnico. Ela insistia que já não tinha cabeça nem mão para estas coisas. Que era do tempo em que só havia dois ratos: o rato da cidade e o rato do campo.
3. Era uma declaração de amor. Do João para a Fernanda. Enviada por mail. Mas o João, com as tremuras da paixão, enganou-se no endereço e a mensagem foi parar ao computador do Fernando. Fernando, felicíssimo, respondeu-lhe de imediato, a dizer que sentia o mesmo por ele, embora lhe tivesse sempre faltado coragem para o confessar.
2. A senhora desistiu a meio da primeira lição do curso de introdução aos computadores realizado no âmbito do processo de modernização da administração pública. De nada valeram os apelos e as palavras de incentivo do responsável técnico. Ela insistia que já não tinha cabeça nem mão para estas coisas. Que era do tempo em que só havia dois ratos: o rato da cidade e o rato do campo.
3. Era uma declaração de amor. Do João para a Fernanda. Enviada por mail. Mas o João, com as tremuras da paixão, enganou-se no endereço e a mensagem foi parar ao computador do Fernando. Fernando, felicíssimo, respondeu-lhe de imediato, a dizer que sentia o mesmo por ele, embora lhe tivesse sempre faltado coragem para o confessar.
quarta-feira, fevereiro 04, 2004
Ainda o futebol
Talvez alguém ainda se recorde do velho Norte Desportivo. Era um fascínio. Saíamos dum jogo de futebol e pouco tempo depois o jornal já estava à venda em quiosques, cafés, cervejarias, com os resultados e os comentários da jornada que mal findara. Era difícil compreender aquela eficácia, sobretudo num tempo em que não havia telemóveis nem computadores, quanto mais internet... O tio do meu amigo JP era redactor do Norte Desportivo. Certo dia foi-lhe distribuído o relato de um jogo do Farense, no S. Luís. Claro que não vinha de escantilhão por aí abaixo para fazer a crónica da partida... Tinha um contacto no Algarve. E aos cinco minutos de jogo lá estava ele a telefonar dum café nas imediações do estádio a dar a constituição das equipas e as primeiras impressões tácticas. Ao intervalo telefonava-lhe de novo. E no fim do jogo, ou com a partida quase no fim, corria mais uma vez ao café a ditar-lhe o resultado pela rede fixa dos CTT, quando o texto já estava quase pronto a entrar nas rotativas... Nessa tarde, no Porto, fazia um calor de rachar. Na redacção do jornal, o tio do meu amigo JP, sentado em frente à máquina de escrever, suava a maldizer a soalheira e a hora de fecho do Norte Desportivo, imaginando a leve brisa das praias algarvias nesse domingo escaldante de Junho. Mas a crónica saiu limpinha. Começava assim: «No Estádio de S. Luís, em Faro, numa tarde de intensa canícula, sob um sol escaldante...» Acontece que choveu do princípio ao fim do jogo. Uma daquelas trovoadas de Verão que acabou por se constituir como nota principal duma partida disputada num rectângulo de lama e relva levantada, e que o seu colaborador, no vórtice de relatar desmarcações e atitudes defensivas, se esqueceu de referenciar. Claro que o tio do meu amigo JP só soube disso mais tarde, já depois de a edição do Norte Desportivo estar impressa e milhares de pessoas terem lido a crónica de um jogo disputado num suposto dia de sol na cidade de Faro em que choveu como não há memória desde Noé.
terça-feira, fevereiro 03, 2004
O cerne da questão
O problema, diz um alto dirigente de um dos clubes em confronto no domingo à noite, é que «o fole não estava montado». Se estivesse, algumas das cadeiras arremessadas da bancada sobre a zona de acesso aos balneários não teriam acertado na cabeça do árbitro auxiliar nem colocado em risco a integridade física de outros intervenientes. Sempre protegia.
Ora este, bem vistas as coisas, é o cerne da questão: o fole...
Ora este, bem vistas as coisas, é o cerne da questão: o fole...
Faca na Liga
A propósito das ocorrências no final do Guimarães-Boavista, um alto dirigente da Liga de Clubes explicou que não se passou nada de especialmente grave; que, enfim, aquilo foi lamentável «sobretudo pela imagem que deu».
Ora nem mais...
