Não sei se é mesmo verdade que as meninas da ribeira do Sado têm carrapatos atrás das orelhas. Mas, já agora, talvez os DJ de discotecas e bares de praia do Algarve que têm passado a música madrugada adentro, na fase de encerramento das pistas, pudessem fazê-lo logo no início das sessões, repetindo a meio da noite. Moço prevenido e informado vale por dois, e com a saúde não se brinca - mesmo no Verão algarvio.
domingo, agosto 10, 2003
Serviço da Pública
Adoro estes anúncios. Fico assim a saber que posso adquirir um regador da Christofle por 476 euros ou um relógio Emperador da casa Piaget pela módica quantia de 86.770 euros (pouco mais que dezassete mil e trezentas mocas, ao antigo câmbio).
Deve ser a isto que se referem os analistas de economia ao realçar a necessidade de acabarmos de vez com o discurso da crise e em relançar a confiança e a auto-estima dos tugas. Como contributo, não se me dava regar a buganvília da pérgola do jardim, um bocado murcha aos trinta e cinco graus, com um regador de cem contos...
Deve ser a isto que se referem os analistas de economia ao realçar a necessidade de acabarmos de vez com o discurso da crise e em relançar a confiança e a auto-estima dos tugas. Como contributo, não se me dava regar a buganvília da pérgola do jardim, um bocado murcha aos trinta e cinco graus, com um regador de cem contos...
Ainda os foguetes
Um amigo meu garante-me que ontem andou num comboio foguete. De onde se prova que afinal a proibição dos ditos não é absoluta e que o regime de excepçõees já está a funcionar.
sexta-feira, agosto 08, 2003
quinta-feira, agosto 07, 2003
Já agora
Agora que foi proibido o lançamento de foguetes nas festas e romarias, recomendaria o bom senso a concomitante proibição dos concertos de música pimba que pululam em Agosto e que, por tradição, ocorrem nos intervalos do estralaró.
O outro Algarve
Há dois Algarves: um Algarve de muros de cal ou pedra arrumada, de arribas recortadas, de areais com as marcas da maré e com os restos que o levante traz até à praia, de pequenas sombras pelo fim da tarde a separar o xisto e o calcário, de aves migratórias a atravessar a península no início do Inverno, de uma luz muito azul que vem do Mediterrâneo, de linhas de cumeada sucedendo-se na distância. Do outro Algarve nada se dirá. Senão que o calendário talvez possa defini-los a ambos, e mesmo demarcá-los como essas linhas administrativas que vêm nos mapas e definem territórios com diferentes jurisdições.
Os Lugares do Verão
Saía-se da Zambujeira por uma estrada ladeada de sebes de protecção junto ao mar, podendo parar-se a caminho para ver, do alto da arriba, os Carreiros da Fonte, as Pedras do Inferno ou a Entrada das Barcas. No Cavaleiro deixava-se a estrada que leva ao farol do Cabo Sardão e seguia-se por um caminho de terra batida, passando algumas casas dispersas e terrenos agrícolas de cadastro recortado em fatias, parando-se depois junto aos medos dunares que, para Norte, se alongavam até à proximidade das propriedades defendidas por linhas de vegetação arbustiva. Descia-se, finalmente, à praia. Uma praia recolhida na enseada, uma praia dividida em duas por uma rocha muito escura que resistiu à erosão, uma praia minúscula quando a maré subia até à base da falésia, uma praia quase sempre deserta. Se pudéssemos escolher uma praia, esta seria a minha praia de entre todas as praias do mundo.
quarta-feira, agosto 06, 2003
terça-feira, agosto 05, 2003
Ainda os incêndios (VI)
Em post anterior a este estado de sítio, a esta verdadeira tragédia nacional, tínhamos falado do suspeito do costume: a meteorologia. Infelizmente, pelo que é dado ver e ouvir nos comentários dos telejornais, parece confirmar-se que não há outra razão para os incêndios: está muito calor, há pouca humidade relativa, levantam-se ventos... Pelos vistos, se no próximo Verão tivermos temperaturas primaveris, e não estivais, estaremos livres dos incêndios. E se, no ano a seguir, chover de Junho a Setembro, é provável que voltemos a não ter notícias a dar deste flagelo. Se a coisa não fosse tão triste, tão lamentável, dava vontade de rir. Não é o caso.
