segunda-feira, junho 13, 2005

Tempo III


.
Ouve o tempo a assobiar nas vielas
e não deixes que se perca.
.

Um fim de semana "pas comme les autres"

.
De como se seguiram os passos de Orson Wells, Ernest Hemingway e do poeta Rainer-Maria Rilke, se diagnosticou um Sindroma de Hamlet, se festejaram os golos do Recreativo de Huelva e se constatou o desaparecimento de Vasco Gonçalves, Eugénio de Andrade e Álvaro Cunhal. Voltaremos a estes assuntos, quando o tempo que se conta em gotas e segundos o permitir.
.

quarta-feira, junho 08, 2005

Vidas

.
é este
o tempo em que nenhuma palavra pode ser escrita
e os sentimentos se tornaram áridos
como rochas milenares
em faldas de granito
.
é este
o tempo da peste do verbo
e dos afectos desiludidos onde as palavras adiadas
se calarão para sempre
e já não nos pertencem
.
é este
o tempo do desmoronamento,
dos barcos afundados no lodo junto ao cais
onde uma vida se perdeu
ao som de uma canção
.
é este,
o tempo da eterna esperança sem lágrimas
.

O alfaiate e as moscas

.
Era uma vez um pobre alfaiate remendão cuja oficina, localizada numa zona menos nobre da cidade, por trás dos estábulos da coudelaria real, era muitas vezes invadida por enxames de moscas, atraídas pelos equídeos dejectos, as quais muito maçavam o alfaiate. Por essa altura, havia no reino um gigante que causava os maiores estragos a pessoas e bens, e ao mesmo tempo que comia animais, a tal ponto que o rei mandou diversos cavaleiros e os seus melhores exércitos combater a horrenda criatura, infelizmente sem grande sucesso.
Estava o rei prostrado pelo desespero, quando teve a luminosa ideia de oferecer uma recompensa e a mão da filha àquele que conseguisse aprisionar o gigante, livrando o reino da sua ameaça. Para isso, enviou arautos por todos os cantos e terras, a fim de anunciar aquela oferta.
Entretanto, o alfaiate ruminava em mezinhas e remédios para conseguir livrar-se das moscas, experimentando tudo o que lhe viesse à cabeça para se livras delas. Um dia, tendo conseguido fazer sete moscas poisar numa folha de papel colocada em cima da mesa de trabalho, conseguiu acertar em todas de uma só vez com o mata-moscas. Ficou felicíssimo e, não resistindo, foi à janela anunciar a todos os que passavam na rua que "matei sete! sete de uma vez!"
Dava-se nessa altura a coincidência de ter sido feito o anúncio real, e discutia-se quem seria capaz daquela façanha, pelo que de imediato, inevitavelmente, o pobre alfaiate foi levado à presença do rei.
.
O resto da história será de todos conhecida certamente, e nem é das histórias mais significativas em termos de signficado, ou moral. Ou será? Por certo que sim, se nos abstrairmos de tudo o que se seguiria na história e nos centrarmos no método empregue pelo alfaiate para capturar as moscas. Não, não se tratava de um mata-moscas especial, nem de nada significativo. Reza a lenda que o alfaiate se limitou a colocar umas gotas de mel numa folha de papel, o qual atraiu e colou as moscas que assim não puderam levantar voo. Inequivocamente, a moral desta história é a de que as moscas apanham-se com mel e não com vinagre. Ou não será assim?
.

segunda-feira, junho 06, 2005

Perto do fim

.
A força invencível que impulsiona o mundo não são os amores felizes, mas os contrariados, que sobrevivem às dificuldades.
.

