terça-feira, maio 10, 2005

Mariposa


Inês , Maio 2005
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As tuas asas diáfanas
de um tempo virginal
movem, quando se agitam,
todos os ventos do mundo
e revigoram este coração
que sossega ao sol,
a emergência imóvel
da paixão
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Docemente, recordo o sabor
e a ternura dos vértices quentes
de línguas entrelaçadas
enquanto um corpo se sujeita,
nos braços de outro,
em leito de energia celeste,
a um desejo eléctrico
vivido em sonhos
.
Estende tuas asas, mariposa
como uma triste rede
que me ampara
por sobre o solo coberto
de erva verde e fresca
sopra para longe as lágrimas
que verto dos meus olhos oceânicos
enquanto perscruto o teu voo
.
misterioso e insondável que te leva
a pousar numa pétala
cujo único defeito
é não ser lírio branco
na sua angústia de ter nascido
flor do campo sem alma,
escassa no amor
e na memória
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Blogs na Planície - 21 de Maio, Beja

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O Praça da República (a par de outros blogs que abaixo se mencionam) convida para um encontro de blogs em Beja, e já há programa de festividades agendadas. Ora veja o leitor:
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PROGRAMA
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Das 12H às 12H45 – Concentração no Largo em frente ao Convento da Conceição (Museu);
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13H00 – Almoço, no Restaurante “Pé de Gesso” (Lgo de Santa Maria – junto ao Museu) PREÇO: 15 €/pessoa
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Ementa:
- Entradas diversas
- Grelhada mista de porco preto c/ massa de migas e batatas fritas
- Mesa de doces
- Café
- Vinho regional do Alentejo (branco e tinto)
- Sangria
- Águas e refrigerantes (bebidas espirituosas não incluídas no preço)
No final do almoço: surpresa alentejana.
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15H30 – fotografia de grupo, na Escadaria do Convento
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16H00 – Inauguração da Exposição “Bit-Afectos”, com trabalhos fotográficos de
Nikonman e Ognid e textos relacionados – Bar “O Barrote” – Portas de Moura/Beja
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16H30 – Apresentação do livro “Mil e uma pequenas histórias”, de Luís Ene, com a presença do autor e do editor Paulo Querido – Bar “O Barrote”.
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Fim do Encontro
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Inscrições:
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As inscrições para o almoço devem ser efectuadas por e-mail para: Praça da República ou Aliciante (os endereços estão nos respectivos blogs). A inscrição deve ser efectuada até às 24H00 de 18 MAIO 2005 e da mesma deve constar:
- nome do blogger
- nome do blog
- nº total de participantes (blogger + acompanhantes)
- contacto: telemóvel ou telef fixo
- indicação de restrições alimentares.
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Não serão aceites inscrições que não respeitem o atrás referido. Não serão consideradas intenções de inscrição manifestadas em caixas de comentários. Todos os inscritos receberão confirmação da inscrição. A liquidação da despesa é efectuada no início do Almoço (agradece-se quantia certa ou cheque).
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[Uma história antiga]

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«Amo-te», dizia ele. E se chovesse, ou se o vento se levantasse na veiga, começava a correr, aflito, à procura de abrigo. E logo a chamava, dizendo «anda, corre, aqui estás protegida». Ela sorria. Como nos filmes. Porque nesse tempo acreditavam que há sempre um abrigo.
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Só mais tarde compreenderam que nada os protegia do amor.
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[JCB, in Presa do Padre Pedro, a tinta sobre papel]

segunda-feira, maio 09, 2005

Circum-navegação



Somos de longe, de muito longe,
e para lá temos de voltar,
depois da tempestade.
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quarta-feira, maio 04, 2005

Relógio de Sol

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Tu que amas o Sol perdidamente
não lhe vires as costas
nem abandones os raios que te lança
porque é teu o tempo
que marca o relógio do astro-rei
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Um pouco mais

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Sinto a minha vida a desmoronar-se
sobre uma folha de papel
e a cada verso
me suicido um pouco mais
a Sul
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segunda-feira, maio 02, 2005

Estio

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Mesmo agora, neste Estio,
a Terra não se cansa de dar flores
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sexta-feira, abril 29, 2005

Sorte

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Que importa?... Se fugiste ou fugi eu
da lembrança de um amor feliz
onde a saudade e a côr
se cruzam num abraço
forte como uma pancada brusca
num destino alheio às estações do ano
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Que valem agora?... tuas e minhas
trémulas e desafinadas palavras
como sons de um violoncelo
de arco quebrado
perdidas na voz de um canto nocturno
despedaçado pela lua
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O melhor agora? - perguntas
não ouvir nem ver
passar esta ponte sem ver o abismo,
sem sentir a queda na torrente fria
para que nada doa
nem os ecos de tristeza
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a sorte de quem ama
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A (in)cultura

