sábado, março 19, 2005

Janela

Um sorriso apenas. Deste-me um sorriso apenas e um aceno com a tua minúscula mão de princesinha. E tanto me bastou para te saber bem, feliz, o melhor possível. Estás uma senhora, fica-te bem o casaco azul escuro e os tons rosa da malha, que se confundem com o rubor da tua face, mesmo quando no calor das brincadeiras ficas incandescente. Há pouco, apeteceu-me deter o carro que arrancou e te levou. Apeteceu-me pará-lo, arrancar-te de lá de dentro e dar-te um abraço apertado como tantos outros que já demos. E desejar ao mesmo tempo que aquele fosse melhor que todos os outros, que nos desse energia para tudo, para todas as tormentas que teremos de enfrentar no futuro. Hoje fiquei com uma lágrima no olho, bem sei que são apenas momentos, mas fico perdidamente aflito quando perco um instante mágico da tua vida e não o partilho, ou sinto como meu. Queria ser anjo, poder velar-te e garantir a tua felicidade. Só isso, nada mais. E poder morrer quando o conseguisse.
.

Aqui estou

Aqui estou
despido de tudo
dono de nada, sequer do ar que respiro
do vento que sopra, dos murmúrios
dos sonhos, da vontade natural
dos homens
.
Aqui estou
no fim do mundo
nas estepes sem desditoso fim
onde gela a erva verde da terra-mãe
corroída pelo glacial Inverno
do nosso tempo
.
Aqui estou
no profundo mar
onde ninguém me toca
onde habitam a escuridão e os temores
mais recônditos que existem
no meu eu
.
Aqui estou
à deriva e sem rumo
sem pontos cardeais
ou desejos colaterais
porque apenas procuro paz
e nada mais.
.

quarta-feira, março 16, 2005

Palavras II...

Cautela. A hipotética beleza das palavras está no erro com que nos perplexam, na verdade crua que nos querem fazer acreditar, quantas vezes mascarada sob aparência de seriedade. Cuidado com as palavras aos dezasseis anos, aos trinta, aos quarenta... cuidado com todas as palavras, as tontas e as vãs, as boas, as que nos ferem e desassossegam, as esperançosas e as de malévola paciência. Pânico, palavras de regozijo irónico, brilho sinistro, poéticas, destrutivas, silenciosas, plenas de espuma, brancas, negras, fluentemente fluviais ou marítimas. De rei, de rainha, plebeu, pobretão, améres, de concentração animal... Palavras, fortes, deslocam montanhas, mundos, gargantas, luas e grutas obscuras. Palavras de marfim, espuma, sangrentas, carmim... palavras, de mel, dentro das veias, palavras mágicas, que soem bem em inglês, português ou francês, sem sentido, belas, ritmadas, universais. Eis o propósito vão do poeta, a escolha das palavras que libertem o leitor na escolha dos sentidos do poema.
.

terça-feira, março 15, 2005

Olhares

Gosto
quando enches todas as coisas com a tua presença
as cobres com o teu silêncio
e encurtas a distância
entre a minha alma e a tua
.
Trabalhos simples do teu olhar
.

Cruzamentos



As nossas avenidas...
.

sexta-feira, março 11, 2005

Cesto da gávea

Hoje apareceste-me num soneto de lua, pendurada no cesto da gávea onde os sinais da vida se procuram gota a gota, nas manchas de ausência de cor. Sei que fui cruel, que afrouxei o corpo, e me abandonei à dureza fotográfica de um momento de cansaço, de um soluço de respiração onde duvidei que estava vivo. Sei que perdi a memória, já não sei o que faço aqui e magoo-te a cada passo, por mais leve que o tente dar. Perco-me e faço-te perder a beleza de todos os instantes de lume e ar que se estatelaram nos nossos corações e que por comodidade se guardaram na velha gaveta da cómoda de pinho amarelecido. Perdoa-me o desastre e todo o mar triste que agora te trago. De bom grado abandonaria este leme frágil, se não temesse as sombras que me esforço por esquecer porque, pelas asas que te corto, morro para sempre de aflição.

Canción de la montaña

Quiero terminar la ansiedad
que agota mi pecho en tormentas
Quiero tus ojos abiertos
y no las ataduras del silencio
de paredes húmedas
.
Quiero el volumen de tus besos
.

quarta-feira, março 09, 2005

Hanami



Quero fazer-te o milagre
que a Primavera faz à cerejeira
.
N. do A.: 14/12/2007: Há dias, numa pesquisa, verifiquei acidentalmente que Neruda tem um verso muito parecido num dos seus poemas. Soará, pois, este poema, a plágio. Julgará assim, quem assim o quiser.

Urgente

Lavar as palavras do desencontro
Onde tudo,
a visão e o tempo
são mais duros de apagar
.

Babugem

Para que melhor me ouças
cuido que cada palavra minha
se reduza à sua expressão mínima
de babugem na baixa-mar
e pegadas de gaivota nas dunas
.
contra a incerteza
e os pequenos suicídios quotidianos.

A dúvida universal

Vamos ser sérios: de uma vez por todas, definitivamente, só há uma forma de colocação correcta do papel higiénico no respectivo suporte de parede que é com o papel a desenrolar do lado oposto a esta. Um Pouco Mais de Sul espera ter contribuído de forma decisiva para acabar com a dúvida universal que acerca do assunto ainda subsistia inaceitavelmente no dealbar do Séc. XXI.

terça-feira, março 08, 2005

Sussurro

Vou confiar-te um segredo
conhecerás a fonte dos meus encantos
aquela que faz florir as amendoeiras
e mais tarde as cerejeiras
.
Guarda este segredo que te confio,
se necessário com a tua própria vida
ignora os apelos mundanos
e cala-te em agonia
.
Cega teus olhos, que nada mais vejam
depois de contemplarem a flor
do meu desejo, se tornem indignos
da pura luz dos dias que me restam
.
Porque pecaram quando se abriram
Aos contornos do rosto daquela
por quem dobra em uníssono
o meu coração palpitante
.
Mata-me, que não me vejam louco
me tomem por demente
e me atirem às feras do circo
na arena ensanguentada
.
Salva-te o quanto antes
sobe à montanha distante
e não tornes a esta terra
onde já não há tesouros
[por descobrir]
.
Ouve,
Já não há cerejas, nem amendoeiras
Promete-me. Não tornes.
Ainda que sejam estas palavras
uma súplica no deserto.