sexta-feira, junho 03, 2005

Maria Luísa



.
Na madrugada da noite de vinte e três para vinte e quatro de Junho de mil oitocentos e trinta e três Harun pescava junto do penhasco habitual, numa praia perto de Cacela. Sob o luar intenso vislumbrou, ao largo no mar, uma mancha negra de um vapor que estacionara ao largo. Movido pelo temor, Harun refugiou-se numa escarpa do penhasco, a espreitar o que dali vinha. Do seu esconderijo vislumbrou centenas de soldados a desembarcar na praia, conduzidos em chalupas a remos, fardados e armados de lanças, espadas e arcabuzes. O desembarque, rápido, às primeiras horas da manhã surpreendeu o sono dos habitantes da aldeia. Já o sol ia alto quando Harun teve a coragem de abandonar o seu esconderijo, com a temeridade que os seus vinte e sete anos e ser órfão de pai e mãe desde os cinco, lhe permitiam. No caminho do regresso a casa, Harun sentia o temor a percorrer-lhe as entranhas, mas sossegava-o a companhia de Ibn, o seu fiel cão pescador de pêlo cor de fuligem enrolado, que tinha trocado por uma cana a um pescador da praia de Vila Real de Santo António, meses atrás.
Chegado à aldeia ocupada, Harun ficou siderado com a opulência dos soldados, os quais foram bem recebidos pela população local, que lhes deu de comer, beber e bem tratou a fim de recuperarem dos três dias de mar desde o embarque no Porto.
Horas depois do desembarque, um oficial veio a terra – “um Conde” – comentou-se mais tarde na vila. E de facto assim era, uma vez que se tratava de António José de Sousa Manuel de Meneses Severim de Noronha, 7.º conde e 1.º marquês de Vila Flor e 1.º duque da Terceira, o qual na altura detinha a patente de Major de Infantaria. Acompanhava o Conde a Condessa Maria Luísa de Espanha, senhora com quem o Conde casara no Brasil há anos atrás em segundas núpcias, depois do falecimento prematuro da sua primeira esposa, com apenas vinte e cinco anos. Maria Luísa tinha à data do seu casamento apenas treze anos, mas depressa ganhou a maturidade suficiente para acompanhar o marido nas suas andanças desde o Brasil até Portugal, juntando-se-lhe na luta pela defesa intransigente dos valores liberais defendidos pelos partidários de D. Pedro IV e de sua filha D. Maria.
O Conde desembarcava agora no Algarve e predispunha-se a reconquistar toda esta província que se encontrava nas mãos das tropas absolutistas fiéis a D. Miguel, o que fez com um êxito estrondoso, pois reconquistou Olhão, Faro e Lagos, antes de regressar a Lisboa, onde foi nomeado Tenente-Coronel e mais tarde Coronel pelos seus feitos.
Harun nunca tinha visto uma senhora e muito menos uma com o porte de Maria Luísa e por isso quando os seus olhos se cruzaram com os dela, então na formosura dos seus vinte e cinco anos, o pescador de Cacela não resistiu aos apelos dos militares junto da população para se alistar no exército liberal a troco de um soldo pouco menos que digno, ele que não sabia ler e muito menos escrever, e que desde sempre andara somente na vida do mar, como os seus antepassados que centenas de anos antes haviam fugido da vizinha Granada após o fim da dominação moura na Península Ibérica.
E assim Harun seguiu as tropas liberais que marcharam sobre Olhão e Faro, sempre na esperança de conseguir trocar um novo olhar com Maria Luísa. Os dias de marcha seguiram-se, um após o outro, Beja, Évora, Santarém, até que no repente de um fim de tarde, Lisboa surgiu à sua frente, em todo o seu esplendor branco. Maria Luísa havia deixado há muito a coluna militar com o marido, sentida que estava a confiança dos militares liberais na reconquista do Sul do país. À chegada a Lisboa, os militares recolheram ao quartel, a Harun foi atribuída uma enxerga na camarata mais distante da entrada dos mancebos, e por lá ficou durante vários meses sem ter ouvido falar de Maria Luísa. Ibn desaparecera entretanto, perdido numa das vielas da Ajuda, numa noite de fado. Provavelmente recolhera a casa de uma prostituta do bairro, que lhe terá dado melhor acolhimento que o improvisado canil junto à cozinha da cantina.
Um dia, Harun ouviu alguém dizer que o Conde partira com Maria Luísa para os Açores. Falava-se de dificuldades financeiras do casal, a quem uma comenda atribuíra uma concessão de privilégios na Ilha Terceira. Uma ilha - disseram-lhe – no meio do oceano, para Ocidente. Sem se questionar, Harun partiu para o Sul – o seu Sul – a toda a pressa. Desertou, mas ninguém no quartel deu pela sua falta. Sentia-se novamente animado, intrépido e corajoso, como os príncipes de Granada. Agora, ele, Harun, chegava ao seu Algarve e partiria em busca de algo que só existia dentro de si. A coberto da noite, atravessou a nado o canal que o levou de Olhão à Ilha da Culatra, onde um pescador amigo lhe arranjou uma pequena embarcação. Uma pequena mas sólida chalupa, com uma vela triangular usada, peixe seco, um farnel de pão ázimo e um barril de água potável eram todo o seu inventário.
Não obstante a fragilidade dos seus haveres, olhando o céu, a Harun pareceu-lhe distinguir a face de Maria Luísa na lua cheia da noite de vinte e três de Junho de mil oitocentos e trinta e seis e por isso fez-se ao mar. À Terceira nunca chegou. No Algarve nunca mais se ouviu falar de si a não ser quando, anos mais tarde, um mercador do Norte de África que passou por Cacela trouxe notícias de um pequeno califado onde pernoitara na casa de um armador de pesca que dedicou a vida e as suas economias a construir um pequeno palácio junto a um soukh a que deu o nome de Casa de Maria Luísa.
.
Junho de 2005
.

quinta-feira, junho 02, 2005

.
Dizes-me qualquer coisa? Perfeita. Ainda hoje.
.

quarta-feira, junho 01, 2005

Um de Junho

.
Como calar o vil veneno
e a tristeza da dor
com que nos vergasta a saudade
de cada arco-íris, alimentado
por explosões de cor?
.
Como fechar os olhos
ao querer providencial do amor,
ao recordar de cada estrela
e à espuma que abraça cada onda
desde a cava até à crista
.
Como, cem vezes, como
desmoronar e violentar
a branca curvatura dos sonhos
da criança que dentro vive
e nos alimenta, ainda hoje
.
Como, secar um mar e olhar o espelho,
fazer renascer o universo,
sem desafiar o abandono de Deus?
.

terça-feira, maio 31, 2005

.
Deixar o horizonte percorrer-me a carne,
inundar as minhas veias
e fluir por cima da copa das árvores
onde o ódio não chega a passar.
.
Alimentar-me de imagens
e sonhos, querer-te,
cantar o amor em levas
sucessivas e repetidas
.
.
Dia e noite
perscruto o horizonte
para pôr cobro
ao teu silêncio digital
.