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Faro Capital da Cultura começa amanhã. Esta manhã atravessei perpendicularmente a cidade por duas vezes e não vislumbrei o mais pequeno indício desse facto, à excepção do velho palco de sempre junto à doca. Condescendo que seja má vontade da minha parte, mas cheira-me a princípio de fiasco. Já agora, alguém sabe qual é o site internet do evento, qual a sede da organização e onde se pode obter a informação da programação?
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quinta-feira, abril 28, 2005

Vago

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Vago segredo o de um olhar transparente, fixo
sem resposta
O silêncio de uma distância insuportável
de uma vida sem luz
sem tempo e sem espaço
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Vejo, em ti, a luz que derruba a crista das ondas
E os remoinhos que se atravessam
no fluxo da vida
Como se somente a própria mão de Deus
Fosse o teu Verbo
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Nos versos procuro o teu poema mais belo
Aquele que exprime o que não existe em palavras
E que o mundo desconhece
em pureza
e esplendor
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Mesmo quando dentro de mim
batem negras asas
e não há segredo algum entre os sentimentos conhecidos
É o mortal desejo
que me obceca
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E deflagra o vazio da minha existência
Mendigo de olhos fechados
o instante de uma vida
ainda que para novamente naufragar
e dar à praia num monte de escombros
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Flutuando na vazante
celebrando o amor
que sobreviveu às cinzas do fogo na floresta sombria
e se perpetua
na memória dos homens do mar
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Apesar do Levante contínuo que sopra.

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terça-feira, abril 26, 2005

Profecia

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Sinto hoje na minha escrita
uma dor de ruas vazias
e muros garatujados a graffitti
cujas palavras vazias nada dizem
e apenas empobrecem
a alma de quem as lê de passagem
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Palavras sujas, gastas e sem viço
pedem-me a misericórdia de um fim
que lhes poupe o desassossego
de uma escrita moribunda
reflexo de uma alma por sarar
incapaz de agarrar o mais ténue sinal
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Eis o tardio fim próximo da escrita
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quinta-feira, abril 21, 2005

Vida

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Não consintas
que apague o teu divino alento
nem o brilho no teu olhar
com o meu insuportável padecer.
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terça-feira, abril 19, 2005

Post-it de Abril

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Nas traseiras da casa ouvir o regato
o abanar da rama da oliveira
junto à velha eira
e o riso desencontrado dos gaiatos

sentir a chegada do Verão
dobrar o casaco debaixo do braço
libertar-te num abraço
segurar-te ternamente na mão
.
trocar um beijo sem jeito
encostar a cabeça ao teu peito
fazer-te feliz por benção e direito
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Flutuar

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Passares sobre a mágoa
e uma existência dolorosa
como se nada tivesse sucedido
e lentamente se apagarem
os traços do negrume
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assim te deites
sem te perderes.
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Seca

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Entre os teus lábios e a minha voz
algo haverá de matar a sede delirante
que evapora a água
e nos seca as palavras
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Prece

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Oferece-me um lírio
prometo-te que as próximas Palavras
derrubarão a Angústia petrificada
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segunda-feira, abril 18, 2005

Tempestade II

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as crianças
os risos
a razão
as lágrimas
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os meus relâmpagos sem fim
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sms

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cerrar os lábios
para evitar proferir o amor
em palavras densas como sangue
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Instantes

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Parar
seria matar o coração
e forçar-me a ressuscitar
para viver os instantes
em suspensão.
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El Rocío

Volta-se por prazer. Com saudade e vontade de ver o que mudou. Com encanto, como na primeira vez, vemos que tudo está igual. O lugar da romaria, as comunidades, a religiosidade do sítio, a fé, os preparativos ano após ano. As ruas de terra, porque o asfalto e os passeios simplesmente não existem, não há casas com mais do que o primeiro andar e a ermida é o edifício mais alto. Apetece ficar um pouco, apesar do calor e do pó sufocantes, sobretudo no Verão, ou em dias de festa. Passear à beira do braço de Guadalquivir que ali chega, onde os cavalos se banham para a procissão, os peregrinos purificam a alma e livram o corpo do pó do caminho. Pentecostes. Neste ano calha a 16 de Maio a grande romaria a El Rocío del Condado, localidade encerrada no meio do Parque Natural Doñana, Património da Unesco, no coração da Andaluzia, perdida no tempo e na fé dos homens. Imperdível, pelo menos uma vez na vida, como a fiesta em Pamplona, imortalizada por Hemingway antes de se refugiar em Havana. Perceber Espanha, odiar os ventos e os casamentos, mas aceitar que tão perto, as coisas possam ser tão diferentes. E gostar-se, mesmo assim, desse Sul. Muito.