.
A Presa regressou em força. Salut, José Carlos.
.

segunda-feira, março 07, 2005

Grito

Oásis na cidade

Luz

Luz filtrada pelos olhos inocentes
de quem tem ossos frágeis
apogeu de sentidas emoções
brilho dum mergulho em ti
e na intimidade pura
do teu pequeno ser.

Rasga-me o desejo
e a miragem ao crepúsculo oferece-me
o milagre da tua existência
Rendo-me em homenagem
à fina seiva do baile da tua vida
E fecho-me

num sindicato de sentimentos
.
Escrevo, para salvar a minha vida.
.

sexta-feira, março 04, 2005

Trabalho

Estados de Alma
Nuvens de tempo
Borrasca passageira em tardes distantes
mas hoje,
alheamento profundo
autismo telefónico
aos apelos do mundo
às vagas mensagens
de hediondas criaturas
do Apocalíptico desacerto

Que visão aterradora,
a do trabalho que me espera!

Tempo



Mergulho pela manhã na recordação do teu olhar
e sinto o empalidecimento das cores que me cercam
como se me envolvesse o opaco véu
da tua ausência
assim desabasse o céu
e tudo à minha volta perdesse
a transparência
.
Partiste há já uma eternidade
Impeço-me de crer no teu regresso
amiúde, acordo em sobressalto
a cada bater na porta
regurgito em cada alvorada, a memória distinta,
e uma e outra vez
evoco sem Norte
o canto melodioso de ti, sereia,
que nunca dormes
no teu leito de algas do fundo do mar
Debaixo do promontório.
.
Sim, esperançadamente, temos novo governo; não se preocupe o leitor, o défice segue dentro de momentos.

segunda-feira, fevereiro 28, 2005

Lejos

Olvidate del tiempo, niña
como si estuvieras suelta
luchando contra la inmensa distancia
lejos, asi te creo,
duenã del silencio
hecha de sueños

Una palabra, una sonrisa
me bastán en tu ausencia.
Por la noche, tu nombre me acuerda
y mi corazón te busca
dolce mariposa,
al horizonte de la ilusión

Fustigame el pecho
no tenerte en mis brazos.

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

Regressos

regresso à terra...

encontrar a fonte escondida
pela erva fresca
na sombra do feto e do chorão
dormir a sesta embalado no teu regaço
pelo rumor da água que corre

regresso ao largo...

passar a mão pelos teus cabelos
alisar a tempestade dentro de ti
sossegar-te a fúria
e a espuma do mar revolto
na entrada do porto

regresso a ti...

escolher as palavras certas
amainar o vento nas velas
e no cordame
preservar o teu corpo
da fúria dos elementos

regresso a lugar algum...
.

quinta-feira, fevereiro 24, 2005

Despertar



Quem dera a primeira luz da manhã
me houvesse por graça trazido
o brilho do teu olhar ensonado
e os contornos do teu sorriso

Quem dera me houvesses tentado
a voltar para o leito
ficar apenas por mais um instante
e sentir-me perfeito

Quem dera palpar o teu coração

Sentir que o mundo cabe na minha mão
E no meu ouvido soar
o abandono dos segredos do teu peito

Cedo,
Antes dos sons das crianças
e do estremunhar do mundo

À hora em que os pescadores tornam ao cais
cercados pelo voo frenético das gaivotas
a manhã tresandando a peixe fresco, maresia,

restos de plena lua

Quando ainda se pode agarrar a madrugada
estender a noite por um farrapo de tempo
entrelaçarmo-nos como crianças
que de manhã ensaiam a dansa

[Ficar,]
Beber a luz do amanhecer, olhar o rio,
desaguar no teu sorriso sereno
E por fim,
na nua dor do teu prazer

.

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

Destaques

É tão raro que é digno de nota; hoje a programação da TV é quase irrepreensível, senão vejamos: na RTP 1 há o futebol (Porto-Inter de Milão) para os amantes do desporto-rei, mas quem não estiver para aí virado nem pelos ajustes, pode deleitar-se com um documentário sobre a Barcelona de Gaudí às 20.00H no Biography Channel. Às 22.00H, o fantástico regresso de Black Adder , personificado por Mr Bean, no SIC Comédia. A seguir às notícias e ao resumo da Liga dos Campeões, cerca da meia-noite, novamente na RTP 1, entram em cena "Escape do Victory" de John Houston, logo seguido de "Como Água Para Chocolate" perto das 02.00H da manhã.
Tudo o que é bom acaba depressa, amanhã voltam os inevitáveis clichés, à excepção do directo do Sporting a partir da Holanda...

terça-feira, fevereiro 22, 2005

.
Sou uma pessoa de gostos simples;
o melhor basta-me perfeitamente
Oscar Wilde
.