Ora nem mais...
domingo, fevereiro 01, 2004
Uma mente brilhante
O futebol português é um universo demasiado pequeno para o génio de José Mourinho. O futebol português não merece José Mourinho. José Mourinho não cabe nas fronteiras estreitas e asfixiantes de um país onde teve a desdita de nascer. Portugal não merece José Mourinho. Os jogadores do F. C. Porto não merecem José Mourinho. José Mourinho, estrela de outra constelação, foi concebido para projectos mais grandiosos e horizontes mais vastos. Há-de haver um tempo em que o dez de Junho seja o «Dia de Camões, de Mourinho e das Comunidades Portuguesas». Se Camões ainda for lembrado e a Pátria não ensandecer.
sábado, janeiro 31, 2004
A função pública
Os estragos da campanha que tem vindo a ser feita contra a função pública hão-de perdurar por muito tempo. Têm um efeito terrível. Os muitos que já nada fazem continuarão a fazer o mesmo, legitimados agora por uma constatação oficial e institucional. Os muitos que trabalham e sempre trabalharam a sério é como se sentissem que estão a ser multados por excesso de zelo.
Reclusão
Depois de um breve período de semi-reclusão, regressemos, pois, ao mundo real: ao dos jornais e dos noticiários televisivos. Sabemos há muito que só acontece o que é notícia. Que os nossos assuntos de conversa se resumem ao que passa o crivo dos critérios editoriais. Por isso é estranho: é como se alguém tivesse vivido por mim estes últimos dias. Mais estranho ainda: intuir que era possível viver assim, num universo onde não se discute se o sr. dr. Alberto João Jardim poderá ser o próximo presidente da Assembleia da República nem os comentários ubíquos de Adelino Granja ou Pedro Namora misturam num mesmo tempo de discussão o processo da Casa Pia e o futuro do Partido Comunista.
sexta-feira, janeiro 30, 2004
Tapar o sol
Recolhes a peneira, a rede mosquiteira, as redes da armação, as redes metálicas de malha fina. As areias movediças vão ganhando espaço, desvias-te por instantes, sobes o talude quase a pique, instalas-te num plano mais elevado, juntas a tralha com método. Levantas então um dos objectos com os dois braços esticados na direcção dessa luz intensa, escolhes o ângulo certo. Mas a luz atravessa as malhas: um labirinto geométrico de sombras desenha-se no teu rosto, espalha-se no chão. Pegas de novo na peneira. E ficas assim a tarde, tentativa após tentativa, a ver se com ela consegues, por uma vez que seja, tapar o sol.
quinta-feira, janeiro 29, 2004
A comunicação
Lembras o tempo em que as palavras se erguiam contra a noite, subindo degraus, e uma linha separava com nitidez a água e a terra. Depois vieram as frases, e alguma coisa veio com as frases que continha o excesso, mas também a exaltação, mas também o que julgavas tão afastado do logro, da sombra, da insídia. A elas te rendeste. Às palavras, às frases, às suas imagens, a esse ruído. E um dia lamentas já não haver segredos para contar.
quarta-feira, janeiro 28, 2004
Retenções na fonte
Procuramos ainda no passado as explicações do logro. Levantamos as pedras onde adormeceu o escorpião da sombra, mergulhamos nos lagos à procura de papéis antigos, recolhemo-nos às salas iluminadas por janelas altas a decifrar manuscritos e variações nas cartas militares. Tudo pode justificar a omissão, o ardil. Mas olhamos depois as mãos em concha, inquietos, e é como se já não pudéssemos reter a água de nenhuma fonte.
Perceber todas as cousas
«Um especialista é um homem que sabe qualquer cousa de uma cousa e nada de todas as cousas. De uma cousa não se pode saber senão qualquer cousa, porque o conhecimento humano é limitado. E, para perceber qualquer cousa seria preciso perceber todas as cousas, pois uma cousa é parte de todas as cousas. O especialista, pois, é um homem que não sabe nada e vive d’essa sciencia.
O especialista é útil apenas quando a sua especialidade é tam restricta que não tem importância. Pode haver bons especialistas de pregar pregos; não pode haver bons especialistas de construcção de civilizações. Há muito bons cavadores e nenhum bom psychiatra.
O especialista é um homem que tem a opinião dos outros, embora sobre um só assumpto. O especialista é incapaz de iniciativa. Porisso os especialistas são muitos e felizes.»
Álvaro de Campos
In Vida e Obras do Engenheiro, Ed. Estampa. Org. Teresa Rita Lopes.
O especialista é útil apenas quando a sua especialidade é tam restricta que não tem importância. Pode haver bons especialistas de pregar pregos; não pode haver bons especialistas de construcção de civilizações. Há muito bons cavadores e nenhum bom psychiatra.
O especialista é um homem que tem a opinião dos outros, embora sobre um só assumpto. O especialista é incapaz de iniciativa. Porisso os especialistas são muitos e felizes.»
