quarta-feira, julho 30, 2003

Um tamagochi

Quando (altas horas da noite ou muito cedo de manhã) passo pelo computador a ver como vai o mundo dos posts, confesso que chego a pensar que isto dos blogs às vezes é como ter um tamagochi...

Última hora

Afinal está confirmado que não houve nenhum terramoto no Algarve, confirmando-se ainda que os sismógrafos detectam oscilações da crosta e movimentos de placas, mas não a «qualidade» (digamos assim) dessas oscilações e movimentos. Deste modo se compreendem também as dificuldades dos técnicos do Instituto de Meteorologia em esclarecer a localização precisa do epicentro: é que as ondas de choque partiam de pontos múltiplos, de forma difusa, e seguiam padrões relativamente aleatórios.

Restabeleça-se, pois, a verdade dos factos: a terra tremeu ligeiramente em consequência do aumento dos fluxos de trânsito associados à mudança de mês, no preciso instante em que a auto-estrada registou a presença simultânea de 800.000 viaturas a caminho do Sul, mais 200.000 em sentido contrário. É só o Verão...

Nada de anormal, portanto. De resto, o direito de beber uma cerveja e desaparecer por uns tempos deixa de ser um exclusivo do Francisco: a partir de agora, todos nós, os que vivemos no Algarve o ano inteiro, estamos autorizados a fazê-lo...

Rendimento Mínimo

Confesso que estava à espera de mais e melhores argumentos quando ouvisse o autor do abrupto falar do Rendimento Mínimo (RM). É claro que um pequeno post num blogue não é o local indicado para desenvolver uma argumentação atenta sobre um tema no mínimo controverso. Mas assumir que o RM é pernicioso apenas pelo facto de, eventualmente, poder dar origem a clivagens sociais nas pequenas aldeias não é, convenhamos, afirmar uma grande contra-indicação para uma política que tem vindo a fazer, senão muito, pelo menos alguma coisa por muitos portugueses que sobrevivem no limiar da pobreza e da exclusão absolutas.
Na discussão sobre o rendimento mínimo é imprescindível que se enuncie claramente à partida a distinção entre um bom princípio eventualmente mal aplicado e um mau princípio com uma, eventualmente, boa aplicação, coisa que Pacheco Pereira naturalmente não faz.
E o RM é efectivamente um bom princípio com aplicações que, ao que sei, têm vindo a ser corrigidas ao longo do tempo. Os detratores do RM, ao referirem apenas os "maus exemplos" esquecem-se, não apenas de mencionar o facto de as famílias que o auferem estarem obrigadas a escolarizar os filhos, a frequentar cursos de formação profissional e pessoal, a inscrever-se num centro de emprego etc, como evitam afirmar que estas famílias estão sujeitas a um acompanhamento e uma fiscalização, que podem funcionar melhor ou pior consoante as conjunturas políticas e as estruturas organizacionais.
O RM é, para muitas famílias portuguesas a única forma de sobrevivência e a única fonte de dignidade que ainda lhes resta, e se fosse só isso já seria louvável.
Mas o grande objectivo do RM é o de procurar romper com aquilo que os sociólogos chamam o "ciclo vicioso da pobreza e da exclusão", através da injecção, junto dessas famílias, de um pequeno montante de capital a troco de uma mudança de hábitos e comportamentos. Ou seja, a troco da mudança daquilo que em sociologia se designa por "cultura da pobreza". Afirmar que o RM agrava as desigualdades sociais, que promove a exclusão social e que produz uma clivagem entre os que trabalham e os que nada querem fazer são falácias argumentativas. Se a clivagem existe é entre os que têm poder e aqueles que nada podem fazer.
As pessoas a quem o RM efectivamente se destina estão de tal modo mergulhadas nesse ciclo vicioso da exclusão, nessa cultura da pobreza, que as próprias noções de "trabalho", "integração", "dignidade" ou "ócio" lhes são completamente estranhas.
Não é "dar dinheiro" aos pobres que está em causa no princípio que subjaz ao RM - que, por acaso, existe em todos os países da Europa central - é, nomeadamente, a criação de condições mínimas para que os filhos daqueles que são hoje excluídos não o sejam no futuro e não venham, precisamente, a reproduzir a condição social dos pais.
Curiosamente, ou talvez não, nunca li nem assisti a nenhuma discussão acerca do Rendimento Mínimo que não descambasse no despejar do bébé com a água do banho.

terça-feira, julho 29, 2003

Aqui não há...

Para já, vale a pena. Goste-se ou não, perceba-se a letra ou não. É uma ideia gira de poesia quotidiana. Recomendo, assim continue a inspiração do rapaz. Aqui não há poeta? Assim aqui não houvesse sul.

