sexta-feira, julho 23, 2004

It's the donkey, stupid!

Bom mesmo é analisar atentamente a nova Lei Orgânica do Ministério da Segurança Social que esteve em estudo durante dois anos. Agora que tal ministério acaba de ser extinto, faz todo o sentido que tenha entrado em vigor semelhante lei. Para quem não saiba, acaba de ser criada a figura da Lei nado-morta, a qual acresce às demais fontes do Direito certamente por inspiração de alguma iluminária.




Assim não

Parece que está tudo de férias. Menos eu. Como dizia o Obélix, sendo assim desinteresso-me...

Enfim, as férias!

A dúvida atormenta-me novamente. Levo o portátil para férias, mantenho-me em contacto com o mundo (e se assim é, com o trabalho também) ou dedico-me pura e simplesmente ao ócio e desligo? Certo é que rumarei a Norte, ao Gerês, em busca do que já não se encontra no Algarve. O cansaço do Sul, das mesmas praias de sempre, dos amigos estivais, a ausência de coragem e vontade para rumar à Culatra afrontam-me este ano. Por outro lado, a vaga de calor e a necessidade de mudar de ares (nunca pensei dizer isto do Algarve) levam-me este ano a procurar praias a Norte. Ano de Xacobeo na Galiza, a bicicleta será fiel amiga numa parte do percurso, porquanto a Inês, já mais crescida, será companheira de viagem e não menosprezará umas pedaladas junto a Castro Laboreiro, primeiro, e depois junto ao Cabo Finisterra. Barragens, Rias Bajas, enseadas e um festival de música celta junto a La Coruña para complementar a paisagem selvagem do Gerês constituem um aliciante programa para os dias que se avizinham. E há a gastronomia ainda, os mexilhões com pimentos e o pulpo a galega de fazer crescer água na boca ao mais infiel peregrino que na condição de mouro de circunstância constituo a tais latitudes. Mas também, no fundo, quem sabe um serão a pintar os aristogatos ou a Branca de Neve na mesa de madeira da sala, a ler algo de circunstância ou simplesmente a repousar no alpendre, poderá ser o melhor das férias. Que me perdoe Xantiago se por acaso ignorar as suas ossadas e as orações dos devotos, mas este ano vou ao sabor do vento e das páginas de alguma literatura pagã. Enfim, volto daqui a semana e meia... se resistir à companhia do portátil.
Boas férias para os que igualmente partem e coragem para os que ficam ou já regressaram do paraíso.

Física

Bem certo é que o calor dislata os corpos.

quinta-feira, julho 22, 2004

Hoje estou longe...

Olá... Hoje não te contarei uma história, não velarei o teu sono, não me sentarei na beira do colchão, devagarinho para não te acordar, a ouvir a tua respiração compassada, não contemplarei o teu rosto descansado, as mãos fechadas ao lado da cabeça, naquela posição que tens desde os primeiros dias no berço. Hoje, não te aconchegarei o lençol fino que teimas em afastar para os pés da cama, nem enxotarei a gata de cima da colcha, mesmo sabendo que ela regressará inevitavelmente assim que me afastar. Hoje sentirei as saudades que sempre sinto quando estou longe de ti e espero que adormeças a tempo de as não sentir. Hoje, e até lá, contarei as horas para o reencontro que antevejo com a mesma impaciência com que aguardei o teu nascimento. Dorme bem, filha, como sempre fazes quando te conto a história da fada das cores, depois do ritual de despedida das fotografias dos amigos, dos bonequinhos de peluche e do piano cor de laranja.

What comes around, comes around

Há títulos que não merecem o texto que se lhes segue. Há textos que não valem o título que os apresenta.Há pessoas que não valem a carne, os ossos, os tecidos de que são feitas. Eu sei, há dias assim,em que temos de conviver com a ideia que alguém possa achar isso de nós próprios.

Paisagem, Ordenamento

No nosso país, muito boa gente (técnicos, autarcas, secretários de estado, ministros) deveria ser compulsivamente atada a uma cadeira e obrigada a assistir pela TV, etapa por etapa, à Volta à França em bicicleta.

Da inacção como virtude



Demorou dois anos de intensa actividade técnica e administrativa a preparação de legislação que altera a orgânica do Ministério da Segurança Social e do Trabalho. O diploma, finalmente, foi publicado em Diário da República. No exacto dia em que já não existe Ministério da Segurança Social e do Trabalho. No exacto dia em que um novo Governo toma posse. No exacto dia em que a orgânica do novo Governo arruma o Trabalho nas Actividades Económicas, e encosta a Segurança Social à Família e à Criança. O Decreto-Lei 171/2004 deixa de produzir efeitos no mesmo instante em que sai, com a tinta ainda escorrendo, das rotativas da Imprensa Nacional. Dois anos não será tempo excessivo para preparar nova lei orgânica. Mas talvez seja mais sensato deixar as coisas como estão. A inacção arrisca-se a ser a maior virtude e a melhor conselheira: quem não mexe, pelo menos não estraga. Leiam Albert Cossery. A teoria vem explicada nos «Mandriões no Vale Fértil».

quarta-feira, julho 21, 2004

As palavras certas

"It was hard to swallow". Estas as palavras utilizadas por Bill Clinton em entrevista ao 60 Minutes, para descrever a reacção de Hillary quando lhe contou o episódio Monica Lewinsky. Se isto não é sentido de oportunidade...

terça-feira, julho 20, 2004

[o silêncio]

tecendo seus fios
vagarosamente
laboriosa
a labareda do tempo
cresce na casa
quando todos
dormem
 

[o engano II]

como às vezes nos é
permitida a alegria
assim nos seja dado o engano 


Precipício

Subir à montanha mais alta
Descer ao sítio mais recôndito
Fugir dos raios do Sol
Esconder-me na sombra
 
O precipício, hoje!...
não existo no mundo dos vivos
Movo-me, por instinto 
à passagem das horas.
 
Os dias alongam-se
e agarro-me a nada
à espera que tudo
aconteça. no entanto...
 
...a felicidade, sei-o,
é uma quimera.


segunda-feira, julho 19, 2004

Escrever

Escrevo, porque receio não estar a escrever quando chegar a minha hora.

O engano

Não, não era amor, era pior ainda.

domingo, julho 18, 2004

A surpresa

Paulo Portas descobriu, com surpresa, em plena cerimónia de posse do novo governo, que afinal também é Ministro dos Assuntos do Mar. Depois da sua intervenção no caso Prestige, onde julgou o Ministro que este se afundou ao fim deste tempo todo? Um Pouco Mais de Sul inclina-se para opinar que o Ministro acharia que uma criatura das profundezas o teria engolido. Alguém do clá Soares, talvez?...

Para acabar de vez

Não sabes muito bem o que distingue a erosão costeira da biodiversidade; a Rede Natura da Reserva Ecológica; as zonas de máxima infiltração dos leitos de cheia; um endemismo duma infestante; um plano de pormenor dum alvará de loteamento. Pois muito bem: inscreve-te; põe-te na fila: arrisca-te a ser o próximo ministro do Ambiente e do Ordenamento do Território.

sábado, julho 17, 2004

A distância

Sentiu-a distante, uma distância própria de quem tivesse partido para sempre. E era como se o distanciamento que ela lhe ditou o atirasse, irremediavelmente, para os seus braços, porque outra ideia seria insuportável. Insustentavelmente, era mesmo assim.

sexta-feira, julho 16, 2004

O Beijo

 
 
O Beijo, KLIMT, Gustav 1908

Paixão, erotismo ou desespero?

