terça-feira, janeiro 25, 2005

Um Pouco Mais de Sul
Não podendo falar para toda a Terra direi um segredo a um só ouvido
.
O insólito aconteceu. Tinhamos pensado em reservar o anúncio da novidade para o próximo dia 1 de Abril, mas fomos coagidos a fazê-lo de imediato após a queda do Governo (razão por que não se insere um "link" para este órgão). Sim, desta vez é mesmo a sério, Um Pouco Mais de Sul depurou os "links" inexistentes, acrescentou outros (sem preconceitos discriminatórios de qualquer espécie e para confirmar isso até manteve o atalho para o Gato Fedorento sem que fosse paga qualquer comissão pela promoção gratuita), alterou RADICALMENTE o arranjo da página como o leitor facilamente notará e até dispõe de email. Fica a promessa de que havemos de tentar fazer novamente obras, embora mais comedidas, dentro dos próximos dez anos.

Férias

Preciso de férias, urgentemente. Se o leitor precisar que eu vá levar umas coisitas ali a São Tomé, disponha...

Darkless


[Darkless, 2004]


Darkness


[Darkness, 2005]

o anticiclone

[Um feroz combate de cores]

No absurdo
do mais duro momento
não podes ceder ao cinzento;
o anticiclone aparta-te
da borrasca, do mau tempo

e devolve-te o mundo.

segunda-feira, janeiro 24, 2005

mescla de cores

se fosse fácil
se os teus azuis mesclassem os meus cinzentos
e os fizessem viver
e assim também os teus rosas
o teu sangue
e o teu verde satinado

se fosse fácil
mais valia não nos termos encontrado

sexta-feira, janeiro 21, 2005

Neve

cai a neve.
minto. Mas
se de novo me perguntasses,
ainda assim juraria

pela flor da Amendoeira

Os dias conto, nem sei

Os dias conto
e assim cada hora
cada momento
que faltam para cresceres
a meu lado.

A névoa que se dissipa
no teu, no nosso
caminho ladeado de fetos
atenua-me o castigo
entre o voo dos insectos

e torna os graves tormentos
do trajecto acidentado
em ternos momentos
de espera e sossego
onde se dissipa o isolamento.

Alma

Sinto a tua ausência
como um arpão espetado na carne
e a incerteza do teu sentir
congela-me a alma

Como te saberei trasnsmitir a certeza
que não consigo viver sem ti
[e apenas me move o que és]?

...mas até sempre!

Caro JCB,

Repetindo aquilo que já aqui disse noutra ocasião, é sempre triste uma partida, ainda que essa partida seja apenas um até à vista. Entendo que Um Pouco Mais de Sul não me fica entregue, mas sim a todos com quem aqui nos encontrámos, encontramos e encontraremos num passado, num presente e num futuro mais ou menos próximos. O esforço da escrita cansa e por vezes desmotiva, excepto quando a escrita se torna numa paixão ou, ao invés, numa catarse, numa necessidade pessoal em que deixa de importar quem lê mas tão somente quem escreve. Já aconteceu e não será a última vez, tenho disso a certeza.
Por outro lado, a certeza de um reencontro a breve trecho, aqui ou num qualquer outro lugar é o que dá alguma alegria às despedidas mesmo àquelas que ainda que só esperançadamente sejam apenas provisórias.
O "Sul" continua sem prazo de vida definido, assim a inspiração ou outra força qualquer me permita ir continuando.
Por ora, tendo sido um prazer e uma honra partilhar esta página contigo, parafraseando o Raúl Solnado, faz o favor de ser feliz. Até à vista e até sempre nesta página que é tua.

Eurico

Não é propriamente uma despedida

O Eurico continuará por aqui: umpoucomaisdesul fica bem entregue. E terá em mim o primeiro dos seus leitores.

Pela minha parte - até um destes dias. Até sempre. Um abraço.

José Carlos Barros

quarta-feira, janeiro 19, 2005

de ea para a menina do mar II

Já não me lembro dos seus olhos,
do sorriso de maré
ou do cabelo escorrido
mas nunca esquecerei
por maior que seja o tempo com que a vida me amaldiçoe
da luz nas suas tristes asas

in diálogos de um ouriço e
de uma menina piratinha, 2005

de ea para a menina do mar

[...]
Tinha como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.
[...]

(excerto de "Os Amantes sem Dinheiro", de
Eugénio Andrade para Sophia de Mello Breyner Andresen)

Sê paciente; espera

Sê paciente;
espera que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça

Eugénio de ANDRADE
(evocação no seu octagésimo segundo aniversário)

terça-feira, janeiro 18, 2005

Partitura inacabada

Trémulo, desenhou o último símbolo na partitura. Nem precisou de dedilhar as notas no teclado marfim e ébano, tal a certeza que tinha no acerto da melodia. Reviu uma vez mais mentalmente o dedilhar dos dedos nas teclas e, sem um estremecimento de comoção, fechou a tampa do teclado do piano preto em que há muito não tocava. Detestaria para sempre aquela música, mas no entanto tinha de a ter escrito para dela se libertar; havia muito lhe não saíam da cabeças aquelas notas malditas, a sequência que mil vezes proscreveu. Altas horas na noite, um trautear insuportável apoderava-se dos seus sentidos e acordava enxaguado no seu suor dedilhando fervorosa e infinitamente de cabeça encostada à parede da cabeceira da cama aquela maldição que apanhou num concerto de Outono a que foi por acaso sem vontade. As suas notas, as notas dela, ela... onde estaria, volvidos cinquenta anos?... Como seria o seu rosto? Teriam as suas feições perfeitas sobrevivido, como a música terminada com a pressa de cinquenta anos, à fustigação do tempo? Um último suspiro solitário, silenciado, quando se sentava na cadeira de baloiço de vime, levou-o desta vida se, lhe permitir a esperança de uma resposta.

As sondagens

Não sei se o leitor já se terá apercebido do facto, mas quando Santana Lopes fala, o PS sobe nas sondagens ocorrendo inversamente o mesmo quando quando Sócrates fala, ou seja sobe o PSD. Um comentador político avisado diria sem hesitar que ganhará as próximas eleições legislativas o partido cujo líder souber permanecer mais tempo calado. Eis o novo pólo de interesse nas eleições que se avizinham. A consumir com moderação que o Carnaval está à porta e temos os três grandes empatados na liderança da Superliga Galp, logo há muito mais em que pensar nos próximos tempos .

