segunda-feira, janeiro 26, 2004
Os regressos
Há um muro de cimento que se ergue entre quem espera e quem parte. Um mar de poeira levantada, estilhaços duma sombra a crescer desmesurada no asfalto e nos terreiros onde uma vez se dançou. Há quem um dia regresse e só então compreenda, atravessando o pátio ou subindo os degraus, que nunca como nessa altura esteve tão longe de casa, tão longe das coisas que desde sempre lhe pertenceram.
domingo, janeiro 25, 2004
[Actualização]
Este foi um jogo em que ninguém ganhou. Em que nem sequer houve repartição de pontos. Foi um daqueles raros jogos em que perdemos todos.
A paz, o amor, a concórdia
As raras vezes em que, por distracção, tropeço no Roberto Real, fico sempre com medo de que o oceano Atlântico desapareça com tanta aproximação de Portugal ao Brasil e vice-versa, ou que, quando muito, se transforme numa regueira que é possível atravessar a vau entre Esposende e Aracaju.
A noite
Já lá vem a noite
com seu abandono
com suas sandálias
tão mortas de sono.
A noite imperfeita
nos ramos mais altos
perdida nas áleas
cinzentas do outono
Já lá vem a noite
talhada na cólera
num rumor de pálpebras
que a sombra demora
Podia dizer-te
que nem o teu rosto
afasta a insónia,
nenhuma palavra,
nenhuma memória.
Podia esquecer-te
e acender o lume,
sentar-me à lareira,
fechar as portadas
Mas a noite cresce
com suas sandálias
num rumor de pálpebras
que a sombra demora
E é só o teu nome
o que recordo agora
com seu abandono
com suas sandálias
tão mortas de sono.
A noite imperfeita
nos ramos mais altos
perdida nas áleas
cinzentas do outono
Já lá vem a noite
talhada na cólera
num rumor de pálpebras
que a sombra demora
Podia dizer-te
que nem o teu rosto
afasta a insónia,
nenhuma palavra,
nenhuma memória.
Podia esquecer-te
e acender o lume,
sentar-me à lareira,
fechar as portadas
Mas a noite cresce
com suas sandálias
num rumor de pálpebras
que a sombra demora
E é só o teu nome
o que recordo agora
sábado, janeiro 24, 2004
Outra metodologia
José António Saraiva, na sua Política à Portuguesa, escreve: «Hesitamos, mesmo, sobre se valerá a pena o país continuar a existir - ou se não será mais sensato integrarmo-nos na Espanha, porque os espanhóis nos governariam melhor».
A ideia é excelente. Mas coloca inúmeros problemas de ordem prática. Alguns, quiçá, inultrapassáveis. Proponho outra metodologia: José António Saraiva pede a nacionalidade espanhola e passa a viver em Badajoz. Ele fica melhor governado, e nós sempre avançávamos um bocadinho. Sempre era um começo.
A ideia é excelente. Mas coloca inúmeros problemas de ordem prática. Alguns, quiçá, inultrapassáveis. Proponho outra metodologia: José António Saraiva pede a nacionalidade espanhola e passa a viver em Badajoz. Ele fica melhor governado, e nós sempre avançávamos um bocadinho. Sempre era um começo.
sexta-feira, janeiro 23, 2004
quinta-feira, janeiro 22, 2004
Ainda as amendoeiras, lamento...
Um amigo cujas opiniões muito prezo aconselhou-me aqui há uns dias a abandonar o tom lamechas e lírico do blogue e a passar a textos «interventivos». Explicava: «há por aí tanta coisa por onde intervir, e tu a falares dos fins de tarde e das amendoeiras em flor. Começa a não haver pachorra».
Aquilo tocou-me. E jurei para mim mesmo que não haveria de deixar aqui uma única referência aos azuis do crepúsculo nem às flores da Amigdalus comunis durante um mínimo de três semanas.
Pois este meu amigo hoje telefonou, eufórico, a perguntar-me se já tinha reparado na explosão de branco que as amendoeiras desenhavam na berma e nas imediações da estrada do Colégio do Alto.
Tive, claro, que lhe responder que não. Que ainda não tinha reparado. Que andava um bocado ocupado a ver se encadeava uns textos «interventivos».
Aquilo tocou-me. E jurei para mim mesmo que não haveria de deixar aqui uma única referência aos azuis do crepúsculo nem às flores da Amigdalus comunis durante um mínimo de três semanas.
Pois este meu amigo hoje telefonou, eufórico, a perguntar-me se já tinha reparado na explosão de branco que as amendoeiras desenhavam na berma e nas imediações da estrada do Colégio do Alto.
Tive, claro, que lhe responder que não. Que ainda não tinha reparado. Que andava um bocado ocupado a ver se encadeava uns textos «interventivos».
quarta-feira, janeiro 21, 2004
Cinco quê?
O número de emigrantes portugueses ronda praticamente os 5 milhões? O número de portugueses que emigrou em 2001 foi o menor dos últimos 20 anos? E mesmo assim emigraram mais de vinte mil portugueses? Quem é que anda a inventar estas notícias?
Por amor de Deus,
nós não emigramos. Quem
emigra
são as brasileiras
e os ucranianos.
Por amor de Deus,
nós não emigramos. Quem
emigra
são as brasileiras
e os ucranianos.
Má fila
A tolerância zero na EN 125, depois do tempo dos helicópteros a sobrevoar a via e o mais que se sabe, deu nisto: ultrapassagens em traço contínuo, desrespeito pelo vermelho nos semáforos controladores de velocidade, entradas nas rotundas à má fila, motociclistas em aceleração deitados sobre o depósito da máquina como se estivessem nas pistas de Jerez - o diabo a quatro.
Serei injusto, mas às vezes penso que a tolerância zero teve como principal objectivo apanhar-me no radar, numa manhã quase sem trânsito, quando circulava a despropósito a 60 Km/h na recta do Livramento.
Serei injusto, mas às vezes penso que a tolerância zero teve como principal objectivo apanhar-me no radar, numa manhã quase sem trânsito, quando circulava a despropósito a 60 Km/h na recta do Livramento.
terça-feira, janeiro 20, 2004
Um cometa (2)
[versão simplificada, para o T´z´ compreender]
Um avião levantou voo há cinco minutos do aeroporto de Faro.
Mal acomparado, é como se um cometa, neste fim de tarde, por um instante se elevasse no céu e deixasse um rasto de um amarelo quase vivo, quase incandescente, num percurso em sentido inverso, de baixo para cima, juntando fragmentos, contendo numa linha estreita as pequenas partículas que antes dispersara, contrariando a gravidade, subindo muito devagar, quase em câmara lenta.
Um avião levantou voo há cinco minutos do aeroporto de Faro.