segunda-feira, maio 30, 2005

.
a odiosa consciência de te ver chegar ao crepúsculo
dentro de um submarino
.

quarta-feira, maio 25, 2005

Abismo



Em nome do mundo
enlouquecer
Arpoar o Abismo
Por um indecifrável sentido
beijar a própria boca
Fechar os olhos
consciencializar
que a morte nasce subitamente em ti
como a aurora
que os abre
nas manhãs cinzentas
quando sinto a ausência do teu perfume.
Murmuro nesses instantes
o êxtase do teu nome
e peço esperançadamente
ao vento do tempo
que te traga
ou me volte a fechar lugubremente
os olhos
porque o dia não pode incendiar-se
sem ti
.

sexta-feira, maio 20, 2005

Novidade

.
Ao fim da tarde
a brisa
anuncia o teu regresso
.

Calendário

.
O contratempo
do tempo
criado à pressa
.

Eis

.
Nem uma lágrima no dia de hoje.
Nunca se chora demasiado
pelo tempo dedicado
a quem ousa lutar
e proclamar
o amor de forma subtil
.
diversa
daquela nos corre nas veias
.

O Islão em Mértola...

.
A Sul, andando a cultura alheada do seu presumível epicentro, este fim de semana vale a pena visitar o 3º Festival Islâmico de Mértola, que ontem teve o seu início e se prolonga até Domingo. Por si só, Mértola vale a deslocação, mas o festival abrilhanta ainda mais a Vila Museu. O Festival não é, em si, um acontecimento a não perder, mas é, seguramente, uma das melhores propostas para o fim de semana a Sul, sobretudo para quem vai até Beja por esta ou por outras razões.
.
... e Pinturas em Tavira
.
Não se contradizendo o que se pensa acerca do evento Capital da Cultura, ainda neste fim de semana, duas exposições são opções a não perder, apesar de estarem patentes até pelo menos ao final do mês de Maio, ambas no Palácio Galeria, em Tavira: “O SOL E A LUA” de René Bertholo (Pintura) e “GRAVURAS” de Maria Helena Vieira da Silva (Gravuras)
.
Bom fim de semana, a Sul do possível.
.

quarta-feira, maio 18, 2005

.
José Carlos Barros, sem palavras.
.

Post it

.
Parar aqui
ou, amanhã,
comprar acções da Vodafone
.

Ilha

.
Ser uma ilha
ter essa certeza
contra a corrente
e os olhos de quem
nos vê
.

Sophia encontra Fernando

.
Menina da areia
do olhar azul que o
mar me traz
.
sinto a saudade
dolorosamente
mais perto
.

Tempo II

.
Recuar vinte anos
e nada mudar
no regresso ao presente
.

Sentido de fulminante oportunidade

.
Ter uma síncope
no momento exacto
em que me invadias o coração
.

terça-feira, maio 17, 2005

Êxtase

.
Deglutir o êxtase
em cada pérola
do teu suor
.

Alvorada

.
Engano redondo
somente, o final
da primeira etapa da noite.
.

Sombra da realidade da sombra?



Espreitar o futuro
por uma nesga
acima do teu ombro
.
e ainda assim sorrir
.

75 anos

E porque estamos em maré de parabéns, embora muito atrasados, não nos podemos esquecer de uma jovem que já por cá anda há 75 anos, o que quer dizer que quando o Restaurador Olex foi posto à venda, já tinha alguma rodagem. Não sendo um dentífrico, não anda na boca de toda a gente, mas quase, e partilha do mesmo tipo de intimismo senão maior. A nova homepage da marca é simples e intuitiva, e até existe em português, apesar de eu ter preferido a versão original. Recomenda-se portanto uma visita, aqui. A novidade é a constante reinvenção da marca que o ano passou mudou o seu slogan para "1929 to 2004, 75 years of great sex" e criou uma nova linha de acessórios plenos de bom-gosto e minimalismo de linhas (demore-se no exame da puzzling version do Little Gem), bem como ilustrações e conselhos práticos (também) para iniciados. Enfim, boa navegação.

quinta-feira, maio 12, 2005

Um ano


.
Parabéns JCB.
Aqui aguardamos pelo champanhe e pelo segundo ano. Salut!
.

.
Mergulha,
toca a calma do fundo,
mesmo aí, alguém te segurará a mão.
.

O Paradoxo


.
A estranha sensação de poder chegar ao fim do mundo
mas não à esquina mais próxima.
.

terça-feira, maio 10, 2005

Hanami II


.
Cristalizar na Primavera
o milagre perfeito do Inverno na cerejeira
.

Mariposa


Inês , Maio 2005
.
As tuas asas diáfanas
de um tempo virginal
movem, quando se agitam,
todos os ventos do mundo
e revigoram este coração
que sossega ao sol,
a emergência imóvel
da paixão
.
Docemente, recordo o sabor
e a ternura dos vértices quentes
de línguas entrelaçadas
enquanto um corpo se sujeita,
nos braços de outro,
em leito de energia celeste,
a um desejo eléctrico
vivido em sonhos
.
Estende tuas asas, mariposa
como uma triste rede
que me ampara
por sobre o solo coberto
de erva verde e fresca
sopra para longe as lágrimas
que verto dos meus olhos oceânicos
enquanto perscruto o teu voo
.
misterioso e insondável que te leva
a pousar numa pétala
cujo único defeito
é não ser lírio branco
na sua angústia de ter nascido
flor do campo sem alma,
escassa no amor
e na memória
.