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

Tempestade



A tempestade filtra a luminosidade
que se escapa do céu do deserto
abafa o estrondo da pólvora
dos disparos das tuas palavras
chamando-me à razão

Suplico pelo teu silêncio
e recolho-me num redunto bafiento
protegido da catarata que se despenha
apenas por uma chapa de zinco
onde mal cabem as minhas aflições

Água abençoada que ameças cair
da pele negra que cobre o céu,
das nuvens centrifugadas pelo vento
que ao longe fustiga a fria lâmina
de gelo afiado

ninfa ensonada, despertas
[os olhos claros]
ergues-te e espantas o sono
acendes as luzes da cidade,
dispersas as cinzas da tempestade
e calas o zumbido dos moscardos

[Impacientes]
em partir à conquista dos invísiveis
redutos das ruas que dormem;
ao fundo alguém chora e outrem ri
enquanto descobre as cores garridas
reflectidas no gume do céu

debaixo do qual me abrigo
ante a fúria das cores
à espera de melhores dias

sexta-feira, fevereiro 18, 2005

Pela manhã



Levantas-te cedo
Antes do Sol nascer
não sentes a temperatura do mundo
Atravessas o vazio
ouves as primeiras sílabas da cotovia
Que confundes com os gritos da ave-do paraíso

Cegas o teu olhar na janela
respiras fundo
perguntas ao mundo
Como extinguir o lume ateado no teu estômago
Salivas. Em antecipação
o primeiro beijo da manhã
apaga a geada e dissipará a bruma

Ardes em saudades
por outro tempo igual
Dual
Varas a janela, despenhas-te
na laje fria abaixo
Fronte ensaguentada
Congelas o palco em que te imobilizas
Fechas os olhos em túmulo de serenidade

.

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

Começo



Não cantes hoje,
sopra um vento -
- febril -
levanta um pó que se cola à memória
onde o esquecimento mergulhou
no teu sangue
levantas voo

percebes finalmente
que o mundo é redondo
para que não possas ver o caminho
a percorrer
nem a dispersão das cinzas
o ardor dos olhos
o mito da felicidade

desejo o silêncio
refugiar-me no teu corpo
vácuo
a cidade esquecer
o dia em que nasci
a areia a deslizar
na ampulheta

adormeço por fim,
a voz embargada
bêbado
no sono fingido
um poema violado
as sílabas
protegem-te para a eternidade

para que Luanda, cidade,
me esqueça
no clamor da noite,
uma manhã
de esplendor
de há muitos anos
na verdade...

anos
dor de demasiados
anos
que não me pertencem

a noite chega
não cantes

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

Lúcia



Porque foi decretado um luto incompreensível. Porque nada disto faz sentido. Porque o amor não pode ter barreiras de qualquer espécie...

14 de Fevereiro



Também é teu. Nosso. Deles. Mesmo quando te esqueces, esquecemos, esquecem-se...

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

quarta-feira, fevereiro 09, 2005

Missão (im)possível

A pequena Ellen realizou a sua segunda volta ao mundo à vela em solitário, sem assistência e sem escalas num barco gigantesco e num tempo recorde. À chegada, poucas palavras, apenas uma grande humildade, perante um dos maiores feitos do género:
.
"Sur ce tour du monde, j'ai vraiment puisé dans mes ressources. Par moments, j'étais absolument vidée. Dans ces cas là, il ne reste plus rien. Mais il faut tenir. C'est du 24h/24 et il n'y a pas de sortie. L'Atlantique Sud au retour a vraiment été très difficile. J'ai eu problème sur problème et le moindre souci pouvait mettre le record en péril. Pour moi, cette tentative de record a été beaucoup plus dure que le Vendée Globe (*)"
.
(*) [nd: regata disputada à volta do mundo nos mesmos moldes, i.e., sem assistência e sem escalas que Ellem disputou há quantro anos, tendo conquistado um brilhante segundo lugar].

Cemitério



Olho a pedra nua, morta, sem cor
arte deserta, forma fria
ao entardecer vergo os ombros
sob a chuva miúda, ajeito a gola
e caminho em direcção ao portão enferrujado
.
O cheiro denso e pesado da terra
ergue-se no ar e confunde-se
com os instantes da minha crueldade
converte-me num sarcófago
com o remorso da tua infelicidade
.
Queria dar-te tudo
quero dar-te tudo e mais ainda
molhado como estou, viúvo
sobre quem recaiu o peso do teu nome,
estás presente [em mim] como ninguém
.
Só eu sei o que te amo,
o que te amei, pequena corça,
o quanto choro o teu retrato sem cor
impresso por mim quando só em ti
encontrava força para a vida
.
Contigo fui cruel, não aprendi as cores
porque os meus olhos limitados
apenas viam o cinzento que detestavas
enquanto te afundava no meu oceano tolo
de homem sem alma de poeta
.
[agora]
Choro num túmulo de pedra
e imploro à morte que me leve
ao teu encontro

Livraria do Mar

Antoine e Brigitte eram pessoas comuns como nós. Gostavam de livros e de mar. Um dia, venderam tudo o que tinham e rumaram a Lisboa onde pleaneavam viver depois de transformarem uma velha casa em hotel. Felizmente, o alto preço dos imóveis dissuadiram-nos rapidamente da ideia. Felizmente, porque se não fosse assim, Antoine e Brigitte nunca teriam ido ao Taiti. Nem regressado a Paris e talvez a Librairie de la Mer nunca tivesse existido. Para além da venda de obras, guias e cartas náuticas do mundo inteiro, dão-se conselhos e relata-se a sua extraordinária viagem. A não perder, mesmo por pessoas comuns como nós.

sexta-feira, fevereiro 04, 2005

Mensagem



Pedir mais?
Não, deste modo não
prefiro que cometas um crime
me jugules
e nunca mais me abraces
porque é uma fraude
chamarmos a isto amor
quando tanto dói.
.
Liberto as palavras
que dentro de mim tenho
ao mar e aos ventos
para que outros testemunhem
a minha dor
e sejam a barca mensageira
que leva a minha loucura
aos sete mares
.
Desejo que nunca a encontres,
se afunde
no mais profundo abismo

Pedras



Esperar-te-ei ainda
como se o tempo parasse hoje
e as pedras da calçada
não se gastassem sob os meus passos

como se esperasse que a luz
pela manhã
pudesse novamente nascer
depois da tua partida

enrolo as mãos uma na outra
tremo de frio
bato os pés para me aquecer
fecho os olhos