Papéis errados

«Coimbra, 4 de Maio de 1966 - Parece castigo: ninguém neste país está no seu lugar. Todos, aqui, desempenhamos papéis errados, somos no palco paródias das personagens que encarnamos. O rábula faz de primeiro actor, o meirinho de juiz, o versejador de poeta. Um clima mórbido de interesses, de conivências, de irresponsabilidade e silêncio permite que cada aventureiro se aventure e consiga chegar além da sua medida. Daí a falta de respeito e a agressividade conhecidas contra os raros que ocupam a justa posição que lhes compete. São espelhos de má consciência que é necessário tirar da sala, custe o que custar. Só reflectidos nos olhos uns dos outros, os intrusos podem representar à vontade.»

Miguel Torga. «Diário X», 1ª edição, 1968.

domingo, janeiro 16, 2005

[Um cometa]

Sei que me amas
porque quando estamos juntos
não és capaz de dizer o meu nome em voz alta
com medo que as placas tectónicas possam deslocar-se
ou um cometa se despenhe
durante a noite
atraído pelo fulgor magnético
das nossas mãos
exasperadamente
jovens.

[Tudo, meu amor]

Lembro-me desse tempo em que dizias
«eu faço tudo por ti meu amor»
e eu pedia-te apenas que te suspendesses nas nuvens
ou que caminhasses vagarosamente sobre as águas
dos grandes lagos
da península.

sábado, janeiro 15, 2005

Uma história conhecida

Adormeces com o rumor do levante; o sobressaltado rumor do levante. No sonho, no pesadelo, o mar começa a erguer-se e uma sombra estende-se pelo areal, avança desamparada sobre o parque de estacionamento, sobre os terraços e os pátios do loteamento das dunas. Acordas quando parece que o mundo vai sucumbir a essa rumorosa sombra. Acendes a luz da mesinha de cabeceira e sorris: era apenas um sonho. Mas, de súbito, essa sombra sobe os degraus de casa e entra no quarto, ergue-te num vórtice, enreda-te no labirinto dos seus nomes. Acordas mais uma vez. Sorris de novo. Mas já não sabes se estás acordado ou se o sonho infinitamente te leva nas suas sucessivas vagas de silêncio.

sexta-feira, janeiro 14, 2005

Longe

como são longos os dias
longe
como se nunca existisse
a possibilidade de me reconciliar com o tempo
e a escuridão que envolve os meus passos
quando me afasto de ti
e viro costas ao futuro

que renego
porque não posso com a dor de viver

ano novo

não sei bem se é o ano
ou se sou eu

ramo de oliveira

vai mulher,
no ramo de oliveira que levas ao peito
esse onde poisará um pássaro
circula a minha seiva
e assinala o local onde poisarei
a minha cabeça quando tombar
e morrer

mãos de menina

só nas tuas mãos cabem
as coisas mais belas
que a vida tem

As mãos

As mãos que percorrem as velhas teclas do piano de cauda preto
e aquelas que percorrem o teu corpo são,
por incrível que pareça, as mesmas,
mas falta, à partitura do nosso amor,
a crença de que os nossos corações
podem marcar o compasso da vida

ao mesmo ritmo...


[«Põe quanto és no mínimo que fazes»]

o prisma de maré
oscila
de passarem as aves

[Não há regressos]

nenhum eco devolve a
sombra
de passarem as aves

quinta-feira, janeiro 13, 2005

[Nas marés]

as lágrimas e o amor
dividiam nas marés
o direito de passagem

Os trabalhos e os dias

Os homens batiam com os nós dos dedos nas câmaras de gelo
e não acontecia nada.
Os homens acendiam archotes, desviavam as águas dos rios, erguiam labaredas com as mãos acesas nos meses de novembro
e não acontecia nada.
Os homens montavam roldanas nos terraços
e não acontecia nada.
Os homens suspendiam as pedras de basalto no arame das vinhas
e não acontecia nada.

Os homens chegavam a casa e adormeciam e no dia seguinte
(muito cedo ainda)
batiam com os nós dos dedos nas câmaras de gelo.

quarta-feira, janeiro 12, 2005

[Todo o amor]

Preferia perder um carregamento de armas na fronteira
ou ser apanhado em escutas telefónicas com os juízes de círculo
do que faltares ao jantar de sábado à noite,
meu amor.
Preferia que o meu candidato fosse retirado das listas
ou que um crítico de arte descobrisse a minha contabilidade criativa
do que faltares ao jantar de sábado à noite.

Promontório

Este amanhecer
traz o abrandamento da fugaz sensação
de que não há palavras
nem cores
que aliviem o negrume
desta prisão
.
chega com
a ténue incerteza de que será o Sol
e a espuma das vagas
alterosas
que enfrentamos
apenas porque precisamos
de lhes sentir o vigor da dor
para tudo ultrapassarmos
.
será isso, e mais nada?
que nos permitirá retornar à vida
se [vida] houver
depois da tempestade
que se afasta
.
Será isto,
mesmo que tudo assim visto
e simultanemanente
nada
pareça fazer sentido
aos olhos de quem
presencia com dor
exasperada
o desencadear da fúria dos elementos
a água a zurzir a rocha
no promontório

[A manhã desperta]

Um rasto de lume desce para o vale
aproximando-se enfim dos pátios
e das propriedades com as linhas do cadastro.
Depois do sono e das vorazes sombras
a manhã desperta com seus olhos de
criança cega, equilibra-se mal nos muros
ainda molhados, enreda-se nas
luminosas teias apertadas. É um som
recorrente, este da manhã crescendo,
e estreito como um fio que alguém puxa
das varandas altas. O mundo inteiro
pode agora começar de frente
atravessando os corações adormecidos,
quase jovens, das mulheres de luto.

Uma vogal

«Sonhei com o nascimento de uma vogal em pleno centro da palavra. O rumor estranho de músicas interiores dirigia-me os lábios com que a pronunciei, internando-me na margem do pronome; e, procurando-me uma luminosa abertura na escura concha da frase, cheguei ao fundo da essencial visão. Um louvor de canto subtraía o sentido à sonolenta inquietação da figura. Remota, quase morta, exalava uma sugestão de ritos verbais. Corpo pousado na arena da língua - insecto vago.»