Álvaro de Campos
In Vida e Obras do Engenheiro, Ed. Estampa. Org. Teresa Rita Lopes.
terça-feira, janeiro 27, 2004
O silêncio
Há um instante preciso em que o tempo se suspende. Num mundo paralelo, longínquo, continuará o rumor das raízes das tílias a crescer, do musgo a crescer nos muros de pedra, dos óxidos a crescer nas fasquias abandonadas das obras, das maçãs do cedo a crescer nas hortas viradas ao sul, da tinta a descascar nos alçapões das casas da infância. Mas o céu, nesse instante preciso em que o tempo se suspende, reflecte apenas o vazio de um mundo que deixou de existir ou de fazer sentido.
segunda-feira, janeiro 26, 2004
Os regressos
Há um muro de cimento que se ergue entre quem espera e quem parte. Um mar de poeira levantada, estilhaços duma sombra a crescer desmesurada no asfalto e nos terreiros onde uma vez se dançou. Há quem um dia regresse e só então compreenda, atravessando o pátio ou subindo os degraus, que nunca como nessa altura esteve tão longe de casa, tão longe das coisas que desde sempre lhe pertenceram.
domingo, janeiro 25, 2004
[Actualização]
Este foi um jogo em que ninguém ganhou. Em que nem sequer houve repartição de pontos. Foi um daqueles raros jogos em que perdemos todos.
A paz, o amor, a concórdia
As raras vezes em que, por distracção, tropeço no Roberto Real, fico sempre com medo de que o oceano Atlântico desapareça com tanta aproximação de Portugal ao Brasil e vice-versa, ou que, quando muito, se transforme numa regueira que é possível atravessar a vau entre Esposende e Aracaju.
A noite
Já lá vem a noite
com seu abandono
com suas sandálias
tão mortas de sono.
A noite imperfeita
nos ramos mais altos
perdida nas áleas
cinzentas do outono
Já lá vem a noite
talhada na cólera
num rumor de pálpebras
que a sombra demora
Podia dizer-te
que nem o teu rosto
afasta a insónia,
nenhuma palavra,
nenhuma memória.
Podia esquecer-te
e acender o lume,
sentar-me à lareira,
fechar as portadas
Mas a noite cresce
com suas sandálias
num rumor de pálpebras
que a sombra demora
E é só o teu nome
o que recordo agora
com seu abandono
com suas sandálias
tão mortas de sono.
A noite imperfeita
nos ramos mais altos
perdida nas áleas
cinzentas do outono
Já lá vem a noite
talhada na cólera
num rumor de pálpebras
que a sombra demora
Podia dizer-te
que nem o teu rosto
afasta a insónia,
nenhuma palavra,
nenhuma memória.
Podia esquecer-te
e acender o lume,
sentar-me à lareira,
fechar as portadas
Mas a noite cresce
com suas sandálias
num rumor de pálpebras
que a sombra demora
E é só o teu nome
o que recordo agora
sábado, janeiro 24, 2004
Outra metodologia
José António Saraiva, na sua Política à Portuguesa, escreve: «Hesitamos, mesmo, sobre se valerá a pena o país continuar a existir - ou se não será mais sensato integrarmo-nos na Espanha, porque os espanhóis nos governariam melhor».
A ideia é excelente. Mas coloca inúmeros problemas de ordem prática. Alguns, quiçá, inultrapassáveis. Proponho outra metodologia: José António Saraiva pede a nacionalidade espanhola e passa a viver em Badajoz. Ele fica melhor governado, e nós sempre avançávamos um bocadinho. Sempre era um começo.
A ideia é excelente. Mas coloca inúmeros problemas de ordem prática. Alguns, quiçá, inultrapassáveis. Proponho outra metodologia: José António Saraiva pede a nacionalidade espanhola e passa a viver em Badajoz. Ele fica melhor governado, e nós sempre avançávamos um bocadinho. Sempre era um começo.
sexta-feira, janeiro 23, 2004
quinta-feira, janeiro 22, 2004
Ainda as amendoeiras, lamento...
Um amigo cujas opiniões muito prezo aconselhou-me aqui há uns dias a abandonar o tom lamechas e lírico do blogue e a passar a textos «interventivos». Explicava: «há por aí tanta coisa por onde intervir, e tu a falares dos fins de tarde e das amendoeiras em flor. Começa a não haver pachorra».
Aquilo tocou-me. E jurei para mim mesmo que não haveria de deixar aqui uma única referência aos azuis do crepúsculo nem às flores da Amigdalus comunis durante um mínimo de três semanas.
Pois este meu amigo hoje telefonou, eufórico, a perguntar-me se já tinha reparado na explosão de branco que as amendoeiras desenhavam na berma e nas imediações da estrada do Colégio do Alto.
Tive, claro, que lhe responder que não. Que ainda não tinha reparado. Que andava um bocado ocupado a ver se encadeava uns textos «interventivos».
