Ainda ninguém conseguiu explicar porque razão conseguimos gritar mesmo quando já não temos forças para nada. Eis um dos mistérios da natureza humana.
quarta-feira, setembro 29, 2004
terça-feira, setembro 28, 2004
Saudade Aguda
Hoje é um dia mau. Péssimo.
Sinto enormemente a tua falta
e sei
que já te não vou ver.
.
Devia estar habituado,
mas dentro de mim sinto que isso nunca acontecerá
e parte de mim morre
.
quando partes.
.
Não sei como dizer isto de outra forma,
mas
é insuportável a tua
distância.
.
Hoje é um dia mau. Péssimo.
e em dias assim,
apetece-me
arrancar as teclas das minhas mãos...
Pátio de teclas
Uma noite e outra. Uma sinfonia inacabada, dedilhada ao extremo da loucura, na pressão de um concerto de última hora. Arpejos e escalas, ritmo marcado por café atrás do outro, impassível, metrónomo em seco, erupção de sentimentos e sentidos. Assim o pianista sentira os seus últimos dias naquela casa, naquela vida, naquela pauta que para si fora reservada. Da janela para o exterior da minúscula habitação no topo do edifício, ocupada na sua maior parte pelo velho piano de cauda herdado do seu avô entoava o seu piano e o seu estado de espírito dias a fio. Euforia, depressão, melancolia, serenidade, tudo era vivido naquele mesmo espaço... Não era um Steinway o seu instrumento, mas era seu, de estimação, como um animal de que não se prescinde. Com vida, respirava por cada um dos seus poros, resfolegava por cordas e teclas escondidas sob o verniz preto. Dias a fio, o pianista dedilhava febrilmente sonatas e sinfonias, partituras e oitavas, escalas acima e escalas abaixo. Mas sem fim e sem sentido - ninguém liga aos velhos pianistas que se curvam sob o peso do talento que a idade lhes traz. E um dia, tudo fez sentido no dia do violino tocado por dedos de mulher, bela, escondida, que com ele voava em oitavas por sobre os telhados da cidade cinzenta, mais depressa que a brisa do fim de tarde. E de repente, tudo desapareceu. Arrancadas as folhas do calendário, sem as folhas que lhe permitissem contar o tempo que passava, ao pianista apenas restava arrancar o que de mais precioso tinha. E assim, uma a uma, as teclas do seu piano foram sendo retiradas, primeiro cuidadosamente e colocadas na gaveta da mesa da cozinha na vã esperança de ainda as voltar a colocar, mas depois, em desespero, arremessadas pela janela, as brancas e as pretas, que faziam um ruído diferente ao partirem-se de encontro às pedras gastas da calçada do pátio. E um dia, quando escasseavam já as teclas, o pianista fechou os olhos, exasperado pela surdina a que votara as suas sinfonias, a sua voz, a sua vida.
sábado, setembro 25, 2004
[Do amor]
Nunca soubemos se é possível no seu voo por um instante as aves mudarem a trajectória se
lhes é possível a escolha se
necessariamente repetem ano após ano esse percurso que as traz de longe ao fundo do vale se
um relâmpago as fende ou ilumina se
estão sujeitas à propagação migratória das frases se
o vento do atlântico as puxa para o centro dos meteoros.
.
Nunca soubemos em que margem se levantam os caules onde os cardumes adormeciam antes das explosões se
as marés alteram a corrente dos lagos da península ou apenas irrompem no abismo das águas e expandem as placas até à desordem das páginas numeradas dos livros se
os peixes do fundo dissipam nas vertentes côncavas o metal incandescente dos processos erosivos se
as argilas do dilúvio precipitam ainda nos leitos de cheia se
a sede é um dos desígnios da abundância.
.
Nunca soubemos se a poderosa evocação do paraíso nos liga às raízes das macieiras ou se
é apenas a memória dos frutos que se expande nas artérias até à deflagração do desejo.
