quinta-feira, agosto 21, 2003

Dai Nippon 1

Então, o Japão? - perguntam todos com o mesmo ar de quem espera ouvir relatos de encantar. Alguns, apesar de desiludidos com a minha incapacidade de relatar estórias de encantar sobre o Grande Nipão, ainda insistem - vá lá, conta lá... qualquer coisa?
Meus amigos, vamos lá então resolver isto tudo de uma vez. Deixem-me que vos diga:
"O Japão é tal e qual... como hei-de dizer?... o Japão é o Portugal do oriente; e os japoneses... os japoneses, esses, são iguaizinhos a nós são os Lusitanos do extremo oriente.
É a chocante verdade. Pura e dura... pronto, tirando o facto de os japoneses trabalharem seis dias por semana. Ah, e também o facto de obedecerem aos sinais de trânsito (mas isso é uma diferença menor)... de resto são iguaizinhos a nós... ah OK, eles são mais atenciosos nos serviços públicos, e privados também, mas isso, pronto, não é?
Mas juro-vos: são tal e qual... só gostam é de chegar a horas, mas issso não é nada de mais, eu marquei um eoncontro com um indígena às 10 e meia da manhã e às 10 ele já tinha chegado, mas isso são só pequenas coisinhas. Eu acho que conheço um português que uma vez chegou a horas a algum sítio...
Agora a sério: eles muito parecidos connosco: por exemplo preferem andar de transportes públicos, além dos tais seis dias por semana, trabalham até tarde todos os dias, ganham bem, não se queixam do trabalho, sorriem quando estão a trabalhar, as ruas não têm baldes de lixo mas não se vê um único papel no chão, não cospem para o chão, viram a cara quando tossem ou espirram... enfim, a lista de semelhanças não acaba.
E são todas essas pequenas coisas que fazem com que o tuga em Tóquio ou em Quioto, se sinta tal e qual com se estivesse em Lisboa ou no Porto, com melhores transportes públicos, ok, mas pouco mais que isso.

Assim vamos longe

Expliquei à minha filha que um País não pode avaliar-se exclusivamente pelo modo como ordenamos o espaço florestal, pelos índices de desemprego, pela Economia ou pelas contas públicas: um País são também os seus génios e a grandeza que ao mundo se projecta por via dessa genialidade. Lá fomos, pois, ao Estádio Municipal de Chaves a assistir, com bandeirinhas tugas, ao antecipado massacre dos pobres do Cazaquistão às mãos e aos pés de Figo, Cristiano Ronaldo e Cª. Pois parece-me que, findo o jogo, se calhar até já começou a ter em boa conta a srª drª Ferreira Leite...

Chaves

Mestre Nadir Afonso sobe o Tabolado. Com este calor, pensava eu que os génios haviam de levitar ou que, pelo menos, munidos de diáfanas asas, vogassem um pouco acima dos telhados. Mas não. O Mestre, afinal sujeito às leis da gravidade e à inclemência do clima, dá corda aos sapatos como nós, simples mortais, a caminho da rua de Santo António.

Bagdad

Sabia-se como a coisa ia começar. Não se sabia como ia acabar. Mas suspeitava-se.

quarta-feira, agosto 20, 2003

terça-feira, agosto 19, 2003

Pode ser Vidago?

Hoje, de forma abrupta, disse alto e bom som à senhora do café que me serviu Campilho: «Desculpe, mas eu pedi Pedras Salgadas».

Viver no campo

Num desses passeios todo-o-terreno em que os urbanos procuram o contacto com a «natureza» e tiram muitas fotografias a tudo quanto seja «rústico» ou lhes pareça «rústico», alguém pediu à organização que fizesse o obséquio de mandar retirar das proximidades um tractor carregado de estrume «que cheirava incomodamente». Ontem, em Vilarinho Seco (uma daquelas aldeias de milagre onde parece que recuámos no tempo), um amigo meu lamentava-se de haver ainda gado nas imediações da casa de turismo rural onde comemos e bebemos do melhor que a ruralidade ainda nos permite.

A isto, urbanos convictos, ambicionamos: deixar a cidade ao fim de semana, ou lá de tempos a tempos, e ir jantar ou dormir a uma aldeia «tradicional» onde não houvesse vacas, ou onde, não sendo possível exterminá-las, as vacas atravessassem o largo civilizadamente sem largar uma bosta que fosse no empedrado asséptico.

E de repente, o Verão...