Blogs na Planície - 21 de Maio, Beja

.
O Praça da República (a par de outros blogs que abaixo se mencionam) convida para um encontro de blogs em Beja, e já há programa de festividades agendadas. Ora veja o leitor:
.
PROGRAMA
.
Das 12H às 12H45 – Concentração no Largo em frente ao Convento da Conceição (Museu);
.
13H00 – Almoço, no Restaurante “Pé de Gesso” (Lgo de Santa Maria – junto ao Museu) PREÇO: 15 €/pessoa
.
Ementa:
- Entradas diversas
- Grelhada mista de porco preto c/ massa de migas e batatas fritas
- Mesa de doces
- Café
- Vinho regional do Alentejo (branco e tinto)
- Sangria
- Águas e refrigerantes (bebidas espirituosas não incluídas no preço)
No final do almoço: surpresa alentejana.
.
15H30 – fotografia de grupo, na Escadaria do Convento
.
16H00 – Inauguração da Exposição “Bit-Afectos”, com trabalhos fotográficos de
Nikonman e Ognid e textos relacionados – Bar “O Barrote” – Portas de Moura/Beja
.
16H30 – Apresentação do livro “Mil e uma pequenas histórias”, de Luís Ene, com a presença do autor e do editor Paulo Querido – Bar “O Barrote”.
.
Fim do Encontro
.
Inscrições:
.
As inscrições para o almoço devem ser efectuadas por e-mail para: Praça da República ou Aliciante (os endereços estão nos respectivos blogs). A inscrição deve ser efectuada até às 24H00 de 18 MAIO 2005 e da mesma deve constar:
- nome do blogger
- nome do blog
- nº total de participantes (blogger + acompanhantes)
- contacto: telemóvel ou telef fixo
- indicação de restrições alimentares.
.
Não serão aceites inscrições que não respeitem o atrás referido. Não serão consideradas intenções de inscrição manifestadas em caixas de comentários. Todos os inscritos receberão confirmação da inscrição. A liquidação da despesa é efectuada no início do Almoço (agradece-se quantia certa ou cheque).
.

[Uma história antiga]

.
«Amo-te», dizia ele. E se chovesse, ou se o vento se levantasse na veiga, começava a correr, aflito, à procura de abrigo. E logo a chamava, dizendo «anda, corre, aqui estás protegida». Ela sorria. Como nos filmes. Porque nesse tempo acreditavam que há sempre um abrigo.
.
Só mais tarde compreenderam que nada os protegia do amor.
.
[JCB, in Presa do Padre Pedro, a tinta sobre papel]

segunda-feira, maio 09, 2005

Circum-navegação



Somos de longe, de muito longe,
e para lá temos de voltar,
depois da tempestade.
.

quarta-feira, maio 04, 2005

Relógio de Sol

.
Tu que amas o Sol perdidamente
não lhe vires as costas
nem abandones os raios que te lança
porque é teu o tempo
que marca o relógio do astro-rei
.

Um pouco mais

.
Sinto a minha vida a desmoronar-se
sobre uma folha de papel
e a cada verso
me suicido um pouco mais
a Sul
.

segunda-feira, maio 02, 2005

Estio

.
Mesmo agora, neste Estio,
a Terra não se cansa de dar flores
.

sexta-feira, abril 29, 2005

Sorte

.
Que importa?... Se fugiste ou fugi eu
da lembrança de um amor feliz
onde a saudade e a côr
se cruzam num abraço
forte como uma pancada brusca
num destino alheio às estações do ano
.
Que valem agora?... tuas e minhas
trémulas e desafinadas palavras
como sons de um violoncelo
de arco quebrado
perdidas na voz de um canto nocturno
despedaçado pela lua
.
O melhor agora? - perguntas
não ouvir nem ver
passar esta ponte sem ver o abismo,
sem sentir a queda na torrente fria
para que nada doa
nem os ecos de tristeza
.
a sorte de quem ama
.

A (in)cultura

.
Faro Capital da Cultura começa amanhã. Esta manhã atravessei perpendicularmente a cidade por duas vezes e não vislumbrei o mais pequeno indício desse facto, à excepção do velho palco de sempre junto à doca. Condescendo que seja má vontade da minha parte, mas cheira-me a princípio de fiasco. Já agora, alguém sabe qual é o site internet do evento, qual a sede da organização e onde se pode obter a informação da programação?
.

quinta-feira, abril 28, 2005

Vago

.
Vago segredo o de um olhar transparente, fixo
sem resposta
O silêncio de uma distância insuportável
de uma vida sem luz
sem tempo e sem espaço
.

Vejo, em ti, a luz que derruba a crista das ondas
E os remoinhos que se atravessam
no fluxo da vida
Como se somente a própria mão de Deus
Fosse o teu Verbo
.
Nos versos procuro o teu poema mais belo
Aquele que exprime o que não existe em palavras
E que o mundo desconhece
em pureza
e esplendor
.
Mesmo quando dentro de mim
batem negras asas
e não há segredo algum entre os sentimentos conhecidos
É o mortal desejo
que me obceca
.
E deflagra o vazio da minha existência
Mendigo de olhos fechados
o instante de uma vida
ainda que para novamente naufragar
e dar à praia num monte de escombros
.
Flutuando na vazante
celebrando o amor
que sobreviveu às cinzas do fogo na floresta sombria
e se perpetua
na memória dos homens do mar
.
Apesar do Levante contínuo que sopra.