Marginal

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regresso ao cabo de um ano
e seis meses ou mais
para o mundo das coisas reais
algumas de que nunca falei
e que a vida encerra
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depois, pouco depois
do retorno dos pássaros migradores
após o último erguer digno de cabeça
do velho engraxador da marginal
em véspera de finados
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amei a mulher,
a sua sombra, a água e o sal
do mar encurralado dentro de si
e na busca disso me perco
rente ao fundo do meu último dia
[de vida]
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perdi o seu olhar,
no meio de uma névoa aspergida
por sobre águas de devoção
onde deambulo vagarosa e cegamente
ao sabor dos ventos do momento.
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se vivo? marginalmente
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quinta-feira, abril 14, 2005

Mal-se-quer

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É este, o tempo antes do gelo
belo, como uma caravela
sem cor, sem escuridão,
apenas branco como uma estátua
de mármore num sepulcro antigo
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É este, o tempo da lua, da distância
da minha doce solidão
de ouvir as vozes do vento
e a aragem vibrante,
do calor terno do Sol distante
.
É este, o tempo em que sou neve
espaço etéreo, ser ausente
sem relevo, como um camponês
ou Caronte sem vara, a caminho
do Purgatório
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É este o fio da água
que lentamente se esvai
e humildemente me leva a vida
e eu, seu cúmplice, assisto imóvel
ao meu lento suicídio
.
como uma flor sem pétalas
a quem somente mal-se-quer.
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terça-feira, abril 12, 2005

Alma oceânica

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Eis a noite escura
das sombras trémulas
a hora nostálgica
da ronda da alma oceânica sem guaridas
da luz desbocada de todas as coisas
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Eis a hora em que me silencio
num lugar povoado de ecos
onde te dou a mão e sigo o caminho
de dentes cerrados
sem escutar as almas que o assombram
.
Contra as (in)certezas do quotidiano.
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segunda-feira, abril 11, 2005

[?]

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Não aconteceu nada
foram apenas estilhaços
da tempestade de ontem
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Horizonte

as fotos
os textos
os desatres
a penumbra de um quarto
a exaustão
os risos
a pele queimada nas dunas
.
desejos que dão à costa
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Migração

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Suspenso,
ilumino-me
derreto-me
enquanto contemplo a ave saltitante
a comer as migalhas
que lhe atiras
no fim da migração
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Luto

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Manchas amarelecidas no papel
tinta nas veias
branca desolação
gota-a-gota
.
onde estás?
esquece,
não navego
apenas escrevo as palavras mais cruéis
a que dão asas a alucinação e a ilusão
de te amar
enquanto luto por perder a memória
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Corvos

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É o princípio do sono
os sinais que chegam lentamente
enquanto dou por mim a enumerar
até à exaustão
a fragilidade dos meus dias
que atravesso sem queixumes
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Anoiteça ou amanheça
derreta ao calor ou me enregele o frio
tanto me faz
desde que adormeça sob este torpor
frágil
e os gritos catastróficos dos corvos.
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Intemporal

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Diz-me - não me mintas -
que não sou de tempo algum
e deambulo pela infância
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Risos

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Vejo, no teu riso,
toda a inocência
da infância
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Totobosta

Em Sanfins, concelho de Paços de Ferreira, o clube local andava carenciado de fundos. Vai daí, a necessidade aguçou, como tantas vezes o faz, o engenho e promoveu rija festa popular, com quermesse, cantares e lotaria popular com três prémios. 250 Euros e um borrego para o terceiro prémio, 500 Euros e um porco para o segundo e 1.000 Euros e um touro para o primeiro. Tudo muito certo, excepto a escolha original do croupier, que recaiu sobre uma... vaca! O leitor, espantado, perguntará como é isto possível?! Enfim, em Sanfins existe um largo central cujo piso é um empedrado quadriculado, tendo a cada quadrículas sido atribuído um número. A cada número correspondeu, evidentemente, uma rifa. O sorteio foi depois feito com a largada de uma vaca no terreiro, sendo os três felizes contemplados os titulares dos números correspondentes às quadrículas em que o bovino depositasse os restos do repasto do dia anterior. Nada mais simples portanto. Confesso que começo a ter fé no futuro deste país.
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sexta-feira, abril 08, 2005

"Marinero del Rocío"

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Quantos corações
no teu recanto
Quantos ciprestes
no teu pranto
Quantos dilemas
no teu canto
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Ingênua inocência
raparigas em flor
no bairro madrugador
mora a confluência
teu amor
.
triste marinheiro
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quarta-feira, abril 06, 2005

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Durmo no imenso mar
E atravesso os dias

(Adeus Comandante)
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terça-feira, abril 05, 2005

À noite

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Trazes do teu fundo
a raiz significativa das coisas
o teu próprio movimento pendular
o firmamento
a energia sem fôlego da infância
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Trazes o pavor
a alucinação da felicidade
que recuso a duas mãos
dentro do meu espaço pulmonar
ocupado por uma pedra
.
Ferve-me nas veias o sangue
intoxicado pelos sentidos
e a selvática voragem
que me consome a existência
rebelde
.
Pela manhã tudo se atenua
sob o brilho elementar do Sol
nos jardins onde apenas Deus dança
ao som das nossas truculentas
metáforas calcinadas
.
Respiro
um delírio tangencial
equilibrado na frágil estrutura
de um lírio branco
assexuado e sem raiz significativa
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segunda-feira, abril 04, 2005

sexta-feira, abril 01, 2005

Basta, por hoje...