Pena é...

...  que as nuvens cinzentas não fiquem presas a um qualquer ontem. 

(Um Pouco Mais de Sul visto por um(a) leitor(a), I)


Ficar...

Levantou-se à segunda tentativa. Doíam-lhe os ossos havia muito. A face enrugada não o deixava mentir quanto à idade. Os filhos haviam partido, tinham crescido, deram-lhe netos e os netos bisnetos. Cinquenta e nove anos. Tinham passado cinquenta e nove anos desde que sentira pela última vez aquela pele. Desde que vira aquele sorriso colorido de menina. Tudo, o seu gesto, o seu odor, o seu cabelo guardara dentro de si, fechados, inviolados, aos olhos de quem quer que fosse. Cinquenta e nove anos tinham passado desde então e era isso que trazia dentro de si. Tudo o resto fora acontecendo, por acaso, porque tudo a vida lhe trouxera aos poucos, menos o riso, menos a alegria incontida.
Olhou para o corpo mirrado, adormecido, deitado há instantes a seu lado, na cama velha. As venezianas filtravam uma pequena parcela da luminosidade do romper do dia e moldavam-no na contraluz por baixo dos lençóis. Outro dia. Como o fora cada dia nos últimos cinquenta e nove anos. Um dia a mais. Mas ficara. E nisso pensara, durante cinquenta e nove anos, todos os dias, em nome de algo que, sabia, nunca mais teria tempo de reencontrar...

A cólera nos tempos do amor

Cinquenta e três anos, sete meses e onze dias esperou Florentino Ariza por Fermina Daza. Cinquenta e três anos, sete meses e onze dias teve Florentino Ariza uma resposta pronta para dar a Fermina Daza. Cinquenta e três anos, sete meses e onze dias amou  Florentino Ariza, Fermina Daza, como no primeiro dia. E depois disso ainda a amou para sempre. Mas um dia, um mês, um ano  representam, por vezes, incomparavelmente, muito mais tempo.



Um nome

Regressas. A humidade nas paredes de cal. O sucessivo pó sobre a mesa. A imprevista luz a descer do telhado em ruínas, oblíqua, suspendendo pequenas partículas brilhantes que o teu movimento de passagem levantou do passado. Mas só recordas o seu nome. A sua voz. Os seus silêncios. O modo como fechava as janelas antes da chuva quando ninguém ainda pressentia a tempestade. E é por esse nome que hoje regressas. Embora sabendo que nem na memória desse nome encontrarás refúgio ou protecção.

quinta-feira, julho 15, 2004

O amoroso

O amor compreende
os fumos

os rumores dos lençóis

a boca
devoradora

esses cigarros.

[José Viale Moutinho]

quarta-feira, julho 14, 2004

Pois...

Sofia Lorena, na edição de hoje do PÚBLICO, garante que tudo leva a pensar que os serviços secretos externos dos EUA e do Reino Unido «estão desactualizados e obsoletos», que «aparentemente não lidam bem com pressões», que «provavelmente não interagem o suficiente», que «muitas vezes partem de ideias pré-concebidas», que «pecam por sobrevalorizar», que «sofrem de ‘wishful thinking’», que, «de muitas formas, são usados ou deixam-se usar», e que todos estes erros já anteriormente «tinham sido cometidos». Ora bem. Mas quando é preciso encontrar um ‘bode exploratório’, lá estamos nós, os funcionários públicos relapsos, na linha da frente...

[O mundo*]

Eu que cresci no interior de uma árvore
às vezes imagino o mundo desenhado
com o rigor das folhas do vidoeiro
ou com a perfeição das suas sementes

aladas: como se uma árvore
por um instante breve pudesse reproduzir
em todas as paredes e em todos os pátios
de todas as casas do mundo

esse repetido milagre: o do inverno
a tecer junto às raízes
o limbo e o seu ápice, o pecíolo,

a bainha, uma semente que
o vento mais tarde levará para longe
para que mais nos pertença.

A vazante

De manhã,
chega-me o eco do teu acordar.
Há notícias na maré,
tiveste um sono tranquilo
O meu dia melhorou.
Muito.

Primeira Liga

O Salgueiros não pagou as suas dívidas e por isso é despromovido à segunda divisão do futebol nacional. A confirmar-se, saúda-se o regresso de uma equipa algarvia ao escalão principal do campeonato de futebol. Força Portimonense.
Não nos peçam é um estádio novo.



PS: o seu a seu dono, a subida do Portimonense é à divisão de honra e não ao escalão principal. Por lapso lavrei no erro de que o Salgueiros estava na Primeira Liga de futebol, mas afinal milita na Divisão de Honra. As minhas desculpas e obrigado pela chamada de atenção. Opto por não mexer no "post" original porque de outra forma os comentários deixariam de fazer sentido e o erro passaria mais disfarçado, coisa que, obviamente, não quero.

Direìto à Floresta

E pronto, eis as chamas no seu esplendor. Começa a romaria dos bombeiros, país acima, país abaixo. Famílias desalojadas, casas perdidas, animais chacinados, o baile das televisões em busca da cena mais lamentável, do ângulo de melhor captação da devastação alheia. Eis o ministro que se lamenta, porventura será demitido ou demitir-se-á, outra vez a eterna pergunta acerca das razões que impedem os militares de abandonar os seus quartéis para ajudar no combate às chamas, a chantagem (justa) dos fornecedores de combustíveis porque não lhes pagam o combustível das viaturas de socorro.
Mas o problema principal, sabemo-lo, ficará sempre por resolver. Os governos duram quatro anos na melhor das hipóteses e regenerar a floresta pelo menos vinte. É demasiado tempo, demasiado caro e dá poucos votos. Se calhar era preciso de uma vez por todas criar regras constitucionais para o ordenamento florestal, e numa segunda fase responsabilizar os políticos em exercício pelo seu não cumprimento. É, definitivamente, perigoso, deixar o ordenamento florestal refém da boa vontade de um governo, ainda que maioritário.
Atá lá, qualquer debate sobre atribuição de culpas será simplista e serôdio, porque os culpados serã sempre os governantes dos últimos vinte ou trinta anos. Precisamente aqueles que, ao recusarem responsabilidades, negam e inviabilizam a construção da política correcta no que a essa matéria diz respeito, mas sobretudo no reconhecimento do Direito Fundamental ao Ambiente e à Preservação dos Recursos Naturais, o que, obviamente, é demasiado grave para ser ignorado.

Dádiva



Cedo, levanto-me predisposto a dar sangue. Por nenhuma razão em especial, mas apenas porque há vontade para isso. Para o efeito, rumo ao Hospital Distrital de Faro. Duas voltas ao perímetro exterior e rapidamente concluo que será impossível encontrar um lugar para estacionar o carro. Normalmente até tenho sorte, mas hoje não é um desses dias. Resolvo-me por fim a tentar a sorte no interior. O vigilante barra-me a entrada, a pergunta de rotina, a que respondo ao que venho. Com um sorriso, diz-me que tem ordens da administração para não deixar entrar ninguém nesses casos. Retribuo-lhe o sorriso e pergunto amavelmente como veio para o seu trabalho. "De carro", responde-me. Obviamente, pergunto-lhe onde estacionou o seu carro. Aponta-me, orgulhoso, a viatura, plena de artefactos "tuning", estacionada dentro do perimetro do hospital. Informa-me ainda que os demais seguranças também estacionam dentro do hospital.
Ficámos, portanto, conversados quanto à dádiva de sangue. Quando precisarem, digam qualquer coisa.