Entretanto, as grandes discussões desenvolvem-se (e já que o fogo é inevitável em face de tanto calor...) em redor do tema da coordenação, ou falta dela, nas acções de combate; dos meios existentes ou inexistentes para as acções de combate; dos interesses económicos associados às acções de combate... Não se discutem as questões a montante (ou subvalorizam-se). Não se fala das questões de ordenamento do território, e especificamente das questões de ordenamento florestal. Não se fala de políticas de crescimento económico e de putativo desenvolvimento que levaram, e persistem em levar até às últimas consequências, à desertificação do interior. Não se fala da destruição do bosque mediterrânico e sua substituição por povoamentos extremes de pinheiro bravo e eucalipto. Não se discutem incentivos à floresta de protecção (ou com funções mistas, de produção/protecção), insistindo-se, pelo contrário, na disponibilização de fundos públicos para o apoio a florestações desastrosas do ponto de vista ambiental. Não se discute a estrutura dos povoamentos, não se fazem esforços no sentido da reestruturação fundiária, não se compreende a floresta na perspectiva dos usos públicos e benefícios sociais que proporciona, não se discute a destruição militante da floresta autóctone. Não: discutem-se as questões associadas ao combate dos fogos (que, a partir de uma certa dimensão, como se sabe, é tarefa inglória), não à forma de preveni-los.
A tragédia está ainda em curso. Há, essencialmente, que lamentar a perda de vidas e, secundariamente, a perda de bens económicos e patrimoniais. Mas talvez não fosse mau deixarmo-nos de discutir capelinhas e roupa mal lavada: no próximo Verão há-de haver de novo temperaturas elevadas e, provavelmente, uma humidade relativa do ar compatível com os valores normais da época. A meteorologia, esse papão, aí estará de novo a ameaçar-nos. Entretanto, talvez pudéssemos fazer qualquer coisa a pensar no futuro...
Entretanto, as grandes discussões desenvolvem-se (e já que o fogo é inevitável em face de tanto calor...) em redor do tema da coordenação, ou falta dela, nas acções de combate; dos meios existentes ou inexistentes para as acções de combate; dos interesses económicos associados às acções de combate... Não se discutem as questões a montante (ou subvalorizam-se). Não se fala das questões de ordenamento do território, e especificamente das questões de ordenamento florestal. Não se fala de políticas de crescimento económico e de putativo desenvolvimento que levaram, e persistem em levar até às últimas consequências, à desertificação do interior. Não se fala da destruição do bosque mediterrânico e sua substituição por povoamentos extremes de pinheiro bravo e eucalipto. Não se discutem incentivos à floresta de protecção (ou com funções mistas, de produção/protecção), insistindo-se, pelo contrário, na disponibilização de fundos públicos para o apoio a florestações desastrosas do ponto de vista ambiental. Não se discute a estrutura dos povoamentos, não se fazem esforços no sentido da reestruturação fundiária, não se compreende a floresta na perspectiva dos usos públicos e benefícios sociais que proporciona, não se discute a destruição militante da floresta autóctone. Não: discutem-se as questões associadas ao combate dos fogos (que, a partir de uma certa dimensão, como se sabe, é tarefa inglória), não à forma de preveni-los.
A tragédia está ainda em curso. Há, essencialmente, que lamentar a perda de vidas e, secundariamente, a perda de bens económicos e patrimoniais. Mas talvez não fosse mau deixarmo-nos de discutir capelinhas e roupa mal lavada: no próximo Verão há-de haver de novo temperaturas elevadas e, provavelmente, uma humidade relativa do ar compatível com os valores normais da época. A meteorologia, esse papão, aí estará de novo a ameaçar-nos. Entretanto, talvez pudéssemos fazer qualquer coisa a pensar no futuro...
Ainda os incêndios (V)
«Podemos interrogar-nos se, nos dias que correm, não assistimos em muitas regiões à destruição da paisagem e à sua substituição por um quadro medonho, onde apenas impera a exploração até à exaustão dos recursos e a desolação do deserto.» (cf. Gonçalo Ribeiro Telles & Fernando Pessoa, Paisagens e Espaços Naturais , ed. Clube Internacional do Livro, 1997.)