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Uma chuva abrupta de sentimentos
[metamórficos]
fissura o tempo
e as palavras gastas
de um poema liso
.
como pedras de calçada
alternadamente polidas
por uma vida fodida
e ruas vazias
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quinta-feira, março 31, 2005

[não]

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Hoje não escrevo
para não definhar a língua portuguesa
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Prece

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Levantar voo
no momento exacto em que um sismo
te desmorona o coração
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Espelho monocromático


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A imagem n'O espelho
devolve-nos esta manhã
o pressentimento
de um sono sem fim
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terça-feira, março 29, 2005

Volta ao mundo

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Hei-de regressar a ti
e, de novo, morrer nos teus braços
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segunda-feira, março 28, 2005

[silêncio]

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Que pergunta tenho receio de fazer
que o teu silêncio não me responda?
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quinta-feira, março 24, 2005

Oceano

Hoje,
queria saber
como sacudir o oceano dos teus olhos
e secá-los
como se nunca houvessem sabido
o que são lágrimas salgadas
.
Antes
de desaparecer do mundo
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quarta-feira, março 23, 2005

Almas

Que espinhos semeia teu amor
no caminho sobressaltado da minha vida
deixando que me pese o uivo do vento
e o rasgar das ondas de alto-mar
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Deixa-me viver tão só o desejo
e a aventura de apenas merecer
o brilho do teu espírito puro
que sempre de sangue conspurco
.
O teu amor, a fonte de virtude, o pecado
e o castigo, oiço-te mas não te vejo falar
queixas-te mas não te escuto
sinto-me monstro e a ti donzela
.
Quero procurar nos teus olhos
os beijos calados por que anseiam meus lábios
as tuas mãos invísiveis à procura do corpo
que não é meu, inflamado pelo alento do amor
.
Almas gémeas, olhando-se em silêncio
sem nome conhecido

Condór


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Anclado entre dos montañas
El Cóndor pasa
el viento selvaje de la borrasca
a lo largo del Anapurna
bajo el cielo de plomo y las flechas
de agua que perfuran sus plumas
.
Acorralado, como si fuera del cielo
y no más de la tierra, lejos
vola como un loco de corazón al viento
de alas desplegadas como tu alma
llena de saludad como un lirio blanco
flotando en un estero de mar.
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terça-feira, março 22, 2005

Alegro, ma non troppo

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O maestro António Vitorino de Almeida lançou uma sinfonia. Não uma sinfonia qualquer, antes uma Sinfonia Benfica, uma ode ao seu Benfica. Está bem, aplauda-se a iniciativa, sobretudo se com isso conseguir pôr os seis milhões de almas benfiquistas que se diz existirem, a ouvir música clássica. Um Pouco Mais de Sul deseja ao maestro e ao Benfica os maiores sucessos no campo musical.
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Inês

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Senhora partem tam tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tam tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.
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João Roiz de Castel-Branco, Cancioneiro Geral, III, 134
[evocação de Inês, pelo 650º aniversário da data da sua morte]
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segunda-feira, março 21, 2005

Anexações...


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Outros tempos...



Quantos autarcas se podem gabar de semelhante feito nos dias que correm?
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Ilha



A ti,
que és a grande ilha do silêncio

Chac Mool

A lenta passagem do tempo
envenena a carne
e apura as linhas mestras do esquecimento
enquanto depura a febril ânsia do corpo
como a luz que agoniza
nos olhos turvos de um condenado
.
Labaredas em soluços cerram
as pálpebras do passado
na hora em que um grito se arranca
das profundezas da garganta
perante o sangue que escorre pela pedra-mãe
da constelação de calcário
.
Belisco-me para descobrir se estou vivo
mas sei no meu íntimo que sim
Bárbaro símbolo de vida,
não danso nem durmo
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sábado, março 19, 2005

Janela

Um sorriso apenas. Deste-me um sorriso apenas e um aceno com a tua minúscula mão de princesinha. E tanto me bastou para te saber bem, feliz, o melhor possível. Estás uma senhora, fica-te bem o casaco azul escuro e os tons rosa da malha, que se confundem com o rubor da tua face, mesmo quando no calor das brincadeiras ficas incandescente. Há pouco, apeteceu-me deter o carro que arrancou e te levou. Apeteceu-me pará-lo, arrancar-te de lá de dentro e dar-te um abraço apertado como tantos outros que já demos. E desejar ao mesmo tempo que aquele fosse melhor que todos os outros, que nos desse energia para tudo, para todas as tormentas que teremos de enfrentar no futuro. Hoje fiquei com uma lágrima no olho, bem sei que são apenas momentos, mas fico perdidamente aflito quando perco um instante mágico da tua vida e não o partilho, ou sinto como meu. Queria ser anjo, poder velar-te e garantir a tua felicidade. Só isso, nada mais. E poder morrer quando o conseguisse.
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Aqui estou