Predisponho-me a sonhar a vida inteira

Abandono



O tempo escreve dia após dia
na rocha, na areia, a nossa história,
sedimenta cada lágrima de ti que deste
cada gota de mim que se esvaiu

mergulho agora nas raízes de mim profundo
na rocha, na areia, na memória
onde se enterra o punhal da partida
da vida que só por ti ainda existe

o tempo risca dia após dia,
o impossível adormecimento
a indignidade dos sinos que dobram
pela certeza do teu perecimento

sou agora um corredor sombrio
onde [se] refugiam as sombras do esquecimento
dobram os sinos sem dignidade
sem esperança no renascimento

pelo amor que tinha por eterno
pelo fino fio carmim que me prende à vida
não há dignidade nem esperança
no perecimento do amor

abandono de sombras e cinzas
engano de quem mal tão mal vê
desapareço por fim e liberto-te da tirania
de amares quem não merece



quarta-feira, fevereiro 02, 2005

Restos



Restos de ti
há restos [de ti] por todo o lado,
derramados no leito
nos lençóis, no travesseiro
no manto
que nos cobriu
.
Restos, de prazer
dos livros que lemos
das músicas, dos risos
das lágrimas, do vómito
das convulsões
do álcool e dos orgasmos
.
Restos [de ti]
que não se apagam
nem nos momentos
de intenso frémito
quando caminho na rua só
ao entardecer
.
Restos [de ti], bebo-os
sem indecisão
nem lágrimas
em cada instante
quando brindo
ao fim dos fumos

terça-feira, fevereiro 01, 2005

Difícil

Se tudo fosse simples
como os teus passos
a juventude do teu rosto
a nossa linguagem de crianças
a alegria dos insectos
.
E difícil fosse apenas repetir
o teu nome vezes sem conta
quando partes
e vertes agrestes palavras
sem futuro
.
Podia dizer-te as mais belas palavras
aquelas em que medito
e sinceramente acredito
com que às vezes me contento
e noutras abomino...
.
...me abomino!...

Aqui



Aqui onde estou
mergulho a cabeça na água fria
olho o reflexo do espelho
vejo agora que nada mudou
é ainda o mesmo rosto inexpressivo
que me fita, indiferente
.
Se me dissessem
há uns anos que aqui estaria
rir-me-ia de escárnio
vejo agora que nada mudou
é ainda o mesmo rosto inexpressivo
que me fita, indiferente

segunda-feira, janeiro 31, 2005

Notas desencaixadas

Deixa-me oferecer o meu peito ao vento
para que o ar glacial te não atinja
.
Trémulo,
hei-de soerguer-me das cinzas do vulcão
e do magma que me soterrou
.
Nada mais há neste lado do meu mundo
que as cores do passado que viveram
no teu rosto
.
Parte.
eis-me a Sul de Sul algum

domingo, janeiro 30, 2005

A partida

Queres partir
sem olhar para trás nem para o que fica,
abandonas-me,
a mim e a ti,
ao que semeaste [semeámos] dias a fio
às noites sem dormir, às insónias!
e à dor,
procuras uma resposta nas estrelas
esqueces-te do que há dentro do teu coração
e do meu
como se o aviltamento do silêncio
por si só, sem mais,
justificasse toda a dor de uma partida.
.
Vai, se tens de partir,
se é maior a mágoa
que tudo o mais com que sonhas,
e sentes que no meu coração
não há lugar para o teu ser...
Vai, mas por favor abandona-me a tua mágoa,
.
Porque não quero a tua dor,
antes purificar-me
e criar raízes no teu pesar,
alimentar-me do amor
que não pôde, dentro de ti, crescer
deixa-me!
.
Se tens de partir,
mas apenas por ti...

Teias

Os amantes choram,
desperdiçam as palavras
em manifestações de mágoa sentida
turvam os sentimentos
em inseguranças desmedidas
sensatas? razoáveis?
verdadeiras!

Hei-de ter a força
que te libertará de tamanhas teias...

sexta-feira, janeiro 28, 2005

Freitas volver

Freitas do Amaral anunciou publicamente que em consciência os portugueses devem votar PS nas próximas eleições legislativas. O Indy não gostou e, sob o título "esquerda volver", aplicou-lhe uma "batata" de palhaço no nariz. Freitas tem o direito de emitir as suas opiniões, evidentemente. O que seria importante saber neste momento é se para o PS Freitas é ministeriável, antes de o podermos levar a sério e julgar sobre a justiça da sua "batata".

Vo(l)ta Pedro

Santana Lopes anunciou a sua intenção de processar as empresas de sondagens. Tem razão, não há vencedores nem vencidos antecipados em democracia, por isso esta é uma forma inadmissível de se ganhar a vida. Evidentemente, aguardamos que a seguir venha o anúncio de que serão igualmente processados os jornais, as rádios e as televisões que ousarem divulgar qualquer sondagem que não lhe dê vitória. Ah, claro, e que se acabe de uma vez por todas com a absurda liberdade de imprensa e o direito de livre emissão de opiniões.

Novelo

Dizem que tudo tenho
que tenho coração, braços, mãos
quiça cabeça
e algo mais
mas assim será? terei!?
.
Sei que tenho fé,
força de vontade e vida
vida! e alma, de chorar
que nao arrefece [perante]
vida constrangida...
.
tenho olhos negros, atentos
iluminados pelo teu retiro
alimentados por mil lágrimas
em novelo que desato
para que derramem

e nunca mais se enredem
no teu nome

inocência

Nessa manhãs geladas, descias o caminho branco da serra e olhavas com respeito e admiração as escarpas de xisto, sentinelas de pedra que guardavam o caminho do rio. O vapor da tua respiração era o único sinal de vida e na curva dos loendros perdia-te de vista quando te misturavas com a neblina que cobria a água já perto do moinho. Eu chegava mais cedo, destravava as rodas da moagem, abria o açude e deleitava-me com a liberdade nova das águas geladas. E mesmo nessas manhãs de frio ardente, era tudo tão simples, tão infinitamente simples, como se a inocência perdida pudesse regressar alguma vez...

quinta-feira, janeiro 27, 2005

Parabéns aos vermelhos



Pronto, parabéns, foi justo, mas não batam mais no sapinho.

quarta-feira, janeiro 26, 2005

Et pour cause...