Acabou! A vida tem destas coisas extraordinárias. É que, volvida a primeira quinzena de Agosto, ocorrem regularmente movimento migratórios da espécie humana, de Sul para Norte. Enfim, a um tempo, sinal inelutável do fim da época balnear e da "saison". Curiosa migração esta, contrária à dos demais espécimes. Consciente de que já é seguro, volvi ao Algarve de todos os dias, sem a cautela do José Carlos, que continua migrado em latitudes mais a Norte, enquanto o João parte para Oriente, por uns dias e o Joaquim voltou há pouco de uma digressão na sequência de uma chamada a Tóquio (literalmente, que o Pipi não mora aqui).
E então, mergulhado novamente no trabalho , apercebo-me que nada mudou na minha curta ausência. O país continuou a arder, a insensata demagogia de Paulo Portas persiste, bem como a sua pertinácia em não tirar férias em Agosto (excepção feita a um aparecimento fugaz na Casa do Castelo para um pé de dança com Cinha Jardim). O Farense acabou, em definitivo (pelo menos por esta época). É curioso, sem dúvida, que tenham sido os detractores de Vitorino, que lhe tenham dado a saída política para lavar as mãos do futuro do clube. É irónico, revela fraca inteligência por parte de uma oposição camarária no concelho de Faro. É que, Vitorino, sabe-se, tem fraca capacidade para o cargo que ocupa e o seu executivo não prima pelo brilhantismo ou sequer pela eficácia. A oposição, pelos vistos, não lhe é superior e poder-lhe-ia ter escorrido que estão a um passo de voltar ao poder. Com este passo perdem uma excelente oportunidade para mostrar à opinião pública e ao próprio PSD porque razão Vitorino não pode ser recandidato nem o PSD deter o poder local em Faro. É que, com opositores assim, qualquer um pode ser presidente da edilidade farense. Revelador...
Volto portanto aos meus papéis, detendo-me apenas a espaços para verificar que surpresas nos reserva a "rentrée", mas desconfio que os temas quentes nacionais ficarão por debater. A Justiça, parente pobre de cada governo, a Reforma Agrária, eternamente adiada pelos sucessivos governos PS e PSD (o PCP não é alheio ao bloqueio da reforma) e a Saúde, que ainda não definiu o modelo de exploração hospitalar, são os problemas mais prementes. A partir de agora, o actual executivo não poderá dizer que a culpa vem de trás se nada fizer para explicar à opinião pública como pretende resolver ou minimizar cada uma das questões enumeradas. À oposição pede-se que seja responsável, que deixe a justiça resolver serenamente o problema Paulo Pedroso (ainda que este caso possa e deva ser usado como exemplo no debate de ideias que urge fazer sobre a limitação ou controle do poder dos magistrados) e que se preocupe com o problema do país e menos com os seus próprios problemas ou sequer em ser governo já na próxima legislatura. De governos sem projectos estará o país farto e é importante que qualquer força política perceba isto antes de se assumir, legitimamente, como candidata ao poder. Esta responsabilidade é devida a cada eleitor e à falta de um poder que a fiscalize, é essencial que cada partido a assuma como sua. Difícil? Sem dúvida, mas essencial para o governo de uma nação que se quer civilizada. Desafio demasiado grande para este final de Verão? Sem dúvida.
Entretanto, da Culatra, a pequena ilha onde ainda é Verão, onde nada ardeu e onde ainda não há saneamento básico à vista, observa-se o futuro.


domingo, agosto 17, 2003

Assim à distância

O Sul
assim à distância
não é bem o azul do céu
não é bem o azul do mar
mas é Azul

sexta-feira, agosto 15, 2003

Agosto

Saí do Algarve naquela altura em que o Algarve começa a ficar entupido pelos que falam mal do Algarve. Três semanas até que o Algarve regresse vagarosamente à ordem natural das coisas: até que se possa estacionar de novo a menos de duzentos metros de casa, até que o lixo deixe de se amontoar em pirâmides irregulares em redor dos contentores, até que não seja preciso disputar ao sprint, no areal, um pequeno espaço para a toalha onde durante o resto do ano nos sobra tanto. Mas não contava com os incêndios a acrescentar um mar de cinzas às desgraças sazonais. Vejo as imagens na televisão e a tristeza sobrepõe-se a tudo, provando-se que os incêndios lavram também em nós e não apenas na serra, nas suas linhas de cumeada, nas suas encostas de pinheiro e eucalipto.