Mal acomparado, é como se um cometa, neste fim de tarde, por um instante se elevasse no céu e deixasse um rasto de um amarelo quase vivo, quase incandescente, num percurso em sentido inverso, de baixo para cima, juntando fragmentos, contendo numa linha estreita as pequenas partículas que antes dispersara, contrariando a gravidade, subindo muito devagar, quase em câmara lenta.
O futebol
São dez da manhã. Tomo uma bica ao balcão. A meu lado, um sujeito bebe cerveja. Vai na segunda. Uma jovem aparece à entrada, acena-lhe, e ele responde: «Já vai». Na televisão começou há pouco a retransmissão do Belenenses-Estrela da Amadora. O sujeito da cerveja garante que foi um belíssimo jogo. Que vale a pena rever. Que o Estrela virou o resultado nos últimos cinco minutos. A jovem aparece de novo à porta do café. «Já vai», rosna o artista. Saio para a rua e vejo a jovem encostada à parede.
Não posso deixar de pensar que era melhor esperar sentada. Ou então deixá-lo. E fico a tremer de aflição só de imaginar que provavelmente não o deixa porque está apaixonada por ele.
Não posso deixar de pensar que era melhor esperar sentada. Ou então deixá-lo. E fico a tremer de aflição só de imaginar que provavelmente não o deixa porque está apaixonada por ele.
segunda-feira, janeiro 19, 2004
Um cometa
Por instantes, neste fim de tarde, um cometa eleva-se no céu e deixa um rasto de um amarelo quase vivo, quase incandescente, num percurso em sentido inverso, de baixo para cima, juntando fragmentos, contendo numa linha estreita as pequenas partículas que antes dispersara, contrariando a gravidade, subindo muito devagar, quase em câmara lenta.
Mal acomparado, parece um avião que tivesse levantado voo há cinco minutos do aeroporto de Faro.
Mal acomparado, parece um avião que tivesse levantado voo há cinco minutos do aeroporto de Faro.
Perder o emprego é um «problema friccional»
Jaquinzinhos tem sempre razão. Porque tudo aqui é comutável em euros, em dólares, em ienes. As grandes questões do mundo discutem-se de máquina calculadora em riste. Fazendo contas. Pressionando teclas. E, portanto, se as contas dão saldo positivo, que contrapor? A economia de mercado não tem que funcionar? Tem. E a aritmética é como o Neoblanc: não mente.
Com o Jaquinzinhos aprendemos a olhar o mundo de um modo diferente. Por exemplo: as amendoeiras. As amendoeiras em flor. Muito bonitas, tudo bem. Mas quanto é que cada uma destas árvores contribui para o PIB? O quê? Uma insignificância? Ontem puxei da máquina calculadora e juro que tive ganas de cortar pela raiz este reles pomar de cinco mil metros quadrados e meter na Câmara um projecto de loteamento.
Com o Jaquinzinhos aprendemos a olhar o mundo de um modo diferente. Por exemplo: as amendoeiras. As amendoeiras em flor. Muito bonitas, tudo bem. Mas quanto é que cada uma destas árvores contribui para o PIB? O quê? Uma insignificância? Ontem puxei da máquina calculadora e juro que tive ganas de cortar pela raiz este reles pomar de cinco mil metros quadrados e meter na Câmara um projecto de loteamento.
domingo, janeiro 18, 2004
Não digas mais nada
Sobre o caso das mulheres de Aveiro julgadas pela prática de aborto, João Pereira Coutinho, no Expresso, entende que: a) «o aborto não deve ser descriminalizado»; b), «estas mulheres não deviam ser condenadas».
Pronto. Não digas mais nada. A gente percebe.
Pronto. Não digas mais nada. A gente percebe.
De pé atrás
Já quase não há memória do levante. Não há uma nuvem. Ou há uma ou outra nuvem que passa vagarosamente sobre a península. Não chove. Não está frio. Uma leve brandura. Uma ligeira humidade vogando nas açoteias e nos degraus do pátio. As amendoeiras em flor. O viburno exuberante. O céu iluminado pelas estrelas. A lua em quarto decrescente.
A gente desconfia. É como se o Inverno estivesse a preparar alguma.
A gente desconfia. É como se o Inverno estivesse a preparar alguma.
sexta-feira, janeiro 16, 2004
Ficções
Já aqui contei a história: o meu exemplar do Livro desapareceu-me da biblioteca. Por isso, quando o Público o reeditou em Julho do ano passado, na Colecção Mil Folhas, aproveitei logo para comprar um exemplar. Chegado a casa, verifiquei com espanto que faltava uma das minhas peças preferidas: «A aproximação a Almotásim». De facto, na edição do Público (pelo menos no meu exemplar...), de «Tlön, Uqbar, Orbis Tertius» passava-se de imediato para «Pierre Menard, autor do Quixote», sem que ficassem quaisquer sinais desse relato de um romance publicado em Bombaim nos anos 30.
Hoje descubro que é prática normal os livreiros, ou os funcionários das livrarias, ou ambos, retirarem um ou outro livro da estante, levá-lo para casa e, no dia seguinte, arrumá-lo de novo (ver Fiama, post de 12 de Janeiro) . Como vêem, tenho razões para suspeitar que seja mais grave: que, tendo um livro em casa, e gostando particularmente de um conto, de um poema ou de um capítulo de romance, o livreiro, ou o funcionário da livraria, possa fazer (ainda que involuntariamente) com que esse excerto desapareça do livro.
Não me parece mal. Só lamento é que tenha sido logo precisamente com o meu exemplar...
Hoje descubro que é prática normal os livreiros, ou os funcionários das livrarias, ou ambos, retirarem um ou outro livro da estante, levá-lo para casa e, no dia seguinte, arrumá-lo de novo (ver Fiama, post de 12 de Janeiro) . Como vêem, tenho razões para suspeitar que seja mais grave: que, tendo um livro em casa, e gostando particularmente de um conto, de um poema ou de um capítulo de romance, o livreiro, ou o funcionário da livraria, possa fazer (ainda que involuntariamente) com que esse excerto desapareça do livro.
Não me parece mal. Só lamento é que tenha sido logo precisamente com o meu exemplar...
quinta-feira, janeiro 15, 2004
Nos intervalos
Parece que 27% dos rapazes agride fisicamente as namoradas. E que 43% das raparigas agride verbalmente os namorados. Acredita-se que nos intervalos da retórica hostil ou da bordoada arranjem uma ou outra coisa interessante com que se entreterem.
Enfim, se não for muito incómodo
No muro da escola Tomás Cabreira, em grandes letras pintadas a tinta vermelha, um estudante escreveu: «Sr. Professor, ensine-me a questionar». Este pobre aprendiz de revolucionário, que tão reverentemente e com tanto salamaleque se dirige ao suposto violador de consciências, o mais certo é que passe o resto da vida a toque de caixa, cerimonioso, a responder a mais perguntas do que a colocar questões. Assim não vai lá.
