quinta-feira, janeiro 13, 2005

[Nas marés]

as lágrimas e o amor
dividiam nas marés
o direito de passagem

Os trabalhos e os dias

Os homens batiam com os nós dos dedos nas câmaras de gelo
e não acontecia nada.
Os homens acendiam archotes, desviavam as águas dos rios, erguiam labaredas com as mãos acesas nos meses de novembro
e não acontecia nada.
Os homens montavam roldanas nos terraços
e não acontecia nada.
Os homens suspendiam as pedras de basalto no arame das vinhas
e não acontecia nada.

Os homens chegavam a casa e adormeciam e no dia seguinte
(muito cedo ainda)
batiam com os nós dos dedos nas câmaras de gelo.

quarta-feira, janeiro 12, 2005

[Todo o amor]

Preferia perder um carregamento de armas na fronteira
ou ser apanhado em escutas telefónicas com os juízes de círculo
do que faltares ao jantar de sábado à noite,
meu amor.
Preferia que o meu candidato fosse retirado das listas
ou que um crítico de arte descobrisse a minha contabilidade criativa
do que faltares ao jantar de sábado à noite.

Promontório

Este amanhecer
traz o abrandamento da fugaz sensação
de que não há palavras
nem cores
que aliviem o negrume
desta prisão
.
chega com
a ténue incerteza de que será o Sol
e a espuma das vagas
alterosas
que enfrentamos
apenas porque precisamos
de lhes sentir o vigor da dor
para tudo ultrapassarmos
.
será isso, e mais nada?
que nos permitirá retornar à vida
se [vida] houver
depois da tempestade
que se afasta
.
Será isto,
mesmo que tudo assim visto
e simultanemanente
nada
pareça fazer sentido
aos olhos de quem
presencia com dor
exasperada
o desencadear da fúria dos elementos
a água a zurzir a rocha
no promontório

[A manhã desperta]

Um rasto de lume desce para o vale
aproximando-se enfim dos pátios
e das propriedades com as linhas do cadastro.
Depois do sono e das vorazes sombras
a manhã desperta com seus olhos de
criança cega, equilibra-se mal nos muros
ainda molhados, enreda-se nas
luminosas teias apertadas. É um som
recorrente, este da manhã crescendo,
e estreito como um fio que alguém puxa
das varandas altas. O mundo inteiro
pode agora começar de frente
atravessando os corações adormecidos,
quase jovens, das mulheres de luto.

Uma vogal

«Sonhei com o nascimento de uma vogal em pleno centro da palavra. O rumor estranho de músicas interiores dirigia-me os lábios com que a pronunciei, internando-me na margem do pronome; e, procurando-me uma luminosa abertura na escura concha da frase, cheguei ao fundo da essencial visão. Um louvor de canto subtraía o sentido à sonolenta inquietação da figura. Remota, quase morta, exalava uma sugestão de ritos verbais. Corpo pousado na arena da língua - insecto vago.»

Nuno Júdice, in A Manta Religiosa. Contexto, 1982.

terça-feira, janeiro 11, 2005

Um livro

Uma jovem desapareceu nas imediações de Tavira no comboio que saiu de Faro ao fim da tarde a caminho de Vila Real de Santo António no dia 22 de Dezembro de 2004. O revisor (que permanece internado no Hospital Distrital num estado de apatia interrompido por momentos duma perturbante lucidez) garante que ela segurava na mão esquerda um livro de Constantino Paustovsky, de capa cor de laranja, intitulado «Chuva na Madrugada»; que a jovem desapareceu no instante preciso em que ele lhe devolvia o bilhete e lhe desejava boa viagem; e que nesse instante preciso é como se o sol, a sua luz imensa, se tivesse despenhado na Ria Formosa enquanto uma súbita labareda muito azul se desprendia da ligeira ondulação das suas águas.

segunda-feira, janeiro 10, 2005

Indiferentes

O funcionário da Câmara encosta o escadote à parede e sobe ao telhado. No recreio, indiferentes, as crianças jogam à bola, correm, dão cambalhotas num aparelho de ginástica. Na rua, indiferentes, as pessoas passam, apressadas, puxando as golas do casaco contra o frio de Janeiro. Só eu páro por instantes. Só eu fico a olhar. Com a estranha sensação de que não há mais ninguém na cidade, no mundo, que se comova enquanto se procede à desmontagem do Pai Natal insuflável do telhado do Infantário.

sábado, janeiro 08, 2005

[O Inverno]

[em Olhão, com outros endereços]

1.
ao fim da tarde
as sombras da ilha
desenham o voo das aves
nas águas da ria

2.
os amigos nunca se despedem
afastam-se por um instante
e olham o mar

3.
mais que o vento
ou as sucessivas águas do inverno
eu temia
o silêncio

4.
as marés e a juventude
mudam de nome
de seis em seis horas

5.
entre a cal e as palavras
há duas sílabas
de água

[A casa]

É uma porta de madeira muito alta
e estreita. Um patamar, depois, e o
lanço dos degraus levando à segunda
porta, com dois vidros, esta, diluindo

em vagas sombras móveis e objectos
do interior. São muitos agora os vidros das
janelas amplas que, dum lado, do outro
a parede com pequenos vasos e reproduções

antigas, os esposos arnolfini, a
anunciação de simone di martino, acompanham
à antecâmara o corredor quebrado em

ângulo recto a meio do percurso. A última
porta, mais larga e mais baixa, abre
para o espaço de penumbra da sala.