Coração pós-moderno

Culpa minha. Mas foi você. Quem me deixou assim. Palavras. Escritas. Sem jeito. Acentos. Inexistentes numa vida. Cinzenta. Sobrevivo até. Quando? Nem sei, depende. De si que eu morro todos os dias. Um pouco mais. Que. Lhe importa isso? Deixe, isto passa. Não. Se morre já. Muito menos. Por amor.
Obrigado Baeta, a sua generosidade deixa-nos um bocadinho atrapalhados, mas orgulhosos também.

O amor e os seus perigos

à olaia também lhe chamam
árvore do amor ou
árvore de judas
nunca aceites essas folhas
em forma
de coração

Se calhar é assim que está certo

Talvez o nosso país pudesse ser um bocadinho diferente se conhecêssemos as árvores pelos seus nomes. Talvez nós mesmos pudéssemos ser um bocadinho diferentes se conhecêssemos as árvores pelos seus nomes. Algumas árvores, pelo menos: um lódão, uma figueira, um amieiro, um vidoeiro, uma olaia... Celtis australis, Ficus carica, Alnus glutinosa, Betula pendula, Cercis siliquastrum . Ou talvez não. E talvez isso já não seja importante.

Olá...

Há uma eternidade que não te vejo. Obrigo-me, por isso, a perguntar-me se te terei alguma vez visto, se terás sido real, ou apenas um sonho. E no entanto, era capaz de jurar que tinhas existido, porque quase consigo sentir a tua pele, cheirá-la. Em dias como o de hoje, oiço, comprimido dentro de mim, o rumor da tua voz e por vezes, na penumbra silenciosa, o teu riso abafado. Toco, cem vezes, num piano desafinado aquela balada que só por uma vez me saiu bem e que só tu conseguiste ouvir. Faço-o, mesmo sabendo que nunca a tornarás a ouvir, porque não estamos no mesmo mundo. Olho na direcção que a tua bússola me aponta e sei que no fim da linha que ela traça, estás lá. Estarás? Já não sei, porque nunca descobri se alguma vez foste real. Acho que é isto a vida imperfeita. Ou será o mais perfeita que se pode desejar? Pela resposta, apenas por ela, apetece-me sussurrar ao vento, ao nosso vento, àquele que me ensinaste a sentir:- Onde estás, liebezito?

O meu elevador está avariado

E depois? Tenho de ter o cuidado de avisar o leitor que pense em visitar-me por estes dias, que terá de subir a pé até ao meu andar. Não é muito alto, pois moro num segundo andar. A desgraça é que tem elevador, porque ao que parece os segundos andares sem elevador já estavam todos vendidos na cidade. Estranhei, mas embarquei na aventura de morar num prédio com elevador. Ou melhor, com dez elevadores. E dois portões de garagem. Achei que assim teria menor probabilidades de ter de subir a pé até ao meu apartamento, ou até de ficar com o carro trancafiado na garagem, quando dela quisesse sair. O leitor concordará comigo quanto à lógica do meu raciocínio e imediatamente passará à crónica seguinte, porque esta não tem assunto. "O tipo endoideceu" - pensará - "não tem assunto para escrever e resolveu divagar". O leitor terá razão, confesso. Mas tenho o elevador avariado. Bem sei, escrever nunca reparará um elevador e muito menos o meu elevador preferido. Sobretudo porque este foi a gota d’água, aquela que fez transbordar o copo da minha confuciana paciência. E pergunto ao leitor se não teria semi-endoidecido, como eu, se, no mesmo fim de semana:
a) O seu elevador, o seu preferido, o único dos dez que lhe passa à porta de casa, tivesse avariado duas vezes. Pior, agora avariasse todas as semanas, sempre com o mesmo irritante problema de ficar com as portas bloqueadas na cave sem que a empresa que os repara o consiga fazer decentemente, ou sequer lhe forneça uma explicação para o problema;
b) Um dos portões da sua garagem persistisse em avariar, sempre com o mesmo problema, quebra de um cabo do sem fim, sem que haja solução à vista para acabar com o mal;
c) O seu estofador, ao fim de dois meses de trabalho e de o ter colocado em segundo plano face a, seguramente, duas centenas de motoqueiros que precisavam de assentos reluzentes para as suas montadas, após insistentes telefonemas da sua parte, lhe conseguisse entregar-me umas cortinas que não servem nas janelas a que se destinavam, por serem demasiado pequenas, apesar de lhe ter entregue as antigas para que as pudesse medir adequadamente;
d) Uma das suas secretárias tivesse contraído varicela e a outra fosse de férias;
e) Tivesse tomado conhecimento que a sua filha de três anos adora ver o saber amar e que esta telenovela continua a passar na TVI;
f) Soubesse que o juiz Rui Teixeira está de férias na Fuzeta;
g) Confirmasse que Paulo Portas continua no governo, José Vitorino ainda é presidente da Câmara de Faro, Valentim Loureiro preside à Liga de Clubes e Gilberto Madaíl à Federação Portuguesa de Futebol...