Aquilo tocou-me. E jurei para mim mesmo que não haveria de deixar aqui uma única referência aos azuis do crepúsculo nem às flores da Amigdalus comunis durante um mínimo de três semanas.
Pois este meu amigo hoje telefonou, eufórico, a perguntar-me se já tinha reparado na explosão de branco que as amendoeiras desenhavam na berma e nas imediações da estrada do Colégio do Alto.
Tive, claro, que lhe responder que não. Que ainda não tinha reparado. Que andava um bocado ocupado a ver se encadeava uns textos «interventivos».
quarta-feira, janeiro 21, 2004
Cinco quê?
O número de emigrantes portugueses ronda praticamente os 5 milhões? O número de portugueses que emigrou em 2001 foi o menor dos últimos 20 anos? E mesmo assim emigraram mais de vinte mil portugueses? Quem é que anda a inventar estas notícias?
Por amor de Deus,
nós não emigramos. Quem
emigra
são as brasileiras
e os ucranianos.
Por amor de Deus,
nós não emigramos. Quem
emigra
são as brasileiras
e os ucranianos.
Má fila
A tolerância zero na EN 125, depois do tempo dos helicópteros a sobrevoar a via e o mais que se sabe, deu nisto: ultrapassagens em traço contínuo, desrespeito pelo vermelho nos semáforos controladores de velocidade, entradas nas rotundas à má fila, motociclistas em aceleração deitados sobre o depósito da máquina como se estivessem nas pistas de Jerez - o diabo a quatro.
Serei injusto, mas às vezes penso que a tolerância zero teve como principal objectivo apanhar-me no radar, numa manhã quase sem trânsito, quando circulava a despropósito a 60 Km/h na recta do Livramento.
Serei injusto, mas às vezes penso que a tolerância zero teve como principal objectivo apanhar-me no radar, numa manhã quase sem trânsito, quando circulava a despropósito a 60 Km/h na recta do Livramento.
terça-feira, janeiro 20, 2004
Um cometa (2)
[versão simplificada, para o T´z´ compreender]
Um avião levantou voo há cinco minutos do aeroporto de Faro.
Mal acomparado, é como se um cometa, neste fim de tarde, por um instante se elevasse no céu e deixasse um rasto de um amarelo quase vivo, quase incandescente, num percurso em sentido inverso, de baixo para cima, juntando fragmentos, contendo numa linha estreita as pequenas partículas que antes dispersara, contrariando a gravidade, subindo muito devagar, quase em câmara lenta.
Um avião levantou voo há cinco minutos do aeroporto de Faro.
Mal acomparado, é como se um cometa, neste fim de tarde, por um instante se elevasse no céu e deixasse um rasto de um amarelo quase vivo, quase incandescente, num percurso em sentido inverso, de baixo para cima, juntando fragmentos, contendo numa linha estreita as pequenas partículas que antes dispersara, contrariando a gravidade, subindo muito devagar, quase em câmara lenta.
O futebol
São dez da manhã. Tomo uma bica ao balcão. A meu lado, um sujeito bebe cerveja. Vai na segunda. Uma jovem aparece à entrada, acena-lhe, e ele responde: «Já vai». Na televisão começou há pouco a retransmissão do Belenenses-Estrela da Amadora. O sujeito da cerveja garante que foi um belíssimo jogo. Que vale a pena rever. Que o Estrela virou o resultado nos últimos cinco minutos. A jovem aparece de novo à porta do café. «Já vai», rosna o artista. Saio para a rua e vejo a jovem encostada à parede.
Não posso deixar de pensar que era melhor esperar sentada. Ou então deixá-lo. E fico a tremer de aflição só de imaginar que provavelmente não o deixa porque está apaixonada por ele.
Não posso deixar de pensar que era melhor esperar sentada. Ou então deixá-lo. E fico a tremer de aflição só de imaginar que provavelmente não o deixa porque está apaixonada por ele.
segunda-feira, janeiro 19, 2004
Um cometa
Por instantes, neste fim de tarde, um cometa eleva-se no céu e deixa um rasto de um amarelo quase vivo, quase incandescente, num percurso em sentido inverso, de baixo para cima, juntando fragmentos, contendo numa linha estreita as pequenas partículas que antes dispersara, contrariando a gravidade, subindo muito devagar, quase em câmara lenta.
Mal acomparado, parece um avião que tivesse levantado voo há cinco minutos do aeroporto de Faro.
Mal acomparado, parece um avião que tivesse levantado voo há cinco minutos do aeroporto de Faro.