.

terça-feira, abril 26, 2005

Profecia

.
Sinto hoje na minha escrita
uma dor de ruas vazias
e muros garatujados a graffitti
cujas palavras vazias nada dizem
e apenas empobrecem
a alma de quem as lê de passagem
.
Palavras sujas, gastas e sem viço
pedem-me a misericórdia de um fim
que lhes poupe o desassossego
de uma escrita moribunda
reflexo de uma alma por sarar
incapaz de agarrar o mais ténue sinal
.
Eis o tardio fim próximo da escrita
.

quinta-feira, abril 21, 2005

Vida

.
Não consintas
que apague o teu divino alento
nem o brilho no teu olhar
com o meu insuportável padecer.
.

terça-feira, abril 19, 2005

Post-it de Abril

.
Nas traseiras da casa ouvir o regato
o abanar da rama da oliveira
junto à velha eira
e o riso desencontrado dos gaiatos

sentir a chegada do Verão
dobrar o casaco debaixo do braço
libertar-te num abraço
segurar-te ternamente na mão
.
trocar um beijo sem jeito
encostar a cabeça ao teu peito
fazer-te feliz por benção e direito
.

Flutuar

.
Passares sobre a mágoa
e uma existência dolorosa
como se nada tivesse sucedido
e lentamente se apagarem
os traços do negrume
.
assim te deites
sem te perderes.
.

Seca

.
Entre os teus lábios e a minha voz
algo haverá de matar a sede delirante
que evapora a água
e nos seca as palavras
.

Prece

.
Oferece-me um lírio
prometo-te que as próximas Palavras
derrubarão a Angústia petrificada
.

segunda-feira, abril 18, 2005

Tempestade II

.
as crianças
os risos
a razão
as lágrimas
.
os meus relâmpagos sem fim
.

sms

.
cerrar os lábios
para evitar proferir o amor
em palavras densas como sangue
.

Instantes

.
Parar
seria matar o coração
e forçar-me a ressuscitar
para viver os instantes
em suspensão.
.

El Rocío

Volta-se por prazer. Com saudade e vontade de ver o que mudou. Com encanto, como na primeira vez, vemos que tudo está igual. O lugar da romaria, as comunidades, a religiosidade do sítio, a fé, os preparativos ano após ano. As ruas de terra, porque o asfalto e os passeios simplesmente não existem, não há casas com mais do que o primeiro andar e a ermida é o edifício mais alto. Apetece ficar um pouco, apesar do calor e do pó sufocantes, sobretudo no Verão, ou em dias de festa. Passear à beira do braço de Guadalquivir que ali chega, onde os cavalos se banham para a procissão, os peregrinos purificam a alma e livram o corpo do pó do caminho. Pentecostes. Neste ano calha a 16 de Maio a grande romaria a El Rocío del Condado, localidade encerrada no meio do Parque Natural Doñana, Património da Unesco, no coração da Andaluzia, perdida no tempo e na fé dos homens. Imperdível, pelo menos uma vez na vida, como a fiesta em Pamplona, imortalizada por Hemingway antes de se refugiar em Havana. Perceber Espanha, odiar os ventos e os casamentos, mas aceitar que tão perto, as coisas possam ser tão diferentes. E gostar-se, mesmo assim, desse Sul. Muito.

Marginal

.
regresso ao cabo de um ano
e seis meses ou mais
para o mundo das coisas reais
algumas de que nunca falei
e que a vida encerra
.
depois, pouco depois
do retorno dos pássaros migradores
após o último erguer digno de cabeça
do velho engraxador da marginal
em véspera de finados
.
amei a mulher,
a sua sombra, a água e o sal
do mar encurralado dentro de si
e na busca disso me perco
rente ao fundo do meu último dia
[de vida]
.
perdi o seu olhar,
no meio de uma névoa aspergida
por sobre águas de devoção
onde deambulo vagarosa e cegamente
ao sabor dos ventos do momento.
.
se vivo? marginalmente
.

quinta-feira, abril 14, 2005

Mal-se-quer

.
É este, o tempo antes do gelo
belo, como uma caravela
sem cor, sem escuridão,
apenas branco como uma estátua
de mármore num sepulcro antigo
.
É este, o tempo da lua, da distância
da minha doce solidão
de ouvir as vozes do vento
e a aragem vibrante,
do calor terno do Sol distante
.
É este, o tempo em que sou neve
espaço etéreo, ser ausente
sem relevo, como um camponês
ou Caronte sem vara, a caminho
do Purgatório
.
É este o fio da água
que lentamente se esvai
e humildemente me leva a vida
e eu, seu cúmplice, assisto imóvel
ao meu lento suicídio
.
como uma flor sem pétalas
a quem somente mal-se-quer.
.

terça-feira, abril 12, 2005

Alma oceânica

.
Eis a noite escura
das sombras trémulas
a hora nostálgica
da ronda da alma oceânica sem guaridas
da luz desbocada de todas as coisas
.
Eis a hora em que me silencio
num lugar povoado de ecos
onde te dou a mão e sigo o caminho
de dentes cerrados
sem escutar as almas que o assombram
.
Contra as (in)certezas do quotidiano.
.

segunda-feira, abril 11, 2005

[?]