Aqui estou
despido de tudo
dono de nada, sequer do ar que respiro
do vento que sopra, dos murmúrios
dos sonhos, da vontade natural
dos homens
.
Aqui estou
no fim do mundo
nas estepes sem desditoso fim
onde gela a erva verde da terra-mãe
corroída pelo glacial Inverno
do nosso tempo
.
Aqui estou
no profundo mar
onde ninguém me toca
onde habitam a escuridão e os temores
mais recônditos que existem
no meu eu
.
Aqui estou
à deriva e sem rumo
sem pontos cardeais
ou desejos colaterais
porque apenas procuro paz
e nada mais.
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quarta-feira, março 16, 2005

Palavras II...

Cautela. A hipotética beleza das palavras está no erro com que nos perplexam, na verdade crua que nos querem fazer acreditar, quantas vezes mascarada sob aparência de seriedade. Cuidado com as palavras aos dezasseis anos, aos trinta, aos quarenta... cuidado com todas as palavras, as tontas e as vãs, as boas, as que nos ferem e desassossegam, as esperançosas e as de malévola paciência. Pânico, palavras de regozijo irónico, brilho sinistro, poéticas, destrutivas, silenciosas, plenas de espuma, brancas, negras, fluentemente fluviais ou marítimas. De rei, de rainha, plebeu, pobretão, améres, de concentração animal... Palavras, fortes, deslocam montanhas, mundos, gargantas, luas e grutas obscuras. Palavras de marfim, espuma, sangrentas, carmim... palavras, de mel, dentro das veias, palavras mágicas, que soem bem em inglês, português ou francês, sem sentido, belas, ritmadas, universais. Eis o propósito vão do poeta, a escolha das palavras que libertem o leitor na escolha dos sentidos do poema.
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terça-feira, março 15, 2005

Olhares

Gosto
quando enches todas as coisas com a tua presença
as cobres com o teu silêncio
e encurtas a distância
entre a minha alma e a tua
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Trabalhos simples do teu olhar
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Cruzamentos



As nossas avenidas...
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sexta-feira, março 11, 2005

Cesto da gávea

Hoje apareceste-me num soneto de lua, pendurada no cesto da gávea onde os sinais da vida se procuram gota a gota, nas manchas de ausência de cor. Sei que fui cruel, que afrouxei o corpo, e me abandonei à dureza fotográfica de um momento de cansaço, de um soluço de respiração onde duvidei que estava vivo. Sei que perdi a memória, já não sei o que faço aqui e magoo-te a cada passo, por mais leve que o tente dar. Perco-me e faço-te perder a beleza de todos os instantes de lume e ar que se estatelaram nos nossos corações e que por comodidade se guardaram na velha gaveta da cómoda de pinho amarelecido. Perdoa-me o desastre e todo o mar triste que agora te trago. De bom grado abandonaria este leme frágil, se não temesse as sombras que me esforço por esquecer porque, pelas asas que te corto, morro para sempre de aflição.

Canción de la montaña

Quiero terminar la ansiedad
que agota mi pecho en tormentas
Quiero tus ojos abiertos
y no las ataduras del silencio
de paredes húmedas
.
Quiero el volumen de tus besos
.

quarta-feira, março 09, 2005

Hanami



Quero fazer-te o milagre
que a Primavera faz à cerejeira
.
N. do A.: 14/12/2007: Há dias, numa pesquisa, verifiquei acidentalmente que Neruda tem um verso muito parecido num dos seus poemas. Soará, pois, este poema, a plágio. Julgará assim, quem assim o quiser.

Urgente

Lavar as palavras do desencontro
Onde tudo,
a visão e o tempo
são mais duros de apagar
.

Babugem

Para que melhor me ouças
cuido que cada palavra minha
se reduza à sua expressão mínima
de babugem na baixa-mar
e pegadas de gaivota nas dunas
.
contra a incerteza
e os pequenos suicídios quotidianos.