Perder o emprego é um «problema friccional»
Jaquinzinhos tem sempre razão. Porque tudo aqui é comutável em euros, em dólares, em ienes. As grandes questões do mundo discutem-se de máquina calculadora em riste. Fazendo contas. Pressionando teclas. E, portanto, se as contas dão saldo positivo, que contrapor? A economia de mercado não tem que funcionar? Tem. E a aritmética é como o Neoblanc: não mente.
Com o Jaquinzinhos aprendemos a olhar o mundo de um modo diferente. Por exemplo: as amendoeiras. As amendoeiras em flor. Muito bonitas, tudo bem. Mas quanto é que cada uma destas árvores contribui para o PIB? O quê? Uma insignificância? Ontem puxei da máquina calculadora e juro que tive ganas de cortar pela raiz este reles pomar de cinco mil metros quadrados e meter na Câmara um projecto de loteamento.
Com o Jaquinzinhos aprendemos a olhar o mundo de um modo diferente. Por exemplo: as amendoeiras. As amendoeiras em flor. Muito bonitas, tudo bem. Mas quanto é que cada uma destas árvores contribui para o PIB? O quê? Uma insignificância? Ontem puxei da máquina calculadora e juro que tive ganas de cortar pela raiz este reles pomar de cinco mil metros quadrados e meter na Câmara um projecto de loteamento.
domingo, janeiro 18, 2004
Não digas mais nada
Sobre o caso das mulheres de Aveiro julgadas pela prática de aborto, João Pereira Coutinho, no Expresso, entende que: a) «o aborto não deve ser descriminalizado»; b), «estas mulheres não deviam ser condenadas».
Pronto. Não digas mais nada. A gente percebe.
Pronto. Não digas mais nada. A gente percebe.
De pé atrás
Já quase não há memória do levante. Não há uma nuvem. Ou há uma ou outra nuvem que passa vagarosamente sobre a península. Não chove. Não está frio. Uma leve brandura. Uma ligeira humidade vogando nas açoteias e nos degraus do pátio. As amendoeiras em flor. O viburno exuberante. O céu iluminado pelas estrelas. A lua em quarto decrescente.
A gente desconfia. É como se o Inverno estivesse a preparar alguma.
A gente desconfia. É como se o Inverno estivesse a preparar alguma.
sexta-feira, janeiro 16, 2004
Ficções
Já aqui contei a história: o meu exemplar do Livro desapareceu-me da biblioteca. Por isso, quando o Público o reeditou em Julho do ano passado, na Colecção Mil Folhas, aproveitei logo para comprar um exemplar. Chegado a casa, verifiquei com espanto que faltava uma das minhas peças preferidas: «A aproximação a Almotásim». De facto, na edição do Público (pelo menos no meu exemplar...), de «Tlön, Uqbar, Orbis Tertius» passava-se de imediato para «Pierre Menard, autor do Quixote», sem que ficassem quaisquer sinais desse relato de um romance publicado em Bombaim nos anos 30.
Hoje descubro que é prática normal os livreiros, ou os funcionários das livrarias, ou ambos, retirarem um ou outro livro da estante, levá-lo para casa e, no dia seguinte, arrumá-lo de novo (ver Fiama, post de 12 de Janeiro) . Como vêem, tenho razões para suspeitar que seja mais grave: que, tendo um livro em casa, e gostando particularmente de um conto, de um poema ou de um capítulo de romance, o livreiro, ou o funcionário da livraria, possa fazer (ainda que involuntariamente) com que esse excerto desapareça do livro.
Não me parece mal. Só lamento é que tenha sido logo precisamente com o meu exemplar...
Hoje descubro que é prática normal os livreiros, ou os funcionários das livrarias, ou ambos, retirarem um ou outro livro da estante, levá-lo para casa e, no dia seguinte, arrumá-lo de novo (ver Fiama, post de 12 de Janeiro) . Como vêem, tenho razões para suspeitar que seja mais grave: que, tendo um livro em casa, e gostando particularmente de um conto, de um poema ou de um capítulo de romance, o livreiro, ou o funcionário da livraria, possa fazer (ainda que involuntariamente) com que esse excerto desapareça do livro.
Não me parece mal. Só lamento é que tenha sido logo precisamente com o meu exemplar...
quinta-feira, janeiro 15, 2004
Nos intervalos
Parece que 27% dos rapazes agride fisicamente as namoradas. E que 43% das raparigas agride verbalmente os namorados. Acredita-se que nos intervalos da retórica hostil ou da bordoada arranjem uma ou outra coisa interessante com que se entreterem.