.
Não aconteceu nada
foram apenas estilhaços
da tempestade de ontem
.

Horizonte

as fotos
os textos
os desatres
a penumbra de um quarto
a exaustão
os risos
a pele queimada nas dunas
.
desejos que dão à costa
.

Migração

.
Suspenso,
ilumino-me
derreto-me
enquanto contemplo a ave saltitante
a comer as migalhas
que lhe atiras
no fim da migração
.

Luto

.
Manchas amarelecidas no papel
tinta nas veias
branca desolação
gota-a-gota
.
onde estás?
esquece,
não navego
apenas escrevo as palavras mais cruéis
a que dão asas a alucinação e a ilusão
de te amar
enquanto luto por perder a memória
.

Corvos

.
É o princípio do sono
os sinais que chegam lentamente
enquanto dou por mim a enumerar
até à exaustão
a fragilidade dos meus dias
que atravesso sem queixumes
.
Anoiteça ou amanheça
derreta ao calor ou me enregele o frio
tanto me faz
desde que adormeça sob este torpor
frágil
e os gritos catastróficos dos corvos.
.

Intemporal

.
Diz-me - não me mintas -
que não sou de tempo algum
e deambulo pela infância
.

Risos

.
Vejo, no teu riso,
toda a inocência
da infância
.

Totobosta

Em Sanfins, concelho de Paços de Ferreira, o clube local andava carenciado de fundos. Vai daí, a necessidade aguçou, como tantas vezes o faz, o engenho e promoveu rija festa popular, com quermesse, cantares e lotaria popular com três prémios. 250 Euros e um borrego para o terceiro prémio, 500 Euros e um porco para o segundo e 1.000 Euros e um touro para o primeiro. Tudo muito certo, excepto a escolha original do croupier, que recaiu sobre uma... vaca! O leitor, espantado, perguntará como é isto possível?! Enfim, em Sanfins existe um largo central cujo piso é um empedrado quadriculado, tendo a cada quadrículas sido atribuído um número. A cada número correspondeu, evidentemente, uma rifa. O sorteio foi depois feito com a largada de uma vaca no terreiro, sendo os três felizes contemplados os titulares dos números correspondentes às quadrículas em que o bovino depositasse os restos do repasto do dia anterior. Nada mais simples portanto. Confesso que começo a ter fé no futuro deste país.
.

sexta-feira, abril 08, 2005

"Marinero del Rocío"

.
Quantos corações
no teu recanto
Quantos ciprestes
no teu pranto
Quantos dilemas
no teu canto
.
Ingênua inocência
raparigas em flor
no bairro madrugador
mora a confluência
teu amor
.
triste marinheiro
.

quarta-feira, abril 06, 2005

.


Durmo no imenso mar
E atravesso os dias

(Adeus Comandante)
.

terça-feira, abril 05, 2005

À noite

.
Trazes do teu fundo
a raiz significativa das coisas
o teu próprio movimento pendular
o firmamento
a energia sem fôlego da infância
.
Trazes o pavor
a alucinação da felicidade
que recuso a duas mãos
dentro do meu espaço pulmonar
ocupado por uma pedra
.
Ferve-me nas veias o sangue
intoxicado pelos sentidos
e a selvática voragem
que me consome a existência
rebelde
.
Pela manhã tudo se atenua
sob o brilho elementar do Sol
nos jardins onde apenas Deus dança
ao som das nossas truculentas
metáforas calcinadas
.
Respiro
um delírio tangencial
equilibrado na frágil estrutura
de um lírio branco
assexuado e sem raiz significativa
.

segunda-feira, abril 04, 2005

sexta-feira, abril 01, 2005

Basta, por hoje...

.
Uma chuva abrupta de sentimentos
[metamórficos]
fissura o tempo
e as palavras gastas
de um poema liso
.
como pedras de calçada
alternadamente polidas
por uma vida fodida
e ruas vazias
.

quinta-feira, março 31, 2005

[não]

.
Hoje não escrevo
para não definhar a língua portuguesa
.

Prece

.
Levantar voo
no momento exacto em que um sismo
te desmorona o coração
.

Espelho monocromático


.
A imagem n'O espelho
devolve-nos esta manhã
o pressentimento
de um sono sem fim
.

terça-feira, março 29, 2005

Volta ao mundo

.
Hei-de regressar a ti
e, de novo, morrer nos teus braços
.

segunda-feira, março 28, 2005

[silêncio]

.
Que pergunta tenho receio de fazer
que o teu silêncio não me responda?
.

quinta-feira, março 24, 2005

Oceano

Hoje,
queria saber
como sacudir o oceano dos teus olhos
e secá-los
como se nunca houvessem sabido
o que são lágrimas salgadas
.
Antes
de desaparecer do mundo
.