Mark Rothko: Orange and Yellow




quinta-feira, agosto 14, 2003

Os lugares do Verão (II)

Também os lugares são em grande parte os seus nomes, a memória desses nomes, as coisas, as vidas, os silêncios, os murmúrios, as pausas que esses nomes evocam. Hoje, a caminho da Presa do Zé Ventura (um lugar secreto, mágico, longe do mundo, de que mais nada se dirá), passei por Mindelo, Valdarada, Barranhas, Portela, Corga da Ferreira, Sapateiro, Lajedo, Poço das Piúcas... Um romance, uma história de viagens, podem não estar necessariamente nas páginas de um livro impresso...

Os bosques

Um bosque é também o nome de cada uma das árvores que o compõem, a sua luz e as suas sombras, a cor das folhas dessas árvores mudando ao longo do ano, as aves que poisam em cada um dos seus ramos.

Boticas

Às vezes há pequenos milagres neste interior esquecido: uma biblioteca municipal decente, instalada num edifício recuperado com decência, com jornais e revistas, com sala multimédia, com um conjunto de livros decente, arrumados em salas decentes, com mesas de leitura decentes. Hoje à  tarde, no entanto, as salas, à  excepção de uma, estão vazias. Não sei se será sempre assim, se será quase sempre assim. Mas hoje só uma delas está ocupada. Melhor: sobrelotada. É a sala dos computadores com acesso à  internet. Oito computadores que é preciso esperar para podermos usar.

Quero crer que, uma ou outra vez, alguns destes jovens se levantem, passem diante de uma estante, na sala contígua, e escolham um livro. E que nem sempre estejam assim tão eufóricos sobre o teclado na tentativa de passar ao ní­vel seguinte em jogos com nomes assim: Beach Tennis. Embora, com este calor...

Monchique

Os eucaliptos não apenas
ardem rapidamente
deixam nesta linha de
cinza clara
a triste sensação
de que tudo
poderia
ser diferente

terça-feira, agosto 12, 2003

Tambem, com este calor...

Na proxima quinta feira terei de novo acentos e cedilhas. Ate la, boas ferias se for o caso...

segunda-feira, agosto 11, 2003

Frank Auerbach: Head of JYM

Isto está o máximo!

Um casal de amigos de Lisboa telefonou-me por volta da 1 da manhã a dizer que estavam num restaurante em Vilamoura a começar a jantar e a convidar-me para ir lá tomar café porque aquilo "estava o máximo". Claro que não só não fui como, no dia seguinte, lhes perguntei se, quando estavam de férias, costumavam jantar tão tarde. Responderam-me que não, mas que ali em Vilamoura tinha que ser assim, que tinham esperado duas horas por uma mesa e uma hora para serem atendidos, e que até tinham tido muita sorte e que estava o máximo!
Pois, imagino que sim, mas é por estas e por outras que enquanto durar o Agosto eu não passo para barlavento da Ilha de Faro...

domingo, agosto 10, 2003

Nao ha acentuacao

Estou num bar@internet e descubro com alguma surpresa a impossibilidade de acentuar palavras e meter cedilhas. Como se escreve um post, de tantos que trazia engatilhados, quando faltam estas ferramentas elementares? O dono do bar surpreende-se com a minha perplexidade, e pergunta: mas precisa mesmo dos acentos e das cedilhas para escrever um texto? Explico-lhe que sim. Que ainda existem pessoas para quem uma palavra mal grafada pode incomodar tanto como a cerveja ser-nos servida muito quente numa altura como esta em que as temperaturas sobem aos quarenta graus. Enfim, talvez os acentos e as cedilhas possam dispensar-se: mas apenas se escrevermos um post onde nenhuma palavra precise de ser acentuada ou cedilhada.

Isto lá vai indo

Chego a casa pelo fim da tarde, depois da praia, e a TVI passa o Amanhecer - uma novela onde, pelos vistos, se discute se o proprietário duriense de boas fam'ilias deve ou não dizer à filha que o não preocupa que tenha escolhido um namorado de classe social inferior. Isto assim de relance, mas textual... Depois chega o intervalo e a estação leva-nos sem pausas para o cenário dos incêndios florestais e para o drama de famílias que perderam todos os bens ou de pessoas que morreram no meio das chamas. A seguir entra um anúncio aos corpos Danone e regressa-se ao Amanhecer e aos casamentos felizes (a novela deve estar naquela recta final em que se prendem os maus e se casam os bons). Daqui a pouco, imagino que os incêndios regressem ao noticiário sem especiais modulações.

E já nem sei dizer o que me incomoda nisto tudo...