Enfim, se não for muito incómodo
No muro da escola Tomás Cabreira, em grandes letras pintadas a tinta vermelha, um estudante escreveu: «Sr. Professor, ensine-me a questionar». Este pobre aprendiz de revolucionário, que tão reverentemente e com tanto salamaleque se dirige ao suposto violador de consciências, o mais certo é que passe o resto da vida a toque de caixa, cerimonioso, a responder a mais perguntas do que a colocar questões. Assim não vai lá.
As imagens do passado
O lume do outono a
insinuar-se nos púcaros com sede
a flor inúmera de junho
as mãos desenhadas de
memória onde cresce o abandono
como se ninguém pudesse sobreviver
às imagens do passado
Às vezes é o deserto o
que parece atar a cada um
dos nossos nomes
a sua exígua voz iluminada
pela sombra
e nos transporta a uma ausência que
não tem raízes nas palavras
e no entanto nos pertence
até ao mais fundo
de nós próprios
insinuar-se nos púcaros com sede
a flor inúmera de junho
as mãos desenhadas de
memória onde cresce o abandono
como se ninguém pudesse sobreviver
às imagens do passado
Às vezes é o deserto o
que parece atar a cada um
dos nossos nomes
a sua exígua voz iluminada
pela sombra
e nos transporta a uma ausência que
não tem raízes nas palavras
e no entanto nos pertence
até ao mais fundo
de nós próprios
quarta-feira, janeiro 14, 2004
[Poema antigo]
Com as lágrimas deste coração
inútil a caiar a tua ausência,
os substantivos da memória
crescem junto ao musgo da dist
ânsia: quem chegar de longe pode
agora à sombra do seu caule
abrigar em silêncio tudo quanto
um corpo tem para morrer, ou
fazer do desejo a flor mais fr
ágil da pequena concha do olhar.
inútil a caiar a tua ausência,
os substantivos da memória
crescem junto ao musgo da dist
ânsia: quem chegar de longe pode
agora à sombra do seu caule
abrigar em silêncio tudo quanto
um corpo tem para morrer, ou
fazer do desejo a flor mais fr
ágil da pequena concha do olhar.
terça-feira, janeiro 13, 2004
A ordem do mundo
Apesar dos dezassete ou dezoito graus, incomoda-me ver estes adolescentes loiros de calções, manga curta e chinelas de plástico a descer a avenida da cidade como se estivessem na praia. Não apenas por razões estéticas. É que estamos no Inverno. E a temperatura (mais grau, menos grau...) é apenas um pormenor que não justifica alterações à ordem do mundo.
segunda-feira, janeiro 12, 2004
Memórias de um náufrago
O MAR
O mar é
uma ilha
rodeada de terra
por todos
os lados
A NENHUM PORTO
A nenhum porto
se regressa
sem morrer
O CORAÇÃO
No inverno
o coração
é a única âncora
que se desprende
do lodo
MARÉ
O que a maré
leva
nem metade
traz
O mar é
uma ilha
rodeada de terra
por todos
os lados
A NENHUM PORTO
A nenhum porto
se regressa
sem morrer
O CORAÇÃO
No inverno
o coração
é a única âncora
que se desprende
do lodo
MARÉ
O que a maré
leva
nem metade
traz
domingo, janeiro 11, 2004
A natureza
O verde escuro das alfarrobeiras a servir de contraste a esse branco, a esse azul, a essa cor de rosa fluorescente das amendoeiras em flor. Olho o pomar contra o céu anil do fim da tarde ou contra as paredes do armazém de frutas, a água do tanque, a terra castanha, o muro de cal a delimitar a propriedade. Mas sei que toda esta luz, toda esta sombra, só é um milagre porque vem nas páginas numeradas dos romances.
As mentiras da noite
Nestas noites de lua cheia, olhando o mar, chegamos a pensar que a luz desenhada nas suas águas é a luz primeira e verdadeira, e que a lua, em rigor, não é mais que o reflexo da luz que nasce nas águas.
Os sábados
Há quem insista no refogado. Mas a canja de perdiz com grão deve levar em cru o pimento verde e o pimento vermelho, o alho, a cebola. O grão há-de entrar no tacho aquando da perdiz, acompanhado de uma folha de louro. Mas o segredo final, depois do arroz, é a hortelã da ribeira, já sobre a canja derramada no prato. Sendo que da ribeira quer dizer isso mesmo: aí recolhida.
sábado, janeiro 10, 2004
[Os prédios]
A noite deixa os seus vestígios
onde mais a sombra permanece em vindo a
própria luz e o lume: nos arames e
nos esticadores da roupa pendurada nas varandas,
nas espias de corda entrelaçada que
suspendem as antenas,
nas tábuas das cancelas velhas dos prédios,
nas fasquias das obras.
onde mais a sombra permanece em vindo a
própria luz e o lume: nos arames e
nos esticadores da roupa pendurada nas varandas,
nas espias de corda entrelaçada que
suspendem as antenas,
nas tábuas das cancelas velhas dos prédios,
nas fasquias das obras.