Reparo no entanto que tudo o que escrevi é palha e não posso desta feita continuar com o meu rol de desgraças; nada disto faz sentido, quando na Televisão se noticia a desgraça que resulta do facto de uma pessoa de idade ficar sem qualquer haver depois de as parcas posses de uma vida terem servido de pasto às chamas de um incêndio. Sinto-me pequeno, mas ao mesmo tempo cheio de sorte. Amanhã vou conseguir com alguma alegria olhar para o meu estofador quando lhe for devolver os cortinados que serão reciclados como panos de pó. Infelizmente, jamais conseguirei exprimir alegria por Paulo, José, Valentim ou Gilberto. São maus demais, como qualquer incêndio, para ser verdade. E não há pano de pó que, no caso deles, nos valha, à falta de um Rui Teixeira, ou de uma varicela estival que os leve.
Vou, por estes dias de férias. Não para a Fuzeta. Por precaução. Claro.
e.alves@vizzavi.pt

segunda-feira, julho 28, 2003

Se eu mandasse (II)

Se eu mandasse, tornava obrigatória a leitura de O racismo explicado à minha filha de Tahar Ben Jelloun. Especialmente, aos autarcas portugueses (Cf. posts de 19 e 22 de Julho).

Viver no campo

Na «Pública», Maria Filomena Mónica confessa que no início da década de oitenta pensou em ir viver para o campo e que, depois de muito deambular por montes e vales, topou finalmente com a casa perfeita. «O idílio ficou cancelado, todavia, quando descobri não só que a casa fora deitada abaixo, mas que a aquisição de uma botija de gás, que teria de ser feita em Braga, levava uma hora.»

Pois... Não há nada como o campo, não há nada como uma casa de colmo com vacas à ilharga a servir «arcadianos propósitos». Mas, pelos vistos, se houver gás da companhia ou se existir uma central de distribuição que garanta a entrega das botijas em, digamos, cinco minutos...

domingo, julho 27, 2003

S. Tomé

eu é ao contrário
preciso de crer
para ver

sexta-feira, julho 25, 2003

Revista Sul

E não se esqueçam do lançamento do nº 7 da Revista Sul. É já amanhã, na Feira da Serra de S. Brás de Alportel pelas 18:00!

A culpa é do clima

A nossa memória meteorológica é uma desgraça. Todos os invernos é o inverno mais chuvoso de que há memória, ou o inverno mais seco de que há memória, ou o mais frio, ou o mais quente. A meteorologia, portanto, vem mesmo a calhar para justificar e desculpar a sobranceria burgessa com que destruímos paisagens e recursos, com que artificializamos linhas de água, com que impermeabilizamos zonas de máxima infiltração, com que potenciamos processos erosivos, com que construímos em zonas de risco: os senhores jornalistas (que nestas coisas sofrem de uma amnésia viral galopante) reportam então a desgraça das cheias, das moradias «germinadas» que são arrastadas por deslizamentos de terras em encostas imunes a qualquer excrescência de mato ou bosquete autóctone, de estradas cortadas pela violência das águas correndo em ribeiras canalizadas a montante, de incêndios que reduzem a cinzas florestas mono-específicas - justificando tudo isto, cientificamente, com a meteorologia: não há memória de ter chovido tanto, não há memória de as temperaturas terem subido tão alto...

Chega-se o Verão e, é claro, ele são os incêndios... No ano passado os jornalistas relatavam em directo a destruição da maior mancha florestal de pinheiro bravo da Europa, que, se bem me lembro, era a do concelho de Boticas; este ano relatam a destruição da maior mancha florestal de pinheiro bravo da Europa, que, ao que parece, agora é (era...) na zona Centro... No próximo ano (ou no ano em curso, com sorte) será outra, em outra zona do país. Em alguma coisa haveríamos de ser os melhores, ou pelo menos os maiores, da Europa civilizada...

Depois declaram-se situações de calamidade, sendo que ninguém a declara (à calamidade) na altura devida: no preciso momento em que as asneiras são cometidas e legitimadas com licença e alvará...

Embora, enfim, a culpa seja do raio da meteorologia, que nos é adversa...

quinta-feira, julho 24, 2003

Assalto ao Estado de Direito?