A dúvida universal

Vamos ser sérios: de uma vez por todas, definitivamente, só há uma forma de colocação correcta do papel higiénico no respectivo suporte de parede que é com o papel a desenrolar do lado oposto a esta. Um Pouco Mais de Sul espera ter contribuído de forma decisiva para acabar com a dúvida universal que acerca do assunto ainda subsistia inaceitavelmente no dealbar do Séc. XXI.

terça-feira, março 08, 2005

Sussurro

Vou confiar-te um segredo
conhecerás a fonte dos meus encantos
aquela que faz florir as amendoeiras
e mais tarde as cerejeiras
.
Guarda este segredo que te confio,
se necessário com a tua própria vida
ignora os apelos mundanos
e cala-te em agonia
.
Cega teus olhos, que nada mais vejam
depois de contemplarem a flor
do meu desejo, se tornem indignos
da pura luz dos dias que me restam
.
Porque pecaram quando se abriram
Aos contornos do rosto daquela
por quem dobra em uníssono
o meu coração palpitante
.
Mata-me, que não me vejam louco
me tomem por demente
e me atirem às feras do circo
na arena ensanguentada
.
Salva-te o quanto antes
sobe à montanha distante
e não tornes a esta terra
onde já não há tesouros
[por descobrir]
.
Ouve,
Já não há cerejas, nem amendoeiras
Promete-me. Não tornes.
Ainda que sejam estas palavras
uma súplica no deserto.

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A Presa regressou em força. Salut, José Carlos.
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segunda-feira, março 07, 2005

Grito

Oásis na cidade

Luz

Luz filtrada pelos olhos inocentes
de quem tem ossos frágeis
apogeu de sentidas emoções
brilho dum mergulho em ti
e na intimidade pura
do teu pequeno ser.

Rasga-me o desejo
e a miragem ao crepúsculo oferece-me
o milagre da tua existência
Rendo-me em homenagem
à fina seiva do baile da tua vida
E fecho-me

num sindicato de sentimentos
.
Escrevo, para salvar a minha vida.
.

sexta-feira, março 04, 2005

Trabalho

Estados de Alma
Nuvens de tempo
Borrasca passageira em tardes distantes
mas hoje,
alheamento profundo
autismo telefónico
aos apelos do mundo
às vagas mensagens
de hediondas criaturas
do Apocalíptico desacerto

Que visão aterradora,
a do trabalho que me espera!

Tempo



Mergulho pela manhã na recordação do teu olhar
e sinto o empalidecimento das cores que me cercam
como se me envolvesse o opaco véu
da tua ausência
assim desabasse o céu
e tudo à minha volta perdesse
a transparência
.
Partiste há já uma eternidade
Impeço-me de crer no teu regresso
amiúde, acordo em sobressalto
a cada bater na porta
regurgito em cada alvorada, a memória distinta,
e uma e outra vez
evoco sem Norte
o canto melodioso de ti, sereia,
que nunca dormes
no teu leito de algas do fundo do mar
Debaixo do promontório.
.
Sim, esperançadamente, temos novo governo; não se preocupe o leitor, o défice segue dentro de momentos.

segunda-feira, fevereiro 28, 2005

Lejos

Olvidate del tiempo, niña
como si estuvieras suelta
luchando contra la inmensa distancia
lejos, asi te creo,
duenã del silencio
hecha de sueños

Una palabra, una sonrisa
me bastán en tu ausencia.
Por la noche, tu nombre me acuerda
y mi corazón te busca
dolce mariposa,
al horizonte de la ilusión

Fustigame el pecho
no tenerte en mis brazos.

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

Regressos

regresso à terra...

encontrar a fonte escondida
pela erva fresca
na sombra do feto e do chorão
dormir a sesta embalado no teu regaço
pelo rumor da água que corre

regresso ao largo...

passar a mão pelos teus cabelos
alisar a tempestade dentro de ti
sossegar-te a fúria
e a espuma do mar revolto
na entrada do porto

regresso a ti...

escolher as palavras certas
amainar o vento nas velas
e no cordame
preservar o teu corpo
da fúria dos elementos

regresso a lugar algum...
.

quinta-feira, fevereiro 24, 2005

Despertar



Quem dera a primeira luz da manhã
me houvesse por graça trazido
o brilho do teu olhar ensonado
e os contornos do teu sorriso

Quem dera me houvesses tentado
a voltar para o leito
ficar apenas por mais um instante
e sentir-me perfeito

Quem dera palpar o teu coração

Sentir que o mundo cabe na minha mão
E no meu ouvido soar
o abandono dos segredos do teu peito

Cedo,
Antes dos sons das crianças
e do estremunhar do mundo

À hora em que os pescadores tornam ao cais
cercados pelo voo frenético das gaivotas
a manhã tresandando a peixe fresco, maresia,

restos de plena lua

Quando ainda se pode agarrar a madrugada
estender a noite por um farrapo de tempo
entrelaçarmo-nos como crianças
que de manhã ensaiam a dansa

[Ficar,]
Beber a luz do amanhecer, olhar o rio,
desaguar no teu sorriso sereno
E por fim,
na nua dor do teu prazer

.