Esta noite não te deixo entrar
trazes o frio, o vento, a geada
não há lugar para ti à lareira
se não deixares o Inverno lá fora

A ordem natural


Na inevitabilidade da causas das coisas,
tudo tem o seu lugar e ordem.
Amanhã arrisco-me a ter de engolir um sapo,
mas prometo-te que hoje teremos uma alegria
porque já a merecemos.

Para sempre

Ontem ligaste-me. A caminho do hospital. Mal te percebi. Um acidente. Ouvi imenso ruído de fundo, uma voz apressada sobrepôs-se à tua. "Não te preocupes" - disseste - "não é nada, até já". Fui ter contigo ao hospital o mais depressa que pude. Quando cheguei, estavas em tratamento, esperei, muito mais do que achei normal. Depois da operação sentei-me a teu lado na sala de cuidados intensivos. O teu coração pulsava como de costume, nas vezes em que encostei o rosto ao teu peito e o senti a bater forte. Sorri e o teu tempo da visita passou demasiado rápido. No fim beijei-te a fronte, estavas quente, talvez um pouco de febre. Nada de preocupante, asseguraram-me. Olhei-te mais uma vez, passei a minhã mão pela tua, os dedos deslizaram num toque mágico. Uma noite passou. Esta manhã cheguei e entrei sem perguntar, nem bater. Já não estavas onde te deixei. Perguntei por ti. Ninguém me soube dizer, fui empurrado para a enfermeira de turno, depois para a enfermeira-chefe, o médico e por fim o médico de piso. Não pude acreditar. Nem gritar. Partiste e nem te despediste, não nos despedimos... Uma infecção. Uma ridícula infecção cuja causa ninguém me sabe ou parece querer explicar. Partes em silêncio, sem que ninguém seja responsável, sem que a ninguém incomode a tua partida e no entanto és a pessoa mais importante do mundo para mim. Olho-te deitada no lençol de cetim. Estás séria, mas mesmo assim bonita como sempre. Faz frio. Daqui a pouco começarão a chegar as pessoas e nunca mais poderei estar só contigo. Beijo-te os lábios uma última vez e aspiro o teu perfume. Ia jurar que ainda é o teu cheiro que me penetra nas narinas; devo estar a ficar louco, mas quem não ficaria? Amo-te tanto... tantas saudades... Até breve, meu amor.

terça-feira, janeiro 25, 2005

Fresta



Um olhar fugaz
perscruta a penumbra de um leito
perdido no tempo
onde persistem vestígios de ti,
paredes fechadas, espaços vazios
.
Dentro, reboco claro,
fragrâncias no azul do meio-dia
janela aberta, voam pombas
ao sabor do vento gelado do Norte
que te enche os olhos de lágrimas
.
chegas,
empurro-te para dentro,
consumo-te, nutro-me de ti
entre soluços e suspiros
e afugento o sofrimento da alma.

A razão


Immanuel Kant (1724-1804)

"A consideração do nosso bem (Wohl) e do nosso mal (Weh) tem uma grande importância nos juízos da nossa razão prática e, no concernente à nossa natureza como seres sensíveis, tudo depende da nossa felicidade, se esta é julgada - como o exige especialmente a razão - não segundo a sensação passageira, mas segundo a influência que esta contingência tem sobre toda a nossa existência e a satisfação a seu respeito"... [O homem] "tem, pois, certamente necessidade, segundo esta disposição natural com ele conexa, da razão para considerar em todo o tempo o seu bem e mal (sein Wohl und Weh), mas possui-a, além disso, ainda para um propósito mais elevado, a saber, de não só reflectir sobre o que é em si bom ou mau (gut oder böse) - e a este respeito só a razão pura, sem qualquer interesse sensível, pode julgar -, mas ainda de distinguir inteiramente este juízo do precedente e dele fazer a condição suprema do último."
.
Immanuel Kant, Crítica da Razão Prática

Um Pouco Mais de Sul
Não podendo falar para toda a Terra direi um segredo a um só ouvido
.
O insólito aconteceu. Tinhamos pensado em reservar o anúncio da novidade para o próximo dia 1 de Abril, mas fomos coagidos a fazê-lo de imediato após a queda do Governo (razão por que não se insere um "link" para este órgão). Sim, desta vez é mesmo a sério, Um Pouco Mais de Sul depurou os "links" inexistentes, acrescentou outros (sem preconceitos discriminatórios de qualquer espécie e para confirmar isso até manteve o atalho para o Gato Fedorento sem que fosse paga qualquer comissão pela promoção gratuita), alterou RADICALMENTE o arranjo da página como o leitor facilamente notará e até dispõe de email. Fica a promessa de que havemos de tentar fazer novamente obras, embora mais comedidas, dentro dos próximos dez anos.

Férias

Preciso de férias, urgentemente. Se o leitor precisar que eu vá levar umas coisitas ali a São Tomé, disponha...

Darkless


[Darkless, 2004]


Darkness


[Darkness, 2005]

o anticiclone

[Um feroz combate de cores]

No absurdo
do mais duro momento
não podes ceder ao cinzento;
o anticiclone aparta-te
da borrasca, do mau tempo

e devolve-te o mundo.

segunda-feira, janeiro 24, 2005

mescla de cores

se fosse fácil
se os teus azuis mesclassem os meus cinzentos
e os fizessem viver
e assim também os teus rosas
o teu sangue
e o teu verde satinado

se fosse fácil
mais valia não nos termos encontrado

sexta-feira, janeiro 21, 2005

Neve

cai a neve.
minto. Mas
se de novo me perguntasses,
ainda assim juraria

pela flor da Amendoeira

Os dias conto, nem sei

Os dias conto
e assim cada hora
cada momento
que faltam para cresceres
a meu lado.