quarta-feira, março 23, 2005

Almas

Que espinhos semeia teu amor
no caminho sobressaltado da minha vida
deixando que me pese o uivo do vento
e o rasgar das ondas de alto-mar
.
Deixa-me viver tão só o desejo
e a aventura de apenas merecer
o brilho do teu espírito puro
que sempre de sangue conspurco
.
O teu amor, a fonte de virtude, o pecado
e o castigo, oiço-te mas não te vejo falar
queixas-te mas não te escuto
sinto-me monstro e a ti donzela
.
Quero procurar nos teus olhos
os beijos calados por que anseiam meus lábios
as tuas mãos invísiveis à procura do corpo
que não é meu, inflamado pelo alento do amor
.
Almas gémeas, olhando-se em silêncio
sem nome conhecido

Condór


.
Anclado entre dos montañas
El Cóndor pasa
el viento selvaje de la borrasca
a lo largo del Anapurna
bajo el cielo de plomo y las flechas
de agua que perfuran sus plumas
.
Acorralado, como si fuera del cielo
y no más de la tierra, lejos
vola como un loco de corazón al viento
de alas desplegadas como tu alma
llena de saludad como un lirio blanco
flotando en un estero de mar.
.

terça-feira, março 22, 2005

Alegro, ma non troppo

.
O maestro António Vitorino de Almeida lançou uma sinfonia. Não uma sinfonia qualquer, antes uma Sinfonia Benfica, uma ode ao seu Benfica. Está bem, aplauda-se a iniciativa, sobretudo se com isso conseguir pôr os seis milhões de almas benfiquistas que se diz existirem, a ouvir música clássica. Um Pouco Mais de Sul deseja ao maestro e ao Benfica os maiores sucessos no campo musical.
.

Inês

.
Senhora partem tam tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tam tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.
.
João Roiz de Castel-Branco, Cancioneiro Geral, III, 134
[evocação de Inês, pelo 650º aniversário da data da sua morte]
.

segunda-feira, março 21, 2005

Anexações...


.

Outros tempos...



Quantos autarcas se podem gabar de semelhante feito nos dias que correm?
.

Ilha



A ti,
que és a grande ilha do silêncio

Chac Mool

A lenta passagem do tempo
envenena a carne
e apura as linhas mestras do esquecimento
enquanto depura a febril ânsia do corpo
como a luz que agoniza
nos olhos turvos de um condenado
.
Labaredas em soluços cerram
as pálpebras do passado
na hora em que um grito se arranca
das profundezas da garganta
perante o sangue que escorre pela pedra-mãe
da constelação de calcário
.
Belisco-me para descobrir se estou vivo
mas sei no meu íntimo que sim
Bárbaro símbolo de vida,
não danso nem durmo
.

sábado, março 19, 2005

Janela

Um sorriso apenas. Deste-me um sorriso apenas e um aceno com a tua minúscula mão de princesinha. E tanto me bastou para te saber bem, feliz, o melhor possível. Estás uma senhora, fica-te bem o casaco azul escuro e os tons rosa da malha, que se confundem com o rubor da tua face, mesmo quando no calor das brincadeiras ficas incandescente. Há pouco, apeteceu-me deter o carro que arrancou e te levou. Apeteceu-me pará-lo, arrancar-te de lá de dentro e dar-te um abraço apertado como tantos outros que já demos. E desejar ao mesmo tempo que aquele fosse melhor que todos os outros, que nos desse energia para tudo, para todas as tormentas que teremos de enfrentar no futuro. Hoje fiquei com uma lágrima no olho, bem sei que são apenas momentos, mas fico perdidamente aflito quando perco um instante mágico da tua vida e não o partilho, ou sinto como meu. Queria ser anjo, poder velar-te e garantir a tua felicidade. Só isso, nada mais. E poder morrer quando o conseguisse.
.

Aqui estou

Aqui estou
despido de tudo
dono de nada, sequer do ar que respiro
do vento que sopra, dos murmúrios
dos sonhos, da vontade natural
dos homens
.
Aqui estou
no fim do mundo
nas estepes sem desditoso fim
onde gela a erva verde da terra-mãe
corroída pelo glacial Inverno
do nosso tempo
.
Aqui estou
no profundo mar
onde ninguém me toca
onde habitam a escuridão e os temores
mais recônditos que existem
no meu eu
.
Aqui estou
à deriva e sem rumo
sem pontos cardeais
ou desejos colaterais
porque apenas procuro paz
e nada mais.
.

quarta-feira, março 16, 2005

Palavras II...

Cautela. A hipotética beleza das palavras está no erro com que nos perplexam, na verdade crua que nos querem fazer acreditar, quantas vezes mascarada sob aparência de seriedade. Cuidado com as palavras aos dezasseis anos, aos trinta, aos quarenta... cuidado com todas as palavras, as tontas e as vãs, as boas, as que nos ferem e desassossegam, as esperançosas e as de malévola paciência. Pânico, palavras de regozijo irónico, brilho sinistro, poéticas, destrutivas, silenciosas, plenas de espuma, brancas, negras, fluentemente fluviais ou marítimas. De rei, de rainha, plebeu, pobretão, améres, de concentração animal... Palavras, fortes, deslocam montanhas, mundos, gargantas, luas e grutas obscuras. Palavras de marfim, espuma, sangrentas, carmim... palavras, de mel, dentro das veias, palavras mágicas, que soem bem em inglês, português ou francês, sem sentido, belas, ritmadas, universais. Eis o propósito vão do poeta, a escolha das palavras que libertem o leitor na escolha dos sentidos do poema.
.

terça-feira, março 15, 2005

Olhares

Gosto
quando enches todas as coisas com a tua presença
as cobres com o teu silêncio
e encurtas a distância
entre a minha alma e a tua
.
Trabalhos simples do teu olhar
.