Nuno Júdice, in A Manta Religiosa. Contexto, 1982.

terça-feira, janeiro 11, 2005

Um livro

Uma jovem desapareceu nas imediações de Tavira no comboio que saiu de Faro ao fim da tarde a caminho de Vila Real de Santo António no dia 22 de Dezembro de 2004. O revisor (que permanece internado no Hospital Distrital num estado de apatia interrompido por momentos duma perturbante lucidez) garante que ela segurava na mão esquerda um livro de Constantino Paustovsky, de capa cor de laranja, intitulado «Chuva na Madrugada»; que a jovem desapareceu no instante preciso em que ele lhe devolvia o bilhete e lhe desejava boa viagem; e que nesse instante preciso é como se o sol, a sua luz imensa, se tivesse despenhado na Ria Formosa enquanto uma súbita labareda muito azul se desprendia da ligeira ondulação das suas águas.

segunda-feira, janeiro 10, 2005

Indiferentes

O funcionário da Câmara encosta o escadote à parede e sobe ao telhado. No recreio, indiferentes, as crianças jogam à bola, correm, dão cambalhotas num aparelho de ginástica. Na rua, indiferentes, as pessoas passam, apressadas, puxando as golas do casaco contra o frio de Janeiro. Só eu páro por instantes. Só eu fico a olhar. Com a estranha sensação de que não há mais ninguém na cidade, no mundo, que se comova enquanto se procede à desmontagem do Pai Natal insuflável do telhado do Infantário.

sábado, janeiro 08, 2005

[O Inverno]

[em Olhão, com outros endereços]

1.
ao fim da tarde
as sombras da ilha
desenham o voo das aves
nas águas da ria

2.
os amigos nunca se despedem
afastam-se por um instante
e olham o mar

3.
mais que o vento
ou as sucessivas águas do inverno
eu temia
o silêncio

4.
as marés e a juventude
mudam de nome
de seis em seis horas

5.
entre a cal e as palavras
há duas sílabas
de água

[A casa]

É uma porta de madeira muito alta
e estreita. Um patamar, depois, e o
lanço dos degraus levando à segunda
porta, com dois vidros, esta, diluindo

em vagas sombras móveis e objectos
do interior. São muitos agora os vidros das
janelas amplas que, dum lado, do outro
a parede com pequenos vasos e reproduções

antigas, os esposos arnolfini, a
anunciação de simone di martino, acompanham
à antecâmara o corredor quebrado em

ângulo recto a meio do percurso. A última
porta, mais larga e mais baixa, abre
para o espaço de penumbra da sala.

[A casa, 2]

Da janela vê-se ao fundo a bruma que
levanta, os primeiros nomes do mundo oscilam
pelos muros altos, não tarda sobre as águas
a calhandra, o fósforo da pedra à luz

caiada da manhã. Raparigas passarão
descalças na linha da margem com maçãs e
nozes, cântaros castanhos à cabeça, rosas
que os cabelos não seguram muito tempo.

O dia claro inunda como um sopro as folhas
do negrilho antigo, mistura os seus
declives ao odor dos púcaros suspensos

da parede: melancólico dia sem outros fios
que os de prender o caminho à casa e
ao silêncio do corpo quebrado nas horas tardias.

quinta-feira, janeiro 06, 2005

Presságio

Vidas turvadas de silêncio
confundido com mentira e engano
estremecente, dor extrema
emudecida a cada instante
como se calar fosse
o único sinónimo de vida
e a fraca luz do fim do dia
levemente confundida
com fonte de mau presságio
sinfonia de esquecimento
.
cheiro de morte


Quase em flor

Em Janeiro a luz começa a preparar os seus nomes nas raízes das amendoeiras.

Dia de Reis

Sim, a saúde e o amor. Mas também, se nos permitem, a riqueza. A prosperidade. Por isso mesmo, hoje, 6 de Janeiro, haveremos todos de comer uma romã.

quarta-feira, janeiro 05, 2005

Parentesis de vida

...sujeito-me ao tempo em que me revoltei
para alvejar as vagas
e devastar a Terra...

(reflexo de uma ideia interrompida por um maremoto)

terça-feira, janeiro 04, 2005

Solidão

Abre essa gaveta
que vês na vizinhança do meu coração
onde guardo o azul do oceano, a lisura
a amargura
e também os amores, a morte,
a apoteose, o desnorte
e a sorte
que canto
porque a solidão não é vocação
única dos poetas.

segunda-feira, janeiro 03, 2005

Alegoria breve

Oh, como é bom de ver a polícia de intervenção e as brigadas de limpeza de resíduos urbanos, a eficácia de uns e outros, o turismo pode estar descansado. E é bom, é um descanso, saber que todos os vidros durante a noite amontoados em tapete nos passeios e nas esplanadas, e as garrafas de cerveja, e os plásticos, e as latas, e o vomitado, e os ramos partidos das árvores, e os guardanapos besuntados de mostarda, e o papelão, saber que tudo isso é removido com eficácia logo a meio da manhã do dia seguinte. E saber que a pancadaria é desincentivada e se vai fazendo o que se pode a poder de cassetete e ostensiva presença das fardas azuis, e que só não se desincentivam a baba escorrendo e os esgares acéfalos porque, certamente, não constam das especificações dos cadernos de encargos. A polícia de intervenção e as brigadas de limpeza de lixo garantem que o sistema é sustentável, que está para lavar e durar, e que as hordas, depois do ano novo, podem já deixar debaixo de olho o apartamentozinho para uma oportunidade próxima (um feriado em Abril, a Páscoa, o Agosto) e comprar o pacote.

2005

1, 2, 3, atenção, atenção, 1, 2, 3, alô, experiência...

domingo, janeiro 02, 2005

Cinzas II

houve no ar gelado da noite
um brilho de estrela
passos de pluma

irromperam e silenciaram
o negrume do fado
no bréu repicaram os sinos

a uma pequena princesinha
à qual se desejou

uma vida repleta
das mais vivas cores
.
as heroínas
que a arrancaram às
cinzas

plágio de O Livro das Princesas

Palavras...