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

Destaques

É tão raro que é digno de nota; hoje a programação da TV é quase irrepreensível, senão vejamos: na RTP 1 há o futebol (Porto-Inter de Milão) para os amantes do desporto-rei, mas quem não estiver para aí virado nem pelos ajustes, pode deleitar-se com um documentário sobre a Barcelona de Gaudí às 20.00H no Biography Channel. Às 22.00H, o fantástico regresso de Black Adder , personificado por Mr Bean, no SIC Comédia. A seguir às notícias e ao resumo da Liga dos Campeões, cerca da meia-noite, novamente na RTP 1, entram em cena "Escape do Victory" de John Houston, logo seguido de "Como Água Para Chocolate" perto das 02.00H da manhã.
Tudo o que é bom acaba depressa, amanhã voltam os inevitáveis clichés, à excepção do directo do Sporting a partir da Holanda...

terça-feira, fevereiro 22, 2005

.
Sou uma pessoa de gostos simples;
o melhor basta-me perfeitamente
Oscar Wilde
.

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

Tempestade



A tempestade filtra a luminosidade
que se escapa do céu do deserto
abafa o estrondo da pólvora
dos disparos das tuas palavras
chamando-me à razão

Suplico pelo teu silêncio
e recolho-me num redunto bafiento
protegido da catarata que se despenha
apenas por uma chapa de zinco
onde mal cabem as minhas aflições

Água abençoada que ameças cair
da pele negra que cobre o céu,
das nuvens centrifugadas pelo vento
que ao longe fustiga a fria lâmina
de gelo afiado

ninfa ensonada, despertas
[os olhos claros]
ergues-te e espantas o sono
acendes as luzes da cidade,
dispersas as cinzas da tempestade
e calas o zumbido dos moscardos

[Impacientes]
em partir à conquista dos invísiveis
redutos das ruas que dormem;
ao fundo alguém chora e outrem ri
enquanto descobre as cores garridas
reflectidas no gume do céu

debaixo do qual me abrigo
ante a fúria das cores
à espera de melhores dias

sexta-feira, fevereiro 18, 2005

Pela manhã



Levantas-te cedo
Antes do Sol nascer
não sentes a temperatura do mundo
Atravessas o vazio
ouves as primeiras sílabas da cotovia
Que confundes com os gritos da ave-do paraíso

Cegas o teu olhar na janela
respiras fundo
perguntas ao mundo
Como extinguir o lume ateado no teu estômago
Salivas. Em antecipação
o primeiro beijo da manhã
apaga a geada e dissipará a bruma

Ardes em saudades
por outro tempo igual
Dual
Varas a janela, despenhas-te
na laje fria abaixo
Fronte ensaguentada
Congelas o palco em que te imobilizas
Fechas os olhos em túmulo de serenidade

.

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

Começo



Não cantes hoje,
sopra um vento -
- febril -
levanta um pó que se cola à memória
onde o esquecimento mergulhou
no teu sangue
levantas voo

percebes finalmente
que o mundo é redondo
para que não possas ver o caminho
a percorrer
nem a dispersão das cinzas
o ardor dos olhos
o mito da felicidade

desejo o silêncio
refugiar-me no teu corpo
vácuo
a cidade esquecer
o dia em que nasci
a areia a deslizar
na ampulheta

adormeço por fim,
a voz embargada
bêbado
no sono fingido
um poema violado
as sílabas
protegem-te para a eternidade

para que Luanda, cidade,
me esqueça
no clamor da noite,
uma manhã
de esplendor
de há muitos anos
na verdade...

anos
dor de demasiados
anos
que não me pertencem

a noite chega
não cantes

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

Lúcia



Porque foi decretado um luto incompreensível. Porque nada disto faz sentido. Porque o amor não pode ter barreiras de qualquer espécie...

14 de Fevereiro



Também é teu. Nosso. Deles. Mesmo quando te esqueces, esquecemos, esquecem-se...

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

quarta-feira, fevereiro 09, 2005

Missão (im)possível

A pequena Ellen realizou a sua segunda volta ao mundo à vela em solitário, sem assistência e sem escalas num barco gigantesco e num tempo recorde. À chegada, poucas palavras, apenas uma grande humildade, perante um dos maiores feitos do género:
.
"Sur ce tour du monde, j'ai vraiment puisé dans mes ressources. Par moments, j'étais absolument vidée. Dans ces cas là, il ne reste plus rien. Mais il faut tenir. C'est du 24h/24 et il n'y a pas de sortie. L'Atlantique Sud au retour a vraiment été très difficile. J'ai eu problème sur problème et le moindre souci pouvait mettre le record en péril. Pour moi, cette tentative de record a été beaucoup plus dure que le Vendée Globe (*)"
.
(*) [nd: regata disputada à volta do mundo nos mesmos moldes, i.e., sem assistência e sem escalas que Ellem disputou há quantro anos, tendo conquistado um brilhante segundo lugar].