.
Nunca soubemos se o coração e os incêndios são pronomes possessivos inscritos na paisagem se
o fogo irrompe dos alicerces da casa se
a infância deixa na pele as manchas a sépia das constelações se
o movimento de translação da terra aquece a água das vasilhas de zinco que as mulheres deixam ao lume se
é possível as crianças regressarem do passado com seus archotes de granizo e incendiar as planícies.
.
Nunca soubemos
sabemos sempre tão pouco do que respeita ao amor.
sexta-feira, setembro 24, 2004
O impossível paraíso
Não será sempre assim; Um dia
teus lábios serão de outro
e de nada valerão meus suspiros
e palavras em desvario.
De nada valerá o meu silêncio
Nem a minha dor e pesar
quando o teu amor, tão grande
por mim morrer, cessar...
Desviarás de mim os olhos
esses olhos, postos lá longe,
longe, desviados do meu caminho
do meu peito, do meu paraíso
Onde um pássaro perdido,
entoa sozinho o seu canto.
teus lábios serão de outro
e de nada valerão meus suspiros
e palavras em desvario.
De nada valerá o meu silêncio
Nem a minha dor e pesar
quando o teu amor, tão grande
por mim morrer, cessar...
Desviarás de mim os olhos
esses olhos, postos lá longe,
longe, desviados do meu caminho
do meu peito, do meu paraíso
Onde um pássaro perdido,
entoa sozinho o seu canto.
quarta-feira, setembro 22, 2004
Rosas negras
Rosas negras
pejadas de espinhos aguçados
espelho baço da minha alma
turva, revolta e demente,
rasgam minha carne
como facas
.
Incansáveis lágrimas de sangue
verto;
exaspero na dor,
na aflição, no sofrimento,
na perda, na atrocidade
no indescritível desespero
de querer partir ou morrer.
pejadas de espinhos aguçados
espelho baço da minha alma
turva, revolta e demente,
rasgam minha carne
como facas
.
Incansáveis lágrimas de sangue
verto;
exaspero na dor,
na aflição, no sofrimento,
na perda, na atrocidade
no indescritível desespero
de querer partir ou morrer.
terça-feira, setembro 21, 2004
A alma
A alma, a alma tinhas,
clara e aberta,
e por isso
nunca nela
consegui entrar.
Procurei-a,
mas seguia por caminhos largos
que não me permitiram chegar;
escondia-se,
atrás de altos muros
que nunca consegui escalar.
Fechava-me a porta,
momentaneamente aberta,
quando me aproximava.
Não era franca,
a alma,
que tinhas clara e aberta.
Nunca lhe descobri o início
nem tão pouco o fim,
tão grande era
e assim me fiquei, sentado,
na tua alma clara e aberta.
Contemplando as vagas que a banhavam
à tua alma clara e aberta.
clara e aberta,
e por isso
nunca nela
consegui entrar.
Procurei-a,
mas seguia por caminhos largos
que não me permitiram chegar;
escondia-se,
atrás de altos muros
que nunca consegui escalar.
Fechava-me a porta,
momentaneamente aberta,
quando me aproximava.
Não era franca,
a alma,
que tinhas clara e aberta.
Nunca lhe descobri o início
nem tão pouco o fim,
tão grande era
e assim me fiquei, sentado,
na tua alma clara e aberta.
Contemplando as vagas que a banhavam
à tua alma clara e aberta.
O pescoço II
Da mesma forma, menos apostamos ainda no pescoço de José Peseiro, o qual nada tem de atenuante a seu favor sobretudo depois do Sporting descaracterizado que apresentou ontem em Alvalade. Salvou-se, ao que parece, um golo mal anulado a um avançado do Marítimo, que limitou os gastos à sua expressão mínima.