As imagens do passado
O lume do outono a
insinuar-se nos púcaros com sede
a flor inúmera de junho
as mãos desenhadas de
memória onde cresce o abandono
como se ninguém pudesse sobreviver
às imagens do passado
Às vezes é o deserto o
que parece atar a cada um
dos nossos nomes
a sua exígua voz iluminada
pela sombra
e nos transporta a uma ausência que
não tem raízes nas palavras
e no entanto nos pertence
até ao mais fundo
de nós próprios
insinuar-se nos púcaros com sede
a flor inúmera de junho
as mãos desenhadas de
memória onde cresce o abandono
como se ninguém pudesse sobreviver
às imagens do passado
Às vezes é o deserto o
que parece atar a cada um
dos nossos nomes
a sua exígua voz iluminada
pela sombra
e nos transporta a uma ausência que
não tem raízes nas palavras
e no entanto nos pertence
até ao mais fundo
de nós próprios
quarta-feira, janeiro 14, 2004
[Poema antigo]
Com as lágrimas deste coração
inútil a caiar a tua ausência,
os substantivos da memória
crescem junto ao musgo da dist
ânsia: quem chegar de longe pode
agora à sombra do seu caule
abrigar em silêncio tudo quanto
um corpo tem para morrer, ou
fazer do desejo a flor mais fr
ágil da pequena concha do olhar.
inútil a caiar a tua ausência,
os substantivos da memória
crescem junto ao musgo da dist
ânsia: quem chegar de longe pode
agora à sombra do seu caule
abrigar em silêncio tudo quanto
um corpo tem para morrer, ou
fazer do desejo a flor mais fr
ágil da pequena concha do olhar.
terça-feira, janeiro 13, 2004
A ordem do mundo
Apesar dos dezassete ou dezoito graus, incomoda-me ver estes adolescentes loiros de calções, manga curta e chinelas de plástico a descer a avenida da cidade como se estivessem na praia. Não apenas por razões estéticas. É que estamos no Inverno. E a temperatura (mais grau, menos grau...) é apenas um pormenor que não justifica alterações à ordem do mundo.
segunda-feira, janeiro 12, 2004
Memórias de um náufrago
O MAR
O mar é
uma ilha
rodeada de terra
por todos
os lados
A NENHUM PORTO
A nenhum porto
se regressa
sem morrer
O CORAÇÃO
No inverno
o coração
é a única âncora
que se desprende
do lodo
MARÉ
O que a maré
leva
nem metade
traz
O mar é
uma ilha
rodeada de terra
por todos
os lados
A NENHUM PORTO
A nenhum porto
se regressa
sem morrer
O CORAÇÃO
No inverno
o coração
é a única âncora
que se desprende
do lodo
MARÉ
O que a maré
leva
nem metade
traz
domingo, janeiro 11, 2004
A natureza
O verde escuro das alfarrobeiras a servir de contraste a esse branco, a esse azul, a essa cor de rosa fluorescente das amendoeiras em flor. Olho o pomar contra o céu anil do fim da tarde ou contra as paredes do armazém de frutas, a água do tanque, a terra castanha, o muro de cal a delimitar a propriedade. Mas sei que toda esta luz, toda esta sombra, só é um milagre porque vem nas páginas numeradas dos romances.
As mentiras da noite
Nestas noites de lua cheia, olhando o mar, chegamos a pensar que a luz desenhada nas suas águas é a luz primeira e verdadeira, e que a lua, em rigor, não é mais que o reflexo da luz que nasce nas águas.
Os sábados
Há quem insista no refogado. Mas a canja de perdiz com grão deve levar em cru o pimento verde e o pimento vermelho, o alho, a cebola. O grão há-de entrar no tacho aquando da perdiz, acompanhado de uma folha de louro. Mas o segredo final, depois do arroz, é a hortelã da ribeira, já sobre a canja derramada no prato. Sendo que da ribeira quer dizer isso mesmo: aí recolhida.
sábado, janeiro 10, 2004
[Os prédios]
A noite deixa os seus vestígios
onde mais a sombra permanece em vindo a
própria luz e o lume: nos arames e
nos esticadores da roupa pendurada nas varandas,
nas espias de corda entrelaçada que
suspendem as antenas,
nas tábuas das cancelas velhas dos prédios,
nas fasquias das obras.
onde mais a sombra permanece em vindo a
própria luz e o lume: nos arames e
nos esticadores da roupa pendurada nas varandas,
nas espias de corda entrelaçada que
suspendem as antenas,
nas tábuas das cancelas velhas dos prédios,
nas fasquias das obras.
Os sacos plásticos
Depois de uma breve viagem pela blogosfera, fico com a estranha sensação de que, logo, quando comprar o Expresso, serei o único a adquirir um exemplar do semanário dirigido por José António Saraiva.
sexta-feira, janeiro 09, 2004
quinta-feira, janeiro 08, 2004
Duas versões
[Versão infantil para as criancinhas adormecerem] É uma aventura fascinante. As enguias nascem no Mar dos Sargaços. Os juvenis, aproveitando as correntes do Atlântico, percorrem milhares de quilómetros, aproximam-se dos estuários e sobem os rios. É aí que vivem durante dez ou quinze anos. Mais tarde hão-de fazer a migração em sentido contrário, a caminho do Mar dos Sargaços, onde se reproduzem e garantem a continuidade da espécie.
[Outra versão] As enguias nascem no Mar dos Sargaços. Os juvenis, aproveitando as correntes do Atlântico, percorrem milhares de quilómetros, aproximam-se dos estuários e são apanhados com redes mosquiteiras quando começam a subir os rios. O Guadiana, por exemplo. Nesta fase, às enguias dá-se o nome de meixão ou angula. Como o petisco começa a ser cada vez mais escasso, o preço do juvenil pode ultrapassar os 400 € o quilo. A técnica da rede mosquiteira, claro, é proibida por lei. Mas o meixão vende-se nos restaurantes. Aí não há problema. Existem mesmo brochuras que o publicitam, sendo que parece não morrer mal de todo com molho picante. E é aproveitar enquanto é tempo: a espécie está ameaçada e um destes dias não teremos molho deste com que lamber os beiços.
[Outra versão] As enguias nascem no Mar dos Sargaços. Os juvenis, aproveitando as correntes do Atlântico, percorrem milhares de quilómetros, aproximam-se dos estuários e são apanhados com redes mosquiteiras quando começam a subir os rios. O Guadiana, por exemplo. Nesta fase, às enguias dá-se o nome de meixão ou angula. Como o petisco começa a ser cada vez mais escasso, o preço do juvenil pode ultrapassar os 400 € o quilo. A técnica da rede mosquiteira, claro, é proibida por lei. Mas o meixão vende-se nos restaurantes. Aí não há problema. Existem mesmo brochuras que o publicitam, sendo que parece não morrer mal de todo com molho picante. E é aproveitar enquanto é tempo: a espécie está ameaçada e um destes dias não teremos molho deste com que lamber os beiços.
quarta-feira, janeiro 07, 2004
Bem, com argumentos destes...