A névoa que se dissipa
no teu, no nosso
caminho ladeado de fetos
atenua-me o castigo
entre o voo dos insectos

e torna os graves tormentos
do trajecto acidentado
em ternos momentos
de espera e sossego
onde se dissipa o isolamento.

Alma

Sinto a tua ausência
como um arpão espetado na carne
e a incerteza do teu sentir
congela-me a alma

Como te saberei trasnsmitir a certeza
que não consigo viver sem ti
[e apenas me move o que és]?

...mas até sempre!

Caro JCB,

Repetindo aquilo que já aqui disse noutra ocasião, é sempre triste uma partida, ainda que essa partida seja apenas um até à vista. Entendo que Um Pouco Mais de Sul não me fica entregue, mas sim a todos com quem aqui nos encontrámos, encontramos e encontraremos num passado, num presente e num futuro mais ou menos próximos. O esforço da escrita cansa e por vezes desmotiva, excepto quando a escrita se torna numa paixão ou, ao invés, numa catarse, numa necessidade pessoal em que deixa de importar quem lê mas tão somente quem escreve. Já aconteceu e não será a última vez, tenho disso a certeza.
Por outro lado, a certeza de um reencontro a breve trecho, aqui ou num qualquer outro lugar é o que dá alguma alegria às despedidas mesmo àquelas que ainda que só esperançadamente sejam apenas provisórias.
O "Sul" continua sem prazo de vida definido, assim a inspiração ou outra força qualquer me permita ir continuando.
Por ora, tendo sido um prazer e uma honra partilhar esta página contigo, parafraseando o Raúl Solnado, faz o favor de ser feliz. Até à vista e até sempre nesta página que é tua.

Eurico

Não é propriamente uma despedida

O Eurico continuará por aqui: umpoucomaisdesul fica bem entregue. E terá em mim o primeiro dos seus leitores.

Pela minha parte - até um destes dias. Até sempre. Um abraço.

José Carlos Barros

quarta-feira, janeiro 19, 2005

de ea para a menina do mar II

Já não me lembro dos seus olhos,
do sorriso de maré
ou do cabelo escorrido
mas nunca esquecerei
por maior que seja o tempo com que a vida me amaldiçoe
da luz nas suas tristes asas

in diálogos de um ouriço e
de uma menina piratinha, 2005

de ea para a menina do mar

[...]
Tinha como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.
[...]

(excerto de "Os Amantes sem Dinheiro", de
Eugénio Andrade para Sophia de Mello Breyner Andresen)

Sê paciente; espera

Sê paciente;
espera que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça

Eugénio de ANDRADE
(evocação no seu octagésimo segundo aniversário)

terça-feira, janeiro 18, 2005

Partitura inacabada

Trémulo, desenhou o último símbolo na partitura. Nem precisou de dedilhar as notas no teclado marfim e ébano, tal a certeza que tinha no acerto da melodia. Reviu uma vez mais mentalmente o dedilhar dos dedos nas teclas e, sem um estremecimento de comoção, fechou a tampa do teclado do piano preto em que há muito não tocava. Detestaria para sempre aquela música, mas no entanto tinha de a ter escrito para dela se libertar; havia muito lhe não saíam da cabeças aquelas notas malditas, a sequência que mil vezes proscreveu. Altas horas na noite, um trautear insuportável apoderava-se dos seus sentidos e acordava enxaguado no seu suor dedilhando fervorosa e infinitamente de cabeça encostada à parede da cabeceira da cama aquela maldição que apanhou num concerto de Outono a que foi por acaso sem vontade. As suas notas, as notas dela, ela... onde estaria, volvidos cinquenta anos?... Como seria o seu rosto? Teriam as suas feições perfeitas sobrevivido, como a música terminada com a pressa de cinquenta anos, à fustigação do tempo? Um último suspiro solitário, silenciado, quando se sentava na cadeira de baloiço de vime, levou-o desta vida se, lhe permitir a esperança de uma resposta.

As sondagens

Não sei se o leitor já se terá apercebido do facto, mas quando Santana Lopes fala, o PS sobe nas sondagens ocorrendo inversamente o mesmo quando quando Sócrates fala, ou seja sobe o PSD. Um comentador político avisado diria sem hesitar que ganhará as próximas eleições legislativas o partido cujo líder souber permanecer mais tempo calado. Eis o novo pólo de interesse nas eleições que se avizinham. A consumir com moderação que o Carnaval está à porta e temos os três grandes empatados na liderança da Superliga Galp, logo há muito mais em que pensar nos próximos tempos .

Papéis errados

«Coimbra, 4 de Maio de 1966 - Parece castigo: ninguém neste país está no seu lugar. Todos, aqui, desempenhamos papéis errados, somos no palco paródias das personagens que encarnamos. O rábula faz de primeiro actor, o meirinho de juiz, o versejador de poeta. Um clima mórbido de interesses, de conivências, de irresponsabilidade e silêncio permite que cada aventureiro se aventure e consiga chegar além da sua medida. Daí a falta de respeito e a agressividade conhecidas contra os raros que ocupam a justa posição que lhes compete. São espelhos de má consciência que é necessário tirar da sala, custe o que custar. Só reflectidos nos olhos uns dos outros, os intrusos podem representar à vontade.»

Miguel Torga. «Diário X», 1ª edição, 1968.

domingo, janeiro 16, 2005

[Um cometa]

Sei que me amas
porque quando estamos juntos
não és capaz de dizer o meu nome em voz alta
com medo que as placas tectónicas possam deslocar-se
ou um cometa se despenhe
durante a noite
atraído pelo fulgor magnético
das nossas mãos
exasperadamente
jovens.