Regresso ainda, por uma noite só, para te dizer que aqui estou, de nariz colado ao vidro espesso, indiferente ao frio interior que me gela. Nada explica a minha ausência, nem o meu silêncio, senão o meu próprio vazio existencial interior, o apagão das palavras, o afogamento das sílabas no meu próprio aniquilamento. Bem sei que não entenderás isto, nem eu to saberei explicar, mas por ora basta-me saber-te no final esotérico de cada suspiro meu, porque mais não te poderia pedir, muito menos desejar; são coisas para além das minhas forças. Algo há que gostaria de te dizer, mas sei intimamente que nunca encontrarei as palavras certas, porque até a mim me falham...

quinta-feira, dezembro 30, 2004

Ainda o velho poema islandês

Como ameaçado ontem, eis-nos com mais uma versão do velho poema islandês (ver post anterior). Trata-se, como seria de esperar, duma versão muito diferente, de entre um conjunto quase infinito de versões possíveis. Servimo-nos, em ambos os casos, de traduções inglesas encontradas aqui e aqui. Não desconhecemos a lição de Jorge Luis Borges sobre as kenningar (v. Obras Completas, Vol. I, pp. 381-395, ed. Teorema) - essas excessivas metáforas, ou «menções enigmáticas» que, no fundo, constituem «o primeiro deliberado gozo verbal de uma literatura instintiva». Nesta nova versão algumas kenningar estão mais à vista: uma delas, inclusivamente, aparece textualmente no índice de Borges incluído na História da Eternidade (op. cit.): «lume do mar», como metáfora de ouro. Não resistimos a uma rima final nem a dois falsos decassílabos nos antepenúltimo e último versos.


O ouro
é o fogo no mar,
o rasto da serpente,
a fonte da discórdia
entre os irmãos de sangue.
O aguaceiro
é o choro das nuvens,
a ruína das colheitas,
o flagelo do pastor.
O Gigante
que habita os penhascos,
amante da Deusa ignóbil,
é o tormento das mulheres.
Odhinn,
o mais velho dos pais
e príncipe de Asgard,
é o Senhor de Vallhalla.
Cavalgar
na célere jornada
é a alegria dos cavaleiros,
o esforço da montada.


[versão de J. C. Barros e Alexandre Domingues]

quarta-feira, dezembro 29, 2004

Fé er frænda róg ok flæðar viti

O Francisco deixou-nos aqui um poema em islandês antigo. E desapareceu. Claro que já começaram as reclamações... Bem: como se trata de um texto belíssimo, e enquanto as prometidas traduções não chegam, permitimo-nos cometer uma versão (muito livre, claro) do poema em causa (aliás: do fragmento, pois o que o Francisco nos deixou foi uma pequena parte dum poema bastante mais extenso). E como uma desgraça nunca vem só - amanhã faremos questão de trazer aqui uma nova versão deste belíssimo texto...

A riqueza
é o relâmpago na água
e o caminho da serpente,
a fonte da discórdia
entre os que se amam.
O aguaceiro
é o choro das nuvens:
dispersa os rebanhos
e arruina os celeiros
onde se guardam os fenos.
O Gigante
atormenta as mulheres
e o espírito dos declives:
a sua ira dirige-se aos seguidores
do Deus das sementeiras.
Mas
a presença poderosa de Odhinn
protege as colheitas: é ele
o Senhor da vastidão.
E cavalgar
é então a alegria dos homens
que fazem a jornada
mais céleres que o vento
a caminho dos campos.


[versão de José Carlos Barros]

[as nascentes]

Entre as árvores de julho e a sua sombra
entre os nenúfares e a torrente irrepetível do inverno de 1996
entre o céu e o mar nas manhãs onde o crepúsculo ousa regressar
à procura das últimas vozes
entre a cegueira e a obscuridade das páginas dos livros de poemas -
procuro-te como quem adormece com medo das aves

Depois do equinócio e das marcas da água no areal deserto
depois do silêncio demolidor das folhas do salgueiro
quando regressas de longe a uma pátria que não reconheces
depois da aluvião e da estranha abundância das bagas vermelhas
nas veredas iluminadas pela memória dos teus nomes
depois da tristeza dos campos lavrados do outro lado do vale
depois da rendição e da luz abandonada nos pátios
depois do amor -
procuro-te como quem sobe às nascentes com medo da água

terça-feira, dezembro 28, 2004

Natal

Um poema de Natal? Com aquele espírito da quadra, a neve, os pinheirinhos e tudo? Muito bem: podem lê-lo aqui, tirado daqui. (Os outros, só para quem comprar «os primeiros anos»...)

segunda-feira, dezembro 27, 2004

Personagem

Chamo-me Luísa. Sou uma personagem de ficção. Devem conhecer-me, pelo menos, do Primo Basílio. Mas sou também a drª Luísa Fragoso duma novela reles do Manuel Arouca, a Maria Luísa dum romance notável e esquecido de José Lins do Rego, a mulher do conto do Onésimo que saiu dos Açores na ilusão de que é possível fugir ao destino que o acaso nos ditou, a personagem obscura ou exaltante de um outro livro cujas páginas nunca te será dado leres. Já fui concubina e princesa, criada de servir, engenheira electrotécnica, assalariada rural no Alentejo. Já vivi no Iémen, numa cidadezinha da Bretanha rodeada por um bosque, em Angra do Heroísmo, em Portimão. Já fiz de tudo. Só nunca fiz de mim mesma. E por isso nunca soube o que era (de facto) acordar ou sentir o cheiro da terra molhada, ter frio, ter medo, amar, ser feliz. É verdade que já caminhei sobre o fogo, que já morri, que já ressuscitei, que já fui condenada ao degredo, que já conheci a glória, que já traí, que já dormi no deserto, que já fui heroína numa batalha em que os guerreiros mais corajosos acabaram por desertar. Mas fui sempre, senti sempre, por interposta pessoa. Por isso chego a pensar que trocaria tudo, sei lá, por um instante em que pudesse (de facto) sentir. Podia ser a dor, tudo bem. A dor que me trouxesse as lágrimas mais concretas. E que essas lágrimas me corressem na cara, sim, mesmo que então me descobrisse a mais desgraçada das mulheres à face da terra.