Já se sabe que os racistas acham que somos todos iguais - «no entanto»... E que os empreendedores imobiliários se reclamam invariavelmente herdeiros da mais pura tradição ambientalista - «não obstante»... Pois ontem à noite, a meio da conversa telefónica sobre as previsões do caudal do rio Beça nos primeiros dias de Março, um amigo entendeu, aparentemente fora de contexto, reafirmar-me a sua crença absoluta na igualdade entre os sexos. Fiquei logo de pé atrás, a temer a adversativa: «Porém, diga-se em abono da verdade que não existe mulher à face da terra que saiba pescar à pluma seca»...
Assim não vale a pena
Já chegaram as primeiras imagens de Marte, em alta resolução e a cores. Era o que se temia. Nem uma árvore: um negrilho, um carvalho negral, uma amendoeira. Nada. Tanto dinheiro investido, e é isto.
terça-feira, janeiro 06, 2004
De automóvel em riste
O Algarve é mais bonito de comboio. Sendo que, apesar dos conhecidos problemas do modo ferroviário regional, há troços com horários decentes e com tempos de percurso competitivos com o automóvel. Em particular no Sotavento. Quem vive em Cacela e trabalha em Faro, por exemplo, devia ser proibido de se meter à estrada, diariamente, e orgulhosamente só, de automóvel em riste. Mas nós, alarves, recusamo-nos a usar os transportes públicos se tivermos carro. E todos temos carro (ou vários). E portanto é isto:
No Algarve, «o reforço do uso do automóvel ligeiro pelos residentes nas deslocações, como condutores ou como passageiros, é talvez o aspecto mais preocupante do cenário que esta análise nos propõe. Assumindo valores que superam metade do conjunto de deslocações, ultrapassando mesmo o que se verifica nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto, este padrão corresponde a uma situação de ausência de organização dos transportes colectivos e a um consumo energético completamente alheio às preocupações e necessidades das sociedades modernas» (João Guerreiro, Peter de Sousa e Vítor Teixerira, in Sociedade e Território, Dez. 2003).
É uma vergonha... Começando pelo signatário, que, apesar das recorrentes promessas de mudança de hábitos, ainda faz parte destas estatísticas paradoxais...
No Algarve, «o reforço do uso do automóvel ligeiro pelos residentes nas deslocações, como condutores ou como passageiros, é talvez o aspecto mais preocupante do cenário que esta análise nos propõe. Assumindo valores que superam metade do conjunto de deslocações, ultrapassando mesmo o que se verifica nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto, este padrão corresponde a uma situação de ausência de organização dos transportes colectivos e a um consumo energético completamente alheio às preocupações e necessidades das sociedades modernas» (João Guerreiro, Peter de Sousa e Vítor Teixerira, in Sociedade e Território, Dez. 2003).
É uma vergonha... Começando pelo signatário, que, apesar das recorrentes promessas de mudança de hábitos, ainda faz parte destas estatísticas paradoxais...
Inquéritos
A elite empresarial portuguesa confia que 2004 será melhor do que 2003. Quase metade dos portugueses acha que a situação do país em 2004 vai ser pior que em 2003. Neste tipo de inquéritos, de um modo geral, tendemos a responder perspectivando o nosso caso específico. É assim provável que ambos tenham razão.
segunda-feira, janeiro 05, 2004
Tudo normal
Recomeçaram as longas filas de trânsito na 125; as corridas e o riso das crianças no pátio da escola; as pessoas de pé nos autocarros do fim da manhã; os automóveis estacionados nos passeios; os senhores agentes da autoridade a levantar autos de notícia aos automóveis estacionados nos passeios; a discussão sobre o défice; a fisioterapia. A bem dizer, 2004 começou hoje.
domingo, janeiro 04, 2004
Sem nuvens
Foi uma noite bonita. Não apenas pelo queijinho de Serpa e pela reserva de 1999 da Casa de Santar.
sábado, janeiro 03, 2004
A incúria
Podíamos ser contra o estacionamento automóvel em cima dos passeios. Não somos. Estes loteamentos foram concluídos em anos recentes. Em alguns dos lotes não foram ainda retirados os andaimes e as fasquias das obras. E no entanto já não é possível estacionar. Estaciona-se nos passeios. Porque os terrenos junto à praia, agarrados às dunas e à vegetação dunar, são demasiado valiosos para que, num tempo de crise, nos dêmos ao luxo de desperdiçar índices de construção em metros quadrados de estacionamento ou espaços verdes (contrapartidas legalmente previstas e que o acto de licenciamento deveria acautelar).
Entretanto, numa segunda linha, avançam já as máquinas a remover o piorno e a escavar os alicerces de novas moradias em banda e novos blocos de apartamentos. Podíamos ser contra este triste espectáculo de encaminhar os esgotos sem tratamento para as águas do mar. Não somos. Estes loteamentos foram construídos, e estão a ser construídos, antes de se concluírem os sistemas de tratamento de águas residuais. Porque não podemos esperar. Porque não nos podemos dar ao luxo de recusar investimento privado, de desaproveitar projectos estruturantes.
Podíamos ser contra a destruição da Paisagem. Podíamos ser contra o desleixo e a ignomínia. Contra a negligência e a incúria. Não somos. E portanto está certo.
Entretanto, numa segunda linha, avançam já as máquinas a remover o piorno e a escavar os alicerces de novas moradias em banda e novos blocos de apartamentos. Podíamos ser contra este triste espectáculo de encaminhar os esgotos sem tratamento para as águas do mar. Não somos. Estes loteamentos foram construídos, e estão a ser construídos, antes de se concluírem os sistemas de tratamento de águas residuais. Porque não podemos esperar. Porque não nos podemos dar ao luxo de recusar investimento privado, de desaproveitar projectos estruturantes.