O pescoço I
Em face da entrevista de ontem à noite da Srª Ministra da Educação e do que se passou esta noite com a disponibilização "on-line" das listas de colocação e professores, e pese embora o facto de esta ministra ser herdeira de uma situação criada anteriormente, caso persista na sua incontinência de abrir a qualquer custo todas as escolas até 23 de Setembro, aqui em Um Pouco Mais de Sul não apostamos um chavo no seu pescoço.
segunda-feira, setembro 20, 2004
O telégrafo platónico
Num dos livros de Gabriel García Marquez - o leitor desculpar-me-á a falta de memória mas não consigo localizar em qual é referido o episódio - no meio da canícula que é constantemente descrita pelo autor e é recorrente em toda a sua obra, a par da pele encharcada dos personagens, do cheiro nauseabundo, da febre, dos sírios mercadores, há uma pérola de paixão platónica personificada pelo telegrafista de Macondo e pela telegrafista de San Bernardo-de-um-lugarejo-qualquer. Com efeito, um e outro entretêm os seus dias a telegrafrar entre si poemas e juras de amor repetidamente e o telegrafista declara a páginas tantas que reconheceria a sua colega em qualquer parte do mundo, pelos saltos nos "iii" que ela perpetra ao dedilhar o telégrafo. Num dos instantes finais da obra, o telegrafista propõe-se mesmo transcrever "Os Miseráveis", de Vítor Hugo, pelo telégrafo, para que ela o possa assim ler e partilhar consigo. Juro que na era do telegráfico-sms, semelhante tarefa não me passaria pela cabeça, a despeito de infinitamente mais fácil de cumprir. |
sábado, setembro 18, 2004
Pastelaria Versailles
Somos do campo. Quando nos perdemos nas grandes cidades procuramos sempre o refúgio da primeira árvore que encontrarmos. A sua sombra. Mesmo no Inverno.
Trabalhos manuais (ou A Seita de Fénix)
Borges, nas Ficções, descreve A Seita. A Seita de Fénix não tem Conselho de Administração nem corpos gerentes. É a mais democrática das corporações. Todos os seus elementos contribuem de modo individual, diligentemente, para a granda causa. Não os move um propósito comum. E no entanto há uma espécie de desígnio que os une na sua irredutível individualidade. Eu faço parte da Seita de Fénix. Tu fazes parte da Seita. Mas nunca o haveremos de reconhecer em público.
sexta-feira, setembro 17, 2004
O regresso
Primeiro há a sensação de saudade. Depois há os cheiros, os ventos, o marejar da água, os pescadores, os restos da urze de Verão, a areia, as casas baixas e desordenadas que persistem na memória... A Culatra, a ilha-barreia, a duna, traz-nos ao Algarve esquecido que abandonámos no ano passado e ao qual não mais regressámos. Era tempo de matar saudades, de sentir a areia fina a ranger sob os pés e de preparar o regresso...
quinta-feira, setembro 16, 2004
[O tempo]
As vozes do passado às vezes nos cercam
com inúmeros ferros e seus óxidos,
sua cal de pedra, sua persistente
e subterrânea ondulação.
O metal incandescente da memória
traz à superfície o relógio dos nomes,
os lenços perfumados das frases,
as páginas dos livros.
Quase ninguém sobrevive a
essa estranha caligrafia
onde o arame farpado e a água fresca dos púcaros
se misturam.
com inúmeros ferros e seus óxidos,
sua cal de pedra, sua persistente
e subterrânea ondulação.
O metal incandescente da memória
traz à superfície o relógio dos nomes,
os lenços perfumados das frases,
as páginas dos livros.
Quase ninguém sobrevive a
essa estranha caligrafia
onde o arame farpado e a água fresca dos púcaros
se misturam.
O logro
Conheceram tarde o poder das palavras. Ou nem chegaram nunca a conhecê-lo. Eles que conheciam apenas o valor da Palavra.
[Milton (ou Não há regressos)]
Regressávamos a essa liturgia sem
nome e dizíamos por
exemplo "aqui
até mais puro é o
ar que se respira",
ou falávamos com adjectivos e hipérboles
do vento nas encostas da urze
e da neve a descer o labirinto das levadas.