[EDP]

escrevo-te de novo à luz das velas
e por um instante temo que o nosso amor
não sobreviva a
uma falta de corrente

[Literatura]

O nosso amor, que deve tanto aos livros,
quantas vezes foi mais que um decassílabo?

sexta-feira, dezembro 24, 2004

Fado

Eu quando for grande queria ter assim no sapatinho uma «base política sólida»: 0.23% mais 0.28%. Ou seja: 0% se os manos Câmara Pereira subirem aos palcos.

quinta-feira, dezembro 23, 2004

Auto-estima

Os grandes eventos regressam ao Estádio do Algarve. O Farense e o Beira-Mar de Monte Gordo, no fim de semana passado, entraram em campo no Parque das Cidades não apenas para cumprir mais uma jornada da terceira divisão: também para calar os críticos, as carpideiras, os arautos da desgraça. O jogo foi movimentado, teve o colorido dos grandes eventos, dos grandes e decisivos acontecimentos. E teve golos: Vallone, Constantino, Pintassilgo e Chiquinho não fizeram a coisa por menos. Calem-se, pois, os críticos, as carpideiras, os arautos da desgraça: os grandes eventos regressam ao Estádio do Algarve; o estádio do Europeu aí está de novo, ao serviço da auto-estima, da Região e da Pátria.

terça-feira, dezembro 21, 2004

[Do mundo]

A cidreira adormecida numa cesta, a única, de quatro varas. Desse tempo. Tudo quanto eu conhecia do mundo e de mim.

segunda-feira, dezembro 20, 2004

[O ladrar dos cães]

O ladrar nos cães no meio da noite a caminho do largo. O cântaro na fonte, o bolso da camisa, a esferovite leve do inverno. A eternidade, quase.

Um mail recebido ontem

Vais-me desculpar: um poemazinho ou outro, lá de quando em vez, tudo bem. Mas isto começa a ser insuportável... Tantas coisas a acontecer em Portugal e no mundo, tantas coisas decisivas, fundamentais - e tu a dar-lhe com «os pássaros do outono», «as mãos das mulheres a mexer indiferentes na água fresca dos púcaros», «o silêncio das manhãs crescendo no interior dos retratos antigos»... Desculpa, mas não há pachorra... Não saberás que o sr. Jorge Nuno prepara a candidatura à Câmara do Porto, que Ianukovitch vai à TV expôr os seus argumentos, que a Câmara de Valongo entregou dezenas de diplomas aos frequentadores da acção de formação em Gestão de Tempo e Funções Parentais, que os trabalhadores do casino Estoril continuam em greve, que Santana e Portas assinaram um contrato de não-agressão, que o Benfica regressou às vitórias, que a Grande Área Metropolitana do Algarve abriu um concurso público de concepção do Hino do Algarve, que Sócrates anuncia o regresso da co-incineração, que o presidente da Câmara de Coimbra se manifestou preocupado com o retrocesso, que Bush foi considerado pela Time a personalidade do ano, que afinal os jipes não vão ter descontos nas portagens, que o primeiro ministro garante que não muda de opinião todos os meses? Por favor: regressa ao mundo, Zé Carlos. Dá-nos um sinal do teu regresso e deixa-te de merdas tipo a «ondulação dum sopro repetindo as mãos em cada sílaba» ou o diabo a quatro...

Um abraço, e as melhoras.

domingo, dezembro 19, 2004

[A noite]

Subir os degraus de casa tão devagar que a noite adormeça de pasmo as suas quatro luas.

sábado, dezembro 18, 2004

[Tarde]

A inúmera voz do amor autógrafa na tarde. A gravidade dos teus gestos demorando pura o peso do desejo leve sobre os ombros.

[A sombra]

Para dormir eu peço a paz das tuas mãos. Hábil a sombra desenha os pássaros do outono nos telhados vazios da cidade.

[A paixão]

A violência do encontro e da partida. A sede e o imprevisto, nomes e palavras sem retorno. A paixão e a tragédia, uns lábios claros.

sexta-feira, dezembro 17, 2004

[Nas casas]

Nas casas da encosta findavam pelo fim da manhã
os trabalhos domésticos. O calor poisava
nos armários e nas mesas como se tudo
fosse arder por dentro à visita inesperada
e pendular dum corpo que regressa
para impor no estio a ordem da paixão.
Recordas o rumor no degrau de cima
da escaleira do relógio velho, o esvoaçar
das moscas contra os vidros, um grito
pretérito que descia do cume dos incêndios
a pedir a deus um copo de água ou
uma lâmina nos pulsos. Como tudo
passa e tudo esquece à aproximação da primeira
sombra do freixo na margem do rio, recordas
ainda. Um freixo ou um corpo que retomem
a respiração dos primeiros dias do mundo,
os trabalhos domésticos contra o calor
da tarde, as mãos das mulheres a mexer
indiferentes na água fresca dos púcaros.

quinta-feira, dezembro 16, 2004

[A perfeição]

Eis a perfeição aos nomes só entregue. O verde duma árvore, o rumor da boca, o só vibrante começar do amor. O brilho da manhã poisando no infindável movimento das palavras.

[A terra]

Nada mais denso. A terra projectando a sombra no infinito do olhar. A súbita eclosão das vozes múltiplas do amor.

[O lume]

O lume, a flor da cal. O estranho movimento dos sentidos.

[Sem nome]

Desamparado o fluir das frases, o abandono fulvo das palavras, o silêncio das manhãs crescendo no interior dos retratos antigos. Sem nome é o dia de que falamos nas suas margens perfeitas.

[Migração]

Clandestina quase a migração das aves, é o que regressa às tuas mãos. O rumor de abril.

[A ondulação]

A ondulação dum sopro repetindo as mãos em cada sílaba. Obscuro ardendo no interior da morte o próprio lume liso da memória.

[Um grito]

Um grito em vez do círculo das águas. A memória dum sopro de líquen sobre o ar da pele. A perfumada prometida carta que não chega nunca.