Podíamos ser contra a destruição da Paisagem. Podíamos ser contra o desleixo e a ignomínia. Contra a negligência e a incúria. Não somos. E portanto está certo.
quinta-feira, janeiro 01, 2004
Não peço mais, Senhor
«Não peço mais, Senhor, que o branco da geada em sendo, nas encostas frias, o seu tempo. A chuva alimentando o abismo. O vento, o sol na primavera. A neve, quando dezembro adormece e parece que fica vagarosamente à sua espera. Não peço mais, Senhor, que o lume da manhã escondido contra o pátio. A luz dos púcaros, dos vasos. A água das raízes. O pano antigo em cima da masseira, a alegria verdadeira das crianças breves e felizes. Não peço mais, Senhor, que um fruto iluminando a terra».
quarta-feira, dezembro 31, 2003
Os telejornais
Olhar, mais uma vez, as alfarrobeiras ainda jovens. O pomar de amendoeiras à espera de florir no mês de Janeiro. O círculo da eira. O tanque. Os muros de cal. Os alcatruzes da nora. O armazém de guardar a fruta, em sendo o seu tempo. A vinha. A horta. As laranjas iluminadas contra o Inverno. E desejar que seja este o mundo verdadeiro. Que os noticiários televisivos sejam apenas sombras. Sombras de uma realidade que já não é possível reflectir sem distorções ou desvios.
terça-feira, dezembro 30, 2003
Segredos
Não regressar à procura do que chegámos a suspeitar que ficaria para sempre, intacto, à nossa espera. Regressar apenas. A um caminho que corre paralelo às arribas de xisto cortadas a pique, por vezes em fatias, abertas como as páginas dum livro de histórias. Às breves enseadas onde a maré nunca chega a esconder a linha do equinócio. Aos campos agrícolas defendidos do vento pelo alinhamento das sebes. A essas praias, durante a noite. E ficar assim, à noite, a olhar o mar como se víssemos o mar pela primeira vez.
[Depois das viagens]
Um dia, muitos anos depois, confessou que nunca partira tendo em vista conhecer o mundo. Mas pelo milagre de regressar e encontrar as mesmas coisas de sempre.
segunda-feira, dezembro 29, 2003
Louisiana
Foi considerada a melhor forma de prevenir futuros acidentes com armas de fogo: levar as crianças para a carreira de tiro e ensiná-las a disparar tendo em devida atenção as normas de segurança. A segunda fase do curso de aprendizagem, já programada, prevê a continuação do tiro ao alvo e o manuseamento de armas de maior calibre. Sobre a terceira fase não foram até ao momento adiantados pormenores.
Depressões
Talvez seja desta frente oclusa, depressiva, a influenciar a Península. Talvez seja só do calendário. Talvez seja dos autocarros vazios a atravessar as ruas da cidade a caminho não se sabe de quê. Talvez seja das ruas quase desertas. Talvez seja de tudo isso. Talvez seja das aves, muito cedo de manhã, a voar sobre os lagos onde a neblina começa a levantar. Talvez seja da memória longínqua de um muro de pedra, da sombra que uma árvore espalhava sobre o muro. Talvez seja apenas isso: o excessivo silêncio do entardecer.
domingo, dezembro 28, 2003
A avestruz
José António Saraiva, na sua Política à Portuguesa de ontem no Expresso, diz que «movimentos como o da despenalização do aborto» vão no sentido errado. E acrescenta que «ninguém, entre os que defendem a despenalização e os que não a aceitam, quer que as mulheres que abortam sejam condenadas». Se isto fosse para a gente perceber, víamo-nos aflitos.
São dias tristes
Ainda temos a árvore de Natal, mas já não é Natal. É quase fim do ano, mas não é ainda ano novo. Precisamos desesperadamente da noite de 31. Não propriamente para brindar ao novo ano. Mas para nos livrarmos do velho.
O tal canal
A publicidade ao novo canal da RTP, que se chamará 2:, faz-nos temer o pior. Parece que se trata de uma televisão «aberta à sociedade civil». Uma «televisão feita por todos, para todos». Uma televisão que «conta com a participação activa de 50 parceiros dos mais variados quadrantes». Confesso não ficar particularmente arrebatado com os termos do anúncio. Confesso que preferia, em vez de «receber a sociedade em casa», continuar a receber apenas bons documentários, um espaço noticioso decente e filmes de Tati, Kitano, César Monteiro ou Renoir.
Uma conversa triste
Não somos racistas. Nem somos contra as migrações, claro. Temos apenas uma ligeira questão gramatical mal resolvida: os migrantes são bons se forem precedidos do prefixo e. E maus se forem precedidos do prefixo i. De resto somos todos iguais.
sexta-feira, dezembro 26, 2003
Ainda o Natal
Hoje de manhã, muito cedo ainda, corri ao fundo do jardim a olhar o pomar de amendoeiras. Juro que, por instantes, acreditei nessa possibilidade. No milagre de as amendoeiras, durante a noite, terem ficado em flor.
A quadra natalícia
Peço um café e uma água. Pago com cinco euros. Quase sou insultado pelo chefe, que fica a resmungar qualquer coisa sobre a falta de trocos e esta mania de pagar tudo em notas. Recebo finalmente a demasia, componho um sorriso e desejo-lhe continuação de Boas Festas. O meu mau-feitio, nestas alturas, não se propaga.
quinta-feira, dezembro 25, 2003
[Um poema para o Natal]
1.
Como se estas lâmpadas acesas pudessem
por um instante
iluminar os dedos das crianças
quando sublinham uma frase
nos primeiros livros do ano
2.
O mundo é tão pequeno
tão sujeito à vaga do inverno
aos limites da dádiva
à chuva a demorar no pátio a
memória breve
dos milagres
3.
Nenhuma sombra que a memória pudesse
trazer de novo
à superfície rasurada das páginas
nenhuma lança que pudesse trespassar
de mágoa
os corações abandonados
à tristeza inúmera da idade
Como se estas lâmpadas acesas pudessem
por um instante
iluminar os dedos das crianças
quando sublinham uma frase
nos primeiros livros do ano
2.
O mundo é tão pequeno
tão sujeito à vaga do inverno
aos limites da dádiva
à chuva a demorar no pátio a
memória breve
dos milagres
3.
Nenhuma sombra que a memória pudesse
trazer de novo
à superfície rasurada das páginas
nenhuma lança que pudesse trespassar
de mágoa
os corações abandonados
à tristeza inúmera da idade
quarta-feira, dezembro 24, 2003
Boas Festas
O meu vizinho comprou doze metros de mangueira com luzinhas que acendem e apagam. A cobra iluminada contorna o vão da entrada, sobe a empena, enrosca-se nos balaústres da varanda, corre na horizontal até ao limite nascente do alçado, desce a prumo ao pavimento de tijoleira, desenha um coração no relvado e acaba em elipse ascendente no arbusto encimado por uma estrela prateada. A estética não me comove. De resto comove-me tudo.
terça-feira, dezembro 23, 2003
O desejo
Não voltarás a dividir com o medo essa estranha forma de júbilo, esse inesperado ardor que regressa de onde nem suspeitavas que alguém se recolhesse do frio ou afastasse com as mãos a tempestade.
segunda-feira, dezembro 22, 2003
O rumor desses pássaros
Nas casas da encosta finda, cada vez mais cedo, o rumor desses pássaros que se recolhem aos bosques no tempo vagaroso dos desastres.