[A casa, 2]

Da janela vê-se ao fundo a bruma que
levanta, os primeiros nomes do mundo oscilam
pelos muros altos, não tarda sobre as águas
a calhandra, o fósforo da pedra à luz

caiada da manhã. Raparigas passarão
descalças na linha da margem com maçãs e
nozes, cântaros castanhos à cabeça, rosas
que os cabelos não seguram muito tempo.

O dia claro inunda como um sopro as folhas
do negrilho antigo, mistura os seus
declives ao odor dos púcaros suspensos

da parede: melancólico dia sem outros fios
que os de prender o caminho à casa e
ao silêncio do corpo quebrado nas horas tardias.

quinta-feira, janeiro 06, 2005

Presságio

Vidas turvadas de silêncio
confundido com mentira e engano
estremecente, dor extrema
emudecida a cada instante
como se calar fosse
o único sinónimo de vida
e a fraca luz do fim do dia
levemente confundida
com fonte de mau presságio
sinfonia de esquecimento
.
cheiro de morte


Quase em flor

Em Janeiro a luz começa a preparar os seus nomes nas raízes das amendoeiras.

Dia de Reis

Sim, a saúde e o amor. Mas também, se nos permitem, a riqueza. A prosperidade. Por isso mesmo, hoje, 6 de Janeiro, haveremos todos de comer uma romã.

quarta-feira, janeiro 05, 2005

Parentesis de vida

...sujeito-me ao tempo em que me revoltei
para alvejar as vagas
e devastar a Terra...

(reflexo de uma ideia interrompida por um maremoto)

terça-feira, janeiro 04, 2005

Solidão

Abre essa gaveta
que vês na vizinhança do meu coração
onde guardo o azul do oceano, a lisura
a amargura
e também os amores, a morte,
a apoteose, o desnorte
e a sorte
que canto
porque a solidão não é vocação
única dos poetas.

segunda-feira, janeiro 03, 2005

Alegoria breve

Oh, como é bom de ver a polícia de intervenção e as brigadas de limpeza de resíduos urbanos, a eficácia de uns e outros, o turismo pode estar descansado. E é bom, é um descanso, saber que todos os vidros durante a noite amontoados em tapete nos passeios e nas esplanadas, e as garrafas de cerveja, e os plásticos, e as latas, e o vomitado, e os ramos partidos das árvores, e os guardanapos besuntados de mostarda, e o papelão, saber que tudo isso é removido com eficácia logo a meio da manhã do dia seguinte. E saber que a pancadaria é desincentivada e se vai fazendo o que se pode a poder de cassetete e ostensiva presença das fardas azuis, e que só não se desincentivam a baba escorrendo e os esgares acéfalos porque, certamente, não constam das especificações dos cadernos de encargos. A polícia de intervenção e as brigadas de limpeza de lixo garantem que o sistema é sustentável, que está para lavar e durar, e que as hordas, depois do ano novo, podem já deixar debaixo de olho o apartamentozinho para uma oportunidade próxima (um feriado em Abril, a Páscoa, o Agosto) e comprar o pacote.

2005

1, 2, 3, atenção, atenção, 1, 2, 3, alô, experiência...

domingo, janeiro 02, 2005

Cinzas II

houve no ar gelado da noite
um brilho de estrela
passos de pluma

irromperam e silenciaram
o negrume do fado
no bréu repicaram os sinos

a uma pequena princesinha
à qual se desejou

uma vida repleta
das mais vivas cores
.
as heroínas
que a arrancaram às
cinzas

plágio de O Livro das Princesas

Palavras...

Regresso ainda, por uma noite só, para te dizer que aqui estou, de nariz colado ao vidro espesso, indiferente ao frio interior que me gela. Nada explica a minha ausência, nem o meu silêncio, senão o meu próprio vazio existencial interior, o apagão das palavras, o afogamento das sílabas no meu próprio aniquilamento. Bem sei que não entenderás isto, nem eu to saberei explicar, mas por ora basta-me saber-te no final esotérico de cada suspiro meu, porque mais não te poderia pedir, muito menos desejar; são coisas para além das minhas forças. Algo há que gostaria de te dizer, mas sei intimamente que nunca encontrarei as palavras certas, porque até a mim me falham...