terça-feira, dezembro 14, 2004

O primeiro dia em que se despiu

Uma nuvem de gases e poeira levanta-se na rua, não tarda que poise nos móveis da sala, no chão encerado do átrio, na mobília dos quartos do primeiro andar. Dona Fernanda vem à janela, o doutor Magalhães acaba de subir à varanda da casa do largo, há-de sentar-se na cadeirinha de lona, enfiar os pés descamados na bacia de porcelana com água das caldas santas. A camioneta da carreira sobe vagarosamente a rua cinco de outubro como se chegasse de uma viagem à roda do mundo: que sobressalto acrescentará hoje ao ruído sobressaltado do motor? Fernanda pressente

que será um dia diferente: como se tudo pudesse começar de novo. Levantou-se cedo, a luz ainda indecisa na colina. Desce ao salão, abre o louceiro de castanho, olha com minúcia, uma peça, depois outra, o serviço de jantar. Levantou-se cedo, não há uma nuvem entre a terra e o céu, o espinheiro da virgínia do toural ergue-se contra o céu de fins de setembro como se o mundo começasse a nascer com a manhã ainda indecisa. Olha da janela, desvia as cortinas e suas cornucópias vermelhas e azuis, a luz ainda indecisa. Como se alguém dissesse:

aqui uma árvore, aqui um muro alinhado, aqui o caminho do monte, aqui um tanque, aqui uma casa, aqui uma encosta de carvalhos, aqui um ribeiro e suas águas sesserigas, aqui uma pedra, aqui uma fonte: como se o mundo só então pudesse começar. Como se alguém dissesse: aqui uma pedra, aqui uma fonte, e agora a luz a descer a colina, a derramar-se no vale e na encosta de carvalhos, a descer o ribeiro e suas margens, a descer o caminho do monte. Como se tudo, sendo igual, pudesse ser diferente. Como se o seu próprio destino pudesse ser decidido de um modo diferente. Como se tudo pudesse começar, como se nada existisse entre a terra e o céu. Não há uma nuvem. Dona Fernanda sobe de novo, despe o roupão, a luz do seu corpo ilumina as paredes do quarto, a manhã indecisa a entrar pela janela virada ao nascente. Recorda

o primeiro dia em que se despiu diante de um homem. O engenheiro chegara em mil oitocentos e setenta e nove, passava os dias na serra com a brigada da floresta. À noite, depois do jantar, estendia as cartas topográficas na mesa da sala, os seus dedos finos, os seus modos galantes. Em fins de fevereiro começaram as primeiras plantações: dezenas de homens e mulheres sob as suas ordens, a desmatar a encosta, a abrir covas, os pinheiros minúsculos: nunca por aquelas bandas se vira uma árvore assim: os pinheiros minúsculos a desenhar uma nova paisagem. À noite, depois do jantar, o engenheiro estendia as cartas topográficas na mesa da sala, os seus modos galantes. A taberna fechava cedo, o engenheiro foi o primeiro hóspede da casa de pasto: só alguns anos depois a taberna se transformou em pensão. Dona Fernanda

recorda: nessa noite ficaram sozinhos na sala, as cartas topográficas estendidas na mesa, os seus dedos finos, os modos estrangeiros. Tinha quê? Dezasseis anos? O engenheiro olhou-a nos olhos, tocou-lhe os cabelos, os ombros, o rosto, era como se mais nada existisse no mundo para além dos seus dedos finos, os modos galantes. Recorda o primeiro dia em que se despiu diante de um homem. De súbito, no quarto muito escuro, a luz do seu corpo nu iluminou as paredes, o jarro com água, o livro de botânica, as velas de sebo, o lavatório, a pequena cómoda. De súbito, no quarto muito escuro: um incêndio. A luz do seu corpo. Tinha quê? Dezasseis anos? Hoje

será um dia diferente. Dona Fernanda escolhe um vestido de festa, é como se tudo pudesse começar de novo. Atrás do balcão corrido, arranjando os papéis, o livro de registos,

Luísa tem um sorriso rasgado, a saia quase à altura dos joelhos, um decote de furco, o cabelo apanhado num pregador colorido, vem de calafetar as janelas do primeiro andar com um pano humedecido. Atrás do balcão corrido, à espera,

Fernanda muda de sítio o livro de registos, as mãos nervosas. O desconhecido abre a porta da pensão, diz muito bom dia, poisa no chão encerado uma mala de carneira cheia de pó. É claro que há um quarto vago, claro que há um quarto para o senhor professor. Dona Fernanda recorda

o primeiro dia em que se despiu diante de um homem: a luz do seu corpo a iluminar as paredes do quarto, era impossível olhar de frente esse esplendor: um incêndio. O engenheiro cerrou os olhos, as mãos de súbito pelo corpo todo numa aflição, como se uma doença o atormentasse desde o princípio dos tempos. Gritou, saiu numa corrida, uma dor que se adivinhava à distância no escuro da noite. Nunca mais o viu. Na

manhã seguinte encontraram-no morto, suspenso de uma corda, no carvalho da colina da raia. Enforcado. Dizem que tinha os olhos queimados: a pele arroxeada, escamada, fendida, como se um incêndio houvesse lavrado a noite inteira no interior do seu corpo. Hoje

haveria de ser um dia diferente.

[O próprio corpo]

Só lembro o desencontro. Pouco acrescenta o amor quando a ignomínia, mais tarde, escurece o retrato nas dunas, o livro de botânica nas colinas da urze, as pedras do moinho depois da manhã. Posso chegar a tempo, apertar nas mãos o lume do desejo. Só lembro o desencontro, a neve e o vento a percorrer a casa como se o inverno chegasse e ninguém socorresse os últimos náufragos, os que perderam tudo, o amor, o próprio corpo, a nascente da água.

[O esquecimento (outro poema antigo)]

Os meus amigos que nasceram depois
do vinte e cinco de abril chegam a
pensar que a tortura do sono é não ter pedalada
para ficar na discoteca até às
cinco da manhã por falta
de pastilhas
e que uma falha na corrente
eléctrica a meio da noite é o que
melhor pode definir o
conceito de Sombra.

in A Poesia Está na Rua - 25º Aniversário 25 de Abril, INATEL e Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto

sexta-feira, dezembro 10, 2004

Amparo da memória

Ouve a voz que te ampara
e segura de encontro à parede débil do teu equilíbrio.
Ouve-a, àquela que te leva pela mão
na estrada semeada de poças de lama,
soturna, cabisbaixa, cambaleando
junto aos ciprestes que ladeiam o caminho.
.
Olha-a, não escondas os teus olhos plenos
de lágrimas, nem enxugues as gotas
que te escorrem pelo rosto.
Deixa-a recolher cada uma
e guardá-las num lugar sagrado
onde nem tu as encontrarás.
.
Porque te peço, esquece
as palavras que te disse e deixa
de desejar as que não te disse
para mais depressa banires da memória
cada traço de recordação que teimas
em trazer ainda dentro de ti.

Calar

Calar-te-ás antes do sofrimento chegar, durante o sofrimento e, depois, muito depois de este já ter terminado. Quem sabe, assim se consiga fazer com que nunca tenha existido sofrimento algum.

terça-feira, dezembro 07, 2004

7/12

Menina de Ipanema,
com a pesada pena da tua partida
deixas-me em desassossego.
.
Fecho-me em concha,
no fundo do mar,
até ao teu regresso.
.

resumo expresso...