Ainda os incêndios (IV)
«Os camponeses e os serviços do Estado empregam [o pinheiro bravo] com exagero na rearborização das serras e dos terrenos incultos. Carvalhais, soutos, pinhais mansos da beira-mar, derrotados por milénios de cultura, nunca mais se reconstituíram. Só o pinhal, e ultimamente também o eucaliptal, vão ganhando terreno, subindo nas encostas cobertas de mato, envolvendo o âmbito cultivado das povoações, em grupos pequenos ou em bosques densos, monótonos, intermináveis.» (cf. Orlando Ribeiro, Portugal – o Mediterrâneo e o Atlântico , ed. Sá da Costa, 5ª edição, 1987.)
Ainda os incêndios (III)
«As cidades cresceram no litoral e o interior começou a revelar aldeias abandonadas e novos incultos, em relação aos quais se não pratica a queimada tradicional, mas se enfrenta o incêndio, que se propaga a tudo o que é combustível e se mantém indefeso.» (cf. Eugénio de Castro Caldas, ibidem .)
Ainda os incêndios (II)
«Quando hoje olhamos para a agricultura ou para a floresta de vastas regiões, vêmo-las reduzidas à monocultura, ou a um reduzido conjunto de ecotipos. Apenas porque não eram rentáveis face a uma certa lógica de racionalidade económica. Sublinho uma certa lógica, já que, a meu ver, a economia tem de ver, analisar e decidir para além da lógica de escala, ou do que é imediatamente cifrável em rendimento.» (cf. Carlos Pimenta, idem .)
Ainda os incêndios
«Vai-se continuar a consentir que as nossas paisagens evoluam num sentido em que, a uma monstruosa paisagem urbana e suburbana concentrada no litoral, se contraponham, no interior do País, paisagens florestais e de charnecas periodicamente lambidas pelo fogo? É este o modelo para que estamos a caminhar aceleradamente.» (cf. Ilídio Araújo, 20 Valores do Mundo Rural, ed. Instituto de Estruturas Agrárias e Desenvolvimento Rural, 1995.)
segunda-feira, agosto 04, 2003
Um poema para o outono
as aves migratórias dos lagos de
lemvig e limfjorden
chegam a castro marim e
ficam horas seguidas
na margem do esteiro da lezíria
a olhar as serras de sal muito brancas
com a memória ainda da neve
como se estivessem a
ver o filme ao contrário
lemvig e limfjorden
chegam a castro marim e
ficam horas seguidas
na margem do esteiro da lezíria
a olhar as serras de sal muito brancas
com a memória ainda da neve
como se estivessem a
ver o filme ao contrário
Estava-se mesmo a ver
Não, não foi apenas a luz: também a água faltou durante a tarde de sábado. Não, não foi apenas no sábado: também ontem à noite faltou a água e não foi possível tomar um banho antes de dormir. Não, não estamos ainda de férias (à excepção do Eurico, que por esta hora exacta andará provavelmente em Estremoz, a rondar o Isaías). Como é possível um post nestas condições, no Algarve, no primeiro fim de semana de Agosto? Compreendem?
sexta-feira, agosto 01, 2003
E por fim, Agosto!
Sobe-se pelos próximos dias ao pico da silly season, sem apelo nem agravo. Infantários fechados em Agosto numa região que vive do turismo. Esquecem-se juízes e casapianos, os media vão mesmo a banhos e um milhão de portugueses ruma a Sul. Neste início de mês, as temperaturas subiram de forma insuportável e, apenas para que não restem dúvidas, recordam o Sahara aqui ao lado. Não troco as pilecas do meu carro por um par de dromedários, mas bem me apetecia um oásis perdido neste mar de gente e de calor. Renuncio por ora à Culatra, fujo aos Agostinhos da 125 e ao almirantado dos Sunseekers, Azimuths, Princess, Astondoas e afins que agora começam a descobrir aquelas paragens. Descubro, num mapa, o tal oásis e demando amanhã tais paragens. Espero não ter de parar com os posts para o Um Pouco mais de Sul, mas a tecnologia nada poderá contra a falta de rede de um telemóvel. A civilização, como a conhecemos, ainda não chega, felizmente, a todos os cantos do país.