[Tudo, meu amor]

Lembro-me desse tempo em que dizias
«eu faço tudo por ti meu amor»
e eu pedia-te apenas que te suspendesses nas nuvens
ou que caminhasses vagarosamente sobre as águas
dos grandes lagos
da península.

sábado, janeiro 15, 2005

Uma história conhecida

Adormeces com o rumor do levante; o sobressaltado rumor do levante. No sonho, no pesadelo, o mar começa a erguer-se e uma sombra estende-se pelo areal, avança desamparada sobre o parque de estacionamento, sobre os terraços e os pátios do loteamento das dunas. Acordas quando parece que o mundo vai sucumbir a essa rumorosa sombra. Acendes a luz da mesinha de cabeceira e sorris: era apenas um sonho. Mas, de súbito, essa sombra sobe os degraus de casa e entra no quarto, ergue-te num vórtice, enreda-te no labirinto dos seus nomes. Acordas mais uma vez. Sorris de novo. Mas já não sabes se estás acordado ou se o sonho infinitamente te leva nas suas sucessivas vagas de silêncio.

sexta-feira, janeiro 14, 2005

Longe

como são longos os dias
longe
como se nunca existisse
a possibilidade de me reconciliar com o tempo
e a escuridão que envolve os meus passos
quando me afasto de ti
e viro costas ao futuro

que renego
porque não posso com a dor de viver

ano novo

não sei bem se é o ano
ou se sou eu

ramo de oliveira

vai mulher,
no ramo de oliveira que levas ao peito
esse onde poisará um pássaro
circula a minha seiva
e assinala o local onde poisarei
a minha cabeça quando tombar
e morrer

mãos de menina

só nas tuas mãos cabem
as coisas mais belas
que a vida tem

As mãos

As mãos que percorrem as velhas teclas do piano de cauda preto
e aquelas que percorrem o teu corpo são,
por incrível que pareça, as mesmas,
mas falta, à partitura do nosso amor,
a crença de que os nossos corações
podem marcar o compasso da vida

ao mesmo ritmo...


[«Põe quanto és no mínimo que fazes»]

o prisma de maré
oscila
de passarem as aves

[Não há regressos]

nenhum eco devolve a
sombra
de passarem as aves

quinta-feira, janeiro 13, 2005

[Nas marés]

as lágrimas e o amor
dividiam nas marés
o direito de passagem

Os trabalhos e os dias

Os homens batiam com os nós dos dedos nas câmaras de gelo
e não acontecia nada.
Os homens acendiam archotes, desviavam as águas dos rios, erguiam labaredas com as mãos acesas nos meses de novembro
e não acontecia nada.
Os homens montavam roldanas nos terraços
e não acontecia nada.
Os homens suspendiam as pedras de basalto no arame das vinhas
e não acontecia nada.

Os homens chegavam a casa e adormeciam e no dia seguinte
(muito cedo ainda)
batiam com os nós dos dedos nas câmaras de gelo.

quarta-feira, janeiro 12, 2005

[Todo o amor]

Preferia perder um carregamento de armas na fronteira
ou ser apanhado em escutas telefónicas com os juízes de círculo
do que faltares ao jantar de sábado à noite,
meu amor.
Preferia que o meu candidato fosse retirado das listas
ou que um crítico de arte descobrisse a minha contabilidade criativa
do que faltares ao jantar de sábado à noite.

Promontório

Este amanhecer
traz o abrandamento da fugaz sensação
de que não há palavras
nem cores
que aliviem o negrume
desta prisão
.
chega com
a ténue incerteza de que será o Sol
e a espuma das vagas
alterosas
que enfrentamos
apenas porque precisamos
de lhes sentir o vigor da dor
para tudo ultrapassarmos
.
será isso, e mais nada?
que nos permitirá retornar à vida
se [vida] houver
depois da tempestade
que se afasta
.
Será isto,
mesmo que tudo assim visto
e simultanemanente
nada
pareça fazer sentido
aos olhos de quem
presencia com dor
exasperada
o desencadear da fúria dos elementos
a água a zurzir a rocha
no promontório

[A manhã desperta]

Um rasto de lume desce para o vale
aproximando-se enfim dos pátios
e das propriedades com as linhas do cadastro.
Depois do sono e das vorazes sombras
a manhã desperta com seus olhos de
criança cega, equilibra-se mal nos muros
ainda molhados, enreda-se nas
luminosas teias apertadas. É um som
recorrente, este da manhã crescendo,
e estreito como um fio que alguém puxa
das varandas altas. O mundo inteiro
pode agora começar de frente
atravessando os corações adormecidos,
quase jovens, das mulheres de luto.

Uma vogal

«Sonhei com o nascimento de uma vogal em pleno centro da palavra. O rumor estranho de músicas interiores dirigia-me os lábios com que a pronunciei, internando-me na margem do pronome; e, procurando-me uma luminosa abertura na escura concha da frase, cheguei ao fundo da essencial visão. Um louvor de canto subtraía o sentido à sonolenta inquietação da figura. Remota, quase morta, exalava uma sugestão de ritos verbais. Corpo pousado na arena da língua - insecto vago.»