Os sacos plásticos
Depois de uma breve viagem pela blogosfera, fico com a estranha sensação de que, logo, quando comprar o Expresso, serei o único a adquirir um exemplar do semanário dirigido por José António Saraiva.
sexta-feira, janeiro 09, 2004
quinta-feira, janeiro 08, 2004
Duas versões
[Versão infantil para as criancinhas adormecerem] É uma aventura fascinante. As enguias nascem no Mar dos Sargaços. Os juvenis, aproveitando as correntes do Atlântico, percorrem milhares de quilómetros, aproximam-se dos estuários e sobem os rios. É aí que vivem durante dez ou quinze anos. Mais tarde hão-de fazer a migração em sentido contrário, a caminho do Mar dos Sargaços, onde se reproduzem e garantem a continuidade da espécie.
[Outra versão] As enguias nascem no Mar dos Sargaços. Os juvenis, aproveitando as correntes do Atlântico, percorrem milhares de quilómetros, aproximam-se dos estuários e são apanhados com redes mosquiteiras quando começam a subir os rios. O Guadiana, por exemplo. Nesta fase, às enguias dá-se o nome de meixão ou angula. Como o petisco começa a ser cada vez mais escasso, o preço do juvenil pode ultrapassar os 400 € o quilo. A técnica da rede mosquiteira, claro, é proibida por lei. Mas o meixão vende-se nos restaurantes. Aí não há problema. Existem mesmo brochuras que o publicitam, sendo que parece não morrer mal de todo com molho picante. E é aproveitar enquanto é tempo: a espécie está ameaçada e um destes dias não teremos molho deste com que lamber os beiços.
[Outra versão] As enguias nascem no Mar dos Sargaços. Os juvenis, aproveitando as correntes do Atlântico, percorrem milhares de quilómetros, aproximam-se dos estuários e são apanhados com redes mosquiteiras quando começam a subir os rios. O Guadiana, por exemplo. Nesta fase, às enguias dá-se o nome de meixão ou angula. Como o petisco começa a ser cada vez mais escasso, o preço do juvenil pode ultrapassar os 400 € o quilo. A técnica da rede mosquiteira, claro, é proibida por lei. Mas o meixão vende-se nos restaurantes. Aí não há problema. Existem mesmo brochuras que o publicitam, sendo que parece não morrer mal de todo com molho picante. E é aproveitar enquanto é tempo: a espécie está ameaçada e um destes dias não teremos molho deste com que lamber os beiços.
quarta-feira, janeiro 07, 2004
Bem, com argumentos destes...
Já se sabe que os racistas acham que somos todos iguais - «no entanto»... E que os empreendedores imobiliários se reclamam invariavelmente herdeiros da mais pura tradição ambientalista - «não obstante»... Pois ontem à noite, a meio da conversa telefónica sobre as previsões do caudal do rio Beça nos primeiros dias de Março, um amigo entendeu, aparentemente fora de contexto, reafirmar-me a sua crença absoluta na igualdade entre os sexos. Fiquei logo de pé atrás, a temer a adversativa: «Porém, diga-se em abono da verdade que não existe mulher à face da terra que saiba pescar à pluma seca»...
Assim não vale a pena
Já chegaram as primeiras imagens de Marte, em alta resolução e a cores. Era o que se temia. Nem uma árvore: um negrilho, um carvalho negral, uma amendoeira. Nada. Tanto dinheiro investido, e é isto.
terça-feira, janeiro 06, 2004
De automóvel em riste
O Algarve é mais bonito de comboio. Sendo que, apesar dos conhecidos problemas do modo ferroviário regional, há troços com horários decentes e com tempos de percurso competitivos com o automóvel. Em particular no Sotavento. Quem vive em Cacela e trabalha em Faro, por exemplo, devia ser proibido de se meter à estrada, diariamente, e orgulhosamente só, de automóvel em riste. Mas nós, alarves, recusamo-nos a usar os transportes públicos se tivermos carro. E todos temos carro (ou vários). E portanto é isto:
No Algarve, «o reforço do uso do automóvel ligeiro pelos residentes nas deslocações, como condutores ou como passageiros, é talvez o aspecto mais preocupante do cenário que esta análise nos propõe. Assumindo valores que superam metade do conjunto de deslocações, ultrapassando mesmo o que se verifica nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto, este padrão corresponde a uma situação de ausência de organização dos transportes colectivos e a um consumo energético completamente alheio às preocupações e necessidades das sociedades modernas» (João Guerreiro, Peter de Sousa e Vítor Teixerira, in Sociedade e Território, Dez. 2003).