Uma última vez
Um último rumor, esse que chegava da península e percorria a casa enquanto desciam as sombras de ser já quase a noite. Um lenço molhado para as lágrimas das mulheres ainda jovens a recolher a roupa da cómoda, os panos bordados das mesas, os desenhos do estrangeiro pendurados nas paredes velhas. Podias então chegar e olhar a água da tristeza, com alguma indiferença, a marcar a distância que vai de ti às coisas que são tuas.
Os segredos desse tempo
Não escondes os púcaros, o pau de vidoeiro cortado à navalha, a cruz em tinta vermelha do lado de dentro da porta do curral, o licor da artemísia, a erva cidreira, a masseira do pão. Só a ninguém dirás o segredo escondido nos bosques mais próximos ou repetirás as frases de afastar o trovão e o mau olhar da noite.
Quase o outono
A tarde acrescenta às vozes comuns, uma e outra vez, o anil da evaporada água das represas, o sobressalto do voo picado da águia, o ouro inúmero das margens do pomar de macieiras. E quando a noite se desenha no recorte dos cumes azulados, é ainda o calor da terra de setembro que adormece devagar, no regaço das crianças com sono, essa promessa de felicidade depois do tempo dos incêndios.
As pragas, pra eles verem como é
domingo, dezembro 21, 2003
Uma praga algarvia vinha mesmo a calhar
Devia-te nascer uns cornos tão grandes que nas pontas poisassem dois litibós. E que começassem a cantar e um não ouvisse o outro.
Outra
Devias deixar cair as chaves. E que quando te agachasses pra apanhá-las te caísse a tampa do peito.
sábado, dezembro 20, 2003
Um por um
Se tivéssemos menos vinte anos... E se soubéssemos o que sabemos hoje... E se pudéssemos de novo cometer exactamente todos os mesmos erros...
O Código Penal
É difícil ir a qualquer lado sem ouvir música. Ao centro comercial, ao comércio tradicional, a um bar, à fisioterapia. Há sempre «música ambiente». Devia ser proibido darem-nos música. Só pagando. Fosse em que situação fosse. Mas na «quadra natalícia», então, é exasperante: até na rua nos dão música. A srª drª Celeste Cardona anuncia a intenção de mexer no Código com vista ao agravamento de penas para os crimes mais graves. Em sendo assim, eu atrevia-me a solicitar a Sua Excelência o obséquio de considerar a possibilidade de o «Gingle Bells», passando em altifalante num sítio público, configurar uma moldura de prisão preventiva sem direito a recurso.
sexta-feira, dezembro 19, 2003
O Sul
As crianças, ruidosas, brincam no recreio. Correm, saltam, escondem-se, gritam, juntam-se em pequenos grupos em redor de um pneu de camião. O céu permanece indeciso entre o branco e o azul. Não há uma nuvem. Os aviões cortam a cidade à altura dos prédios. Os plátanos do jardim da Alameda estão carregados de folhas. O sol, ao fim da manhã, atravessa a copa do eucalipto do outro lado da rua e desenha no asfalto um rendilhado geométrico de luzes e sombras. Não pode ser ainda o Inverno. O calendário está errado. E, portanto, por muito que custe dizê-lo, as mulheres nuas dos calendários das oficinas de serralharia mecânica são, nesta altura, a única coisa acertada com o meridião.
quinta-feira, dezembro 18, 2003
As prendas de Natal
A TV publicita um anel com brilhantes sobre fundo vermelho. Vistoso. De encher o olho. Chama-se «Anel Moulin Rouge». A questão é: a quem se oferece um anel destes? À amante?
E, de novo, só a sombra
Já noite, de regresso a casa, começa a chover. O dia esteve cinzento. Desde manhã cedo. Cinzento escuro. Baço. Cinzento. E foi debaixo de chuva que saí do carro, que subi os doze degraus que levam à tijoleira do alpendre. Chove, portanto. Mas, de súbito, a laranjeira do jardim parece iluminada. Como num quadro de Georges de la Tour, a luz sai do interior da própria árvore. Como se cada um dos seus frutos fosse iluminado pela sua própria luz. Fico parado por instantes. À chuva. A olhar esse fogo. Interdito. Até que a sombra regressa de novo. E, de novo, só a sombra, a chuva batida pelo vento.
quarta-feira, dezembro 17, 2003
Os sonhos
Em 1903, dois irmãos, construtores de bicicletas, puseram a voar uma máquina mais pesada que o ar. Hoje, cem anos depois, há ainda quem nem consiga levantar os pés do chão.
Depois da tempestade
Depois da tempestade de sábado, ontem, em Fátima, a Igreja apressou-se a meter os pontos nos ós.
terça-feira, dezembro 16, 2003
Coro
Os homens fazem a guerra
para que na sua ausência alguém possa chorá-los
ou manter o fogo aceso
para que a súplica seja resgatada ao
silêncio
das muitas promessas
antigas
Por isso lhes dão cigarros e
vinho quando regressam
entoam-se cânticos na praça
e ninguém reconhece as lanças partidas como parte
do espólio
de nenhum desastre
para que na sua ausência alguém possa chorá-los
ou manter o fogo aceso
para que a súplica seja resgatada ao
silêncio
das muitas promessas
antigas
Por isso lhes dão cigarros e
vinho quando regressam
entoam-se cânticos na praça
e ninguém reconhece as lanças partidas como parte
do espólio
de nenhum desastre
segunda-feira, dezembro 15, 2003
Nem sempre há pachorra
Este meu amigo, se mandasse, privatizava tudo: hospitais, escolas, repartições de finanças, direcções regionais. Ontem à tarde lá voltou a desfiar o seu rosário recorrente de acusações contra a administração pública: que não funciona; que não dá uma resposta atempada; que não despacha; que ninguém mexe uma palha; que é um sumidouro de recursos... A páginas tantas, olhando o horizonte, interrompeu uma frase sobre a eficácia demonstrada dos privados na gestão hospitalar: «Bolas, já é noite... Também é verdade que estamos quase no solstício. É a 21 ou 22 de Dezembro?». Respondi-lhe no seu registo, como num eco: «Se depender da administração pública, se calhar só lá para meados de Janeiro do próximo ano»...
domingo, dezembro 14, 2003
Recorde mundial
Respondendo a um desafio lançado pela SIC, milhares de motociclistas circulam pelas ruas do Porto vestidos de Pai Natal. Sem capacete. Vieram da Lousada, de Vila Nova de Gaia, de Matosinhos, de Barcelos: sem capacete. Há um sistema de contagem. Parece que são quase seis mil. Batem-se, portanto, dois recordes: o da maior concentração de Pais Natal do mundo; e o do maior número de pessoas em infracção simultânea ao código da estrada. Amanhã recomeçarão, presume-se, as campanhas de prevenção rodoviária.