[a largar os horizontes]

na última aula do curso
deformação profissional
pago pela comunidade europeia e
pelo centro de emprego
a senhora dos andares confessou que
não aprendera a fazer melhor as camas
nem a limpar melhor o pó dos móveis
ou as casas de banho do hotel
mas que sabia agora mais coisas
do mundo e de si própria
e que estranhamente se sentia agora
mais triste e desgraçada e inútil
depois de vinte e dois
anos sucessivos a deambular debalde
e esfregona entre corre dores e eleva dores
entre singles e suites
e que só lhe apetecia chorar

segunda-feira, julho 12, 2004

Última hora

Secretaria de Estado dos Recursos Alimentares talvez fique em Lisboa.

[cicatriz]

as marcas
do amor
nem com hirudoid

Culpa

Des
culpa-me pelas lágrimas
Des
culpa-me pelo aperto
Des
culpa-me pela dor

Mas não me negues o passado.

A existência

Viu-a, em passo apressado, caminhando pela areia fina junto à rebentação, às primeiras horas da manhã. Ficou ainda sentado durante um bocado no alpendre debruçado sobre a duna, contemplando-a enquanto sumia no horizonte. Quando se resolveu a segui-la, o vento, a maré e as vagas tinham-se encarregue de a fazer desaparecer, como se o mundo a houvesse engolido. E no fundo, era essa a verdade.



[As despedidas]

Éramos estrangeiros e ficávamos na margem
A olhar as esteiras de tabua a proteger
O peixe dos camiões de remessa,
A ceira de figos, as alcofas de palma.

E vinha depois o levante e espalhava nas esplanadas
Esse rumor das anémonas dos livros,
O sal da península, a ondulação.
Nos alcatruzes da nora, vagarosamente,

Poisavam então as águas leves
Da distância. Que a despedida nos leve
Tudo menos a esteira de tabua, a ceira
De figos, as alcofas de palma.

[Nos jardins]

Quando os caminhos parecem fechados
E uma árvore faz sombra do lado errado
Das palavras; quando o deserto se move

A coberto da noite e do infame
Exercício de contar as sílabas pelos
Dedos em nome da usura; quando até

O rumor da água parece estrangeiro - é
Que nos jardins devem cortar-se as raízes
Das plantas tolerantes à negligência.

sábado, julho 10, 2004

Comunicado

Embora sem grandes conhecimentos de sismologia, Um Pouco Mais de Sul julga poder afirmar que houve um terramoto político em Portugal. O país segue dentro de momentos, porventura com o mais putativo primeiro-ministro de que há memória, ao leme dos destinos da nação.

Casa

O leitor desculpa-me-á. Um regresso assim, nada tem de sebastiânico, mas tão somente de fundamental. Definitivamente, Um pouco mais de Sul não é a mesma coisa desde que o Zé Carlos partiu. Enfim, saudades à parte, importante é que se propõe regressar, com a regularidade que os seus afazeres lho permitirem. Diremos nós que nem sequer tem de ser assim. Basta que regresse com a regularidade que a sua inspiração lhe ditar, porque isto de escrever tem muito de acidental. E nós sabemos que, infelizmente, na prosa como na poesia, nem sempre acidentes acontecem. A casa é tua. O prazer é nosso. Força.

sexta-feira, julho 09, 2004

Parabéns


O Blogal faz igualmente um ano. Não fosse um dos maiores repositórios on-line de poesia algarvia - o que já não seria pouco - é igualmente um excelente veículo de propagação da poesia nacional. Eis um exemplo claro de serviço público. Queremos mais, pelo menos do mesmo, quando melhor não seja possível.

Ontem

Ontem...
um desejo lilás
um sussurro azul
Um múrmurio de todas as cores
Que ficaram por pintar.

Ontem...
Uma terrível nuvem cinzenta
ao cair do dia.
Eu sei, eu sei, eu
tenho culpa do tempo que faz.

Espuma de barbear

Acordou. Cedo, como de costume. Mas tanto fazia, não tinha planos para o resto do dia. Estava de férias, demasiado cansado para ir para fora, demasiado cansado para ir para fora dentro da sua cidade. A "sua" cidade. A ideia pareceu-lhe disparatada. Morava numa daquelas cidades dormitórios onde ninguém vai a não ser para recuperar as energias de uma dia de trabalho igual ao anterior, desejando que o fim de semana tarde em chegar. Levantou-se. Ao espelho, fez a barba e verificou que se tinha esquecido de comprar outra vez lâminas de barbear. Há uma semana que se esquecia de o fazer e cada vez o escanhoar era menos perfeito. A espuma, também no fim e contida numa embalagem de rótulo branco imaculado, fora inspirada por um anúncio que vira na televisão protagonizado por um atleta que ganhava num mês o que ele não ganharia em toda a sua vida de trabalho. Trabalho... como se ele tivesse um trabalho. Passara os últimos vinte anos da sua vida a fazer a mesma coisa, a movimentar pilhas de papéis de um lado para o outro na sua secretária, às vezes divertindo-se a despachá-los para o seu chefe ou para a secretária do seu chefe. Invariavelmente, sabia que retornariam à sua secretária, com mais uma notazinha a caligrafia no canto superior, ou com um carimbo ordenando-lhe que os arquivasse.
Pensou em mudar-se para o centro da cidade. Não a sua, mas a dos outros, os que podiam pagar casas no centro da cidade, mas os preços eram proibitivos e mesmo que o não fossem, provavelmente não teria coragem de deixar a "sua" cidade. Afinal, já conhecia muito bem os seus vizinhos e gostava deles. Havia a senhora gorda do cão, o homem do primeiro andar que usava brilhantina e pigarreava todas as noites às duas da manhã, o miúdo do rés-do-chão que estragava as plantas todas da entrada que a gorda lá colocava a jogar à bola, e havia a loira da porta do lado que mudava de namorado como ele mudava de camisa, o que, bem vistas as coisas, nem eram tantos namorados assim.
A loira... a loira levava-o ao altar. Até era capaz de deixar de fumar por ela, porque a sentiu uma vez incomodada no elevador com o fumo do seu cigarro. Nunca a vira nas reuniões de condóminos desde que se mudara para o prédio. Seria ela a dona do apartamento? Se calhar alugara-o apenas. Subitamente, animou-se com um projecto para as suas férias. Iria descobrir se a loira era dona do apartamento, ou não. Iria à conservatória da "sua" cidade para o saber. Despachou a barba, nem comeu, e foi a correr para a rua. Animou-se mais ainda perante a possibilidade de saber o nome da loira. Mas e depois? Que faria? De modo que voltou para casa. Enfiou-se no sofá. Consumiu o resto das suas férias a pensar no assunto. No autocarro a caminho do primeiro dia de trabalho, pensou que se calhar a abordaria directamente. Afinal, era nisso que pensava há bastante tempo. Sim, é isso - pensou - esta noite convido-a para um café. O dia passou lentamente, a pilha de papéis na sua secretária tinha crescido desmesuradamente, mas não se importou com isso.
De regresso a casa, tomou um banho, o segundo nesse dia, fez a barba com lâminas e espuma novas. Ensaiou na porta do quarto as batidas na porta da loira. Tocar à campainha parecia-lhe desajustado e ao menos seria diferente. Por fim lá foi. Hesitou uma ou duas vezes, e por fim conseguiu. Corou de imediato, mas de dentro não veio resposta. Tentou novamente e nada. Desistiu, talvez tivesse saído. Tentou novamente no dia seguinte e nos que se lhe seguiram. Talvez esteja de férias, pensou. E assim aguardou pacientemente, dez, quinze dias. Em Setembro, um casal jovem ocupou o apartamento da loira.
A ver se no dia seguinte não se esquecia de comprar lâminas; o seu escanhoar já não era perfeito e estava farto de fazer a barba com a espuma do sabonete...