Nuno Júdice, in A Manta Religiosa. Contexto, 1982.

terça-feira, janeiro 11, 2005

Um livro

Uma jovem desapareceu nas imediações de Tavira no comboio que saiu de Faro ao fim da tarde a caminho de Vila Real de Santo António no dia 22 de Dezembro de 2004. O revisor (que permanece internado no Hospital Distrital num estado de apatia interrompido por momentos duma perturbante lucidez) garante que ela segurava na mão esquerda um livro de Constantino Paustovsky, de capa cor de laranja, intitulado «Chuva na Madrugada»; que a jovem desapareceu no instante preciso em que ele lhe devolvia o bilhete e lhe desejava boa viagem; e que nesse instante preciso é como se o sol, a sua luz imensa, se tivesse despenhado na Ria Formosa enquanto uma súbita labareda muito azul se desprendia da ligeira ondulação das suas águas.

segunda-feira, janeiro 10, 2005

Indiferentes

O funcionário da Câmara encosta o escadote à parede e sobe ao telhado. No recreio, indiferentes, as crianças jogam à bola, correm, dão cambalhotas num aparelho de ginástica. Na rua, indiferentes, as pessoas passam, apressadas, puxando as golas do casaco contra o frio de Janeiro. Só eu páro por instantes. Só eu fico a olhar. Com a estranha sensação de que não há mais ninguém na cidade, no mundo, que se comova enquanto se procede à desmontagem do Pai Natal insuflável do telhado do Infantário.

sábado, janeiro 08, 2005

[O Inverno]

[em Olhão, com outros endereços]

1.
ao fim da tarde
as sombras da ilha
desenham o voo das aves
nas águas da ria

2.
os amigos nunca se despedem
afastam-se por um instante
e olham o mar

3.
mais que o vento
ou as sucessivas águas do inverno
eu temia
o silêncio

4.
as marés e a juventude
mudam de nome
de seis em seis horas

5.
entre a cal e as palavras
há duas sílabas
de água

[A casa]

É uma porta de madeira muito alta
e estreita. Um patamar, depois, e o
lanço dos degraus levando à segunda
porta, com dois vidros, esta, diluindo

em vagas sombras móveis e objectos
do interior. São muitos agora os vidros das
janelas amplas que, dum lado, do outro
a parede com pequenos vasos e reproduções

antigas, os esposos arnolfini, a
anunciação de simone di martino, acompanham
à antecâmara o corredor quebrado em

ângulo recto a meio do percurso. A última
porta, mais larga e mais baixa, abre
para o espaço de penumbra da sala.

[A casa, 2]

Da janela vê-se ao fundo a bruma que
levanta, os primeiros nomes do mundo oscilam
pelos muros altos, não tarda sobre as águas
a calhandra, o fósforo da pedra à luz

caiada da manhã. Raparigas passarão
descalças na linha da margem com maçãs e
nozes, cântaros castanhos à cabeça, rosas
que os cabelos não seguram muito tempo.

O dia claro inunda como um sopro as folhas
do negrilho antigo, mistura os seus
declives ao odor dos púcaros suspensos

da parede: melancólico dia sem outros fios
que os de prender o caminho à casa e
ao silêncio do corpo quebrado nas horas tardias.

quinta-feira, janeiro 06, 2005

Presságio

Vidas turvadas de silêncio
confundido com mentira e engano
estremecente, dor extrema
emudecida a cada instante
como se calar fosse
o único sinónimo de vida
e a fraca luz do fim do dia
levemente confundida
com fonte de mau presságio
sinfonia de esquecimento
.
cheiro de morte


Quase em flor

Em Janeiro a luz começa a preparar os seus nomes nas raízes das amendoeiras.

Dia de Reis

Sim, a saúde e o amor. Mas também, se nos permitem, a riqueza. A prosperidade. Por isso mesmo, hoje, 6 de Janeiro, haveremos todos de comer uma romã.

quarta-feira, janeiro 05, 2005

Parentesis de vida

...sujeito-me ao tempo em que me revoltei
para alvejar as vagas
e devastar a Terra...

(reflexo de uma ideia interrompida por um maremoto)

terça-feira, janeiro 04, 2005

Solidão

Abre essa gaveta
que vês na vizinhança do meu coração
onde guardo o azul do oceano, a lisura
a amargura
e também os amores, a morte,
a apoteose, o desnorte
e a sorte
que canto
porque a solidão não é vocação
única dos poetas.

segunda-feira, janeiro 03, 2005

Alegoria breve

Oh, como é bom de ver a polícia de intervenção e as brigadas de limpeza de resíduos urbanos, a eficácia de uns e outros, o turismo pode estar descansado. E é bom, é um descanso, saber que todos os vidros durante a noite amontoados em tapete nos passeios e nas esplanadas, e as garrafas de cerveja, e os plásticos, e as latas, e o vomitado, e os ramos partidos das árvores, e os guardanapos besuntados de mostarda, e o papelão, saber que tudo isso é removido com eficácia logo a meio da manhã do dia seguinte. E saber que a pancadaria é desincentivada e se vai fazendo o que se pode a poder de cassetete e ostensiva presença das fardas azuis, e que só não se desincentivam a baba escorrendo e os esgares acéfalos porque, certamente, não constam das especificações dos cadernos de encargos. A polícia de intervenção e as brigadas de limpeza de lixo garantem que o sistema é sustentável, que está para lavar e durar, e que as hordas, depois do ano novo, podem já deixar debaixo de olho o apartamentozinho para uma oportunidade próxima (um feriado em Abril, a Páscoa, o Agosto) e comprar o pacote.

2005

1, 2, 3, atenção, atenção, 1, 2, 3, alô, experiência...

domingo, janeiro 02, 2005

Cinzas II

houve no ar gelado da noite
um brilho de estrela
passos de pluma

irromperam e silenciaram
o negrume do fado
no bréu repicaram os sinos

a uma pequena princesinha
à qual se desejou

uma vida repleta
das mais vivas cores
.
as heroínas
que a arrancaram às
cinzas

plágio de O Livro das Princesas

Palavras...

Regresso ainda, por uma noite só, para te dizer que aqui estou, de nariz colado ao vidro espesso, indiferente ao frio interior que me gela. Nada explica a minha ausência, nem o meu silêncio, senão o meu próprio vazio existencial interior, o apagão das palavras, o afogamento das sílabas no meu próprio aniquilamento. Bem sei que não entenderás isto, nem eu to saberei explicar, mas por ora basta-me saber-te no final esotérico de cada suspiro meu, porque mais não te poderia pedir, muito menos desejar; são coisas para além das minhas forças. Algo há que gostaria de te dizer, mas sei intimamente que nunca encontrarei as palavras certas, porque até a mim me falham...