Iconografia
Saddam Hussein foi capturado. Nas imediações de Tikrit, sua terra natal. Num buraco escuro. Onde só havia uma ventoinha. E uma mala cheia de dólares.
Os empatas
Taça Intercontinental. O Milan e o Boca Juniors desempataram nas grandes penalidades. Cento e vinte minutos de jogo sem emoção, sem paixão, sem alegria. Onde entra uma equipa italiana, é isto. Nem jogam nem saem de cima.
sexta-feira, dezembro 12, 2003
A retoma
Talvez não tivesse compreendido bem. Mas por instantes pareceu-me ter-lhe ouvido, a meio do discurso, falar em «gincana política». É uma imagem interessante. Uma metáfora desportiva um bocadinho diferente. Antigamente era só futebol. Anuncia uma nova fase na retórica do Parlamento. Mais civilizada. Mais literária. A coisa ainda vai lá. Não me parece que haja razões para dizer que está tudo perdido. Isto devem ser já os reflexos da retoma.
quinta-feira, dezembro 11, 2003
Discursos
Um político, durante um aceso debate, pedia hoje ao seu interlocutor que lhe respondesse com «um discurso fundamentado e não com um discurso político». Eles lá sabem...
O deputado das comunidades
[ou dos perigos da poesia]
Teve a inocência de pensar que não era
ilícito fazer o que a outros, velhos
democratas de tarimba, se permitia
num silêncio cúmplice por direito consuetudinário.
E de repente viu-se, as mãos nos bolsos
de um sobretudo ainda recente das suas
funções públicas, descidas as
pálpebras, nas primeiras páginas dos jornais
a servir do exemplo que terceiros davam.
Recordo-o alguns anos antes com o saco
de viagem e o primeiro volume da obra
poética de Ruy Belo na mão esquerda
a caminho da pensão americana. Talvez então
não sonhasse ainda com esse exercício de
presumir que fazia as leis e
de servir os seus iguais viajando em
nome do povo e da diáspora com o dom
da ubiquidade e as facturas múltiplas
respectivas à mesa do orçamento.
Quem diria, ouvindo-o nesse tempo à
sombra dos ulmeiros velhos a recitar os
decassílabos na edição da Presença,
que o logro da política, a suposta imunidade
e a ilusão do poder haviam de perdê-lo?
A alguns colegas seus do hemiciclo, cúmplices
no que o desviou menos em ser lorpas,
talvez os tivesse salvo nunca o bichinho da
lírica ter chegado a corrompê-los.
Teve a inocência de pensar que não era
ilícito fazer o que a outros, velhos
democratas de tarimba, se permitia
num silêncio cúmplice por direito consuetudinário.
E de repente viu-se, as mãos nos bolsos
de um sobretudo ainda recente das suas
funções públicas, descidas as
pálpebras, nas primeiras páginas dos jornais
a servir do exemplo que terceiros davam.
Recordo-o alguns anos antes com o saco
de viagem e o primeiro volume da obra
poética de Ruy Belo na mão esquerda
a caminho da pensão americana. Talvez então
não sonhasse ainda com esse exercício de
presumir que fazia as leis e
de servir os seus iguais viajando em
nome do povo e da diáspora com o dom
da ubiquidade e as facturas múltiplas
respectivas à mesa do orçamento.
Quem diria, ouvindo-o nesse tempo à
sombra dos ulmeiros velhos a recitar os
decassílabos na edição da Presença,
que o logro da política, a suposta imunidade
e a ilusão do poder haviam de perdê-lo?
A alguns colegas seus do hemiciclo, cúmplices
no que o desviou menos em ser lorpas,
talvez os tivesse salvo nunca o bichinho da
lírica ter chegado a corrompê-los.
Fazemdas alheias
Ainda hoje são frequentes as rivalidades entre aldeias e cidades vizinhas, entre concelhos, regiões ou países que partilham fronteiras. O concelho de Cacela, no século XVII, não era excepção. É verdade que os moradores de Alcoutim e Tavira, concelhos limítrofes, pareciam não sofrer tratamento diferente dos naturais e moradores de Cacela no que era essencial: a aplicação das coimas. Mas com Castro Marim a coisa fiava mais fino... A postura de 6 de Janeiro de 1663 da Câmara de Cacela, por exemplo, previa uma coima de quinhentos reis para quem tivesse «malhada de colmeias» sem licença; tratando-se de pessoa «do termo de Crasto Marim», no entanto, aplicava-se «pena dobrada»... As Actas do Concelho de Cacela no Século XVII, publicadas por Hugo Cavaco em 1990 (ed. C.M.V.R.S.A.), são, também a este respeito, uma pérola: «Toda a pesoa que tiver ovelhas neste termo dos figeirais para baxo e lhe forem achadas em fazemdas alheias terhão de pena por cada res que forem achadas mill reis para o Conselho e mandarão que se apregoasse e as de Crasto Marim dois mill reis»... A isto se chama fazer pelas receitas próprias: imagine-se o cofre da Câmara em se fisgando um rebanho de «Crasto Marim» em «fazemdas alheias»...
quarta-feira, dezembro 10, 2003
Saltar à tesoura
Uma vez, no tempo em que ainda se dizia «liceu», fui humilhado numa prova de salto em altura por um sujeito da turma C que saltava à tesoura. Fiquei em segundo lugar e, claro, apresentei protesto formal com o argumento de que o tipo saltava muito, sim, mas não tinha estilo; e que portanto deveria ser desclassificado. Indeferido o protesto, jurei que nunca mais haveria de entrar num ginásio. Isto ocorreu-me ao passar os olhos por um livro onde se atinge que o autor tem ideias em catadupa mas que é preguiçoso na forma; que é incapaz de sacrificar uma ideia a um parágrafo. Independentemente da eficácia narrativa, não gosto de autores que escrevem como quem salta à tesoura.
terça-feira, dezembro 09, 2003
Os jardins do Outono
Um jardim é essa pequena sombra no tempo da luz derramada sobre as paredes de cal. E a luz, a magoada luz de Dezembro, quando as sombras se repetem fora dos seus muros ou das suas sebes de murta. A trepadeira verde. E as árvores. Os seus ramos feitos para as aves do Outono poisarem a meio da tarde.
