sexta-feira, outubro 29, 2004

Alegoria breve, 4

Aprende com as crianças: desenha remoinhos nas águas paradas, quase apodrecidas, do tanque.

Alegoria breve, 5

Deixa que uma única palavra regresse às páginas do teu livro em branco.

Alegoria breve, 6

Atravessa a rua como a luz de novembro adormece nos ramos azuis das figueiras.

quinta-feira, outubro 28, 2004

O fauno

Um fauno peludo dança
Na tua direcção,
odiosa criatura
cuspindo viscosas palavras,
imprecações sanguinárias
que ferem como ferro
e fogo, a carne desfeita
de cada sílaba que oiço.

O vómito sulca as minhas entranhas
ao mesmo tempo que o céu que se abre
para permitir a passagem de um arco-iris
que o crepúsculo anuncia
sob o milagre
dos últimos raios de Sol
que por engano
julgamos serem os últimos da eternidade.


Erro,
porque os faunos não são eternos.

Os líderes

É interessante constatar que os dois mais recentes líderes do PSD acabam de sofrer duas pequenas derrotas que têm por cerne, precisamente, o triunfo da democracia. Um, Santana Lopes, envolve-se num mini-escândalo do qual sai beliscado devido à tentativa de controlo dos media. Outro, Durão Barroso, devido ao reforço de poder do Parlamento Europeu. Num e noutro casos, goste-se ou não, o contraditório e o livre direito à opinião prevaleceram sobre a vontade desses líderes. E é este auto-controlo da democracia, este sistema de contrapoderes que faz da democracia o mais equilibrado dos sistemas de governo à face da Terra que deve ser ressaltado e ressalvado. É ainda, por outro lado, esta divisão em que assentam a maioria dos sistemas parlamentares ou semi-presidenciais europeus que constitui o último reduto defensivo da constelação de direitos, liberdades e garantias fundamentais que tão arduamente foi conquistada ao longo de todo o séc. XX que urge consciencializar e, sobretudo, fortificar para melhor defesa.

Incêndio

Consumam-me as chamas
para que no fim desse incêndio,
nada de mim reste que não
apenas
palavras queimadas.


quarta-feira, outubro 27, 2004

Sinto
a fé
que apodrece no meu coração,
.
obra de um Deus que não escolhi.

terça-feira, outubro 26, 2004

Ah, se é por uma questão de pedagogia

Um professor do primeiro ciclo é acusado pelos encarregados de educação de gritar, ameaçar, usar linguagem imprópria e arrear forte e feio nos alunos. A presidente do conselho directivo optou por manter o professor em funções até à conclusão do processo, garantindo que o mesmo será sempre acompanhado por uma outra docente, de vigia. Mais adianta que se poderia ter optado pela expulsão, mas que «essa não seria a medida mais correcta, uma vez que aqueles alunos já tinham mudado uma vez de professor e estas trocas constantes não são pedagógicas».

Pois bem certo é que estamos sempre a aprender com quem sabe.

Eu é que sou o porsidente da junta

O líder político duma distrital lamenta-se de a sua Região não ter no Governo a representatividade que devia. E portanto essa determinada Região não é tão bem defendida em Conselho de Ministros como outra Região numericamente melhor representada. Ora a gente pensava que aos senhores ministros competiria a salvaguarda do interesse nacional, e não tanto os interesses do bairro fiscal, da freguesia ou da comunidade urbana onde nasceram.

Pois bem certo é que estamos sempre a aprender com quem sabe.

segunda-feira, outubro 25, 2004

Frio

Cala-se o riso
e o ruído das correrias
das crianças.
A água gela
no lago do velho moinho
em cada manhã de névoa

E o espesso manto do velho
que dorme sozinho no jardim
desfaz-se sob a geada
que sobre si se abate,
como uma terrível
maldição indesejada.

Sob o frio cortante,
estão imóveis os lábios
e as crianças já não riem
como prisioneiras
de uma felicidade
que apenas se evaporou

e já não transpira
pelas margens verdes nem
por sobre as folhas dos plátanos.




Os agaves

O outono demora a trazer-nos a luz tão breve de novembro: perde-se nos poentes, nos ramos quase secos das amendoeiras, na faixa de névoa que se espalha sobre os campos lavrados das fazendas onde não avançou o betão dos loteamentos. Mas a meio da tarde, por instantes, chegamos a pressentir que essa luz nos vem poisar nas mãos e que o inverno, finalmente, pode começar: no odor do café, nos trabalhos domésticos, no azul dos agaves que não iniciaram ainda a derradeira (e única...) floração.

sexta-feira, outubro 22, 2004

Três dias apenas

Sangue,
sob o Sol
frio de Outubro,
negro dilúvio
derramado
em pétalas
de rosa carmim,
é esta a cor da
tua ausência.