Perdão

O leitor perdoar-me-á a falta de vontade de postar, mas ando por estes dias muito triste. Na verdade, acabo de constatar que provavelmente só eu e o José Castelo Branco é que ainda não fomos chamados a Belém para dar o nosso parecer facto que, convenhamos, não é fácil de encaixar.

quarta-feira, julho 07, 2004

Fundo

Em delírio, obviamente em delírio profundo, é legítimo pensar que se Rui Rio foi nomeado número dois do PSD, ficamos a saber quem será o próximo Primeiro-Ministro se Santana Lopes decidir mesmo candidatar-se às próximas presidenciais e Jorge Sampaio não dissolver a Assembleia da República.

Tara perdida

Pagou em dinheiro o quarto reles numa pensão de terceira categoria com vista para a Ria Formosa. O que da janela se avistava compensava largamente o preço da diária, mas de qualquer forma como não era pelas vistas que Inácio Valdez ali estava, um quarto nas traseiras teria servido para o mesmo efeito. Não levava bagagem, apenas a roupa que trazia pendurada no corpo. Barba por fazer havia já vários dias, cabelo desgrenhado, maçãs do rosto salientes, pousou a garrafa emrulhada num papel de jornal no chão do corredor apertado antes de meter a chave na fechadura e por fim entrou na minúscula habitação que, sob o sol das duas da tarde, estava sufocante. Descalçou os sapatos, deitou-se na cama, desembrulhou a garrafa e conservou-a numa mão enquanto contemplava o papel na outra.
Comprara de manhã o jornal e o veneno e misturara este com whisky barato a fim de disfarçar o sabor da morte a percorrer as suas entranhas. Mas acima de tudo queria morrer informado, não fosse dar-se por exemplo o caso de um ministro ter sido demitido das suas funções e ele morrer sem o saber. Deu um pequeno gole na beberagem que lhe não soube mal. Teria preferido com um pouco de gelo, mas pareceu-lhe ridícula a ideia de poder tirar algum prazer daquele momento. O verso de um poema, escrito numa das folhas de jornal, chamou a sua atenção. Leu-o, vezes sem conta. Depois leu o retalho de jornal de fio a pavio, mas nada mais encontrou que despertasse a sua atenção. Abandonou o jornal e rodopiou a garrafa nas mãos. - Tara perdida, - pensou - antes assim, ao menos amanhã não tenho de me preocupar em ir devolvê-la. Sorriu com o disparate da ideia de um esqueleto a entregar uma garrafa para recuperar a tara e riu mais ainda porque se lembrou que os esqueletos não têm bolsos. Onde guardaria então as moedas? Neste dilema estava Inácio Valdez quando adormeceu e salvou a sua alma.

segunda-feira, julho 05, 2004

Um ano, já!

O Contrasenso envia a Um Pouco Mais de Sul uma calorosa mensagem de parabéns pelo seu primeiro aniversário, que aqui se agradece. Confesso que a efeméride me tinha escapado, pelo que, apenas por tal, não se preparou adequado repasto para celebrar o evento. Aqui fica o pedido de desculpas à blogofera, mas igualmente a promessa de que para o ano tudo será diferente se este espaço durar até lá.

Um ano é sempre altura de balanços, estranha mania esta que todos temos. Perdoe-me o leitor, mas todavia aqui não o farei, em primeiro lugar porque este blog não me pertence, mas sobretudo porque o maior mérito da sua existência não é meu. O Zé Carlos, o João Filipe e o Joaquim Coelho têm uma grande quota-parte de responsabilidade no que aqui foi acontecendo e por isso o balanço também teria de ser deles ou seria incompleto. Em segundo lugar porque, sumariamente, um blog é aquilo que se vê, aquilo que se lê, aquilo que fica depois de se ver e de se ler, e quantas vezes o "aquilo que fica" é pouco mais que nada. Correndo o risco de achar que porventura poderia ser levado a escrever um balanço que pudesse nada significar, recato-me antes naquele episódio retratado por José Eduardo Agualusa, n' O Vendedor de Passados:

"Numa ocasião levaram-me a uma festa. Um velho festejava o seu centésimo aniversário. Quis saber como é que ele se sentia. O pobre homem sorriu-me, atónito, disse-me n ão sei bem, aconteceu tudo demasiado r ápido. Referia-se aos seus cem anos de vida e era como se estivesse a falar de um desastre, algo que sobre ele tivesse desabado minutos antes. Às vezes sinto o mesmo. Dói-me na alma um excesso de passado e de vazio. Sinto-me como esse velho. [...] E todavia, estou vivo. Sobrevivi"

Eis o que há a dizer sobre Um Pouco Mais de Sul, sobre este primeiro ano, sobre esta quase-fatalidade de escrever por acidente. Salut!

Obviamente...

Caímos de pé e cabeça erguida, contra o mais feio futebol praticado na Europa. Duas derrotas são mais do que suficientes para nos convencer que o título, sem história, está bem entregue. As páginas do futebol nem sempre se fizeram de beleza e bem jogar, e para a posteridade este europeu ilustra isso mesmo.

Para virar a página, acredito no projecto que agora se desenha para o Mundial de 2006, no trabalho a fazer em continuidade, com a renovação progressiva do plantel, agora que Scolari conhece melhor o futebol português. Dois dos três membros da geração de ouro que continuavam ao serviço da selecção já têm substitutos à altura - Rui Costa e Fernando Couto (porventura Figo será mais difícil de render) - pelo que a qualificação deverá ser possível, se se capitalizar a vaga de patriotismo que se criou em torno da selecção nacional e a qualidade dos jogadores de que Portugal dispõe. Dito isto, sentirei falta dessa geração, a única que, depois de Eusébio, deixa saudades pelo que correu e sofreu com a camisola nestes últimos treze anos.

Pessoalmente, gostaria que Figo não seguisse para já o exemplo de Rui Costa, porque me parece que ainda tem muito para dar ao futebol português. Oxalá...

O pior pecado

Não Amar.

De Sophia, para sempre

Quando
Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.

Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho, a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.