Nunca será demais salientar um trabalho de qualidade. Vem isto a propósito do excelente artigo redigido pelo Prof. Vital Moreira, publicado no jornal Público de ontem. Ali, o Prof. Vital Moreira faz aquilo que é preciso fazer e presta um excelente serviço à democracia e ao nosso sistema judicial. Pegando no caso Casa Pia e no sucedido no âmbito do recurso interposto pelo advogado Celso Cruzeiro, defensor do deputado Paulo Pedroso, Vital Moreira explica de forma pedagógica que um juiz é um membro de um órgão de soberania e por esse facto deve à lei - acima de qualquer outra pessoa - obediência e respeito. Mais, deve-lhe obediência inteligente e responsável, sem recurso a quaisquer subterfúgios ou malabarismos de nenhuma ordem. Esquecendo isso, ou manipulando a lei contra o respeito que lhe é imposto por tais funções, pratica um facto que pode e deve ser passível de investigação criminal.
No caso concreto referente a Paulo Pedroso, Vital Moreira volta a lembrar os factos do conhecimento público: estando interposto e pendente para apreciação, no Tribunal da Relação de Lisboa, um recurso de decisão proferida pelo juiz de instrução criminal Rui Teixeira que determinou o estabelecimento da medida de coacção da prisão preventiva àquele deputado, o mesmo juiz Rui Teixeira proferiu, na pendência de tal recurso, um despacho que confirmou a manutenção da prisão preventiva. Com isso, anulou o direito constitucional do arguido ao recurso, na medida em que a decisão recorrida deixa de existir, porque substituída por outra, ainda que de idêntico teor. É vil, fraudulento e, pior que tudo, inconstitucional, porquanto nada obrigava o juiz Rui Teixeira a rever os pressupostos de tal prisão preventiva, uma vez que a argumentação e os pressupostos se mantêm inalterados, como se infere do teor do novo despacho. Tal é tanto mais criticável porquanto faltava ainda um mês para que a revisão daqueles pressupostos (obrigatória a cada três meses) tivesse de ser realizada em face da lei do processo penal. Uma antecipação na análise dos mesmos justificar-se-ia se para alterar a prisão por medida menos gravosa - visto que não existe medida mais gravosa no sistema pena português, nunca para a manter. O juiz do Tribunal da Relação escusou-se em julgar materialmente o recurso com base neste formalismo, facto que igualmente merece reparo de idêntico teor.
Last but not the least, há dias, foi ainda mais assomboso ver um desembargador, em pleno horário nobre, a tentar defender perante as câmaras de televisão, o que é indefensável. Claro, como português e cidadão de um Estado de Direito, mais do que constrangido, fico arrepiado por verificar que em menos de três dias existem três membros de órgãos de soberania que se permitem defender publicamente a negação de um direito fundamental - o direito ao recurso - a um cidadão que procura a todo o custo defender um dos valores mais importantes para cada pessoa - a sua própria liberdade. Na verdade, tal é tanto mais assustador quanto o cidadão em causa é igualmente membro de um órgão de soberania, não porque lhe deva ser destinado tratamento mais favorável, mas porque sendo uma personalidade mediática cada novo desenvolvimento processual é seguido de forma sistemática pela opinião pública e tanto bastaria para que cada acto, cada despachado fosse reflectido e devidamente sustentado. E é isto que me assusta; esta completa ausência de temor pela tomada irresponsável de decisões arbitrárias. Não se trata sequer e apenas de bom senso, mas antes de responsabilidade, num duplo sentido. A um tempo, de respeito, através de um uso e interpretação prudentes das normais processuais e substantivas, noutro momento, da própria responsabilização pessoal pelos actos de um magistrado, quando deles derivem de forma grosseira - como é o caso - sérios danos para os agentes visados por estes, para a legalidade democrática, maxime, para as normas fundamentais do Estado de Direito de que fazem parte enquanto seus pilares de sustentação.

Lucky Luke

Num país onde por vezes parece que nada funciona, é bom saber que as Finanças disparam mais rápido que a própria sombra: um amigo meu, antes ainda de conseguir embolsar um cent pela actividade por conta própria em que está inscrito (não, não é taxista), já recebeu a notificaçãozinha para efectuar o pagamento por conta...

Sinais

Nos últimos tempos, mais que a indignação pelo incumprimento das leis, o que parece sobretudo indignar-nos são as tentativas de garantir o seu cumprimento...

quarta-feira, julho 23, 2003

Profilaxia III

Engraçado... dois amigos diziam-me há dias que bom mesmo para prevenir o cancro na próstata, era, isso sim, a massagem da própria próstata. E demonstravam-me isso com estatísticas relativas aos ciclistas profissionais e à comunidade gay, que apresentam, segundo ele, baixíssimas taxas de incidência. Será assim?

Profilaxia (II)

Parece que já estou a ver a cena:
Farmacêutica - ... leva aqui este vídeo genérico...

Homem - Genérico?

Farmacêutica - Sim, é um video pornográfico igual aos outros, só que é em húngaro e sem legendas, percebe? Mas o que importa é o princípio activo... sim, é mais barato...