Também a casa
O jardim é também a casa, e por isso os aromas da casa e do jardim se confundem. Chove. Mas um mesmo perfume, antes de ser noite, há-de percorrer a biblioteca, as flores brancas do viburno e a tijoleira do alpendre.
domingo, dezembro 07, 2003
É esse o milagre
O sol desce muito cedo sobre a cumeada irregular do poente. As figueiras recortam-se num emaranhado de ramos contra um fogo que já não aquece. As folhas da alfarrobeira persistem junto ao armazém de frutas. A terra, de um castanho espesso, adormece vagarosamente. E é esse o milagre: o de sabermos que as amendoeiras haverão ainda de florir, num branco cor de rosa e azul, durante o Inverno.
sábado, dezembro 06, 2003
A vida é bela
É curioso. O teatro de revista, que chegou a estar mais que morto e enterrado, aí está de novo, pujante, com «momentos muito bonitos» a animar os palcos e as tardes televisivas. Neste espírito, o incontornável Vítor de Sousa lá vem recitar pela enésima oitava vez um poema que é um marco da nossa literatura e da grande aventura poética do século vinte. Foi escrito na década de cinquenta, num tempo em que não havia subsídios à criação, e a gente ainda se emociona ao ouvir em voz alta esta toada decassilábica: «Olha os irmãos da nossa confraria/ muito solenes nas opas vermelhas»... E, de facto, há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que se recusa a acreditar que «na nossa igreja, que Deus a proteja/ já passou a procissão». Seja como for, momentos destes (obrigado, TVI!) explicam-nos mais sobre o estado da nação do que um programa de governo, a discussão na especialidade do orçamento ou a leitura diária do jaquinzinhos e do Barnabé.
Os direitos conexos
Eu não sabia que se compravam casas no Algarve com putativos direitos conexos. O de um clima sem sobressaltos, por exemplo. A senhora, que aparentemente precisava mais de ginásio do que dos Baileys que mamava ao balcão com muito gelo, queixava-se em voz alta. «Vem a gente passar um fim de semana ao Algarve, e é isto: chove...» Como se a chuva devesse poupar a segunda habitação e só fosse legítimo que molhasse os autóctones... Não me tive que não me mostrasse determinado a ajudar. E então disse-lhe que conhecia o senhor presidente da Região de Turismo e que estava disposto, contra os meus princípios, a meter uma cunha: «ainda lhe telefono esta noite. Esteja descansada que amanhã só chove em Monchique...»
Más notícias
Celeste Cardona diz que não verga. E que é coerente consigo mesma. Más notícias... Pois era exactamente isso que se temia...
Agora o juiz que decida
Picão de Abreu, da lista A, venceu as eleições para a presidência da Federação Portuguesa de Râguebi. Dídio de Aguiar, da lista B, também. Até que enfim que o desporto português começa a dar sinais de entrar nos eixos...
sexta-feira, dezembro 05, 2003
Os jacarandás da avenida
Primeira sessão de fisioterapia. A clínica de um branco asséptico. A temperatura primaveril. A técnica, na fase inicial de recolha de dados, virou o envelope das radiografias e deu com os versos alinhados de um poema sobre os jacarandás da avenida que eu acabara de cometer na sala de espera. Ergueu ligeiramente a cabeça e perguntou-me se tínhamos ali poeta... Atrapalhado, apanhado em falta, respondi-lhe logo que não. Que aquilo nem sequer era a minha letra... E acrescentei: «meu Deus, só me faltava mais essa»... Ela sorriu e continuou a preencher o impresso administrativo. E via-se que ficou aliviada.
História de Portugal
Tem estado um frio terrível. E recomeçou a chover. Agarrados à lareira, pega-se num livro e logo nos há-de sair o Oliveira Martins a garantir que no Algarve, durante o Inverno, se vive «no seio de uma constante Primavera». Ele que viesse cá hoje. Ou ontem. Saísse ele agora ao alpendre, a acarretar mais um pouco de lenha, e talvez compreendesse quem o criticava no entendimento de que o rigor, num historiador, nem sempre deve ser sacrificado ao estilo.
Perguntas queimadas
Se há problemas de estacionamento e de congestionamento de tráfego no centro das cidades, por cada estacionamento subterrâneo que é construído no centro das cidades não deveria correr paralela a opção de construir uma estrada subterrânea (ou aérea, descendo no troço final a doze por cento em direcção ao subsolo) de acesso ao estacionamento subterrâneo?
quinta-feira, dezembro 04, 2003
Os bons e os maus
Hoje houve uma acirrada discussão ideológica na Assembleia da República. Um debate aceso sobre o que é a esquerda e o que é a direita, e acima de tudo sobre quem é ou não é de extrema direita. E o que significa isso. Comovi-me a ver a reportagem. Quase parecia a blogosfera.
quarta-feira, dezembro 03, 2003
A voz do povo
De acordo com um aforismo de que não conseguimos ainda libertar-nos, para morrer basta apenas estar vivo. Enfim, é verdade. Mas isto escusava de ser uma espécie de regra que exclui interrogações e perplexidades.
Pormenores. Sem importância
Um edifício ruiu. Duas pessoas morreram. Não há país na Europa que nos ultrapasse em número de licenças emitidas anualmente para construções novas. As licenças para obras de recuperação e reconstrução de edifícios, por sua vez, apresentam valores insignificantes. São pormenores. Sem importância. Que fazem toda a diferença.
Regras de três simples
Depois de um rigoroso e exaustivo inquérito, os relatórios oficiais das comissões de inquérito geralmente apontam para a impossibilidade de concluir que a causa a) tenha determinado o efeito b), não sendo no entanto de eliminar a hipótese de o efeito b) ser determinado pela causa a).
Insolências
«O filho do herói liberal foi mais longe: apresentou uma moção em que se estabelecia a responsabilidade governamental, obedecendo à lei da responsabilidade particular e privada. Essa noção célebre foi rejeitada solenemente pela câmara inteira, empalidecida de indignação sob a afronta insolente do atrevido.»
Carlos Malheiro Dias. Os Teles de Albergaria (1901)
Carlos Malheiro Dias. Os Teles de Albergaria (1901)
terça-feira, dezembro 02, 2003
Inês
Ela via o templo romano pela primeira vez. Chovia. Ainda assim ficámos os dois a olhá-lo durante muito tempo. Já noite. À chuva. Com os holofotes a iluminá-lo dessa irrealidade sem tempo. A Inês a olhar pela primeira vez as colunas erguidas sobre a cidade e contra o escuro que há muito descera sob um céu de chumbo. E eu com a ilusão de que ela não via o templo de Diana pela primeira vez, mas como se aquelas pedras existissem desde sempre na sua breve e antiga memória do mundo.
Obscuro alarme
«Chove. A fúria do vento não cessa. Batida pela sua vergasta, a chuva esparrinha na vidraça, varre a rua de lembranças concretas. E uma memória antiga, pesada de augúrio, levanta-se-me no seu clamor, memória escura, anterior à vida. Assim o que relembro não tem face nem nome, é a forma oca de um limiar indistinto, pura anunciação de presença, obscuro alarme de uma aparição.»
Vergílio Ferreira, Carta ao Futuro
Vergílio Ferreira, Carta ao Futuro
segunda-feira, dezembro 01, 2003
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