SMBA, Dia do Mar

sexta-feira, julho 02, 2004

A culpa

O país atravessa um momento difícil (excepção feita ao futebol, mas sobre isso se falará no próximo Domingo) porventura apenas comparável ao Verão quente de 75, ou ao momento que antecedeu e sucedeu a queda do Governo do Bloco Central PS/CDS em 1983. A fuga consecutiva de dois primeiros-ministros, porque é disso que se trata por mais compostura que se tente dar a ambos os cenários, cria a sensação de uma vazio de poder no aparelho de Estado e no aparelho dos partidos PSD e PS, tornando-os reféns de partidos mais pequenos e normalmente sem aspiração a governar, como sejam, à esquerda, o BE e à direita o CDS/PP. Pior, tornam-nos reféns de Francisco Louçã/Miguel Portas e de Paulo Portas, o que é por si só muito pior.
Buscar as causas para compreender as consequências requer um prodigioso exercício de imaginação para perceber o que se passou nas cabeças de António Guterres e Durão Barroso. O que todavia poderá explicar muito melhor a situação actual é o progressivo alheamento dos portugueses em relação aos destinos do seu país. A abstenção sucessiva e crescente, o desinteresse pelas causas principais e uma sociedade civil esvaziada de opinião e conteúdo ideológico são em última análise, os principais culpados pelo surgimento de líderes como António Guterres, Durão Barroso, Ferro Rodrigues e, agora, Santana Lopes.
Neste cenário, a pergunta que fará sentido colocarmo-nos é a de se valerá a pena convocar eleições antecipadas e que vantagem ou utilidade terão estas por comparação a eleições que ocorram em seu devido tempo.
Se dissolver a AR era à partida uma opção, o PR podia e devia tê-lo feito de imediato quando Durão Barroso anunciou a sua demissão. E para justificar tal procedimento, bastaria que a Santana Lopes tivesse sido colocada uma simples questão (a mesma que qualquer jornalista já podia e devia ter-lhe colocado à saída de uma qualquer discoteca). Esta tem apenas que ver com o facto de Pedro Santana Lopes ser actualmente presidente da Câmara Municipal de Lisboa, líder do partido do governo - e por inerência candidato a primeiro-ministro - e pré-candidato a Presidente da República. Dois dos compromissos que assumiu não poderão por si ser, pois, cumpridos até ao fim, mas não deveríamos nós já saber quais serão? Não era natural que alguém já lhe tivesse colocado a questão? Volto a perguntar: valerá a penas convocar eleições, ou está, de facto, tudo bem como está e andamos a perder tempo a discutir coisas de somenos importância quando Portugal está a um passo de se sagrar campeão europeu, "helás!", os gregos e os deuses do Olimpo o permitam?

quinta-feira, julho 01, 2004

A vitória

Nem eu Holandês nem tu Portuguesa. Mas o teu olhar e o brinde que trocámos disseram-me tudo o que queria ouvir, apesar de não falarmos a mesma língua, nem saber como te chamas. As noites de festa também nos trazem disto.

quarta-feira, junho 30, 2004

Meia de vida

Como uma doença, a necessidade alastrou-se ao longo dos anos por todo o seu corpo. O calor sufocante do Verão impedia-o de continuar a busca, mas em chegado o fresco dos primeiros dias de Setembro, retornava a procurar por toda a cidade aquilo que não lhe saía da memória. Não se lembrava ao certo de quando fora, mas sabia que era então Outono e estava numa das estações do metro. Ao apear-se, reparou numa malha descosida na meia de uma passageira que desceu na mesma estação. Hipnotizado, não desviou o olhar daquela perna e teve a certeza de ter sido o único a reparar naquela, sem de facto o ter confirmado em redor. Não se lembrava do olhar que quem usava a meia lhe deitou na altura porque teve vergonha de o encarar e de assim confessar através dos olhos o que lhe ia na alma. Por isso nunca teve um rosto para recordar. Apenas uma malha solta, uma minúscula malha solta, como uma nota musical ouvida de passagem, de uma meia lisa, escura, desfeita em torno de uma perna bem torneada que apenas se deixava adivinhar abaixo do joelho. Durante anos, imaginou um rosto para aquela perna, até que um dia, mirando-se ao espelho, já velho, reparou que o rosto com que sonhara se mantivera demasiado jovem para si. Nesse dia acordou, levantou-se, aparou a barba, recostou-se na cama a repousar um pouco do esforço e fechou pela última vez os olhos que o tempo tornara claros...

segunda-feira, junho 28, 2004

Euro ao ar

Bem vistas as coisas, a saída de Durão Barroso acaba por ser uma benção para o país e para o PSD. Adivinhando-se a catástrofe nas próximas legislativas, o PSD nada tem a perder com a mudança de líder. Pedro Santana Lopes não ficará muito prejudicado por não conseguir salvar o PSD de uma derrota eleitoral, se esta vier a suceder, e o próprio PSD poderá sempre argumentar que se não fosse a saída de Durão provavelmente teria um melhor "score" nas legislativas de 2005. Durão só tem a ganhar, portanto, com a sua saída, não ficando impedido de sonhar com um lugar em Belém após a fim da sua comissão de serviço, o qual está agora tão distante à partida quanto o lugar de primeiro-ministro estaria em 1999.
O único senão, e não o menor, que vejo quanto ao cenário traçado é o facto de vivermos em democracia e nesta a opinião pública e os eleitores serem livres de expressar as suas ideias de forma massiva. Pior, o facto de existir um contra-poder centrado na figura do Presidente da República, pode ser um obstáculo ainda maior ao plano Barroso-Santanista. Obviamente, a simples ideia de ver Ferro Rodrigues em São Bento tira-me o sono, mas não posso deixar de concordar que não pode deixar de ser ponderada a destituição da Assembleia da República se se verificar uma alteração tão grande quanto a que se prevê na condução dos destinos da governação. No entanto, apesar do muito que se tem dito, o certo é que nada de anti-constitucional existe na nomeação de outra figura para primeiro-ministro. No nosso sistema, a tradição manda que após eleições o Presidente da República convide o líder do partido mais votado a formar governo. Este poderá fazê-lo ou não, mas mesmo fazendo-o, o PR não está obrigado a aceitar o governo indicado. E pode mesmo convidar o líder do segundo partido mais votado a formar governo. Obviamente, terá de enfrentar as consequências, mas o certo é que constitucionalmente o pode fazer. Neste caso, o número dois do partido é Santana Lopes, pelo que a lógica é que com a saída do número um, sucede-lhe o número dois. O problema, está bem de ver, é que as pessoas e alguns políticos menos esclarecidos, como Manuel Maria Carrilho, ainda acham que votam em pessoas e não em partidos. Filosoficamente, pode-se discutir o sistema eleitoral, mas esse é outro tema que não cabe no cenário que agora se traça quanto à governação de Portugal.
Sinceramente, entre os dois males possíveis que se adivinham, penso que o Presidente não cometerá grande erro se decidir o que fará por arremesso de um Euro ao ar.

Pátio

Em Julho, a janela calou-se para sempre. Alguém correu o reposteiro, ninguém mais regou as plantas e assim deixou de existir qualquer sinal de vida no interior do andar recuado. Cheguei da faculdade que à data frequentava a tempo de ver a urna do pianista a descer as escadas do prédio carregada em ombros pelos homens da funerária. Estes transpiravam copiosamente dentro dos fatos de naftalina, mas mantinham as gravatas firmes no seu aperto sufocante, apesar da canícula de Verão.
Foi há bastante tempo, mas tudo não estaria mais presente se tivesse sido ontem. Estudava então na capital e ocupava um quarto arrendado num velho prédio cujas traseiras deitavam para um pátio numa zona antiga da cidade. Suspeito que só os habitantes e os pombos soubessem da sua existência. O pianista ocupava o último andar de um dos prédios que defendia o pátio do Sol escaldante que zurzia o exterior. Todos os dias, a partir das quatro da tarde, o pianista ensaiava as suas peças. Mozart, Chopin, Beethoven, Mähler e tantos outros tornaram-se meus companheiros de estudo. Uma tarde, momento mágico, no auge da Primavera, um violino, distintamente, juntara a sua voz à do piano. Rossini. Apercebi-me que a voz do violino soava desde o outro lado do pátio, de uma casa diferente da do pianista. Espreitei, mas nem quando o inesperado concerto terminou, alguém assomou. Foi assim durante seis dias. Uma mulher! - pensei. Violinista. E sempre durante esse tempo, entoando os acordes de Rossini acompanhando o piano. E de repente, um dia, o piano voltou a tocar sozinho e o violino desapareceu do pátio. O pianista não soube quem o acompanhava. Mas quem o ouvisse a tocar à janela ou o visse no café da esquina ao fundo da rua enquanto lia o jornal, perceberia que estava apaixonado. Alguém lhe disse que ela seria do Leste e que tivera de regressar inesperadamente à sua terra natal. Talvez regressasse. Houvesse ou não esperança, desde então o pianista apenas tocou Rossini, todos os dias, às quatro da tarde. Na noite após a morte do pianista, por sobre os telhados, ouviu-se novamente o som de um violino. Mas este calou-se subitamente, pouco depois, interrompido por um choro de mulher...