Cemitério



Olho a pedra nua, morta, sem cor
arte deserta, forma fria
ao entardecer vergo os ombros
sob a chuva miúda, ajeito a gola
e caminho em direcção ao portão enferrujado
.
O cheiro denso e pesado da terra
ergue-se no ar e confunde-se
com os instantes da minha crueldade
converte-me num sarcófago
com o remorso da tua infelicidade
.
Queria dar-te tudo
quero dar-te tudo e mais ainda
molhado como estou, viúvo
sobre quem recaiu o peso do teu nome,
estás presente [em mim] como ninguém
.
Só eu sei o que te amo,
o que te amei, pequena corça,
o quanto choro o teu retrato sem cor
impresso por mim quando só em ti
encontrava força para a vida
.
Contigo fui cruel, não aprendi as cores
porque os meus olhos limitados
apenas viam o cinzento que detestavas
enquanto te afundava no meu oceano tolo
de homem sem alma de poeta
.
[agora]
Choro num túmulo de pedra
e imploro à morte que me leve
ao teu encontro

Livraria do Mar

Antoine e Brigitte eram pessoas comuns como nós. Gostavam de livros e de mar. Um dia, venderam tudo o que tinham e rumaram a Lisboa onde pleaneavam viver depois de transformarem uma velha casa em hotel. Felizmente, o alto preço dos imóveis dissuadiram-nos rapidamente da ideia. Felizmente, porque se não fosse assim, Antoine e Brigitte nunca teriam ido ao Taiti. Nem regressado a Paris e talvez a Librairie de la Mer nunca tivesse existido. Para além da venda de obras, guias e cartas náuticas do mundo inteiro, dão-se conselhos e relata-se a sua extraordinária viagem. A não perder, mesmo por pessoas comuns como nós.

sexta-feira, fevereiro 04, 2005

Mensagem



Pedir mais?
Não, deste modo não
prefiro que cometas um crime
me jugules
e nunca mais me abraces
porque é uma fraude
chamarmos a isto amor
quando tanto dói.
.
Liberto as palavras
que dentro de mim tenho
ao mar e aos ventos
para que outros testemunhem
a minha dor
e sejam a barca mensageira
que leva a minha loucura
aos sete mares
.
Desejo que nunca a encontres,
se afunde
no mais profundo abismo

Pedras



Esperar-te-ei ainda
como se o tempo parasse hoje
e as pedras da calçada
não se gastassem sob os meus passos

como se esperasse que a luz
pela manhã
pudesse novamente nascer
depois da tua partida

enrolo as mãos uma na outra
tremo de frio
bato os pés para me aquecer
fecho os olhos

Predisponho-me a sonhar a vida inteira

Abandono



O tempo escreve dia após dia
na rocha, na areia, a nossa história,
sedimenta cada lágrima de ti que deste
cada gota de mim que se esvaiu

mergulho agora nas raízes de mim profundo
na rocha, na areia, na memória
onde se enterra o punhal da partida
da vida que só por ti ainda existe

o tempo risca dia após dia,
o impossível adormecimento
a indignidade dos sinos que dobram
pela certeza do teu perecimento

sou agora um corredor sombrio
onde [se] refugiam as sombras do esquecimento
dobram os sinos sem dignidade
sem esperança no renascimento

pelo amor que tinha por eterno
pelo fino fio carmim que me prende à vida
não há dignidade nem esperança
no perecimento do amor

abandono de sombras e cinzas
engano de quem mal tão mal vê
desapareço por fim e liberto-te da tirania
de amares quem não merece



quarta-feira, fevereiro 02, 2005

Restos



Restos de ti
há restos [de ti] por todo o lado,
derramados no leito
nos lençóis, no travesseiro
no manto
que nos cobriu
.
Restos, de prazer
dos livros que lemos
das músicas, dos risos
das lágrimas, do vómito
das convulsões
do álcool e dos orgasmos
.
Restos [de ti]
que não se apagam
nem nos momentos
de intenso frémito
quando caminho na rua só
ao entardecer
.
Restos [de ti], bebo-os
sem indecisão
nem lágrimas
em cada instante
quando brindo
ao fim dos fumos

terça-feira, fevereiro 01, 2005

Difícil

Se tudo fosse simples
como os teus passos
a juventude do teu rosto
a nossa linguagem de crianças
a alegria dos insectos
.
E difícil fosse apenas repetir
o teu nome vezes sem conta
quando partes
e vertes agrestes palavras
sem futuro
.
Podia dizer-te as mais belas palavras
aquelas em que medito
e sinceramente acredito
com que às vezes me contento
e noutras abomino...
.
...me abomino!...

Aqui



Aqui onde estou
mergulho a cabeça na água fria
olho o reflexo do espelho
vejo agora que nada mudou
é ainda o mesmo rosto inexpressivo
que me fita, indiferente
.
Se me dissessem
há uns anos que aqui estaria
rir-me-ia de escárnio
vejo agora que nada mudou
é ainda o mesmo rosto inexpressivo
que me fita, indiferente