Hoje, quando regressamos,
faz frio substantivo
mesmo sob as imaculadas
colchas de lã com que nos tapamos.
nome e dizíamos por
exemplo "aqui
até mais puro é o
ar que se respira",
ou falávamos com adjectivos e hipérboles
do vento nas encostas da urze
e da neve a descer o labirinto das levadas.
Hoje, quando regressamos,
faz frio substantivo
mesmo sob as imaculadas
colchas de lã com que nos tapamos.
quarta-feira, setembro 15, 2004
Jura de chá
O leitor e a leitora ficam avisados, em desabafo, que odeio computadores, informática, discos rígidos, teclados, chipsets, motherboards e quejandos afins. Uma pessoa bebe um golo de chá, entorna umas gotas no maldito teclado e ala que o pc tem de ir passear à macrocéfala Lisboa.
Enfim, as alergias da informática ao chá de menta provocam-me convulsões, mas levantam-me a dúvida de saber se os teclados só serão alérgicos ao chá de menta ou se, por exemplo, também o serão aos earl grey. Confesso que mal posso esperar pela volta da coisa para a submeter à experiência...
Aqui fica a promessa da partilha da experiência com o leitor atento (e com a leitora também, claro).
Enfim, as alergias da informática ao chá de menta provocam-me convulsões, mas levantam-me a dúvida de saber se os teclados só serão alérgicos ao chá de menta ou se, por exemplo, também o serão aos earl grey. Confesso que mal posso esperar pela volta da coisa para a submeter à experiência...
Aqui fica a promessa da partilha da experiência com o leitor atento (e com a leitora também, claro).
Dos incêndios
Às vezes são muito poucas as diferenças entre um lança-chamas e um perfume. Algumas mulheres (com quem nos cruzamos na rua, num estabelecimento comercial, numa repartição da administração pública) bem que podiam ser detidas, sem direito a recurso, a coberto da legislação que pune os incendiários.
Penhascos
Pressinto a tua voz nos cumes altos
o grito asfixiado nas encostas calvas
adivinho-te nos penhascos
e nas veias queima-me o teu calor.
.
Antecipo-te, suspensa no vento
empurrando o arcanjo à tua frente
sobrevoando precipícios e torrentes
onde floresce a seiva que me dá a vida.
.
O corpo que te busca nasce
e desaparece em cada dia, cansado
pesado, faminto, no ocaso
em busca do repouso
.
que trazes dentro de ti.
terça-feira, setembro 14, 2004
O louco
Atravesso a rua sem olhar, indiferente às imprecações dos automobilistas e dos outro peões. Tanto me faz, que é como quem quer dizer "- é-me indiferente!", como me é indiferente se chove ou faz Sol, se é noite ou dia. Utilizo indiferentemente a passadeira e o meio anárquico da via. A indiferença pauta-me a vida sem sobressalto, sem amargura, sem objectividade, sem cumplicidade. Movo-me pelo relógio da imaginação, por vezes da barriga, fiel companheira, que decide do destino de algumas das minhas horas; volto-me de manhã na enxerga para me esconder do nascer do Sol, como se de dia as rugas que tenho na cara se tornassem cicatrizes contundentes aos olhos de quem as contempla. E no fundo consigo sorrir, rir, por vezes gargalhar sem motivo aparente. Por isso me chamam louco, fogem do meu aspecto desgrenhado, sujo, do cheiro nauseabundo que exalo mas que me diverte. A minha loucura é a de ser uma ilha no meio da sociedade e de o ter conseguido atingir sem que fosse contra alguém, sem despertar a inveja, a curiosidade nem a ambição. A nada aspiro, excepto ao verso perfeito, à palavra mágica, ao declinar do verbo. Não me perguntem porquê, já estive louco, agora apenas o sou aos olhos de quem me rodeia.
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