O Governo caiu, o Sporting aproximou-se do Porto, o Porto perdeu, Pinto da Costa foi constituído arguido, o Porto deve ser eliminado esta noite da Liga dos Campeões e ainda sei fazer peixe ao sal. Se isto não são boas notícias, então não sei o que são.

Distâncias

Não é bem a tristeza por estares longe, mas a ausência de alegria por já teres estado mais perto.

(sem título)

sem assombro, sequer vestígios de remorso,
os teus dedos escorregam na maçaneta da porta e abandonam-na
sem se deter a rodá-la,
não lhe dás sequer tempo para mudar de temperatura.
.
fria,
a manhã cola-se ao vidro embaciado pelo meu respirar ofegante
no lado de fora da janela,
onde um pardal terminou a sua vida
enregelado, esta noite,
como as veias que sinto
dentro de mim.
.
não penso, ou melhor, penso um instante,
já é Dezembro outra vez... as miúdas...
tenho de me levantar,
ir às compras...

A via moderna

Há, na via moderna de acesso à Nova Democracia, apregoada por Jerónimo de Sousa no seu discurso de tomada de posse como secretário-geral do PCP, algo de bafiento e simultaneamente novo: as referências ao operariado, aos assalariados, à exploração dos trabalhadores pelos capitalistas desprovidos de valores em relação à classe operária... O espantoso é que tudo isto ainda foi prontamente aclamado por uma militante das bases que teve o seu momento de glória ao conseguir citar um discurso pronunciado por Álvaro Cunhal, se não me engano, na campanha para as legislativas de 82, que terminava com um redondo "viva o Marxismo, viva o Leninismo!".
Obviamente, tudo isto terá a sua graça se situado num contexto histórico, mas no Portugal e na Europa do séc. XXI representa o canto do cisne do comunismo (na Europa civilizada há muito este deu o seu último suspiro) e a chegada dos problemas que lhe andam associados. É que, esvaziado o lugar que este ocupava, os poucos que ainda com ele se identificam e identificavam ficam vazios de objectivos, à deriva, e facilmente caem nos extremismos de esquerda e de direita porque os opostos, como se sabe, facilmente se atraem. Não são os operários, nem os assalariados que me preocupam, como facilmente se perceberá, esses fizeram a sua transição suave a relativamente esclarecida para o socialismo de mercado e para a social-democracia. São os outros, aqueles a quem estes voltaram costas na sua luta de há vinte e trinta anos em busca da liberdade e que cresceram com as referências que agora encontram moribundas, que me preocupam. São os filhos dos operários, dos lutadores, dos explorados, dos assalariados de primeiro grau, esses, os maiores revoltados da nossa franja social. São esses, os filhos dos "outros" de outrora, que a exemplo do que se passa na Europa, alimentam as fileiras dos movimentos extremistas, quem me preocupa, pelo flagelo que podem representar na construção da - o termo afinal é correcto - nova democracia, naquilo em que este conceito, velho de três mil anos pode ser reinventado.

Tens dúvidas?

É claro que te amo; se não fosse assim, porque motivo ficaria abraçado a ti mais de dez minutos de cada vez que fazemos amor?

segunda-feira, dezembro 06, 2004

2-much

Quem Fá Lá Si Noé Gago.

domingo, dezembro 05, 2004

O céu

O inverno, nestas noites frias, com o céu de um azul muito escuro, carregado, livre, é como se nos aproximasse de nós próprios e nos confrontasse com as nossas dúvidas e indecisões, com as nossas perplexidades, com as nossas mais antigas e dolorosas incertezas.

Eleições

Cinha Jardim abandonou a Quinta das Celebridades antes do escrutínio. Mas garante que «não foi por temer as eleições». Sócrates que se cuide...

Gripe

Sou dum tempo em que a Pharmacia era uma instituição respeitável (e a gripe...). Hoje em dia a gente vai comprar uma aspirina e tropeça em cartazes de papelão com a Cinha Jardim a publicitar um anti-gripal...

sábado, dezembro 04, 2004

A lentidão

Tínhamos marcado um último encontro. Haveríamos de nos saber despedir de forma civilizada. Mas a coisa correu mal. Quer dizer: passámos duas horas sem trocar praticamente uma palavra. Com vagarosas lágrimas nos olhos. Desajeitados. Esboçando gestos lentos, cansados, magoados, tão próximos e já tão distantes um do outro no restaurante quase deserto. Despedimo-nos, enfim, sem saber muito bem que palavras se podem dizer quando, de súbito, nenhuma palavra do mundo parece fazer sentido.

E só então compreendi que o senhor sentado na mesa ao lado (esse que tinha chegado antes de nós e o empregado tratara cerimoniosamente por «mestre») era Manoel de Oliveira.

Fiquei em pânico. Temi que a nossa despedida, feita de momentos desconexos, de uma lentidão exasperante, pudesse ser aproveitada como material narrativo na sua cinematografia futura (não esqueço aquele sorriso enigmático quando cruzámos o olhar por um breve instante). E isso era o pior, depois de um tão desolado adeus, que eu imaginava que me pudesse acontecer.

sexta-feira, dezembro 03, 2004

Dois poemas de Jorge Sousa Braga

A sanguinária

Não foi por causa dela
que cercaram o jardim
de muros, com ameias.
Ela chama-se assim
porque a seiva é vermelha,
vermelha como o sangue
que corre nas tuas veias.


A espada de S. Jorge

Se porventura, um dia,
eu tivesse que me armar,
era esta, e só esta,
a espada que eu seria
capaz de empunhar.

in «Herbário», poemas de Jorge Sousa Braga
com desenhos de Cristina Valadas.
(Assírio & Alvim, col. Assirinha, 1999)

Uma carta antiga

Caro Zé Carlos: conforme combinado na gloriosa noite passada, envio-te o Herbário do Jorge. (...) Para mim fica já o prazer de dar-te a ler, em primeiríssima mão, este "horto deleitoso".
Um abraço do
Manuel Hermínio Monteiro

quinta-feira, dezembro 02, 2004

Parques, 1

Não parece má ideia começar a tratar da criação de áreas protegidas em Marte. Entretanto, talvez não fosse pior ver o que era possível ir fazendo com as nossas.

