sábado, setembro 25, 2004

[Do amor]

Nunca soubemos se é possível no seu voo por um instante as aves mudarem a trajectória se
lhes é possível a escolha se
necessariamente repetem ano após ano esse percurso que as traz de longe ao fundo do vale se
um relâmpago as fende ou ilumina se
estão sujeitas à propagação migratória das frases se
o vento do atlântico as puxa para o centro dos meteoros.
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Nunca soubemos em que margem se levantam os caules onde os cardumes adormeciam antes das explosões se
as marés alteram a corrente dos lagos da península ou apenas irrompem no abismo das águas e expandem as placas até à desordem das páginas numeradas dos livros se
os peixes do fundo dissipam nas vertentes côncavas o metal incandescente dos processos erosivos se
as argilas do dilúvio precipitam ainda nos leitos de cheia se
a sede é um dos desígnios da abundância.
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Nunca soubemos se a poderosa evocação do paraíso nos liga às raízes das macieiras ou se
é apenas a memória dos frutos que se expande nas artérias até à deflagração do desejo.
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Nunca soubemos se o coração e os incêndios são pronomes possessivos inscritos na paisagem se
o fogo irrompe dos alicerces da casa se
a infância deixa na pele as manchas a sépia das constelações se
o movimento de translação da terra aquece a água das vasilhas de zinco que as mulheres deixam ao lume se
é possível as crianças regressarem do passado com seus archotes de granizo e incendiar as planícies.
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Nunca soubemos
sabemos sempre tão pouco do que respeita ao amor.