No meu oásis de eleição, há um dos melhores alfarrabistas do país e uma livraria que consegue ter qualquer livro existente no mundo em dois dias, há uma piscina municipal que agora está vazia de gente e todo um mundo gastronómico. Maria (Alandroal), Fialho (Évora), Grémio (Évora), Bernardino (Serra d'Ossa), Isaías (Estremoz), Barro (Redondo) são alguns dos templos que merecem a visita. Tudo locais que resistem, ainda e sempre, às manifestações de nouvelle cuisine ou simples alarvismo que dominam o panorama algarvio por estes dias. E depois, há as adegas cooperativas e a Herdade do Esporão a dois passos. Tudo bom pano, onde apenas cai a nódoa da poluição do Guadiana, que não deixa aproveitar as potencialidades do Alqueva. À minha espera terei 40º à sombra mas, acredite o leitor, no interior do alfarrabista ou de uma das catedrais referidas não se sente o calor. Compreendo que me diga que nem que lhe pagassem demandaria tais paragens. Eu já fui assim. Passou-me. De resto, hoje não fico, nem que me paguem. Troco o Algarve pelos Foros da Fonte Seca, à espera de dias mais calmos no burgo, que nunca será reino, nem do Algarve, nem da Fuzeta.
Bons terramotos, que é como quem diz, boas férias.
No meu oásis de eleição, há um dos melhores alfarrabistas do país e uma livraria que consegue ter qualquer livro existente no mundo em dois dias, há uma piscina municipal que agora está vazia de gente e todo um mundo gastronómico. Maria (Alandroal), Fialho (Évora), Grémio (Évora), Bernardino (Serra d'Ossa), Isaías (Estremoz), Barro (Redondo) são alguns dos templos que merecem a visita. Tudo locais que resistem, ainda e sempre, às manifestações de nouvelle cuisine ou simples alarvismo que dominam o panorama algarvio por estes dias. E depois, há as adegas cooperativas e a Herdade do Esporão a dois passos. Tudo bom pano, onde apenas cai a nódoa da poluição do Guadiana, que não deixa aproveitar as potencialidades do Alqueva. À minha espera terei 40º à sombra mas, acredite o leitor, no interior do alfarrabista ou de uma das catedrais referidas não se sente o calor. Compreendo que me diga que nem que lhe pagassem demandaria tais paragens. Eu já fui assim. Passou-me. De resto, hoje não fico, nem que me paguem. Troco o Algarve pelos Foros da Fonte Seca, à espera de dias mais calmos no burgo, que nunca será reino, nem do Algarve, nem da Fuzeta.
Bons terramotos, que é como quem diz, boas férias.
Canas e Fátima
Ontem ao fim da tarde, seguindo pela TSF as notícias do veto do sr. Presidente da República à Lei-Quadro, e sintonizando depois a Antena 1, e regressando à TSF, não ouvi um único comentário dos habituais críticos de serviço nestas ocasiões solenes. Há-de ser das férias... Sintonizando a Renascença, no entanto, verifiquei com alívio que a santa missa estava a ser transmitida em directo, e que, portanto, alguém se preocupava com a questão em concreto.
Mas confesso que não me interessava tanto o caso específico de Fátima, e que estava sobretudo interessado em saber o que pensava o país sobre as implicações do veto a Canas de Senhorim...
Mas confesso que não me interessava tanto o caso específico de Fátima, e que estava sobretudo interessado em saber o que pensava o país sobre as implicações do veto a Canas de Senhorim...
Mudar de vida
Naqueles momentos de desalento em que lamentamos não ter tido a coragem de mudar de vida quando as verdadeiras oportunidades nos surgiram, recordo sempre o dia triste em que, apesar da insistência de Sua Magestade, recusei o cargo de Ministro do Ambiente e da Defesa do Reino da Fuzeta, com sede legal em Bias do Sul. Há remorsos que nem o tempo apaga...
Ainda o terramoto
Há indícios fortes de que, depois do Algarve, o movimento subterrâneo das placas possa agora fazer tremer a terra um pouco mais a Norte, com epicentro algures entre Fátima e Canas de Senhorim.
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