Parques, 2

Prevendo-se que as áreas protegidas a criar em Marte venham a ter «uma regulamentação semelhante à dos parques protegidos da Terra», há razões objectivas para temer o pior no planeta vermelho.

Despojamento

Andei em vários cercados recolhido,
dos crispados olhares do mundo
do ouro e das tiaras
do brilho dos diamantes
da riqueza das nações
.
Vibrei no esplendor dos versos
da poesia, dos campos, do trato
soberano dos sentimentos puros
que me incendiaram a alma
em demanda da harmonia que busco.
.
Não me queiram mal por isso,
o despojamento e o rigor do desapego
são a última coisa que me resta
depois do convencimento
de que o amor, essa luz,
.
não existe já no teu semblante
e é uma quimera que apenas
perdura na minha memória
como uma doce e gentil
promessa de glória.

Silêncio

Não te saberia dizer tudo o que me apetece. Nem porventura o que não me apetece. Não esta noite, não hoje Por vezes, como em várias ocasiões te referi, só devemos proferir palavras que consegam ser tão doces como o seria o próprio silêncio. Bem sei que não é isso que nos dizem normalmente os psicólogos e os técnicos da psique, mas o silêncio, até prova em contrário, não será igualmente o pior dos caminhos. Por isso, o desvalor ou o seu contrário, a valoração da conduta que cada uma das nossas atitudes assume face ao outro não pode ser hiperbolizada como por vezes o fazemos.
Já te referi bastas vezes aquela entrevista de Gabriel García Marquez, não aquela em que faz a apologia de Fidel Castro; refiro-me antes à outra onde menciona que não se devem pronunciar palavras, sejam elas quais forem, de raiva, de confronto, de discussão, sobretudo a quente. Se possível, devemos mesmo guardá-las dentro de nós e nunca as devemos pronunciar seja em que contexto for. Bem sei quão difícil isso é, e quão errado isso pode parecer à primeira vista. Bem sei que nem sempre foi assim entre nós. Mas hoje, e depois de hoje, amanhã, podemos ao menos tentar que assim seja? Tentar, apenas tentar...perceber que o outro entende e aceita.

O bombeiro de Londres

Por onde andará Peter, o bombeiro de Londres, que, sozinho e sem quaisquer conhecimentos extraordinários, reconstruiu completamente sozinho durante dois anos um Colin Archer e com ele navegou em solitário para Portugal? Já em Portugal, Peter conheceu uma sua conterrânea por quem se apaixonou e ela pelo seu modo de vida. Verificando que o mar a deixava infeliz, Peter decidiu vender a embarcação, sedentarizar-se, e seis meses depois constatou que não encontrara aquilo que buscara; uma não era já irremediavelmente sua e o coração da outra nunca fora.
Aceitando o seu destino, na última vez em que vi Peter, este tinha terminado de reconstruir o Stella Maris, um ketch em aço que foi recuperado das areias da Ria do Alvor e tinha de regressar a Inglaterra para resolver um problema de família. Saúde Peter, brave heart!

Amnésia

Nas minhas noites
há duas luas
não me digas que estou louco,
porque as vejo perfeitamente da janela
donde te escrevo, ou penso que escrevo, porque
me induzem a pensar assim as dezenas de folhas rasgadas,
em branco,
que todas as manhãs apanho debaixo do parapeito,
no canteiro das rosas secas.
Não é loucura, é amnésia...
como é boa esta amnésia de ti.

Talvez seja tarde

O vento de novembro deixa nos telhados uma espécie de magoada incerteza.

O desejo

Não voltarás a dividir com o medo essa estranha forma de júbilo, esse inesperado ardor que regressa de onde nem suspeitavas que alguém se recolhesse do frio ou afastasse com as mãos a tempestade.

quarta-feira, dezembro 01, 2004

Política

Estávamos quê? Em finais dos anos setenta, inícios dos anos oitenta. O congresso da JSD haveria necessariamente de ficar marcado para sempre nas nossas vidas: porque todos os nossos sonhos têm um começo, e este começava nesse dia: em Montechoro, no Algarve (num hotel cuja envolvente - anárquica, de estaleiro de obras -, enfim, não condizia muito com a nossa ideia de futuro; mas também isso, claro, haveríamos de mudar).

Logo no balcão das inscrições, nas conversas de circunstância antes ainda do começo dos trabalhos, alguma coisa nos aproximou: e no intervalo para o café, ao fim da manhã, eu e C. M. discutíamos já as teses, os princípios de actuação, as propostas de orientação política. Abdicámos do almoço. A uma mesa baixa do átrio do segundo piso, junto aos elevadores, esboçámos a moção de estratégia. E lembro-me de, entusiasmado, a meio da redacção, dizer ao C. M. que os nossos sonhos não tinham limite no horizonte visível (nessa altura usávamos expressões grandiloquentes: «quando formos escolhidos para servir o País...»).

Concluímos a moção de estratégia muito tarde da noite, depois de vários percalços (a discordância, por exemplo, de um companheiro do Porto cujo nome, desde que o autocarro nos levara ao hotel e fomos apresentados, me fascinara pelo equilíbrio e por um marcado rigor: duas palavras, ambas começadas por R, ambas com três letras e uma ténue, fascinante aliteração).

A nossa moção foi indecentemente chumbada em escrutínio secreto. Custou-nos, é óbvio. Mas nós estávamos do lado do sonho. Era, portanto, uma questão de tempo. E o tempo jogava a nosso favor.

A verdade é que nunca mais nos encontrámos.. Nunca mais ouvi o seu nome. Nunca mais. Penso muitas vezes nele. Na sua alegria. No seu entusiasmo. Na sua disponibilidade. No destino que nos estava destinado. Nos sonhos que, por um momento, desenhámos juntos: num tempo em que nos defendíamos na certeza de que o futuro estava do lado dos sonhos que sonhávamos.

Às vezes penso que C. M. talvez tenha comprado a quinta no Alentejo ou a casa em Trás-os-Montes, junto ao rio, de que falava tantas vezes. E fico feliz. Mas o mais certo é que continue ainda enredado nesse labirinto de sonhos e que, como eu, seja agora um triste e desiludido técnico superior com requerimentos a pedir licença sem vencimento, perdido na ilusão de que é possível afastar-se do mundo, e ficar assim, fora do mundo, a tratar das amendoeiras, do escarificador, da tijoleira das açoteias, dos albricoques, dos pomares de citrinos...