sexta-feira, junho 25, 2004

Fair-play

Pouco sentido fará comemorar a noite de ontem de Portugal sem dignificar o valor que a Inglaterra trouxe à vitória. Fica na memória a ausência de protestos dos ingleses perante o seu golo - que teria sido decisivo - anulado aos noventa minutos da partida, em contraste com os comportamentos dos jogadores portugueses a que assistimos no Europeu de 2000 e no Mundial de 2002. Mais do que a vitória no campeonato, era bom podermos esperar que num eventual percalço a caminho da final, soubessemos cair de pé.

Água

Doce, salgada, nenhuma lava, de forma definitiva, a alma.

Fogo

Queimou-te o ódio a razão ao ponto de te esqueceres porque razão odiavas.

Ar

Hoje ainda,
Flutua na memória
a imagem perfeita
do riacho, da colina e
da toalha riscada,
cúmplices selvagens,
da conspiração que ditou
o abandono de uma certeza
pelo nascer d'outra mais forte.

quarta-feira, junho 23, 2004

Terra

Coração demente,
vacilas na angústia,
Cavas certezas,
desesperas ainda
à procura de quem amas
num leito de terra seca
e gretada que serviu de pasto
às chamas do amor mais forte.
Sossega meu amor, porque hoje o mundo está cheio de indiferença.

O fim do dever cívico

Quando pensávamos que tínhamos ouvido tudo, eis que o CDS/PP nos brinda com mais uma pérola. Pela voz de Telmo Correia, a direcção do CDS/PP afirma que os dois deputados que elegeu nas últimas eleições teriam sempre sido eleitos ainda que o partido não concorresse em coligação e portanto o facto de se ter apresentado a votos com o PSD não beneficiou nem prejudicou o partido. Pelo contrário, o PSD – seu conveniente aliado nas vitórias – seria assim o principal derrotado de Domingo, mas o CDS/PP nada terá que ver com o assunto, nem o mesmo diz respeito ao CDS/PP.
Eis um dos custos da democracia. Resta saber se teremos de o pagar ou sequer se temos de estar dispostos a pagá-lo. A liberdade conquistada em Abril não pode ser ilimitada ao ponto de termos de continuar a ouvir dislates destes. Percebe-se que enquanto se mantiverem níveis de abstenção idênticos àqueles com que nos temos vindo a deparar, todas as conjecturas e especulações de qualquer quadrante político serão possíveis e legítimas. O que não podemos continuar a tolerar é a abstenção consciente e irresponsável de grande parte dos eleitores do país, que permitem que a troco de um punhado de cervejas, um mergulho domingueiro ou um passeio no shopping, sejamos obrigados a calar perante semelhantes afirmações. De uma vez por todas, era bom que fossem revistas as regras do sistema eleitoral por forma a tornar o voto obrigatório, aplicando multas ou agravando os impostos daqueles que optem pela abstenção. O voto branco ou nulo – desde que expresso de forma consciente e ponderada - é a forma cívica aceitável de manifestar descontentamento perante as forças políticas em disputa numa eleição. Não assim com a abstenção, porque se funda na preguiça mesquinha e irresponsável, no desinteresse e, ó quantas vezes, na simples ignorância que não pode ser tolerada. Esta intolerância, de resto, é necessária para o progresso da democracia e o voto obrigatório em substituição do mero dever cívico – ressalvadas certas excepções, bem entendido – seria o estágio último de evolução daquele instituto.

terça-feira, junho 22, 2004

Sucumbo à dor por não poder sangrar; cada veia minha está cheia de ti...

O que a história nos diz

(...)
E, por mais que aqui se amanse e dome
A soberba do inimigo furibundo,
A sublime bandeira Castelhana
Foi derrubada aos pés da Lusitana.

Luís Vaz de Camões, "Os Lusíadas", Canto IV, 41.

segunda-feira, junho 21, 2004

em mim nada secou

não possuo a morte no coração, mas sim um pouco de chuva que lentamente apaga o fogo doutros dias mais simples’

[Al Berto, O Medo]

Porquê?

Há uns anos, numa aula de filosofia, a perguntava maliciosa que atormentava as mentes dos estudantes era "mas afinal, para que andamos aqui? O que somos e o que procuramos?". Estudantes que éramos, com pouco mais de dezassete anos, esperava-se, legitimamente, tudo da vida. O problema estava em saber exactamente o que era esse "tudo". Houve naturalmente respostas variadas, mas a cada uma das respostas o professor - divertido - renovava laconicamente a mesma pergunta entre duas baforadas num cigarro que teimava em não se consumir num Verão insuportavelmente quente: "e para quê?". Não se vivia decididamente para ter saúde, dinheiro, ou amor, para comer, beber, ou jogar futebol, muito menos para trabalhar, ou para procriar, mas a resposta certa tardava em chegar. Socrático, o professor insistia nos seus porquês, ante o nosso desespero. O intervalo foi longo, atormentado e inquieto na procura da resposta. E ela chegou, quase no final daquela aula que nunca esquecerei. "Para sermos felizes. Tudo o que fazemos, fazêmo-lo para sermos felizes, ou com a convicção de que seremos mais felizes dessa forma." Era esta a resposta à pergunta metafísica mais importante que no início da idade adulta nos era dada. Dezassete anos sem nos perguntarmos qual o nosso papel no mundo, qual o significado de todas as nossas aspirações e desejos, et voil à!, tudo se resumia à felicidade. Ainda hoje, volvidos outros dezassete anos, aquelas palavras estão bem presentes no meu espírito, como estiveram desde então. Em cada decisão, em cada momento, procurei o percurso que, sentia, me traria mais felicidade. Não se tratou nunca de tentar sequer um menor compromisso de sofrimento, mas sempre a procura de uma maior felicidade. Pelo caminho, houve a necessidade de consciencializar que a nossa felicidade colide tantas vezes com a felicidade dos outros. E, pior, perceber que é nesta amálgama de destroços que muitas vezes fica preso um coração pleno de sentimentos contraditórios.
Há dias, num poema de Al Berto, aprendi que ao contrário do que podemos ser levados a pensar, a morte, como solução, é um desvalor porque, eterna, não permite o descanso que pretende quem fica destroçado. Ninguém pode achar-se no direito de morrer enquanto estiver infeliz...