Volta depressa,
mata-me a saudade,
tira-me de cima
este peso brutal.

[Três poemas]

Constantino Paustovski

Uma e outra palavra se perdem no decurso
das viagens, um e outro nome, o fluir
monótono de rumores indecifráveis,
águas onde nunca mais virá o sonho

usar as suas frases, um e outro modo
de lembrar as coisas, mínimos sinais
dum amor que raramente demorou os lábios
nesta margem, litorais por onde

o próprio aroma do desejo se perdeu.
Falo da tua voz tranquila, da mata de
bétulas e do caminho de casa, do medo
de esquecer a cor do teu vestido azul,

a caligrafia inúmera das tuas cartas e dos
teus postais. Mas quase sempre é tarde,
quase sempre me demoro para lá da viagem
onde mesmo a morte vem para morrer.


Heinrich von Kleist

A morte nos dirá enfim o nosso nome
verdadeiro, os nossos modos de lembrar as
coisas, o desejo dum lugar onde a verdade
e o amor aproximem a luz do primeiro ao

lume do segundo, talvez o inamissível
sortilégio de por uma vez nos termos
encontrado. Nada sabemos de quanto nos
ensinaram, nada sabemos para lá do que

soubermos descobrir errando a alma em
recônditos lugares, inatingíveis latitudes.
Caiando de sombra a transparência não
oblíqua sobre os muros das cidades,

a ignomínia reina como se tudo fosse um
reflexo dos seus gestos e nada mais
restasse, amiga, que trocar de roupa e
procurar um mapa de silêncio para morrer.


Mário

Se te conheci foi numa página ímpar dum livro
de poemas e não, como dirão talvez para tornar
verosímil uma história que nunca o poderá
ser, em montmartre ou nas folies bergère.

Se te conheci tinhas o cabelo curto e um anel de
prata, nenhum outro adorno ou adjectivo, e
pouco valor tudo quanto me dissesses ou
levasses a dizer. Se te conheci foi para

fingir ter dado importância às tuas palavras,
no fundo para que em ti e no mundo, num
qualquer instante sem poesia ou outro
fingimento, houvesse de novo alguma importância,

um pouco de mistério. Sejamos claros: o desejo
é sempre singular e cruel: se te conheci
foi apenas para que me fosse mais custoso
olhar o passado ao preparar-me para morrer.

Inquietude

Ao romper da primeira luz,
na penumbra da alvorada clara,
enquanto embalas o sono profundo,
revejo tantas vezes, incansavelmente,
o teu rosto de menina
acabada de nascer.
.
Nesses preciosos momentos,
desesperadamente efémeros
Abandono-me à saudade
dos nossos primeiros dias,
as noites em desassossego,
o teu choro de criança
.
que não quero perder.

[Bernardo Soares]

Nenhuma fotografia fará subir a chama
da paisagem acima da janela do terceiro
andar deste prédio. O real é uma abstracção
inútil, uma eternidade a que tivessem

cortado a sua face de sonho, um coração
onde nada pesa que não seja o peso leve
dos sentidos. A vida toda é este mover
das coisas mais próximas, os ombros,

a bússola de viagem, o desenho a tinta da
china de pequenos barcos coloridos,
algumas vozes longínquas que logo fazem
viver as suas formas substantivas: pobre

de quem vê o que seus olhos vêem. Às vezes
é como se tudo tivesse uma alma, um
destino superior às vogais do seu nome,
um espaço onde a eternidade vem para morrer.

quinta-feira, outubro 21, 2004

Dar aulas

Ora aí está uma boa notícia: se os professores com horário zero vão assessorar os juízes, os novos magistrados iam fazer o quê? Dar aulas de Física?

quarta-feira, outubro 20, 2004

O tempo

No tempo em que os boletins meteorológicos eram apresentados por meteorologistas, mesmo que o termómetro subisse aos quarenta e seis graus ou a chuva caísse dias a fio ficávamos sempre com a sensação de que «está tudo controlado».

terça-feira, outubro 19, 2004

[as sílabas dos seus nomes]

no ano em que as crianças
deixaram
nas açoteias
os seus nomes

a sombra demorou a subir os degraus
e o inverno tropeçou
na luz das romãs
incendiadas ainda
por essas tão escassas
e decisivas sílabas

Metamorfose

Agora que o azul se transformou em cinzento, saberemos apreciar devidamente o azul quando o cinzento voltar a ser azul?

segunda-feira, outubro 18, 2004

[literatura]

escrevo
meu amor
para te dizer
a verdade
a mentir