Cruzamentos



As nossas avenidas...
.

sexta-feira, março 11, 2005

Cesto da gávea

Hoje apareceste-me num soneto de lua, pendurada no cesto da gávea onde os sinais da vida se procuram gota a gota, nas manchas de ausência de cor. Sei que fui cruel, que afrouxei o corpo, e me abandonei à dureza fotográfica de um momento de cansaço, de um soluço de respiração onde duvidei que estava vivo. Sei que perdi a memória, já não sei o que faço aqui e magoo-te a cada passo, por mais leve que o tente dar. Perco-me e faço-te perder a beleza de todos os instantes de lume e ar que se estatelaram nos nossos corações e que por comodidade se guardaram na velha gaveta da cómoda de pinho amarelecido. Perdoa-me o desastre e todo o mar triste que agora te trago. De bom grado abandonaria este leme frágil, se não temesse as sombras que me esforço por esquecer porque, pelas asas que te corto, morro para sempre de aflição.

Canción de la montaña

Quiero terminar la ansiedad
que agota mi pecho en tormentas
Quiero tus ojos abiertos
y no las ataduras del silencio
de paredes húmedas
.
Quiero el volumen de tus besos
.

quarta-feira, março 09, 2005

Hanami



Quero fazer-te o milagre
que a Primavera faz à cerejeira
.
N. do A.: 14/12/2007: Há dias, numa pesquisa, verifiquei acidentalmente que Neruda tem um verso muito parecido num dos seus poemas. Soará, pois, este poema, a plágio. Julgará assim, quem assim o quiser.

Urgente

Lavar as palavras do desencontro
Onde tudo,
a visão e o tempo
são mais duros de apagar
.

Babugem

Para que melhor me ouças
cuido que cada palavra minha
se reduza à sua expressão mínima
de babugem na baixa-mar
e pegadas de gaivota nas dunas
.
contra a incerteza
e os pequenos suicídios quotidianos.

A dúvida universal

Vamos ser sérios: de uma vez por todas, definitivamente, só há uma forma de colocação correcta do papel higiénico no respectivo suporte de parede que é com o papel a desenrolar do lado oposto a esta. Um Pouco Mais de Sul espera ter contribuído de forma decisiva para acabar com a dúvida universal que acerca do assunto ainda subsistia inaceitavelmente no dealbar do Séc. XXI.

terça-feira, março 08, 2005

Sussurro

Vou confiar-te um segredo
conhecerás a fonte dos meus encantos
aquela que faz florir as amendoeiras
e mais tarde as cerejeiras
.
Guarda este segredo que te confio,
se necessário com a tua própria vida
ignora os apelos mundanos
e cala-te em agonia
.
Cega teus olhos, que nada mais vejam
depois de contemplarem a flor
do meu desejo, se tornem indignos
da pura luz dos dias que me restam
.
Porque pecaram quando se abriram
Aos contornos do rosto daquela
por quem dobra em uníssono
o meu coração palpitante
.
Mata-me, que não me vejam louco
me tomem por demente
e me atirem às feras do circo
na arena ensanguentada
.
Salva-te o quanto antes
sobe à montanha distante
e não tornes a esta terra
onde já não há tesouros
[por descobrir]
.
Ouve,
Já não há cerejas, nem amendoeiras
Promete-me. Não tornes.
Ainda que sejam estas palavras
uma súplica no deserto.

.
A Presa regressou em força. Salut, José Carlos.
.

segunda-feira, março 07, 2005

Grito

Oásis na cidade

Luz

Luz filtrada pelos olhos inocentes
de quem tem ossos frágeis
apogeu de sentidas emoções
brilho dum mergulho em ti
e na intimidade pura
do teu pequeno ser.

Rasga-me o desejo
e a miragem ao crepúsculo oferece-me
o milagre da tua existência
Rendo-me em homenagem
à fina seiva do baile da tua vida
E fecho-me

num sindicato de sentimentos
.
Escrevo, para salvar a minha vida.
.

sexta-feira, março 04, 2005

Trabalho

Estados de Alma
Nuvens de tempo
Borrasca passageira em tardes distantes
mas hoje,
alheamento profundo
autismo telefónico
aos apelos do mundo
às vagas mensagens
de hediondas criaturas
do Apocalíptico desacerto

Que visão aterradora,
a do trabalho que me espera!

Tempo



Mergulho pela manhã na recordação do teu olhar
e sinto o empalidecimento das cores que me cercam
como se me envolvesse o opaco véu
da tua ausência
assim desabasse o céu
e tudo à minha volta perdesse
a transparência
.
Partiste há já uma eternidade
Impeço-me de crer no teu regresso
amiúde, acordo em sobressalto
a cada bater na porta
regurgito em cada alvorada, a memória distinta,
e uma e outra vez
evoco sem Norte
o canto melodioso de ti, sereia,
que nunca dormes
no teu leito de algas do fundo do mar
Debaixo do promontório.
.
Sim, esperançadamente, temos novo governo; não se preocupe o leitor, o défice segue dentro de momentos.