sexta-feira, junho 18, 2004

Custa sempre, mas até sempre

O fim custa sempre, mesmo quando é um fim anunciado, mesmo quando não se sabe que é um fim, mesmo que se pense que não é um fim, com tudo o que há de definitivo contudo num fim. E no entanto, sabemo-lo, só a morte representa o fim. Felizmente, no caso do Zé, nenhuma dessas situações acontece. Nem o poeta nem o homem morrem, nem Um Pouco Mais de Sul morre. Fica mais pobre, francamente mais pobre, mas não se apaga para sempre independentemente de eu por aqui continuar a vegetar. O verdadeiro valor de Um Pouco Mais de Sul, aquilo que o Zé aqui foi deixando ao longo deste ano, permanece de forma indelével alojado num qualquer servidor perdido no ciberespaço, mas sobretudo alojado na memória dos amigos e dos outros que por aqui foram passando, revendo-se ou não, nas linhas que aqui foram sendo depositadas. Há alturas na vida em que as coisas deixam de fazer sentido. Há dias, semanas, meses, assim. E depois, um regresso súbito apaga o tempo de ausência. A expectativa do regresso anima os que cá ficam e encoraja-os a ir ficando. À espera. Não há pessoas insubstituíveis, mas há poetas insubstituíveis. Nessa medida o Zé é insubstituível, mas tenho a certeza que continuará a fazer aquilo que faz muito bem. Escrever. Escrever bem. Em tom de crítica, diria que aqui nem sempre o fez bem, mas teve - e tem - momentos de genialidade. E quem sou eu para dizer mais que isto. Verdade seja dita, pelo imediatismo, um blog impõe que nem sempre se seja bom no conteúdo de um post. Longe dos posts, acredito que tudo o que sair da pena do Zé seja bom, muito bom e que, afinal, todos, e sobretudo ele, ganhemos com isso. Um abraço, desde esta porta que manterer aberta enquanto me for possível. À espera do regresso...

Sempre pensei que não me custaria muito escrever este post

Depois de quase um ano de escrita automática, quase diariamente, é tempo de chegar ao fim. Sempre pensei que não me custaria muito escrever este post: afinal custa: ainda bem.

Nunca se diz que não há regressos. Logo se verá. Entretanto, umpoucomaisdesul continua com o Eurico. E continua muito bem. Não é, pois, o fim do blog que aqui se anuncia: é só que um dos parceiros estará ausente em parte incerta. Durante uns tempos.

É difícil arranjar palavras de agradecimento para quem me leu, quem me citou, quem me escreveu, quem me desancou. Para os mais cúmplices, para os amigos que fiz ou reencontrei, saberei deixar apenas um abraço.

José Carlos Barros

quarta-feira, junho 16, 2004

Ressaca

Uma coligação é um assunto sério. Como dizia outro dia Santana Lopes, "há um contrato entre o PSD e o CDS/PP que tem de ser cumprido até ao fim da legislatura. No final da legislatura as partes verão se há interesse em manter o contrato, ou renegociar os seus termos". Confesso que assisti, incrédulo, ao proferir de tais palavras. Santana Lopes admite que o contrato de coligação deve ser analisado à luz da conveniência das partes e não do bem público. É óbvio que é assim, sabêmo-lo, mas admiti-lo é outra coisa e requer grande dose de verniz ou falta de chá. Refeito da surpresa, não pude deixar de dar razão a Marcelo Rebelo de Sousa que, referindo-se às europeias do passado Domingo, usou a expressão "banhada" para qualificar o "status quo" da actual situação política nacional.
E de facto assim é, desde as últimas eleições. Uma coligação que não foi planeada nem assumida antes de eleições, uma coligação de conveniência sem outra estratégia que não a simples manutenção e ambição de poder, não tem qualquer valia, nem qualquer sangue que lhe permita sobreviver a um desgaste provocado pelo deserto de ideias e ideais que supostamente defende.
Em ordem à defesa da imagem de união, PSD e PP coligaram-se nas eleições do passado Domingo, mas faz impressão pensar que os respectivos líderes não se tenham apercebido que não existe qualquer traço de união entre os dois partidos que lhes permita cativar eleitorado de cada um dele. O PP e Paulo Portas fazem mal ao PSD, afastam o seu eleitorado natural, contaminam-no naquilo em que não deveria ser possível contaminá-lo. Os piores ministros deste governo são do PP e, é preciso referi-lo, o próprio Bagão Félix ficou muito aquém do que dele se esperaria. Na recente reforma das leis laborais e da segurança social, conseguiu deixar indispostos os patrões e os empregados. É obra demasiado pesada para apenas dois anos de (disparatada) governação. Dito isto, os resultados de Domingo não são uma surpresa, são até lisonjeiros para a coligação do governo.
Magra consolação, pode ser que a selecção se salve, ainda antes de voltarmos ao trabalho antes do início das férias de Verão.

segunda-feira, junho 14, 2004

Afinal...?

Alguém me saberá explicar qual o grupo parlamentar europeu a que pertence o BE? O dos Anarquistas? O dos saudosistas da Cicciolina? O dos comunistas reciclados?

quinta-feira, junho 10, 2004

O Professor

Na lei da vida está escrito que os mais velhos morrem primeiro. Na lógica do mundo, o professor apaga-se primeiro que o aluno. Desta vez foi assim, não houve excepções às regras da vida nem da lógica. O aluno fica, foi-se o Professor. Não foi o primeiro, nem será o último, mas desta vez, talvez pelo mediatismo, fica uma estranha nostalgia. Sousa Franco, pessoa com quem convivi ao longo de um ano lectivo, era pessoa discreta, rigorosa e entusiasmada pela cátedra. Pelo caminho, uma prova oral sem história, uma conversa informal a propósito da organização de um calendário de exames são os cruzamentos durante o percurso de um ano. Fica a impressão de rigor, de justeza, de convicções fortes e de paixão pela Universidade tudo confirmado sob as luzes da ribalta do ministério. Descanse em paz.

[o presente]

só o que esquecemos
pertence ao passado. Por isso
o passado não existe

[eleições]

o pintor de zebras
tem a estranha sensação
de que está representado
em todas as listas

[os filmes]

ninguém morre
em câmara
lenta

[política de ambiente ]

os resíduos do ódio
incineram-se
aonde?

quarta-feira, junho 09, 2004

Cinzas

Negro o véu que cobre teu rosto
Inocente
E falho de luz
Perdão
Buscarei mais além, em
Desespero,
Por entre as cinzas da vida que sobre ti
Erguerei

Moribundas, secas, estas as palavras
que testemunham
o vestígio e a memória da tua breve
passagem
por um mundo e por uma vida que
não
eram, nem tinham por destino ser
teus.

terça-feira, junho 08, 2004

O trânsito de Vénus

Olhamos o céu, seguindo o trânsito de Vénus, porque precisamos dessa dimensão de sonho, alucinação e magia que nos liberte do insustentável peso do corpo e do quotidiano. Por razões próximas, agitámos bandeiras, primeiro, e ficámos órfãos, depois, ao compreender que as utopias que perseguíamos eram feitas de uma matéria demasiado volátil, e que no fim de contas caíamos desamparados no chão de cimento da realidade. E é ainda pelas mesmas razões que a cidade de Faro continua a ser invadida diariamente por centenas de panfletos anunciando os serviços do Professor Sylla, do Professor Guirassy ou do Professor Mestre Cisse Lamine. Ou que discutimos com tanto empenho o perfil técnico e psicológico dos treinadores do nosso clube de futebol, desesperados por qualquer sucesso de que façamos parte e nos redima. Qualquer coisa fora da terra ou fora do mundo. Um meteorito, um planeta em linha com o sol, um mágico que nos resolva os problemas de amarração da mulher amada, uma telenovela em que a boa da fita acaba por desfalecer-nos nos braços, um jogador da selecção que marque um golo decisivo numas meias finais como se fôssemos nós a rematar o esférico em arco, ao ângulo, aclamados pela multidão em êxtase. Isto é o que interessa. A nossa vida já é demasiado triste, demasiado mesquinha, para que nos estejamos a preocupar com ela em permanência.