É uma vergonha... Começando pelo signatário, que, apesar das recorrentes promessas de mudança de hábitos, ainda faz parte destas estatísticas paradoxais...
No Algarve, «o reforço do uso do automóvel ligeiro pelos residentes nas deslocações, como condutores ou como passageiros, é talvez o aspecto mais preocupante do cenário que esta análise nos propõe. Assumindo valores que superam metade do conjunto de deslocações, ultrapassando mesmo o que se verifica nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto, este padrão corresponde a uma situação de ausência de organização dos transportes colectivos e a um consumo energético completamente alheio às preocupações e necessidades das sociedades modernas» (João Guerreiro, Peter de Sousa e Vítor Teixerira, in Sociedade e Território, Dez. 2003).
É uma vergonha... Começando pelo signatário, que, apesar das recorrentes promessas de mudança de hábitos, ainda faz parte destas estatísticas paradoxais...
Inquéritos
A elite empresarial portuguesa confia que 2004 será melhor do que 2003. Quase metade dos portugueses acha que a situação do país em 2004 vai ser pior que em 2003. Neste tipo de inquéritos, de um modo geral, tendemos a responder perspectivando o nosso caso específico. É assim provável que ambos tenham razão.
segunda-feira, janeiro 05, 2004
Tudo normal
Recomeçaram as longas filas de trânsito na 125; as corridas e o riso das crianças no pátio da escola; as pessoas de pé nos autocarros do fim da manhã; os automóveis estacionados nos passeios; os senhores agentes da autoridade a levantar autos de notícia aos automóveis estacionados nos passeios; a discussão sobre o défice; a fisioterapia. A bem dizer, 2004 começou hoje.
domingo, janeiro 04, 2004
Sem nuvens
Foi uma noite bonita. Não apenas pelo queijinho de Serpa e pela reserva de 1999 da Casa de Santar.
sábado, janeiro 03, 2004
A incúria
Podíamos ser contra o estacionamento automóvel em cima dos passeios. Não somos. Estes loteamentos foram concluídos em anos recentes. Em alguns dos lotes não foram ainda retirados os andaimes e as fasquias das obras. E no entanto já não é possível estacionar. Estaciona-se nos passeios. Porque os terrenos junto à praia, agarrados às dunas e à vegetação dunar, são demasiado valiosos para que, num tempo de crise, nos dêmos ao luxo de desperdiçar índices de construção em metros quadrados de estacionamento ou espaços verdes (contrapartidas legalmente previstas e que o acto de licenciamento deveria acautelar).
Entretanto, numa segunda linha, avançam já as máquinas a remover o piorno e a escavar os alicerces de novas moradias em banda e novos blocos de apartamentos. Podíamos ser contra este triste espectáculo de encaminhar os esgotos sem tratamento para as águas do mar. Não somos. Estes loteamentos foram construídos, e estão a ser construídos, antes de se concluírem os sistemas de tratamento de águas residuais. Porque não podemos esperar. Porque não nos podemos dar ao luxo de recusar investimento privado, de desaproveitar projectos estruturantes.
Podíamos ser contra a destruição da Paisagem. Podíamos ser contra o desleixo e a ignomínia. Contra a negligência e a incúria. Não somos. E portanto está certo.
Entretanto, numa segunda linha, avançam já as máquinas a remover o piorno e a escavar os alicerces de novas moradias em banda e novos blocos de apartamentos. Podíamos ser contra este triste espectáculo de encaminhar os esgotos sem tratamento para as águas do mar. Não somos. Estes loteamentos foram construídos, e estão a ser construídos, antes de se concluírem os sistemas de tratamento de águas residuais. Porque não podemos esperar. Porque não nos podemos dar ao luxo de recusar investimento privado, de desaproveitar projectos estruturantes.
Podíamos ser contra a destruição da Paisagem. Podíamos ser contra o desleixo e a ignomínia. Contra a negligência e a incúria. Não somos. E portanto está certo.
quinta-feira, janeiro 01, 2004
Não peço mais, Senhor
«Não peço mais, Senhor, que o branco da geada em sendo, nas encostas frias, o seu tempo. A chuva alimentando o abismo. O vento, o sol na primavera. A neve, quando dezembro adormece e parece que fica vagarosamente à sua espera. Não peço mais, Senhor, que o lume da manhã escondido contra o pátio. A luz dos púcaros, dos vasos. A água das raízes. O pano antigo em cima da masseira, a alegria verdadeira das crianças breves e felizes. Não peço mais, Senhor, que um fruto iluminando a terra».
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