domingo, junho 06, 2004

Os figos

A tarde de domingo a apanhar figos. E a pensar como se muda esta realidade: a de o agricultor os vender a menos de metade do preço que é pedido ao consumidor, a cerca de duzentos metros de distância do pomar, no estaminé de uma cadeia de supermercados.

sábado, junho 05, 2004

TrackBack

O Zé Mário gostou dos parêntesis rectos. A gerência muito agradece. Manda-lhe um abraço. Espera-o no Algarve. E retribui com 11-onze-11 novos poemas curtos em rigoroso exclusivo:

[memórias]

não era bem o amor
só tínhamos sede

[dos perigos de ler romances em agosto]

os incêndios avançavam por igual
na copa dos pinheiros
e nas páginas
dos livros

[na vida real]

na vida real o
actor desculpava-se com frequência
de não ter ainda
decorado
o papel

[os náufragos]

diz-se que os náufragos de
novembro
não vêem num instante o
filme da sua vida passar-lhes
diante dos olhos
mas apenas um écran de cinza
ou um céu sem nuvens

[arte abstracta]

«assim
também eu pinto»
dizia o jovem motherwell

[os meteoritos]

se não é Deus que
os move no céu
e os ilumina
quem há-de ser?
o electricista da Câmara?

[de espanha: um provérbio]

os noivos temiam
como o escorpião da sombra
os ventos de sudeste

[ainda bem que assim é]

os rios
desaguam sempre
na vazante

[literatura light]

como é que as autoras dos
romances cor de rosa
vestem os filhos se
lhes sai um rapaz?

[ria formosa]

nas manhãs de junho
o céu é azul
porque reflecte
as águas
da ria

[a glória]

nenhum défice
resiste
a umas meias
finais

sexta-feira, junho 04, 2004

[Elogio das espécies autóctones]

alguém imagina em
vez duma azinheira
que nossa senhora de fátima
fosse aparecer aos pastorinhos
encavalitada
num eucalipto?

[o amor]

tínhamos frio
por isso nos
despíamos
assim

Cruel crude

A OPEP anunciou ontem que ia aumentar diariamente em dois milhões a produção de barris de crude, a partir de 1 de Julho, reservando-se o direito de aumentar ainda a produção em mais meio milhão em Agosto. Esta parece ser uma tentativa para conter o aumento do preço do petróleo nos mercados internacionais, o qual não parou de subir o seu preço desde a invasão do Iraque pelas forças americanas. Não que, a propósito, os Estados Unidos tenham aumentado o consumo de petróleo desde então. Não que se recusem a cumprir os acordos sobre a emissão de poluentes para a atmosfera. Não que sejam o país mais poluidor do mundo. Não que as principais petrolíferas sejam americanas. Nada disto faz sentido, mas porventura inclino-me, desta vez, para torcer pelos maus da fita da OPEP e pela sua tentativa desesperada. É uma tentativa ingénua, e infelizmente não resultará, porque o petróleo é um bem escasso e à criação de uma maior oferta corresponderá um aumento da procura, não o abaixamento dos preços, como infelizmente se verá. Ainda que assim fosse, os países em vias de desenvolvimento aumentariam o consumo desta matéria-prima porque se tornaria mais acessível e isso aniquilaria o efeito da tentativa de abaixamento dos preços. Por outras palavras, a má notícia é que o aumento do preço do crude é irreversível.

Pra não falar do lixo espalhado nos passeios

O Professor Diakhaby garante que «não existem problemas sem solução»; que não existem problemas que ele, «astrólogo africano de confiança», não possa resolver. Acho que é desta que vou consultá-lo. A ver se consegue uma magia qualquer que me acabe com este pesadelo de ter no pára-brisas do carro, todos os dias ao fim da tarde, panfletos a anunciar os serviços do Professor Diakhaby.

A bolsa de valores

Em chegando o Verão, os preços do peixe no mercado de Quarteira imitam o comportamento das acções em bolsa: podem mudar ao longo do dia entre os cem e os mil, em intervalos de menos de meia hora.

Dois poemas para duas fotografias de Elna Voss-Hellwig

1. o vento
amarelo ocre castanho
cada vez mais o ocre
o mate cada
vez mais o cinzento cada
vez mais o sépia
cada vez mais o tempo sobre
pondo a cada pedra o
pó de pedra cada vez mais a textura
da pedra do ocre do
mate
cada vez mais a vagarosa paz
do vento adorme
sendo nas aço
teias cada
vez
mais
o vento

2. das viagens
das viagens se recorda o que
pertence a outros o amor
impossível um lugar a
que se não regressa duas
vezes
das viagens o
que trazemos é a sede
dos outros
a água
o vagaroso lume da dist
ânsia

quinta-feira, junho 03, 2004

Finda vida

Sempre difícil encontrarmo-nos,
difícil também separarmo-nos
quando murcham as flores
sob o frio raio de lua

Um fino fio de vento
irrompe no teu cabelo grisalho
apaga a tocha
e seca as lágrimas

No espelho da manhã
transparecem as marcas
de uma noite de cinzas
no teu rosto pálido

Tempo

Habituou-se a que o tempo voltasse para trás sempre que lho pedia. E o tempo obedecia-lhe, matreiro, sabendo que um dia deixaria de ser assim.

[os jovens]

tínhamos tudo
menos a
consciência disso

quarta-feira, junho 02, 2004

Chefias

O cavalheiro pára a viatura, estica a cabeça para fora da janela, olha por instantes e dirige-se finalmente a um dos dois trabalhadores camarários que, com ar relativamente solene, olham uma espécie de buraco aberto no passeio de calçada: «ei, chefe! Podia dar-me uma informação?» Vê-se que o cavalheiro conhece os procedimentos. Primeiro: em Portugal somos quase todos chefes, ou presumimos ser, e portanto, pelo sim pelo não, nada se perde em ir avançando com o título. Segundo: na dúvida, o chefe é o que não faz nada, senão não era chefe. Por isso o cavalheiro se dirigiu ao trabalhador que estava encostado ao muro, de bloco notas na mão e ar displicente, e não ao colega que, apesar de também não esboçar a mínima intenção de se atirar ao que faltava da cova, e apenas a olhasse com ar suspeito, sempre estava munido de picareta.

Euro 2004

O sr. Ministro, depois da carta remetida aos portugueses em que dá conta do calendário do Euro-2004, reafirma agora que «o país não pode perder esta oportunidade de projectar a sua imagem para o exterior». Há quem não tema outra coisa: que não saibamos ceder à tentação de projectar a nossa imagem para o exterior.

[Esses anos]

Descíamos sem rede os declives,
as ravinas que vinham do alto
da ribeira desaguar no vale. Nada poderia
abrir-nos os pulsos, nenhuma pedra

com o seu gume entregue à erosão dos nomes,
nenhuma navalha
afiada nas antigas profecias.
Era essa a glória: atravessar o mundo

num fio suspenso entre duas penínsulas
e saber que a morte se demorava
em países longínquos

até que regressássemos a casa
ou adormecêssemos nas páginas
imperfeitas dos livros.